Página:Os Fidalgos da Casa Mourisca.djvu/320

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— Pelo que vejo costuma fazer d'aqui a sua casa de lavor?

— Ai, não; raras vezes; hoje vim para esperar meu pae, que chega do Porto. D'aqui avista-se quasi meia legua de estrada. Vê?

— Ai, volta hoje o pae? Visto isso tambem o meu primo Jorge.

— Tambem... julgo que tambem.

Bertha não foi superior a uma leve turbação, ao ouvir o nome de Jorge e ao responder á baroneza. Quem tem no coração um segredo que de todos quer recatar, trahe-o muitas vezes, á força de disfarçal-o. Em cada olhar suspeita uma espionagem, em cada palavra uma allusão, e se a conversa se aproxima do assumpto, segue-a tremulo, como se segue o caminho que se abeira de um precipicio.

A baroneza, que tinha ainda os olhos fitos em Bertha com a curiosidade propria de uma mulher ao observar outra que sabe causar impressão nos animos masculinos, notou aquelle indicio de confusão, e não o desprezou.

— É um generoso rapaz o meu primo Jorge, não acha? — interrogou ella, demorando o olhar no rosto de Bertha.

Esta sentiu o perigo em que estava de trahir-se, e concentrando por isso toda a sua coragem, conseguiu levantar os olhos para fitar a baroneza e responder com apparente serenidade.

— É um nobre caracter, um rapaz a quem se deve respeitar como a um velho honrado.

— Respeitar como a um velho honrado, diz bem; amar como a um rapaz é que não é possível.

Bertha córou d'esta vez, respondendo:

— Não queria dizer isso.

— Bem sei que não. Mas digo-o eu. Jorge é um escravo do dever, e tão absorvido anda nos seus grandes e generosos projectos, que não ha para sonhos de amor logar n'aquella cabeça. As raparigas não podem amar um homem assim, em quem os olhares da mais affe-