As Mulheres de Mantilha/XLII

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XLII)
por Joaquim Manuel de Macedo
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— Que pretende?... perguntaram a Germiano.

O mudo, pondo em ação a sua mímica expressiva, indicou que queria entender-se com Clélio Írias.

Responderam-lhe que isso não era possível.

Germiano conhecia o facultativo e dirigindo-se a ele, pôs um dedo na boca, recomendando silêncio e mostrou-lhe uma folha de papel.

Apenas leu as primeiras palavras, o licenciado curvou-se com respeito, e disse ao mudo:

— Venha.

E introduzindo Germiano na sala, onde estava Clélio Írias, retirou-se, cerrou a porta, e saiu, prometendo voltar em breve.

— Aquele soldado é um enviado do vice-rei; e sou capaz de jurar que vem pedir a Clélio Írias informações sobre a sua enfermeira.

Emiliana não respondeu a Maria e ficou imóvel.

Bateram de novo à porta, e enquanto Emiliana foi ver quem chegava, Maria, conhecedora, como qualquer outro, das divisões e comunicações adotadas em quase todas as casas da cidade, atravessou a sala de jantar, entrou em um quarto, passou desse para outro que era contíguo à sala que servia de escritório, onde estava Clélio Írias, e abrindo um pouco e levemente a porta, aplicou o ouvido e escutou.

Germiano levava a candeia que estava acesa na sala do doente para perto deste, e oferecera-lhe aos olhos a folha de papel que mostrara ao facultativo.

— Da parte do sr. vice-rei! disse Clélio Írias, lendo; e fazendo vão esforço para sentar-se.

O mudo conteve o doente e com a sua mímica recomendou-lhe tranqüilidade e começou o seu interrogatório, apresentando a primeira pergunta escrita.

Clélio Írias leu em meia voz e respondeu sim.

Germiano traçou com um lápis que trazia, uma cruz no papel onde estava escrita a pergunta.

No entanto Emiliana tinha vindo procurar Maria e encontrando-a a escutar à porta entreaberta do quarto, puxou-a com força pelo braço para afastá-la daquele lugar, onde surpreendia um segredo; achando, porém, teimosa resistência, hesitou, não sabendo o que devia fazer; porque, tolerando aquele abuso, era cúmplice em uma traição, e denunciando-o, expunha talvez a tremendo castigo a mulher audaciosa, e ia provocar perigoso abalo provavelmente fatal ao velho doente.

Ansiosa e trêmula, Emiliana ouviu o nome de Alexandre Cardoso murmurado por Clélio Írias na pergunta que lera, e não podendo arredar dali a senhora de mantilha, deixou-se também ficar, puxando sempre pelo braço desta; mas talvez já não menos curiosa que ela.

O mudo foi sucessivamente passando a Clélio os papéis de perguntas, e traçou uma cruz, quando a resposta foi — sim —, um risco sobre as letras da pergunta, quando o velho respondeu — não —, e não fez sinal algum em uma pergunta, à qual o doente respondeu — não sei.

Clélio Írias lia sempre em meia voz a pergunta que o mudo lhe apresentava e a que respondia imediatamente.

Terminado esse interrogatório singular e imprudente nas circunstâncias em que se achava Clélio Írias, Germiano apertou a mão do doente e voltou a dar conta da sua comissão ao vice-rei.

Ao mesmo tempo Maria tornou à sala de jantar e, voltando-se para Emiliana disse:

— Perdi o meu tempo; nada ouvi que fosse novo para mim.

Emiliana não podia dizer outro tanto, e estava espantada da perversão e dos crimes do homem que já era bastante criminoso para ela.

— Em que pensa, menina? perguntou Maria, pensa em...

A moça interrompeu-a com viveza e respondeu:

— Pensava naquele mudo...

Maria sorriu-se maliciosamente; vendo, porém, que Emiliana corava, disse-lhe:

— A providência divina também é muda: não fala, mas não dorme.

O facultativo chegou, como prometeu; e Maria, perdendo de todo a esperança de falar a Clélio Írias, envolveu-se em sua mantilha, e, embora levasse a promessa de que lhe participariam, quando o doente pudesse recebê-la, dada a hipótese de escapar à morte, retirou-se contrariada.

Dois egoísmos tinham, um, tentado com empenho sacrificar, e outro, efetivamente sacrificado à sua vontade todas as considerações de respeito e de caridade, a que tinha direito um velho doente e em perigo de vida; o egoísmo da vingança e o egoísmo do poder despótico. Emiliana soubera resistir a Maria; o licenciado não ousara resistir ao vice-rei.

Mas, receoso das conseqüências do interrogatório misterioso feito pelo mudo, o licenciado foi ver outra vez o doente: a febre aumentara um pouco e com ela as dores e a agitação.

— A tal conversa lhe foi nociva, disse o prático; espero, porém, que há de amanhecer melhor; vou receitar-lhe um calmante poderoso...

Clélio Írias sacudiu a cabeça em sinal de incredulidade.

— Isso é medo de velho...

— Amanhã receberei os sagrados socorros e a extrema-unção, murmurou o doente.

— É o seu dever de católico.

— E suave consolação e conforto de minha alma de usurário e pecador arrependido...

— Está bem; descanse.

— Não; é preciso que eu lhe fale: sr. Licenciado, tenho mais de setenta anos; o mundo e a vida já me cansam.

— Conversaremos amanhã...

— Amanhã pode ser tarde. Sr. Licenciado, seja franco: tenho negócios a arranjar, disposições a tomar; se ainda espera salvar-me e esses cuidados podem contrariá-lo, estou pronto a adiá-los; se, pelo contrário...

O licenciado cortou a palavra ao doente e respondeu-lhe:

— O seu estado é grave; ainda tenho esperanças de vencer esta febre maldita que o devora; mas quer me parecer que a preocupação dos arranjos dos seus negócios é ainda pior do que será a fadiga e a excitação do trabalho que vai ter; descanse, pois, duas horas, tome depois as suas disposições, e deixe o resto por minha conta.

Clélio Írias compreendeu perfeitamente a verdadeira significação das palavras do licenciado, e sem comoção e sem tremer, disse:

— Agradeço-lhe a verdade.

E fechou os olhos como para dormir.

O licenciado receitou e despediu-se de Emiliana e da velha.

Meia hora depois, Clélio Írias abriu os olhos e viu sentada a seus pés a dedicada enfermeira.

— Venha sentar-se aqui, disse-lhe, mostrando uma cadeira de pau que estava junto da cabeceira.

A moça obedeceu e ele tomou-lhe uma das mãos, e falou com ansiedade que enérgico dominava.

— Emiliana! Devo-lhe muito nestes dias, e vou morrer, apesar dos seus cuidados de filha dedicada. Veja em mim seu pai, e creia que vai confessar-se a um moribundo; mas confesse-se...

Emiliana estremeceu.

— Faltam-me as forças... padeço muito... não me fatigue fale, preciso ouvi-la.

— Que quer que eu diga?

— Que confesse ao moribundo que vai dar contas de si a Deus, o que com inteira verdade se passou na noite do incêndio da casa de seu pai.

Emiliana desatou a chorar.

— É pois verdade o que disseram? perguntou Clélio Írias.

— É verdade, balbuciou a moça.

— Alexandre Cardoso é pois seu amante?

— Oh! não!... exclamou ela levantando-se.

— Sente-se.

Emiliana sentou-se.

— Mas Alexandre Cardoso, o infame por mil infâmias, manchou a sua reputação.

A moça contou soluçando, a breve história da sua desgraça.

Clélio Írias fatigado e em febril agitação teve pressa de acabar essa íntima conversação.

— Embora inocente, o seu nome está exposto às irrisões do mundo: tome outro nome...

— Como, senhor?...

— Seja noiva amanhã para ser viúva depois de amanhã.

Emiliana não soube que dizer.

— Mande chamar sua mãe, e prevenir a seu pai; amanhã senhora será esposa do velho usurário que morrerá logo depois com a cabeça encostada no seu seio.

E Clélio Írias tornou a fechar os olhos; mas, passados poucos momentos, murmurou:

— As orações do anjo serão as asas que hão de levar a alma do pecador arrependido aos pés do Senhor Deus misericordioso.

E Clélio Írias dormiu.

Na manhã do dia seguinte CléIio Írias aparentemente muito melhor dos seus cruéis sofrimentos, calmo e contrito, confessou-se e recebeu a sagrada comunhão.

Em seguida foi celebrado e abençoado o seu casamento com Emiliana, a filha do carpinteiro Marcos Fulgêncio.

Acabado o ato religioso do casamento, o padre saiu da sala, onde entrou o tabelião.

No fim de uma hora duas testemunhas assinaram o testamento do marido de Emiliana.

Ao meio-dia o velho que era noivo estava sem febre, tranqüilo, e como sorrindo aos horizontes da vida.

As duas horas da tarde voltou a febre com extraordinária violência.

Às cinco horas Clélio Irias delirava.

Às seis perdera a fala e seu corpo cobriu-s e de frio e suor.

À meia-noite o velho usuário, pecador arrependido, agonizava, tendo a cabeça encostada no seio de sua jovem esposa.

À uma hora da madrugada, Emiliana Írias estava viva e era a única herdeira de uma fortuna de seiscentos mil cruzados.