As Mulheres de Mantilha/XXII

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XXII)
por Joaquim Manuel de Macedo
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Eram nove horas da noite.

Na casa da formosa cortesã havia sarau e jogo; na sala principal a dança e o canto eram os pretextos; na sala de jantar a mesa de jogo era o verdadeiro motivo da reunião.

Maria animava e encantava a companhia de moralidade duvidosa ou negativa na primeira sala; na outra uma roda de jogadores, mancebos ricos, velhos aferrados ao vício, à paixão fatal do jogo, oficiais e paisanos, dispunham-se a parar à banca.

A mesa enchia-se de ouro.

Alexandre Cardoso, ou por cortesia ou por desafio diante dos montes de ouro, ofereceu as cartas a Ângelo, que recusou-as modestamente, aceitando-as porém às primeiras insistências.

O jogo começou.

Na primeira cartada Ângelo perdeu quase sempre, e metade das suas pilhas de ouro passou para os outros jogadores; na segunda ficaram apenas cerca de vinte moedas ao banqueiro que havia perdido já muito mais de três mil cruzados.

Ângelo perguntou com imperturbável serenidade se alguém queria tomar-lhe o lugar de banqueiro.

Alexandre Cardoso, que fora quem mais ganhara, e que, apesar do que havia dito ao amigo com quem viera, tinha ojeriza a Ângelo, disse com intenção de confundi-lo:

— Abdica talvez por falta de recursos; mas sobra-lhe o crédito: disponha da minha bolsa.

— Obrigado, respondeu Ângelo sem formalizar-se.

E tirando do bolso um pequeno saco de veludo verde, despejou na mesa nova enchente de ouro.

— Vamos, senhores. E espalhando, confundindo e baralhando as cartas com exagerado escrúpulo, ia dá-la a partir, quando hesitou, e sorrindo-se disse:

— Evidentemente baralho hoje contra mim!... Se alguém baralhasse melhor as cartas... Capitão! o senhor que não joga, quer fazer-me este favor?

O capitão recusou-se.

— Paciência, tornou Ângelo.

E deu as cartas para serem partidas.

A terceira cartada vingou o banqueiro, que ganhou nessa quanto perdera nas duas primeiras.

— Quem quer as cartas?.. . tornou Ângelo a perguntar.

— Continue, respondeu Alexandre Cardoso.

Ângelo carteou e ganhou ainda mais.

— Quem quer as cartas? repetiu.

— Continue, insistiu Alexandre Cardoso, mas se não o leva a mal, mudaremos o baralho.

— Como quiserem.

Um criado trouxe cartas novas, e o capitão, a pedido de Ângelo e a instâncias dos outros jogadores, tomou, abriu e misturou o baralho.

O interesse do jogo aumentava.

Alexandre Cardoso apontou elevada soma na dama.

— É um erro, observou Ângelo, sorrindo; as damas não são favoráveis aos jogadores.

E carteou. A terceira carta foi dama e caiu à direita. O banqueiro ganhara.

Alexandre Cardoso dobrou a parada na mesma carta; um outro ponto imitou-o.

Não apontem na dama, tornou Ângelo; sou ainda muito moço para que as damas me desdenhem.

E ganhou segunda vez.

Alexandre Cardoso teimou e com ele pararam outros ainda na dama, que oferecia então mais probabilidades contra o banqueiro, que impávido carteava recolhendo sempre mais do que pagava.

A dama que se demorara apareceu, saindo pela terceira vez à direita.

Alexandre Cardoso acabava de perder a sua última pilha de moedas, e no meio do ruído que excitara a fortuna do banqueiro, levantou-se dizendo:

— Esgotou-me a bolsa; por hoje basta.

— Sua palavra vale mais que mil bolsas recheadas, respondeu Ângelo; e devo lembrar-lhe que ainda está no baralho a quarta dama.

— Mil cruzados pois! exclamou o ajudante oficial-de-sala.

Olharam todos para o banqueiro.

— Aceito, disse ele.

E perguntou aos outros pontos:

— Alguém mais quer honrar a dama?...

O desafio chegava a ser imprudente.

Dois mil cruzados esperaram a carta que três vezes já tinha sido favorável ao banqueiro.

Alexandre Cardoso tinha os olhos fitos nas mãos de Ângelo; o capitão em pé o observava com igual cuidado.

A dama não se fez esperar muito e ainda pela quarta e última vez nessa cartada foi fiel à fortuna do banqueiro,

— É demais!... exclamou um dos jogadores.

— Com efeito, disse Ângelo; convenho em que elas me perseguem docemente... mas só no jogo... só no jogo..

Alexandre Cardoso olhou-o com raiva.

O tenente Gonçalo Pereira, que pouco antes havia chegado e não jogava, fez um movimento de repugnância, ouvindo Ângelo, e saiu imediatamente da sala.