Memórias da Rua do Ouvidor/V

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Memórias da Rua do Ouvidor por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo V

Como a Rua do Padre Homem da Costa chegou pele lado de terra em seu - plus ultra - abrindo-se na atual Praça de S. Francisco de Paula: referem-se os tormentos de Cabido de Rio de Janeiro, e a história da Sé Nova, que nunca chegou a ser Sé. Transformação da cidade de Rio de Janeiro nos vice-reinados do Marquês de Lavradio e de Luís de Vasconcelos; diz-se como a Rua do Padre Homem da Costa andou, ou permaneceu pouco lembrada até que e Marquês de Lavradio que, como Henrique IV, era devoto do belo sexo, fez nela das suas costumadas proezas noturnas, amando a viuvinha Zezá, cunhada de Amotinado verdadeiro, que foi logrado pelo falso Amotinado. Como houve idéia e questão de mudança da denominação da rua, que acabou chamando-se do Ouvidor, em honra de Dr. Berquó. Anuncia-se a festa do primeiro centenário da Rua do Ouvidor e promete-se e programa da grandiosa solenidade.

Quando o Tenente-Coronel Alexandre Cardoso, oficial de sala, perseguido como lobisomem na noite desastrosa, caiu dentro da vala no encruzamento da rua deste nome com a do Padre Homem da Costa, já esta há dezessete ou dezoito anos tinha pelo lado de terra chegado à extrema, onde pudera escrever - plus-ultra -; pois que acabara em sua embocadura na atual Praça de S. Francisco de Paula.

Breves explicações me parecem necessárias.

A Rua do Padre Homem da Costa fora obrigada a fazer alto quando chegou a Rua da Vala (hoje Uruguaiana): porque, além desta, o campo era do logradouro público, e não se permitiu o prolongamento da rua, e nem ainda um pouco mais tarde, bem que perto do campo que lhe vedavam já estivesse edificada a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de particular devoção dos homens pretos livres, libertos e escravos.

Mas enfim veio o Cabido do Rio de Janeiro resolver o problema da revogação daquele logradouro público.

O Cabido do Rio de Janeiro desde muito que reclamava Sé própria e condigna.

Arruinada a Sé primitiva, a Igreja de S. Sebastião do Castelo, hospedou-se o Cabido na então simples Capela de S. José; mas, faltando-lhe aí cômodos, invadiu quase à força a Igreja da Santa Cruz dos Militares.

É curiosa, mas triste, a história da campanha dos cônegos contra as irmandades donas da casa, estas a empurrar para fora os hóspedes, e os hóspedes a resistir, e opor-se à despedida; não cabe, porém, nestas Memórias a narração de quanto se passou nesse longo pleito.

Vencido na luta, e perdida a esperança de estabelecer-se na Igreja da Candelária, o Cabido acolheu-se a pesar seu na de Nossa Senhora do Rosário.

A prova do pesar do Cabido é dada pelo Monsenhor Pizarro, que em suas Memórias repete sem caridade a queixa do forçado e inevitável contato com os pretinhos, aliás seus e nossos irmãos em Deus.

Mas o governo da Metrópole (reinado de D. João V), aprovando o plano apresentado, mandou construir nova igreja para Sé do Rio de Janeiro, e o Governador Gomes Freire de Andrade, o bispo, e o engenheiro diretor das obras de acordo escolheram para o templo lugar no Campo do Rosário a curta distância da Rua da Vala, defronte da extrema imposta à Rua do Padre Homem da Costa.

No assinalado histórico dia aniversário, 20 de janeiro de 1749, foi lançada com aparatosa solenidade a primeira pedra da Sé nova, cujos alicerces e grossas paredes haviam de servir não para ela, vic vos nos vobis, mas para o edifício de que é última herdeira a Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

Para o solene lançamento da primeira pedra limpara-se, aterrara-se em alguns pontos, e todo se igualara o terreno fronteiro à futura igreja, o qual, ou no mesmo dia 20 de janeiro, ou pouco depois, recebeu a denominação de Largo da Sé Nova.

E então a Rua do Padre Homem da Costa, vendo um largo aberto no campo do logradouro público, usou do seu bom direito, saltando a vala, e estendendo ou continuando suas duas filas de casas até abrir-se no Largo da Sé Nova.

As obras da Sé, que ficaram em provérbio popular perpetuadas, após ativo ardor dos primeiros meses, caíram em desalento, e ora interrompidas, por faltar azeite à lâmpada, ora continuadas muito preguiçosamente, chegaram por isso a excitar o ridículo que feriu a negligência e a desídia do governo com aquele provérbio fulminador das obras em que se consome o dinheiro público e nunca chegam ao fim.

Mais afortunada que a Sé, a Igreja de S. Francisco de Paula, começada a construir-se em 1759 (dez anos depois daquela) no mesmo largo, em 1801 já estava acabada pelos seus Mínimos, que assim deram quinau aos máximos do governo, e em prêmio do seu zelo o povo mudou o nome do largo, que ficou sendo chamado de S. Francisco de Paula.

A Rua do Padre Homem da Costa desde 1749 não teve mais prolongamento a aspirar; ainda, porém, era cedo para as glórias que a esperavam com outro nome.

De 1770 a 1791 a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro se transformou como por metamorfose rápida. Era feia lagarta, e o Vice-Rei Marquês de Lavradio fez sair do casulo a borboleta, asseando, calçando as ruas e praças, abrindo novas ruas, banindo as rudes peneiras das portas e janelas, e removendo para longe dos centros urbanos a aglomeração pestífera dos míseros negros trazidos da África para imundos recintos de mercado de escravos.

O Vice-Rei Luís de Vasconcelos, achando a borboleta fora do casulo e a ensaiar as asas de seda, deu-lhe água e flores em chafarizes, na Fonte das Marrecas, e no Jardim Público, e deu ainda à cidade novas ruas, uma das quais foi a das Belas Noites, então a romanesca das noites de luar crescente e pleno.

A Rua do Padre Homem da Costa não recebeu nesses vinte e um anos de florescimento na cidade melhoramento algum, à exceção do banimento das peneiras que a afeavam, como as outras; dois anos porém, depois do começo do vice-reinado de Luís de Vasconcelos, perdeu o nome que lhe tinham dado em 1659.

Escapara à denominação de Rua do Lobisomem no vice-reinado do Conde da Cunha, e como se vai ver, escapou de outras que lhe quiseram dar, para denominar-se Rua do Ouvidor.

O Marquês de Lavradio, o Vice-Rei estadista, era varão de alto saber, de grande experiência e de virtudes; tinha, porém, a fraqueza de Henrique IV, e pecou não pouco por apaixonado do belo sexo. No seu tempo o doido Romualdo dizia que o vice-rei limpava as ruas e sujava as casas.

O ilustre Marquês estava muito longe de ser ostentoso, delirante e corrompido perversor, como fora o ajudante da sala do Conde da Cunha; foi, porém, conquistador famoso, e teve ligações amorosas que o prenderam muito, e amores furtivos e passageiros que autorizaram o mordaz epigrama do doido Romualdo.

A princípio, e a supor-se cauto, ele dissimulou suas fraquezas de um modo singular e espirituoso.

O Marquês adotara o costume de sair sob diversos disfarces depois das dez horas da noite em passeio pela cidade para zelar a polícia e ver com os seus olhos o que se passava, e ouvir com os seus ouvidos o que se dizia.

Em suas rondas ou passeios levava ele sempre por companheiro único um oficial de milícias, o Tenente João Moreira, conhecido pela alcunha de Amotinado pelos fáceis arrebatamentos de seu gênio ardente e desordeiro.

O Tenente Amotinado era de prodigiosa força, de ânimo inflamável e talvez o mais antigo capoeira do Rio de Janeiro, Jogando perfeitamente a espada, a faca, o pau e ainda e até de preferência a cabeçada e os golpes com os pés.

Não se temia de dois ou de dez inimigos, multiplicava-se na defesa e ataque pela agilidade. Tinha medo somente do Vice-Rei e do Ouvidor da comarca.

Era delicadíssimo como ufanoso escravo do Marquês de Lavradio, a cujo serviço não punha limites.

O Marquês, quando tinha de pescar por devoção ao belo sexo, aproveitava para isso os seus disfarces e horas de passeio noturno, pondo em ridículo e abusivo tributo a baixa condescendência do Tenente.

À noite e a prazo dado, batendo de leve à porta que havia de se abrir a sinal de ajuste, se fraca voz perguntava:

— Quem é?...

— Tenente Amotinado, respondia sempre o Marquês.

E o Tenente não protestava.

Durante alguns meses por isso, e pelos falsos boatos que se faziam espalhar para explicação de amorosas travessuras, cujo mistério era malguardado, ou por acaso descoberto, o Tenente Amotinado gozou na cidade do Rio de Janeiro imerecida celebridade de feliz conquistador de invejados amores e de traquinas beija-flores inconstantes em jardins pouco vedados.

Em breve, porém, o ardil foi conhecido e o Tenente Amotinado caiu no ridículo, que devia ser o seu primeiro castigo.

O povo que amava o seu bom e sábio vice-rei era indulgente, repetindo a rir as notícias indiscretas de suas travessuras amorosas, e, a zombar do cúmplice desbrioso, continuava já então malicioso a nomear como autor das noturnas traquinadas o Tenente Amotinado.

Mas todos sabiam bem que nome e que titulo se escondiam na pobre alcunha do Amotinado.

Mas acontecem coisas neste mundo!...

O Tenente João Moreira, o Amotinado, o companheiro ou caudatário do Marquês de Lavradio em seus passeios noturnos, era casado e tinha em sua companhia uma cunhada, Josefa, chamada em família Zezé, viúva há um ano.

A esposa do Amotinado era bonita e jovem; mas a Zezé, dois anos mais moça, mais bonita ainda.

O Tenente morava à Rua do Padre Homem da Costa, um pouco acima da dos Ourives, e sua casa de um só pavimento tinha além da porta da entrada uma outra em curto muro contíguo, a qual só se abria para o serviço dos escravos.

Ora, no último ano do seu vice-reinado o Marquês, apanhado uma noite na Rua do Padre Homem da Costa por súbita e grossa chuva, aceitou o oferecimento do Tenente, recolheu-se à casa deste, e viu Leonor, ou Lolora, como o marido e parentes a chamavam, e a Zezé, sua irmã.

O Marquês ficou encantado, e creio que só em lembrança dos serviços que devia ao Amotinado não pensou em apaixonar-se por ambas.

Enamorado da Zezé, e castigando assim e sem idéia de castigo as vis cumplicidades do Tenente, fez chegar seus recados e proposições amorosas à linda viuvinha, conseguindo comovê-la com a ternura prestigiosa e com a sua singular beleza de Vice-Rei.

Não sei como o Amotinado descobriu o namoro e os projetos do Marquês, e pôs-se alerta para impedir que o vice-real namorado penetrasse em sua casa.

O cem vezes baixo e aviltado cúmplice de entradas noturnas em casas alheias não queria graças pesadas na sua: com outro qualquer teria logo posto fim à história, rompendo em escandaloso conflito do seu costume; com o vice-rei, porém, o caso era outro, e o Tenente sabia que a mais pequena cabeçada levá-lo-ia à forca ou pelo menos ao desterro, ficando não só Zezé mas também Lolora indefesas e à mercê do Marquês, e de outros depois dele.

O Amotinado não fez bulha na família, guardou o seu segredo, e esperou, zelando vigilante e desconfiado a casa.

O Marquês tinha, no entanto, chegado a sorrir a mais tenra esperança.

Uma noite o Tenente achou o Vice-Rei de cama em conseqüência de um resfriamento e em uso de sudoríficos.

— Tenente, disse o Vice-Rei com voz trêmula, eu hoje não posso sair; vai rondar até à meia-noite, e vigia bem o Jogo da Bola e a cadeia. Amanhã às oito horas vem dar-me parte do que houver.

O Amotinado saiu.

Às onze horas da noite em ponto, o Marquês, disfarçado em oficial de marinha, parou na Rua do Padre Homem da Costa junto à porta do muro contíguo à casa do Tenente e bateu de leve cinco vezes.

Uma voz comprimida e como ansiosa perguntou de dentro.

— Quem é?...

O Marquês respondeu sorrindo:

— Sou o Tenente Amotinado.

O portão abriu-se, e o Marquês recuou um passo, vendo o Tenente que trazia na mão uma lanterna, e disse logo

— Perdão, Sr. Vice-Rei! eu sei que há dois Amotinados na cidade, mas nessa casa só entra sem pedir licença o Amotinado verdadeiro.

E trancou a porta.

O Marquês quase que se encolerizou, mas faltou-lhe o quase; porque imediatamente desatando a rir voltou sobre seus passos e foi dormir e sonhar com a linda viuvinha Zezé.

No outro dia recebeu às oito horas da manhã o Tenente, tratou-o com a maior bondade, riu-se, lembrando-lhe o desapontamento por que passara no portão, louvou-lhe o zelo pela honra da Zezé, e, a rir ainda mais, recomendou-lhe que tivesse cuidado com o falso Amotinado.

Continuaram como dantes em noites determinadas Os passeios noturnos do Marquês e do Tenente; este, porém, velava sempre em desconfiança daquele.

Algumas semanas depois, em noite de falha de ronda, o Amotinado, ouvindo o toque das dez horas no sino de S. Bento, correu para casa, porque era a essa hora que o Marquês costumava sair. Chegou, bateu à porta que Lolora veio abrir-lhe um pouco morosa; quando, porém, ia entrando, o Tenente sentiu leve ruído... voltou a chave, fingindo ter trancado a porta e esperou...

Quase logo a ponta do muro abriu-se, e por ela saiu um embuçado.

O Tenente deu um salto em fúria de tigre, mas estacou, murmurando com os dentes cerrados:

— Sr. Vice-Rei!...

— Aqui não há Vice-Rei, disse-lhe em voz baixa o Marquês; há dois homens; mas, se o achas melhor, há o falso Amotinado a sair pela porta do muro quando o verdadeiro entra pela porta da casa. E vê lá! não ofendas aquela que protejo!...

O embuçado afastou-se, deixando o Tenente em convulsão de raiva estéril.

Um vice-rei deveras fazia medo.

Mas às dez horas da noite ainda havia gente acordada na Rua do Padre Homem da Costa, e no dia seguinte toda a cidade sabia do caso das duas portas e dos dois Amotinados. Apareceram pasquins, compuseram-se cantigas e lundus, que eram as armas da censura popular do tempo, e alguns malévolos propuseram que a rua deixasse o antigo nome pelo do Amotinado.

O tenente celebrizou-se por brigas, em que ele só espalhou e espancou grupo de dez ou doze maldizentes.

E chegou então o novo Vice-Rei Luís de Vasconcelos.

O Marquês, despedindo-se do Amotinado a quem pagara sempre liberalmente a exagerada e servil dedicação, deu-lhe larga bolsa cheia de ouro; este, porém, pediu-lhe com ardor a patente de capitão.

O Marquês respondeu-lhe:

— Pobre Amotinado!... os postos do exército são do rei, que os confere a quem presta serviços a seu governo; os teus serviços foram prestados só à minha pessoa e eu não posso pagá-lo senão com o meu dinheiro. Vejo que uma bolsa foi pouco, e dou-te outra.

E foi buscá-la, e deu-lha, e o miserável aceitou-a.

O povo chorou, vendo partir para Lisboa o Marquês de Lavradio, a quem todos perdoavam as travessuras amorosas pelo bom, sábio, justo e benemérito governo.

A linda viuvinha Zezé ficou com seu dote que lhe aumentou bastante a boniteza para achar, como achou, marido de seu gosto e escolha.

Mas a Rua do Padre Homem da Costa não podia mais conservar a denominação envelhecida.

Continuava a teima dos zombeteiros e dos inimigos do tenente valentão e espalha-brasas em querer chamá-la Rua do Amotinado.

Acresceu logo depois a pretensão de alguns cônegos e de gente devota, que propunham a denominação de Rua do Cabido ou Rua da Sé Nova, em honra da Sé Nova que então, embora já desanimadamente, se construía no largo ainda desse nome, e onde se abria a Rua do Padre Homem da Costa.

E quando mais fervente se achava esta contenda, chegou de Lisboa nomeado ouvidor da comarca para o Rio de Janeiro o Dr. Francisco Berquó da Silveira (da família Berquó da qual foi membro ulteriormente o Marquês de Cantagalo, amigo dedicadíssimo e estimado de D. Pedro I), e logo ou pouco depois de sua chegada à capital do Brasil colônia foi morar em 1780 à Rua do Padre Homem da Costa, na casa de sobrado, que é hoje de n.º 62-A, e ocupada pela loja de papéis pintados do Sr. Anacoreta.

Um ouvidor de comarca era naquele tempo muito mais do que um simples mortal, era um potestade, que o povo respeitava mais do que hoje respeita ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça, e não havia quem deixasse de pôr-se de chapéu na mão quando ele passava.

Desde que o Dr. Berquó estabeleceu sua residência à Rua do Padre Homem da Costa; desfizeram-se as pretensões denominativas de Rua do Amotinado e do Cabido, e todos de acordo a chamaram Rua do Ouvidor.

E, portanto, o defunto Padre Homem da Costa, muito depois de morto, deu em 1780 à costa, não nos baixios, mas nas alturas do ouvidor da comarca.

1780!... não esqueçam a data, que marca o começo da época que tinha de ser tão gloriosa para a rua por excelência poliglota e enciclopédica, labirinto, vulcão, mina de ouro e abismo de fortunas, rainha dos postiços e das artes arteiras, fonte de belos sonhos, armadilha de enganos, et coetera, et coetera, et coetera, somando tudo - Torre de Babel.

Principiara sendo - Desvio - desvio do caminho reto, e essa origem não foi lisonjeira.

Passara de Desvio à Rua de Aleixo Manoel, plebeu raso, que, embora só de fidalgos, era barbeiro, segundo os meus velhos manuscritos.

Subiu, tomou solidéu e batina, entrou para a categoria do clero, elevando-se à Rua do Padre Homem da Costa.

E enfim exaltou-se, mostrando-se com a toga da magistratura em sua nova e última denominação de Rua do Ouvidor.

E notem: o ouvidor chamava-se Berquó, nome cujas letras combinadas de outro modo formam o presente do indicativo do verbo quebrar, isto é - quebro, o que quer dizer: não resisto, rendo-me.

O Berquó, o tal ouvidor, tinha pois nas letras do seu nome cabalisticamente encerrado o segredo dos encantos da rua, a que ninguém resiste, a que todos se rendem; porque todos quebram, e até se requebram escravos do seu poder.

Mas não o esqueçam, a rua começou a denominar-se do Ouvidor em 1780.

Mais dois anos passados, e fulgirá esplendíssimo e supermemorável o primeiro centenário da brilhante e famosa Rua do Ouvidor.

Que festa! quem viver em 1880 verá o que há de haver.

Em 1880 - o centenário!...

Preparai-vos, ó modistas, floristas, fotografistas dentistas, quinquilharistas, confeitarias, charutarias, livrarias, perfumarias, sapatarias, rouparias, alfaiates, hotéis, espelheiros, ourivesarias, fábricas de instrumentos óticos, acústicos, cirúrgicos, elétricos e as de luvas, e as de postiços, e de fundas, de indústria, comércio e artes, e as de lamparinas, luminárias, faróis, e os focos de luz e de civilização e vulcões de idéias que são as gazetas diárias e os armazéns de secos e molhados representantes legítimos da filosofia materialista, e a democrata, popularíssima e abençoada carne-seca no princípio da rua, e no fim Notre Dame de Paris, a fada misteriosa de três entradas e saídas e com labirintos, tentações e magias no vasto seio - preparai-vos todos para a festa deslumbrante do centenário da Rua do Ouvidor!...

A festa é de nosso dever e de nossa honra!...

Preparai- vos!

O centenário é em 1880!...

Se eu tiver paciência, animação e confiança, proporei no fim destas Memórias que ainda têm muito que dar de si, o programa da grande festa do primeiro centenário da Rua do Ouvidor.

Vejam lá se me deixam ficar mal.