Página:Os Fidalgos da Casa Mourisca.djvu/79

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uma curta conferencia, como o trocar da senha entre a guarda que se rende.

—Então o snr. Jorge está seriamente resolvido a tomar conta d'isto?

—Muito sériamente.

—Sim, senhores. Ha de ser bonito! Mas isto é até um caso de consciencia, e eu não sei se devo…

—Aplaque os seus escrupulos, frei Januario. A responsabilidade de um procurador expira no dia em que a procuração lhe é retirada pelo constituinte. Até ámanhã. Não se esqueça de me apresentar todos os livros da sua escripturação.

—E elle ahi torna! Ora que scisma! Eu sei lá de livros e de escripturação, homem? É boa! Isto não é nenhum armazem.

—Então geria de cabeça, frei Januario?—perguntou Mauricio, rindo.

—Geria, como entendia. Tomo os apontamentos precisos, mas lá de parlapatices e espalhafatos é que nunca fui.

—Bem; ámanhã examinaremos esses apontamentos; boa noite, frei Januario—concluiu Jorge. —Snr. frei Januario, muito boa noite—secundou zombeteiramente Mauricio. —Ide com nossa Senhora—murmurou o padre irritado.

Os dois rapazes sahiram, rindo dos amuos do egresso.

Este ficou só, e encetando um habitual complemento da sua substanciosa ceia, ia resmungando:

—Forte pancada a d'esta gente! Olhem agora o criançola… E como elle falla?! Parece já um senhor que todo lo manda! Os livros! Era o que me faltava! era ter livros para assentar contas com rendeiros e dividas da casa. Bem digo eu! Mas deixa estar que eu curo-o da mania de metter o nariz n'estas coisas. Dou-lhe uma esfrega ámanhã. Em elle vendo como a casa está embrulhada, perde logo o furor com que está de a administrar. Sempre lhe hei de fazer uma tal barafunda de papelada, que o rapazinho ha de ir dizer ao papá que não quer saber de contas. Ora deixa estar! Muito me hei de