Tratado Berakhot (Mishná)/I/1

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Mishná por Vários
Tratado Berakhot

Introdução[editar]

O Tratado Berakhot versa sobre as leis das bençãos e orações, iniciando com a questão da recitação do Shemá. A recitação do Shemá é um dos mais importantes preceitos da Torá, devendo ser realizada duas vezes ao dia (Devarim 6:7). O Shemá (Ouve) é a profissão de fé judaica na unidade do Criador e é composto pelos versículos de Devarim 6:4–9 (com a adição de uma linha do Talmud, Pesachim 56a), Devarim 11:13–21 e Badmidbar 15:37–41. O nome Shemá Yisrael vem das duas primeiras palavras de Devarim 6:4.

Esta mishná traz as diferentes visões sobre a recitação do Shemá à tarde, conforme a interpretação dada aos termos "ao deitar-se" (Devarim 6:7).

Texto em hebraico[editar]

מֵאֵימָתַי קוֹרִין אֶת שְמַע בְעַרְבִית
מִשָעָה שֶהַכהֲנִים נִכְנָסִים לֶאֱכל בִתְרוּמָתָן
עַד סוֹף הָאַשְמוּרָה הָרִאשׁוֹנָה – דִבְרֵי רַבִי אֱלִיעֶזֶר
וַחֲכָמִים אוֹמְרִים עַד חֲצוֹת
רַבָן גַמְלִיאֵל אוֹמֵר עַד שֶיַעֲלֶה עַמּוּד הַשָחַר
מַעֲשֶה שֶבָאוּ בָנָיו מִבֵית הַמִשְתֶה
אָמְרוּ לוֹ לא קָרִינוּ אֶת שְמַע
אָמַר לָהֶם אִם לא עָלָה עַמּוּד הַשַחַר – חַיָּבִין אַתֶם לִקְרוֹת
וְלא זוֹ בִלְבַד אֶלָא כָל מַה שֶאָמְרוּ חֲכָמִים "עַד חֲצוֹת" – מִצְוָתָן עַד שֶיַעֲלֶה עַמּוּד הַשָחַר
הֶקְטֵר חֲלָבִים וְאֵבָרִים – מִצְוָתָן עַד שֶיַעֲלֶה עַמּוּד הַשָחַר
וְכָל הַנֶּאֱכָלִין לְיוֹם אֶחָד – מִצְוָתָן עַד שֶיַעֲלֶה עַמּוּד הַשָחַר
"אִם כֵן, לָמָה אָמְרוּ חֲכָמִים "עַד חֲצוֹת
כְדֵי לְהַרְחִיק אָדָם מִן הָעֲבֵרָה

Texto em português[editar]

Desde quando pode-se recitar o Shemá no entardecer ?

Desde o momento que os cohanim entram para comer da terumah até o fim da primeira vigília - palavras de rabi Eliézer.[1]

E os sábios disseram: Até a meia-noite.

Raban Gamliel disse: Até a saída do crepúsculo.[2]

E aconteceu que ao voltar seus filhos de uma festa

Disseram: Nós não recitamos o Shemá.

Disse a eles: Se o alvorecer não saiu ainda, vocês devem recitá-lo.

E não somente para este caso mas para todos os casos nos quais os sábios disseram : "Até meia-noite" [3]- o preceito pode ser entendido como "até a saída da aurora".

Queimar a gordura e os membros - o preceito é "até a saída da aurora".[4]

De tudo o que há de se comer no dia - o preceito é "até a saída da aurora".[5]

Se é assim porque os sábios disseram: "Até a meia-noite" ?

Para manter o homem longe do erro.[6]

Comentários e notas[editar]

  1. A terumah era a porção da produção na terra de Israel que deveria ser dada aos cohanim (sacerdotes)(Devarim 18:4). Os cohanim eram obrigados à comer a terumah em um estado de taharah (pureza), senão deveriam ser mortos (Vaikra 22:3). Por este motivo, os cohanim que estavam em estado de impureza (tumah) deveriam executar três passos para purificação: imersão em uma mikvé (piscina ritual), aguardar o anoitecer e ofertar um sacrifício no Templo. O terceiro passo não era necessário para o cohen comer a terumah. Com o anoitecer, ao sair das estrelas (Tzet hakokhavim), o cohen após receber a imersão poderia entrar na cidade (já que a mikvé usualmente se localizava fora dos limites da cidade) e comer a terumah. A mishná mostra que no momento em que os cohanim purificam-se, eles têm a obrigação da leitura do Shemá, a qual pode ser lida até o final da ashmura rishona (primeira vigília) (segundo rabi Eliézer). Há várias opiniões se a noite, é dividida em três ou quatro vigílias. A Gemara diz que Rabi Eliezer dizia baseado em três vigílias (de quatro horas cada), o que colocaria o fim da primeira vigília quatro horas apos o anoitecer.
  2. Raban Gamliel interpreta que o Shemá pode ser recitado durante todo o tempo em que é possível "deitar-se", i.e., toda a noite . No exemplo de seus filhos, Raban Gamliel demonstrou sua interpretação contrária à ideia dos sábios de que a maioria das pessoas se deitava até a meia-noite e mostrou a seus filhos que deveriam recitar o Shemá. Raban Gamliel ainda demonstra que sua interpretação concorda com a interpretação dos sábios, citando exemplos de que onde os sábios recomendavam "até meia-noite" tais poderiam ser executadas "até o amanhecer".
  3. Os sábios, no entanto, colocam até a meia-noite que seria uma posição intermediária que todos poderiam cumprir.
  4. Vaikrá 6:2
  5. Vaikrá 7:15
  6. Se fosse anunciado que o shemá poderia ser recitado até o amanhecer alguém poderia sentir-se tentado à recitar o shemá na última hora e deixar de cumprir o mandamento por um motivo qualquer. No entanto caso alguém recite o shemá depois da meia-noite mesmo assim cumpre o mandamento (ainda que não se recomende que isto se torne um hábito).