Assim falou Zaratustra/A Ceia
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| Assim falou Zaratustra (Quarta parte) por |
Que neste ponto o feiticeiro interrompeu a saudação de Zaratustra e dos hóspedes, adiantou-se pressuroso como quem não tem tempo a perder, pegou na mão de Zaratustra e exclamou: “Mas, Zaratustra!, Umas coisas são mais necessárias do que outras, segundo tu mesmo dizes. Pois bem! Agora, há uma coisa que para mim é mais necessária de que todas as outras.
O prometido é devido; não me convidaste para uma refeição? Estão aqui muitos que deram longas caminhadas, e é de supor que os não queiras satisfazer com palavras.
Já a todos falaste demasiado de morrer de frio, de se afogarem, asfixiarem e de outras fraquezas do corpo; mas ainda ninguém se lembrou da minha fraqueza: o receio de morrer de fome”.
Assim falou o adivinho; mas ao ouvir estas palavras, os animais de Zaratustra fugiram espantados, pois viram que o que tinham trazido durante o dia não chegava nem para o adivinho só.
“Ninguém se lembra do receio de morrer de fome — prosseguiu o adivinho. — E conquanto ouça correr a água abundante e infatigavelmente, como os discursos da sabedoria, eu, pela minha parte, quero vinho!
Nem todos são, como Zaratustra, bebedores natos de água, a água também não é boa para gente cansada e prostrada; nós precisamos de vinho, só o vinho cura rapidamente e dá saúde repentina!
Neste somenos, enquanto o adivinho pedia vinho, o rei da esquerda, o silencioso, tomou também a palavra dizendo: “Do vinho nos encarregaremos nós, eu e o meu irmão, o rei da direita; vinho temos bastante — uma carga completa de burro. — Não falta, portanto, senão pão”.
“Pão — exclamou Zaratustra, rindo. — Pão positivamente, não têm os solitários. Mas o homem não se alimenta só de pão, mas também de boa carne de cordeiros, e eu tenho dois.
É esquartejá-los depressa e aromatizá-los com sálvia, que é assim que me agrada a carne de cordeiro. E não nos faltam raízes nem frutos que até contentariam gastrónomos e paladares delicados, nem nozes e outros enigmas que partir.
Vamos, pois, fazer já boa refeição. Mas quem quiser comer conosco tem que deitar mãos à obra, inclusive os reis.
Que nos domínios de Zaratustra até um rei pode ser cozinheiro”.
A proposta agradava a todos; o mendigo voluntário era o único que se opunha à carne, ao vinho e às espécies.
“Olhem o glutão do Zaratustra! — disse em ar de zombaria. — Vêm-se então para as cavernas e para as altas montanhas a fim de celebrar semelhantes festins?
Agora compreendo o que ele nos predicou noutra ocasião: “Bendita seja a pequena pobreza!” É porque quer suprimir os mendigos”.
“Tem bom humor como eu — respondeu Zaratustra. — Conserva os teus hábitos, bom homem! — Mastiga o teu grão, bebe a tua água, gaba a tua cozinha, de forma que te contentes.
Eu apenas sou lei para os meus, não sou uma lei para toda gente. Mas aquele que pertencer ao número dos meus tem que ter ossos fortes e pernas ágeis; há de ser animado para as guerras e festins; nem sombrio nem sonhador; disposto para as coisas mais difíceis como para uma festa; são e robusto.
O melhor que existe pertence-nos, a mim e aos meus, e se não no-lo derem, tomamo-lo: o melhor alimento, o céu mais puro, os pensamentos mais fortes, a mulheres mais formosas!”
Assim falava Zaratustra; e o rei da direita respondeu: “É singular! Nunca se ouviram coisas tão judiciosas na boca de um sábio.
E ainda mais singular por se tratar de um sábio que é, todavia, inteligente, nada tem de asno”.
Assim falou admirado o rei da direita, e o jumento concluiu maliciosamente com um I. A.
E foi este o princípio da longa refeição que se chama “a ceia” nos livros de histórias. Durante essa refeição só se falou do homem superior.