Quantas vezes do fuso se esquecia

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Quantas vezes do fuso se esquecia
por Luís Vaz de Camões

Quantas vezes do fuso se esquecia
Daliana, banhando o lindo seio,
tantas vezes de um áspero receio
salteado, Laurénio a cor perdia.

Ela, que a Sílvio mais que a si queria,
para podê-lo ver não tinha meio.
Ora, como curar o mal alheio
quem o seu mal tão mal curar sabia?

Ele, que viu tão clara esta verdade,
com soluços dezia (que a espessura
comovia, de mágoa, a piedade):

«Como pode a desordem da Natura
fazer tão diferentes na vontade
a quem fez tão conformes na ventura?»