As Mulheres de Mantilha/XVII
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| As Mulheres de Mantilha (Capítulo XVII) por |
Irene e Inês, ou, como o povo as chamava, os dois lírios, tomaram ao pé da letra a ordem de Antônio Pires, e a tolerante concessão de Jerônimo, e mandaram comprar com as cautelas que o padrinho de Inês aconselhara algumas dúzias de limões-de-cheiro.
Enquanto não chegam os compradores de limões-de-cheiro que as meninas despacharam, matarei o tempo, conversando sobre o entrudo.
Há cerca de vinte anos que a máscara matou a seringa, que o passeio e o baile carnavalesco da nova civilização aniquilaram o entrudo dos costumes rudes trazidos dos séculos passados. A geração moderna ainda hoje ouve descrições completas desse folguedo, loucura festiva de três dias; daqui mais a vinte anos ninguém se lembrará do entrudo, e poucos compreenderão o que era entrudo.
O entrudo era durante os três dias que se chamam do carnaval o jogo delirante de todas as idades, desde o menino até o velho, de ambos os sexos, e de todas as classes da sociedade, de todas, porque também os escravos jogavam entre si.
O jogo consistia essencialmente em molharem-se uns aos outros; o exaltamento e o frenesi dos jogadores, uma vez travado o combate, não se limitavam a água e com outros meios enxovalhavam, como podiam, naturalmente havia no jogo práticas delicadas, práticas rudes e práticas selvagens.
A prática delicada adotava o limão de cera cheio de águas perfumadas, e tolerava a seringa esguichando águas da mesma natureza; a prática rude ostentava-se no banho de corpo inteiro dado à força em grandes gamelões ou banheiras de pau, e na aplicação do polvilho ao rosto; a prática selvagem apelava para todas as tintas, e até nos jantares para o arrojo de caldos gordurosos e com especialidade de — arroz-de-leite — ao rosto e ao corpo dos jogadores.
Molhar sem ser molhado era para alguns ponto de vaidade, que em geral se reputava de mau gosto, quando se jogava o entrudo com senhoras.
Quem não queria jogar o entrudo, trancava as portas e janelas de sua casa, e não saía à rua durante três dias.
As laranjinhas ou limões-de-cheiro jogavam-se de perto e de longe: de perto nas ruas entre os que se encontravam, e no interior das habitações, onde se reuniam famílias para brincar, o que era muito comum; de longe das ruas para as janelas dos sobrados, como combate entre a força que atacava a praça e esta que se defendia, ou de sobrado contra sobrado, casa térrea contra casa térrea, como fortalezas a bombardear-se. Muitas vezes grupos de jogadores invadiam as casas, como assaltantes que escalavam muralhas de fortes, e então a alegre e ruidosa peleja começava na escada, estendia-se pelos corredores, e inundava as salas.
Nas ruas e praças a multidão estrepitosa tresloucava sem medida; os gritos e as gargalhadas, às vezes injúrias e violências, outras vezes passageiras desordens tumultuavam sem perigo a cidade; homens e mulheres de educação desmazelada, ou de costumes livres, com os vestidos alagados grudando-se ao corpo, e desenhando perfeitamente as formas, com as caras pintadas de vermelho e negro, com as roupas rotas, os pés nus, corriam, fugindo ou perseguindo, molhando, enxovalhando, pintando, e besuntando conhecidos e desconhecidos, e de hora em hora procurando as tavernas, por gosto muitos, por necessidade todos para beber aguardente e molhar com ela os corpos resfriados.
No interior das casas pobres e ricas, onde se ajuntavam família amigas, o entrudo não era brutal; era porém igualmente arrebatado e delirante: jurava-se três vezes, quatro e mais no fim de cada acesso do jogo febricitante, adiá-lo por algumas horas aprazadas; senhoras e homens mudavam de vestidos, tinham-se trancado à chave os tabuleiros das laranjinha cheirosas; mas de súbito um limão-de-cheiro voava no espaço e ia quebrar-se contra alguém, lá se ia o juramento, e recomeçava a batalha, que só à noite e tarde terminava.
Como nos atuais festejos carnavalescos, o entrudo era animado no domingo, fraco na segunda-feira, desenfreado e frenético na terça-feira.
O entrudo era mil vezes mais contagioso que a máscara, porque era ilimitadamente provocador; sobravam os casos em que os velhos mais austeros e severos, as donzelas mais mimosas e as mais acanhadas, aborrecendo o entrudo, desde que, a despeito de suas pragas e de seus protestos se viam molhados, perdiam as cabeças, e se tornavam furiosos jogadores do jogo dágua.
Sem contestação havia muitos que abusavam da grande liberdade autorizada pelos costumes do entrudo; é positivo que nesse jogo desordenado, nessa reunião de tantos homens e senhoras que se apertavam em lutas o pudor destas nem sempre escapava a atrevimentos que se perdoavam ou não. O menor desses abusos ainda era um abuso pela intenção; o anelo e ardente de um namorado, anelo que com freqüência se realizava, sendo compreendido e tolerado à custa do rubor do pejo que assomava às faces da mulher amada, era quebrar com a mão um limão-de-cheiro suavíssimo sobre a parte superior e não velada do peito querido, de modo que a água odorífera lhe fosse banhar os cândidos seios.
Não é possível negá-lo: os folguedos do nosso carnaval não são menos perigosos do que o antigo entrudo, no que diz respeito à saúde dos que neles tomam parte; mas em relação à moral a sociedade moralizada ficou menos exposta. O nosso carnaval também facilita mil abusos, mas em regra as vítimas desses abusos não têm muito que perder com eles, e, o que é mais, teve a fortuna de menos áspero, muito mais aparatoso, e dobradamente aprazível substituir um jogo rude, material e desenvolto.
Havia muitos ou pelo menos alguns que não jogavam, nem permitiam que em suas casas se jogasse o entrudo, e isso por princípios de moral e de higiene.
Jerônimo Lírio era um desses: suas filhas tinham visto o entrudo sempre de longe, e a fingida cegueira dos pais tolerava apenas que elas fizessem uma dúzia de laranjinhas para molhar uma a outra. Em 1766 a intervenção protetora do padrinho de Inês autorizara a compra de duas caixas de limões-de-cheiro, o mais ostensivo brinquedo.
Os portadores das duas meninas chegaram enfim.