Através do Brasil/I

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Através do Brasil
por Olavo Bilac e Manuel Bonfim
Má notícia

Eram dois irmãos, - Carlos e Alfredo, o primeiro de quinze anos de idade, e o segundo cinco anos mais moço. Não tinham mãe. Havia dois anos que a tinham perdido.

Estavam ambos em um colégio, no Recife. O pai que era engenheiro, fora obrigado a deixá-los aí, a fim de trabalhar na construção de uma estrada de ferro, no interior do Estado. Era a primeira vez que se separava dos filhos, depois da morte da mulher; sempre fora muito carinhoso e meigo; principalmente depois de enviuvar, tornara-se de uma bondade excessiva, como querendo compensar com um redobramento de ternura a falta dos cuidados maternos de que via os filhos privados. Era simples e afetuoso, preferindo ser atendido e amado a ser obedecido e temido. Não castigava nunca os filhos: era para eles um amigo, um camarada, um companheiro.

A separação foi para os três um golpe doloroso. Mas não era possível evitá-la: e o engenheiro, no momento de partir, abraçando os dois rapazes, fez-lhes esta recomendação: “Vocês devem ser sempre muito amigos, muito unidos, tendo um só coração e uma só vontade. não temos parentes por aqui. Todos os nossos parentes vivem longe, no Rio Grande do Sul. Se seu morresse, ficariam vocês desamparados; e, se não fossem muito amigos e muito unidos, a desgraça seria terrível...”

Havia já dois meses que o pai partira. Carlos e Alfredo, no colégio, estudavam, e tinham um pelo outro uma amizade que nenhuma divergência alterava. O que era de um era do outro; o que um pensava, também o outro pensava. Não havia entre eles segredos, nem desconfianças, nem brigas. Ligados pelos laços de sangue, eram ainda mais ligados pelos laços do afeto. Compreendiam a responsabilidade da sua condição, e esperavam com confiança um futuro melhor.

Em certa manhã de domingo, quando iam sair a passeio, receberam um telegrama. O pai estava doente. Doente “sem gravidade”, - dizia o telegrama. Os dois meninos, porém, num sobressalto, imaginaram logo uma desgraça: “O pai estava tão longe, num lugar quase deserto, num sertão bruto, onde ainda havia, talvez, índios ferozes, - e estava entre estranhos, sem um amigo!... Que moléstia seria a sua? e se o seu estado se agravasse, - se ele morresse, assim, sozinho, abandonado, sem ter o consolo de poder dar a última bênção aos filhos?”

Carlos, o mais velho, disse logo, com os olhos rasos de água.

— Sabes, Alfredo? não me resigno a esta incerteza! Vou para junto de papai... E vou já! Nem previno o diretor do colégio, porque receio que não me deixe partir. Tenho ainda algum dinheiro do que papai nos deixou; vou vender o relógio, sempre hei-de poder pagar a viagem.

— Também eu quero ir! – exclamou Alfredo – leva-me contigo!

— Mas tu és pequeno, a viagem é longa, o dinheiro é pouco...

— Venderei também o meu relógio...

Carlos não teve a coragem necessária para se opor à vontade do irmão. Foram logo dali preparar a jornada, que era penosa, - um dia em caminho de ferro, e ainda muitas léguas a cavalo.

O trem só partia no dia seguinte, às seis horas e meia da manhã. Para economizar o pouco dinheiro que possuíam, os meninos nada compraram; e não querendo voltar ao colégio, onde receavam a oposição do diretor, resolveram não dormir. Foram até Afogados, onde tinham uma família conhecida, com a qual jantaram depois vagaram longamente pelas ruas da cidade, cansados, pensando no pai. Alta noite, dirigiram-se para os lados da estação, e ficaram por lá, à espera da madrugada, encostados às portas, lutando com o sono. Às vezes, Carlos sentava-se, encostava a cabeça do irmão nos joelhos. Mas lá vinha um vulto, - um soldado ou um transeunte, - e os dois assustavam-se, temendo ser presos e reconduzidos ao colégio. Levantavam-se e continuavam a sua triste peregrinação.

Assim passaram a noite. Ansiosos pelo dia. Tinham vendido os relógios, e não podiam saber a hora. De instante a instante, Carlos levantava a cabeça e olhava o céu, para ver a altura do Cruzeiro do Sul, ou para verificar se a estrela d’Alva já aparecia.

Por fim, depois de uma longa espera torturante, viram o céu tingir-se de um ligeiro rubor. Começaram a animar-se as ruas. Passaram as primeiras carroças, levando pão, carne e verduras para a cidade.

Amanheceu.