As Mulheres de Mantilha/XV

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XV)
por Joaquim Manuel de Macedo
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Jerônimo foi trancar o testamento e as pistolas no armário com a mesma fria simplicidade com que os tirara dele e os mostrara pouco antes. Os dois amigos voltaram ao gamão, ordenaram de novo as pedras, outra vez Antônio lançou no tabuleiro o seu dado e outra vez Jerônimo lhe disse:

— O vice-rei nos oprime; além do mais o recrutamento não tarda a caçar o povo...

— Já está caçando: recebi dos meus fregueses notícias de Magé, de Itapacorá e de Cabo Frio, onde o recrutamento é horrível; queriam poupá-lo à cidade durante os dias da folgança do entrudo; mas os pasquins de hoje exacerbaram o vice-rei que mandou recrutar sem piedade.

— Como devemos proceder?

— A resistência é impossível.

— Antônio,eu penso que há duas resistências, e que uma das duas é sempre possível.

— Qual?

— A resistência passiva, a resistência que pela inércia cria embaraços, e pela negação dos meios fatiga a violência. Doravante eu não darei mais um só real, o mais insignificante auxílio ao governo: o que o governo quiser de mim há de tirar-mo à força; contra o governo do vice-rei nem uma palavra, hei de observar completa submissão passiva; mas a favor do governo do vice-rei nem um passo, nem o mais leve concurso.

— A idéia é boa; muitos te seguirão o exemplo.

— Nada mais de donativos, nem de oferecimento de trabalhadores para as obras do rei; que nos arranquem o nosso dinheiro, e que nos tomem à força nossos escravos; o arbítrio e o despotismo também cansam, ou se tornam impossíveis pelo ódio de todos; façamo-los cansar pelo excesso das violências, e morrer pela sentença da condenação geral.

— Tens mil vezes razão, Jerônimo, disse Antônio; mas eu entendo que não basta a inércia, e que é indispensável também a ação negativa: onde o governo do vice-rei perseguir haja proteção, caridoso amparo e couto aos perseguidos; um, dois hóspedes demais não exigem aumento de pratos em nossas mesas; em regra nossas refeições chegam para o triplo da família; a hospedagem é um dever, hospedemos os que fugirem à perseguição.

Jerônimo sacudiu a cabeça, indicando desaprovação.

— Discordo e discordarei de tudo quanto puder dar ao governo o direito de repressão; na minha idéia não há ofensa das leis del-Rei nosso senhor, e na tua há: ninguém, sem delinqüir, acouta ou protege contra a ação da autoridade o homem criminoso ou não que a autoridade se empenha em prender.

— Eu não falei em proteção a criminosos.

— Embora: falaste em vítimas injustamente perseguidas, em infelizes marcados pela vingança e pelos ódios pessoais dos recrutadores; mas nem para salvar essas vítimas nos é lícito ultrajar as leis, maquinando contra a ação da autoridade.

— Ora esta!... então se um desses desgraçados te batesse à porta esta noite, fugindo a uma patrulha de soldados, tu lhe negarias entrada e asilo?...

— Ainda mesmo a réus de certos crimes eu não o negaria; mas ao romper do dia de amanhã, depois de fazer almoçar regaladamente o hóspede, dar-lhe-ia uma bolsa cheia de ouro, e dir-lhe-ia: o dever da hospedagem está cumprido por mim; agora salve-se, como puder.

— Para um homem generoso é pouco.

— Eu sou ainda mais respeitador do governo do que homem generoso.

— Jerônimo!

— Que é?

— E as pistolas que guardas naquele armário?...

Vingança de honra ultrajada; mas crime na própria consciên­cia do criminoso, se eu precisar vingar-me.

— És um parlapatão.

— Por quê?...

— Porque acoutarias durante um mês, um ano, dez anos o infeliz injustamente perseguido pela autoridade que bradasse à tua porta: "protegei-me!"

— Faria o que disse há pouco.

— Farias o que acabaste de ouvir-me.

— Não!

— Sim!

— Não!

— Aposto.

— Só se és tu que vens pedir-me asilo.

— Isso é medo de apostar.

— Aposto o que quiseres.

— A época é tal, que bem pode dar-se a hipótese em qualquer dia: marco o prazo de vinte dias, porque exatamente acaba na noite da serração da velha.

— Como te parecer.

— Se até lá ninguém te vier pedir guarida, paciência, não me darei por convencido; mas perco a aposta, e virei jantar contigo em quatro domingos consecutivos; mas se eu ganhar a aposta em qualquer dia desse prazo, tu irás com a comadre e as meninas assistir da minha casa à passagem da serração da velha e em seguida cear comigo; hein?

— Entendo: juraste comer o meu peixe da quaresma em quatro domingos. Está feita a aposta.

— Vamos finalmente ao gamão.

— É verdade... é agora que sinto o tabuleiro nas pernas.

Os dois amigos sorveram suas pitadas de tabaco amostrinha, e lançaram os dados: coube jogar primeiro a Antônio, que sacudindo os dados no copo, ia atirá-los no tabuleiro, quando se suspendeu, ouvindo bater palmas e uma voz argentina e trêmula dizer:

— Deus esteja nesta casa.

— Amém, respondeu Jerônimo, levantando-se.

— Quer me parecer que hoje não jogamos o gamão, observou Antônio...