Página:Os Fidalgos da Casa Mourisca.djvu/22

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E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos cuidados seus.

Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do monte.

Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu:

-Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias! Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas.

E acrescentou, suspirando:

-Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez!

Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes, arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações.

Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo:

-Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves.

-Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte.

-Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado.

-Qual era então?

-Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella gente toda a trabalhar, a vida que alli vae!