Página:Os Fidalgos da Casa Mourisca.djvu/119

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entendêl-o. Que eu não posso ficar pelo meu coração, que ainda não experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero não luctar. Chamam-me uma rapariga de juizo. Não sei, não sei se o sou, não o posso saber nem quero. Ás vezes… desconfio de mim… receio… assusto-me. Sentia-me mais animosa d'antes. Parecia-me tão facil dominar-me!… Hoje… Não quero, não quero tentar; não quero expôr a tranquillidade do meu coração. Eu não me sinto senhora de mim mesma, quando elle me falla. É preciso acabar com isto, antes que augmente.

O dia passou sem outro episodio para Bertha, além da visita de algumas relações da familia, que vinham festejar a chegada da primogenita do venturoso casal.

Bertha conseguiu ser amavel com todos, apesar das impertinencias com que a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade.

Luiza não se fartava de admirar as maneiras e a eloquencia da filha, e não fazia senão alternar a vista entre o rosto de Bertha, que tão grata perspectiva era para o seu amor de mãe, e o dos seus interlocutores, onde espiava o reflexo da admiração, de que ella propria se sentia possuida.

Assim correu o dia.

O principio da noite foi consagrado á familia. Então é que chegou a vez a Thomé de perguntar, de querer saber, de fazer reflexões sobre o que ouvia; e Luiza, a sancta mulher, muitas vezes a responder por a filha, como quem já se achava mais adiantada em conhecimentos do que o marido.

Era já um pouco tarde e Thomé admirava-se da demora de Jorge, a quem mandára aviso para que viesse aquella noite, porque tinha que communicar-lhe a respeito de negocios que tractára no Porto e Lisboa. Ouviu-se porém o ladrar dos cães no quinteiro, o som da aldraba no portão e em seguida passos no lagedo das escadas, que conduziam ao patamar.

—Ahi vem o snr. Jorge—disse Luiza para o homem.—Conheço-o já pelo andar.

—É elle, é; e temos hoje bastante que fallar.