Página:Os Fidalgos da Casa Mourisca.djvu/289

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Era um ultimo lampejo da sua elegancia passada.

Na maneira por que dirigia o eavallo não se notava, porém, a indecisão propria de quem vae ao acaso. Percebia-se que o fidalgo havia marcado destino áquelle passeio.

Tomou por atalhos de montes, evitando o centro da povoação rural, rodeou quasi toda a freguezia, e, seguindo pelas raias das contiguas e por desvios ermos de casas e de cultura, por chapadas maninhas e pinhaes, onde apenas se entrevia a choça do guardador, foi dar ao extremo opposto da aldeia, nas proximidades da Casa Mourisca.

E quanto mais perto se achava do abandonado solar, mais crescia o cuidado que o cavalleiro parecia ter em não ser observado e em dirigir por veredas pouco frequentadas a sua cautelosa carreira.

Entrou por fim em uma bouça pertencente á casa, collocada, porém, fóra dos muros da quinta e separada d'elles por uma especie de valia, que servia de caminho publico.

D'alli avistavam-se as arvores, os telhados, as torres, e as mais elevadas janellas da Casa Mourisca.

D. Luiz fez parar o eavallo e fixou melancolicamente os olhos no velho solar onde nascêra e onde apprehendia não poder morrer, como haviam morrido os seus avós.

Ia adiantada a tarde, e á luz desmaiada do sol, que declinava, crescia a tristeza do velho. Os olhos tinham um fulgor que denunciava lagrimas.

Era solemnemente triste aquelle quadro. A nobre figura do ancião, assim immovel, extatico, no ermo alpestre de um pinhal, a que os ventos da tarde arrancavam um gemer monotono e triste, com os olhos fitos nas ameias do seu palacio acastellado, d'onde as paixões o expulsaram, com o rosto illuminado pelos tremulos raios do sol, que desenhava distinctamente o rendilhado da rama dos carvalhos longinquos, atraz dos quaes se escondia, era uma personificação vigorosa do desalento e da saudade sob o colorido de desesperança que a velhice lhe dava.