As Mulheres de Mantilha/XV
| As Mulheres de Mantilha (Capítulo XV) por |
Jerônimo foi trancar o testamento e as pistolas no armário com a mesma fria simplicidade com que os tirara dele e os mostrara pouco antes. Os dois amigos voltaram ao gamão, ordenaram de novo as pedras, outra vez Antônio lançou no tabuleiro o seu dado e outra vez Jerônimo lhe disse:
— O vice-rei nos oprime; além do mais o recrutamento não tarda a caçar o povo...
— Já está caçando: recebi dos meus fregueses notícias de Magé, de Itapacorá e de Cabo Frio, onde o recrutamento é horrível; queriam poupá-lo à cidade durante os dias da folgança do entrudo; mas os pasquins de hoje exacerbaram o vice-rei que mandou recrutar sem piedade.
— Como devemos proceder?
— A resistência é impossível.
— Antônio,eu penso que há duas resistências, e que uma das duas é sempre possível.
— Qual?
— A resistência passiva, a resistência que pela inércia cria embaraços, e pela negação dos meios fatiga a violência. Doravante eu não darei mais um só real, o mais insignificante auxílio ao governo: o que o governo quiser de mim há de tirar-mo à força; contra o governo do vice-rei nem uma palavra, hei de observar completa submissão passiva; mas a favor do governo do vice-rei nem um passo, nem o mais leve concurso.
— A idéia é boa; muitos te seguirão o exemplo.
— Nada mais de donativos, nem de oferecimento de trabalhadores para as obras do rei; que nos arranquem o nosso dinheiro, e que nos tomem à força nossos escravos; o arbítrio e o despotismo também cansam, ou se tornam impossíveis pelo ódio de todos; façamo-los cansar pelo excesso das violências, e morrer pela sentença da condenação geral.
— Tens mil vezes razão, Jerônimo, disse Antônio; mas eu entendo que não basta a inércia, e que é indispensável também a ação negativa: onde o governo do vice-rei perseguir haja proteção, caridoso amparo e couto aos perseguidos; um, dois hóspedes demais não exigem aumento de pratos em nossas mesas; em regra nossas refeições chegam para o triplo da família; a hospedagem é um dever, hospedemos os que fugirem à perseguição.
Jerônimo sacudiu a cabeça, indicando desaprovação.
— Discordo e discordarei de tudo quanto puder dar ao governo o direito de repressão; na minha idéia não há ofensa das leis del-Rei nosso senhor, e na tua há: ninguém, sem delinqüir, acouta ou protege contra a ação da autoridade o homem criminoso ou não que a autoridade se empenha em prender.
— Eu não falei em proteção a criminosos.
— Embora: falaste em vítimas injustamente perseguidas, em infelizes marcados pela vingança e pelos ódios pessoais dos recrutadores; mas nem para salvar essas vítimas nos é lícito ultrajar as leis, maquinando contra a ação da autoridade.
— Ora esta!... então se um desses desgraçados te batesse à porta esta noite, fugindo a uma patrulha de soldados, tu lhe negarias entrada e asilo?...
— Ainda mesmo a réus de certos crimes eu não o negaria; mas ao romper do dia de amanhã, depois de fazer almoçar regaladamente o hóspede, dar-lhe-ia uma bolsa cheia de ouro, e dir-lhe-ia: o dever da hospedagem está cumprido por mim; agora salve-se, como puder.
— Para um homem generoso é pouco.
— Eu sou ainda mais respeitador do governo do que homem generoso.
— Jerônimo!
— Que é?
— E as pistolas que guardas naquele armário?...
Vingança de honra ultrajada; mas crime na própria consciência do criminoso, se eu precisar vingar-me.
— És um parlapatão.
— Por quê?...
— Porque acoutarias durante um mês, um ano, dez anos o infeliz injustamente perseguido pela autoridade que bradasse à tua porta: "protegei-me!"
— Faria o que disse há pouco.
— Farias o que acabaste de ouvir-me.
— Não!
— Sim!
— Não!
— Aposto.
— Só se és tu que vens pedir-me asilo.
— Isso é medo de apostar.
— Aposto o que quiseres.
— A época é tal, que bem pode dar-se a hipótese em qualquer dia: marco o prazo de vinte dias, porque exatamente acaba na noite da serração da velha.
— Como te parecer.
— Se até lá ninguém te vier pedir guarida, paciência, não me darei por convencido; mas perco a aposta, e virei jantar contigo em quatro domingos consecutivos; mas se eu ganhar a aposta em qualquer dia desse prazo, tu irás com a comadre e as meninas assistir da minha casa à passagem da serração da velha e em seguida cear comigo; hein?
— Entendo: juraste comer o meu peixe da quaresma em quatro domingos. Está feita a aposta.
— Vamos finalmente ao gamão.
— É verdade... é agora que sinto o tabuleiro nas pernas.
Os dois amigos sorveram suas pitadas de tabaco amostrinha, e lançaram os dados: coube jogar primeiro a Antônio, que sacudindo os dados no copo, ia atirá-los no tabuleiro, quando se suspendeu, ouvindo bater palmas e uma voz argentina e trêmula dizer:
— Deus esteja nesta casa.
— Amém, respondeu Jerônimo, levantando-se.
— Quer me parecer que hoje não jogamos o gamão, observou Antônio...
