As Mulheres de Mantilha/XVIII

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XVIII)
por Joaquim Manuel de Macedo
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Os dois lírios penderam suavemente para as caixas de laranjinhas que acabavam de abrir.

Brilhavam nos olhos a flama, e nos lábios o sorriso da alegria de Irene e Inês.

Eram limões-de-cheiro brancos, verdes, rubros, amarelos, de todas as cores e nuanças possíveis...

— Tão bonitos, diz Irene; que faremos deles?...

Inês fez um momo e respondeu:

— Tu me molharás e eu te molharei... eis aí tudo.

A nobre mãe das duas meninas tinha parado junto delas e as contemplava e ouvia risonha.

Irene tornou:

— Se pudéssemos molhar mais alguém...

— Nhanhã, disse Inês, meu padrinho me deu licença para molhar a todos. E se não fosse meu pai, eu era capaz...

— De quê?...

— De molhar, de quebrar limões em meu padrinho que deu licença para isso...

A senhora Inês não se pôde vencer, riu-se da idéia da filha e de modo que as meninas se voltaram para ela.

— Mamãe ouviu?

— Ouvi, sim.

— E que diz?

— Vão molhar o compadre: cada uma leve dois limões, cheguem-se a ele sem mostrar os limões, e não tenham medo.

— E meu pai?... perguntou Irene, enquanto Inês se armava, não com dois, mas com quatro limões em suas mãos pequeninas.

As duas meninas animadas pela mãe, palpitantes de emoção, dirigiram-se à sala, escondendo, como puderam, os limões-de-cheiro que levavam, e se aproximaram de Antônio.

Era exatamente no momento em que, armadas as pedras, os dois amigos lançavam os dados.

— Vou dar-te um gamão cantado! exclamara o padrinho de Inês.

Mas de súbito soltou um grito: as meninas tinham-lhe quebrado os limões-de-cheiro no peito.

Em vez de ralhar Jerônimo desatou a rir.

— Ah, brejeirinhas! exclamou Antônio, levantando-se e largando o tabuleiro do gamão nos joelhos do parceiro.

E correndo a um moringue d’água, que vira sobre a mesa, tomou-o, mas em vez de vingar-se das meninas, foi despejá-lo na cabeça de Jerônimo que ainda se ria.

Jerônimo deixou cair o tabuleiro do gamão, e levantando-se para o interior da casa, voltou com um prato d’água que atirou sobre Antônio.

As meninas tornaram com outros limões e também a senhora Inês que os quebrou no marido e no compadre; vendedores de limões-de-cheiro da casa onde os portadores de Irene e Inês os tinham ido comprar, prevendo o costumado fervor que sucedia sempre ao começo do jogo, apareceram no terreiro, trazendo tabuleiros disfarçados em caixas fechadas; Antônio e Jerônimo compraram todos estes, e a luta se tornou mais vigorosa e animada com a abundância e igualdade das armas, embora houvesse desproporção entre os combatentes; porque toda a família Lírio acabava de fazer colisão contra Antônio.

De repente e ao grande ruído que se fazia, apareceu correndo agitada e temerosa a mulher de mantilha, já porém sem mantilha, e deixando ver em si uma bela moça vestida com simplicidade.

A chegada imprevista da jovem fez hesitar por instantes os com batentes; as duas meninas ficaram surpreendidas; Jerônimo contrariado; mas a senhora Inês pronunciava-lhe breves palavras ao ouvido, quando também Antônio exclamava à bela moça:

— São quatro contra um! Venha em meu socorro, menina!...

A moça confusa e trêmula não ousava avançar um passo; Jerônimo porém que ouvira o bom conselho, provocou-a, arrojando-lhe limões, no que foi imitado pela mulher e pelas filhas; então ela, risonha e com vivacidade pronta, voou para o lado de Antônio, e tomou parte na ação, excedendo a todos na viveza do ataque e na certeza das pontarias.

No fim de uma hora de amigas provocações, risadas, gritos e alegria, que novos tabuleiros de limões, acudindo à mina explorada, alimentaram, o combate cessou por falta de munições e pela fadiga dos combatentes que todos se acharam molhados da cabeça aos pés, assim como estava sala toda inundada.

Jerônimo atirou-se em uma cadeira, dizendo:

— Eis aí o que fizeram aquelas duas doidinhas impelidas por um velho criança!

— Cala-te aí, rabugento! Comadre, mande-nos vir aguardente e Parati, disse Antônio.

— E basta de entrudo, ouviram? tornou o outro, falando a Irene e Inês; vão mudar de roupa. Quanto à senhora... à senhora... esqueceu-me o seu nome...

A moça respondeu, abaixando os olhos:

— Isidora.

— Peço-lhe perdão, menina Isidora; pois fui o primeiro a desafiá-la a este jogo maldito; ande, vá mudar de vestidos e tranqüilize-se que ninguém mais se lembrará de entrudo nesta casa.

A senhora Inês e suas filhas entraram para o interior da casa, e Isidora recolheu-se ao gabinete que lhe haviam destinado.

Cada um dos dois velhos bebeu um cálix de aguardente e foram ambos tomar outras roupas, ao mesmo tempo que alguns escravos varriam e enxugavam a sala.

Meia hora depois aqueles bons amigos achavam-se de novo em frente um do outro, rindo-se das inocentes proezas que acabavam de fazer tão contra os seus hábitos e disposições, e como um pouco envergonhados ambos, não disseram palavra sobre o entrudo.

— Jerônimo, disse Antônio: estou com vontade de ensaiar uma experiência...

— Qual?

— Quisera ver, se ainda haveria hoje pessoa ou fato que nos impedisse de jogar o gamão...

— Pois experimentemos.

E, tomando o tabuleiro, sentaram-se e armaram as pedras; mas imediatamente a senhora Inês entrou na sala, e disse:

— Compadre, o nosso feijão está na mesa.

E foi à porta do gabinete chamar Isidora.

— Antônio, observou Jerônimo, sopa fria não presta.

— Hás de ver que nem à tarde conseguiremos jogar o gamão, respondeu Antônio, deixando o tabuleiro sobre as duas cadeiras.