Princípios da Filosofia do Futuro/V

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Princípios da Filosofia do Futuro (Princípios: 41 a 50)
por Ludwig Feuerbach
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Princípios: 41 a 50 [editar]


Princípio 41: As coisas “externas” não são o único objeto dos sentidos. O homem só é dado a si mesmo através dos sentidos – ele é para si mesmo objeto enquanto objeto dos sentidos. A identidade de sujeito e objeto, apenas pensamento abstrato na autoconsciência, é verdade e realidade efetiva somente na intuição sensível que o homem tem do homem.

Não só sentimos pedras e paus, carne e ossos, mas experimentamos também sentimentos, quando premimos as mãos ou os lábios de um ser sensível; percepcionamos pelos ouvidos não só o murmúrio da água e o rumorejo das folhas, mas também a voz ardorosa do amor e da sabedora; vemos não só superfícies refletoras e fantasmas coloridos, vemos também o olhar do homem. Por conseguinte, não só algo de externo, mas também interno, não só carne, mas também espírito, não só a coisa, mas também o eu é objeto dos sentidos. – Tudo é, pois, perceptível aos sentidos, se não imediatamente, pelo menos de um modo mediato; se não aos plebeus, aos brutos, pelo menos aos de sentidos educados; se não aos olhos do anatomista ou do químico, pelo menos aos olhos do filósofo. Por isso, é com razão que o empirismo deriva também dos sentidos a origem das nossas ideias; esquece-se apenas de que o objeto mais importante e mais essencial dos sentidos humanos é o próprio homem; que unicamente no olhar do homem sobre o homem se acende a luz da consciência e do entendimento. Por conseguinte, o idealismo tem razão quando busca no homem a origem das ideias; mas erra ao querer derivá-las do homem isolado, fixado como ser que existe para si, com alma, numa palavra: ao querer deduzi-las do eu sem um tu sensivelmente dado. Só mediante a comunicação, apenas a partir da conversação do homem com o homem brotam as ideias. Não é sozinho, mas apenas a dois que se chega aos conceitos, à razão em geral. Dois homens se requerem para a geração do homem – o homem espiritual e o homem físico; a comunidade do homem com o homem é o princípio e o critério da verdade e da universalidade. A própria certeza das outras coisas fora de mim é para mim mediada pela certeza da existência de um outro homem exterior a mim. Duvido daquilo que só eu vejo; só é certo o que o outro também vê.

Princípio 42: As diferenças entre essência e aparência, fundamento e consequência, substância e acidente, necessário e contingente, especulativo e empírico, não constituem dois reinos ou mundos – um mundo suprassensível, a que pertence a essência, e um mundo sensível, a que pertence a aparência; tais diferenças integram-se antes no domínio da própria sensibilidade.

Um exemplo tirado das ciências da natureza. No sistema botânico de Lineu, as primeiras classes definem-se pelo número dos filamentos. Mas já na undécima classe, onde ocorrem doze a vinte filamentos, e mais ainda na classe dos vinte elementos masculinos, a determinação numérica não desempenha qualquer papel; deixa de se contar. Temos pois aqui, diante dos nossos olhos, num só e mesmo domínio, a diferença entre uma multiplicidade determinada e uma multiplicidade indeterminada, entre uma multiplicidade necessária e uma multiplicidade indiferente, entre uma multiplicidade racional e uma multiplicidade irracional. Por conseguinte, não precisamos ir além da sensibilidade para chegarmos ao limite do puramente sensível, do unicamente empírico, no sentido da filosofia absoluta; devemos apenas não separar dos sentidos o entendimento para encontrar no sensível o suprassensível, isto é, o espírito e a razão.

Princípio 43: O sensível não é o imediato no sentido da filosofia especulativa, no sentido de que o profano, que está ao alcance da mão, o desprovido de pensamento, seja o que por si mesmo se compreende. A intuição imediata e sensível é, pelo contrário, posterior à representação e à fantasia. A primeira intuição do homem é unicamente a intuição de representação e da fantasia. A tarefa da filosofia e da ciência em geral consiste, pois, não em se afastar das coisas sensíveis, isto é, efetivas, mas em ir até elas – não em transformar os objetos em pensamentos e em representações, mas em tornar visível, objetivo, o que é invisível para os olhos comuns.

Os homens divisam primeiramente as coisas só como lhes aparecem, e não como são; nas coisas não as vêem a elas próprias, mas unicamente as suas ideias acerca delas, projetam nelas a sua própria essência, não distinguem o objeto e a representação que dele têm. A representação está mais próxima que a intuição do homem sem cultura, do homem subjetivo; na intuição, de fato, ele arranca-se de si mesmo, na representação, porém, permanece em si próprio. Mas o que se passa com a representação passa-se também com o pensamento. Os homens ocupam-se primeiro e durante muito mais tempo com as coisas celestes, divinas, do que com as coisas terrestres e humanas, isto é, muito mais longamente com a tradução das coisas em pensamentos do que com as coisas no original, na língua primigênia. Só nos tempos modernos é que a humanidade, como outrora na Grécia, após o prelúdio do mundo onírico dos orientais, é que regressou à intuição sensível, isto é, não falsificada e objetiva do sensível, do real, chegando assim ao mesmo tempo também a si mesma; com efeito, um homem que se ocupa apenas com a essência da imaginação ou do pensamento abstrato, é ele próprio unicamente um ser abstrato ou fantasmal, e não um ser real, verdadeiramente humano. A realidade do homem depende somente da realidade do seu objeto. Se nada tens, nada és.

Princípio 44: O espaço e o tempo não são simples formas fenomenais – são condições do ser, formas da razão, leis tanto do ser como do pensar.

O ser-aí é o primeiro ser, a primeira determinação. Estou aqui – eis o primeiro sinal de um ser real e vivo. O índex é o guia do nada para o ser. Aqui está o primeiro limite, a primeira separação. Eu estou aqui, tu além; somos exteriores um ao outro; eis porque podemos ser dois, sem nos prejudicarmos; há lugar suficiente. O Sol não está onde Mercúrio se encontra, nem Mercúrio está onde se encontra Vênus, o olho não está onde está o ouvido etc. Sem espaço, também não há lugar para sistema algum. A determinação local é a primeira determinação da razão, na qual assenta toda a ulterior determinação. É pela distinção dos lugares diversos – mas com o espaço põem-se imediatamente lugares distintos – que começa a natureza organizadora. É apenas no espaço que a razão se orienta. Onde estou eu? Eis a pergunta da consciência que desperta, a primeira pergunta da sabedoria mundana. A limitação no espaço e no tempo é a primeira virtude, a diferença de lugar é a primeira diferença entre o conveniente e o inconveniente, que ensinamos à criança e ao homem grosseiro. O homem grosseiro é indiferente ao lugar e faz tudo em qualquer lugar, sem distinção; o louco igualmente. Por isso, os loucos só vêm à razão quando de novo se religam ao lugar e ao tempo. Dispor coisas diferentes em lugares diversos, separar espacialmente o que é diferente no plano qualitativo, eis a condição de toda a economia, mesmo da espiritual. Não pôr no texto o que pertence à nota, não pôr no começo o que incumbe apenas ao fim, numa palavra, a distinção e a limitação espaciais fazem também parte da sabedoria do escritor.

Sem dúvida, trata-se aqui sempre de um lugar determinado; mas também nada mais se considera a não ser a especificação do local. E eu não posso isolar o lugar do espaço, se pretendo conceber o espaço na sua realidade. Só com o onde é que surge em mim o conceito de espaço. Onde? – É uma pergunta universal, vale para todos os lugares sem distinção e, no entanto, o onde é determinado. Com este onde põe-se ao mesmo tempo aquele onde, com a determinidade do lugar põe-se, portanto, simultaneamente a universalidade do espaço; mas, justamente por isso, o conceito universal do espaço é um conceito real, concreto, só na conexão com a determinidade do lugar. Hegel dá ao espaço, como em geral à natureza, apenas uma determinação negativa. Somente “estar-aqui” é positivo. Não estou além, porque estou aqui – este não-estar-além é, pois, uma consequência do estar-aqui positivo, rico de sentido. É somente um limite da tua representação, mas não um limite em si, que o aqui não seja o além, que uma coisa seja exterior à outra. É uma exterioridade que deve existir, que não se opõe à razão, mas se lhe conforma. Mas, em Hegel, esta exterioridade recíproca é uma determinação negativa, porque é a exterioridade do que não deve ser exterior – com efeito, o conceito lógico, enquanto identidade absoluta consigo mesmo, tem-se por verdade – e o espaço é justamente a negação da Ideia, da razão, negação na qual, pois, só se pode de novo reintroduzir a razão, negando-a. Mas longe de o espaço ser a negação da razão, é pelo contrário no espaço que justamente importa abrir lugar à Ideia e à razão; o espaço é a primeira esfera da razão. Sem exterioridade espacial, também não existe exterioridade lógica alguma. Ou inversamente: se, como Hegel, quisermos passar da lógica para o espaço onde não há distinção, também não existe espaço algum. As diferenças que existem no pensamento devem realizar-se como seres distintos; mas os seres distintos são espacialmente exteriores uns aos outros. Por conseguinte, a exterioridade recíproca espacial é que apenas constitui a verdade das distinções lógicas. Mas a exterioridade só pode pensar-se na sucessão. O pensamento real é pensamento no espaço e no tempo. A negação do espaço e do tempo (duração) insere-se sempre no interior do espaço e do tempo. Queremos economizar espaço e tempo unicamente para ganharmos espaço e tempo.

Princípio 45: Não nos é permitido pensar as coisas de outro modo a não ser como ocorrem na realidade efetiva. O que na realidade está separado, também se não deve identificar no pensamento. Excetuar o pensamento, a Ideia – o mundo inteligível dos neoplatônicos – das leis da realidade efetiva é o privilégio do arbitrário teológico. As leis da realidade são também leis do pensamento.

Princípio 46: A unidade imediata de determinações contrárias só é possível e válida na abstração. Na realidade efetiva, os contrários estão sempre conexos apenas mediante um termo médio. Este termo médio é o objeto, o sujeito dos contrários.

Nada é, portanto, mais fácil do que mostrar a unidade dos predicados contrários; basta abstraí-los do objeto, ou do seu sujeito. Com o objeto, esvanece-se a fronteira entre os opostos; perdem então todo o fundamento e toda a consistência, portanto coincidem imediatamente. Se, por exemplo, considero o ser apenas como tal, abstraio de toda a determinidade existente, tenho então naturalmente ser igual a nada. Só a determinidade constitui a distinção, a fronteira entre o ser e o nada. Se eu deixo de lado o que é, o que é que pode ser ainda este simples é? Mas o que vale para esta contradição e para a sua identidade é igualmente válido para a identidade dos restantes contrários na filosofia especulativa.

Princípio 47: O termo médio capaz de unir, de um modo conforme à realidade, determinações opostas ou contraditórias num só e mesmo ser – é apenas o tempo.

Assim acontece, pelo menos no ser vivo. Assim somente aqui, por exemplo no homem, se torna evidente a contradição de eu ser assolado e dominado ora por esta determinação – sentimento, intenção – ora por uma outra que é justamente contrária. Só quando uma representação expulsa a outra e um sentimento repele o outro, quando não se chega a nenhuma decisão, a nenhuma determinidade persistente, quando a alma se encontra numa alternância contínua de estados opostos, é que ela se encontra no suplício infernal da contradição. Se eu pudesse unir em mim, ao mesmo tempo, as determinações opostas, elas neutralizar-se-iam e esbater-se-iam como os contrários do processo químico que, nele presentes simultaneamente, perdem a sua diferença num produto neutro. Mas justamente querer agora e ser apaixonadamente o que, no instante seguinte, me recusarei, com a mesma energia, a querer e a ser, passar da posição à negação e vice-versa, ser afetado por ambos os contrários, mas de tal modo que cada um exclui o outro e, portanto, por cada qual na sua determinação plena e no seu rigor, eis o que constitui a dor da contradição.

Princípio 48: O real não pode representar-se no pensamento em números inteiros, mas apenas em números fracionários. Esta diferença é uma diferença normal – assenta na natureza do pensamento, cuja essência é a universalidade, diversamente da realidade, cuja essência é a individualidade. Mas impedir que nesta diferença não se chegue a uma contradição formal entre o pensado e o real só é possível se o pensar, em vez de progredir em linha reta, em identidade consigo mesmo, se deixa interromper pela intuição sensível. Somente o pensar que se determina e se retifica por meio da intuição sensível é um pensar real, objetivo – pensamento da verdade – objetiva.

O que, acima de tudo, importa saber é que o pensar absoluto, isto é, isolado e separado da sensibilidade, não vai além da identidade formal – a identidade do pensamento consigo mesmo; com efeito, embora o pensamento ou o conceito se determine como a unidade de determinações opostas, estas determinações são, contudo, de novo apenas abstrações, determinações de pensamento – por conseguinte, sempre mais uma vez, identidades do pensamento consigo, apenas múltiplos da identidade, de que se partiu como verdade absoluta. O outro, que a ideia a si contrapõe, não é, enquanto algo por ela posto, nem verdadeiramente, realiter, dela distinto, nem livre fora da ideia; quando muito, é apenas pro forma, simples formalidade, para mostrar a sua liberalidade; pois este outro da ideia é novamente a ideia, apenas não ainda na forma da ideia, não ainda posto, realizado como ideia. Assim o pensamento por si só não chega a nenhuma distinção positiva e oposição de si e, por isso mesmo, não possui também nenhum outro critério da verdade exceto o de que algo não contradiga a ideia e o pensamento, portanto um critério simplesmente formal, subjetivo, que não decide se a verdade pensada é também uma verdade efetiva. O único critério que a este respeito decide é a intuição. Importa sempre ouvir também o adversário. Mas justamente a intuição sensível é a parte contrária do pensamento. A intuição toma as coisas num sentido amplo, o pensamento no sentido mais estrito; a intuição deixa as coisas na sua liberdade ilimitada, o pensamento dá-lhes leis, mas estas são apenas com demasiada frequência despóticas; a intuição esclarece a cabeça, mas nada determina e decide; o pensamento determina, mas limita também muitas vezes a cabeça; a intuição por si não tem princípios alguns, o pensamento não tem por si nenhuma vida; a regra é a tarefa do pensamento, a exceção à regra é a tarefa da intuição. Por conseguinte, assim como só a intuição determinada pelo pensamento é a verdadeira intuição, assim também, inversamente, só o pensamento alargado e aberto pela intuição é o verdadeiro pensamento, o pensamento conforme à essência da realidade efetiva. O pensamento idêntico consigo e contínuo faz, em contradição com a realidade efetiva, girar o mundo em torno do seu centro; mas o pensamento interrompido pela observação da não uniformidade deste movimento, portanto pela anomalia da intuição, transforma, de acordo com a verdade, este círculo numa elipse. O círculo é o símbolo e o brasão da filosofia especulativa, do pensamento que apenas se apoia em si mesmo também a filosofia hegeliana é, como se sabe, um círculo de círculos, embora ela, em relação aos planetas, mas só a tal determinada pela empiria, explique a órbita circular como “a trajetória de um movimento uniforme”; a elipse, pelo contrário, é o símbolo e o brasão da filosofia sensível, do pensamento que se apoia na intuição.

Princípio 49: As determinações que garantem o conhecimento real são sempre apenas as que determinam o objeto pelo próprio objeto as suas determinações próprias, individuais – portanto não são universais, como as determinações lógico-metafísicas que, por se estenderem a todos os objetos sem distinção, não determinam objeto algum.

Com toda a razão, pois, Hegel transformou as determinações lógico-metafísicas de determinações de objetos em determinações autônomas – autodeterminações do conceito; de predicados, que elas eram na antiga metafísica, fez sujeitos, e deu assim à metafísica ou à lógica a significação do saber autossuficiente e divino. Mas é uma contradição transformar em seguida, apesar de tudo, nas ciências concretas, como também na antiga metafísica, estas sombras lógico-metafísicas em determinações das coisas reais, o que naturalmente só é possível com a condição ou de sempre associar determinações concretas, tiradas do próprio objeto, e portanto justas, às determinações lógico-metafísicas, ou reduzir o objeto a determinações totalmente abstratas, nas quais ele já não é reconhecível.

Princípio 50: O real na sua realidade e totalidade, o objeto da nova filosofia, é também só objeto para um ser real e total. A nova filosofia tem, pois, como seu princípio de conhecimento, como seu sujeito, não o eu, não o espírito absoluto, isto é, abstrato, numa palavra, não a razão por si só, mas o ser real e total do homem. A realidade, o sujeito da razão é apenas o homem. É o homem que pensa, e não o eu, não a razão. A nova filosofia não se apoia, portanto, na divindade, isto é, na verdade da razão por si só, apoia-se na divindade, na verdade do homem total. Ou: apoia-se, sem dúvida, também na razão, mas na razão cuja essência é o ser humano; por conseguinte, não numa razão sem ser, sem cor e sem nome, mas na razão impregnada com o sangue do homem. Se, pois, a antiga filosofia dizia – “só o racional é o verdadeiro e o real” –, então, ao invés, a nova filosofia diz – só o humano é o verdadeiro e o real; com efeito, unicamente o humano é o racional; o homem é a medida da razão.