Princípios da Filosofia do Futuro/VI
Principios: 51 a 60 [editar]
Princípio 51: A unidade do pensamento e do ser só tem sentido e verdade, se o homem se conceber como o princípio, o sujeito desta unidade. Só um ser real conhece coisas reais; só onde o pensar não se toma como sujeito para si mesmo, mas predicado de um ser real, é que o pensamento não está também separado do ser. A unidade do pensar e do ser não é, pois, uma unidade formal de modo que ao pensar em si e para si se acrescente o ser como uma determinidade; depende somente do objeto, do conteúdo do pensamento.
Daí se segue o imperativo categórico seguinte. Não queiras ser filósofo na discriminação quanto ao homem; sê apenas um homem que pensa; não penses como pensador, isto é, numa faculdade arrancada à totalidade do ser humano real e para si isolada; pensa como ser vivo e real, exposto às vagas vivificantes e refrescantes do oceano do mundo; pensa na existência, no mundo como membro do mundo, e não no vazio da abstração como uma mônada isolada, como monarca absoluto, como um deus indiferente e exterior ao mundo – podes, depois, estar certo de que os teus pensamentos são unidades de ser e de pensar. Como é que o pensamento, enquanto atividade de um ser real, não deverá captar as coisas e os seres reais? Só quando se separa o pensamento do homem e se fixa para si mesmo é que surgem as questões penosas, estéreis e, deste ponto de vista, insolúveis: como é que o pensamento acede ao ser e ao objeto? Com efeito, fixado para si mesmo, isto é, posto fora do homem, o pensar encontra-se fora de toda a conexão e relação com o mundo. Elevas-te ao objeto só quando te baixas, até fazeres de ti próprio um objeto de outro. Só pensas porque os teus próprios pensamentos podem ser pensados, e eles só são verdadeiros se superarem a prova da objetividade, se o outro, fora de ti, para o qual eles são objeto, também os reconhecer. Vês só enquanto tu próprio és um ser visível, só sentes, enquanto és igualmente um ser tangível. O mundo encontra-se aberto só para uma cabeça aberta, e as aberturas da cabeça são unicamente os sentidos. Mas o pensamento isolado para si mesmo, em si fechado, o pensamento sem sentidos, sem o homem, fora do homem, é o sujeito absoluto, que não pode nem deve ser o objeto para outrem e, por isso mesmo, não obstante todos os seus esforços, não encontra agora nem nunca uma passagem para o objeto, para o ser; como também uma cabeça, que está separada do tronco, é incapaz de encontrar uma passagem para a apreensão de um objeto, porque lhe faltam os meios de preensão.
Princípio 52: A nova filosofia é a resolução plena, absoluta, não contraditória da teologia na antropologia; com efeito, é a solução da mesma não apenas, como a antiga filosofia, na razão, mas também no coração, em suma, no ser total e real do homem. Nesta acepção, ela é apenas o resultado necessário da antiga filosofia – pois o que uma vez é resolvido no entendimento deve, por fim, resolver-se também na vida, no coração, no sangue do homem – mas ao mesmo tempo, só ela é a verdade da mesma e, claro está, como uma verdade nova e autônoma; efetivamente, só a verdade feita carne e sangue é que é a verdade. A antiga filosofia recaía necessariamente na teologia: o que se suprime apenas no entendimento, no simples conceito, possui ainda um contrário no coração; em contrapartida, a nova filosofia já não pode ser relapsa: o que ao mesmo tempo morreu no corpo e na alma já nem sequer pode regressar como fantasma.
Princípio 53: O homem de nenhum modo se distingue do animal só pelo pensamento. Pelo contrário, o seu ser total é que o distingue do animal. Sem dúvida, aquele que não pensa não é homem algum; não é porque o pensar seja a causa do ser humano, mas unicamente porque é uma consequência e uma propriedade necessária do mesmo ser humano.
Por conseguinte, não precisamos aqui sair do domínio da sensibilidade para reconhecer no homem um ser superior aos animais. O homem não é um ser particular como o animal, mas um ser universal, por conseguinte, não é um ser limitado e cativo, mas um ser ilimitado e livre; com efeito, a universalidade, a ilimitação e a liberdade são inseparáveis. E esta liberdade também não reside numa faculdade particular, na vontade, da mesma maneira que esta universalidade não se situa numa disposição particular da faculdade de pensar, na razão – esta liberdade, esta universalidade estende-se ao seu ser total. Sem dúvida, os sentidos animais são mais agudos do que os humanos, mas apenas em relação a coisas determinadas, necessariamente conexas com as necessidades do animal, e são mais agudos justamente por causa dessa determinação, desta restrição exclusiva a algo de determinado. O homem não tem o faro de um cão de caça, de um corvo; mas apenas porque o seu olfato pode abranger todas as espécies de odores, pelo que é um sentido livre e indiferente a respeito de odores particulares. Mas onde um sentido se eleva acima dos limites da particularidade e da sua vinculação à necessidade, eleva-se a uma significação e dignidade autônomas, teóricas: sentido universal é o entendimento, sensibilidade universal é espiritualidade. Mesmo os sentidos mais baixos, o olfato e o gosto, se elevam no homem a atos espirituais e científicos. O olfato e o gosto das coisas são objetos da ciência da natureza. Até mesmo o estômago do homem, por mais desdenhosamente que o olhemos, não é um ser animal, mas humano, porque é universal, não confinado a espécies determinadas de alimentos. É precisamente por isso que o homem se subtrai à fúria da voracidade com que o animal se lança sobre a sua presa. Deixa a um homem a sua cabeça, mas dá-lhe o estômago de um leão ou de um cavalo – ele cessa imediatamente de ser um homem. Um estômago limitado harmoniza-se também apenas com um sentido limitado, isto é, animal. A relação moral e racional do homem com o estômago não consiste, pois, em lidar com ele como ser bestial, mas como ser humano. Quem faz terminar a humanidade no estômago, rejeita o estômago para a classe dos animais, autoriza o homem a comer como uma besta.
Princípio 54: A nova filosofia faz do homem, com a inclusão da natureza, enquanto base do homem, o objeto único, universal e supremo da filosofia – faz, pois, da antropologia, com inclusão da fisiologia, a ciência universal.
Princípio 55: A arte, a religião, a filosofia ou a ciência são apenas as manifestações ou revelações do ser humano verdadeiro. Homem perfeito e verdadeiro é apenas quem possui o sentido estético ou artístico, religioso ou moral, filosófico ou cientifico – homem em geral somente é aquele que nada de essencialmente humano exclui de si mesmo. Homo sum, humani nihil a me alienum puto – esta frase, tomada na sua significação mais universal e mais elevada, é a divisa do novo filósofo.
Princípio 56: A filosofia da identidade absoluta inverteu completamente o ponto de vista da verdade. O ponto de vista natural do homem, o ponto de vista da distinção em eu e tu, em sujeito e objeto, é o ponto de vista verdadeiro e absoluto, por conseguinte, também o ponto de vista da filosofia.
Princípio 57: A unidade da cabeça e do coração conforme à verdade não consiste na extinção ou na supressão da sua diferença, mas antes no fato de que o objeto essencial do coração é também o objeto essencial da cabeça – por conseguinte, apenas na identidade do objeto. A nova filosofia, que faz do essencial e supremo objeto do coração, o homem, também o objeto mais essencial e supremo do entendimento, funda pois uma unidade racional da cabeça e do coração, do pensamento e da vida.
Princípio 58: A verdade não existe no pensamento, no saber por si mesmo. A verdade é unicamente a totalidade da vida e da essência humanas.
Princípio 59: O homem singular por si não possui em si a essência do homem nem enquanto ser moral, nem enquanto ser pensante. A essência do homem está contida apenas na comunidade, na unidade do homem com o homem – uma unidade que, porém, se funda apenas na realidade da distinção do eu e do tu.
Princípio 60: A solidão é finitude e limitação, a comunidade é liberdade e infinidade. O homem para si é um homem (no sentido habitual); o homem com o homem – a unidade do eu e do tu – é Deus.

