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Cartas de Marx a Kugelmann (9 de Outubro de 1866)
por Karl Marx
Publicado pela primeira vez em Die Neue Zeit, Stuttgart, 1901-1902.

Londres, 9 de Outubro de 1866

1 Modena Villas
Maitland Park, Haverstock Hill


Caro amigo,

Espero não ter de concluir que seu longo silêncio é devido à minha última carta, caso o tenha ofendido de algum modo. O caso deveria ser bem o contrário. Qualquer pessoa que esteja em francos em apuros às vezes sente vontade de desabafar. Mas somente o faz com pessoas em quem ele tem especial e excepcional confiança. Asseguro-lhe que meus problemas domésticos inquietam-me muito mais por serem um obstáculo à finalização do meu trabalho,[1] do que quaisquer razões pessoais ou familiares. Eu poderia me dispor a por fim a todo o problema amanhã se eu estivesse preparado para tomar alguma ocupação prática, ao invés de trabalhar pela causa. E igualmente espero que você não fique inquieto pelo fato do que nada pode fazer para aliviar meu fardo. Isso seria o mais insensato dos motivos.

E agora para algo de interesse geral.

Eu estava profundamente apreensivo com o primeiro Congresso de Genebra. No todo, porém, foi melhor do que esperava. Nós não previmos o efeito que teria na França, Inglaterra e América. Eu não poderia estar presente, nem o desejava, mas escrevi o programa para a delegação de Londres. Deliberadamente, restringi-o aos pontos que permitem acordo imediato e soma de esforços dos operários, e diretamente dão sustentação e ímpeto às exigências da luta de classe e à organização dos trabalhadores como classe. Os cavalheiros parisienses estavam com as cabeças cheias dos mais vazios clichés proudhonistas. Tagarelavam incessantemente sobre ciência e não sabiam nada. Rejeitam toda ação revolucionária, isto é, decorrente da própria luta de classes, todo movimento social concentrado, e portanto, todo aquele que pode ser alcançados por meios políticos (como a limitação, por lei, da jornada de trabalho). Sob o manto da liberdade e antigovernismo ou do individualismo antiautoritário esses cavalheiros, que por 16 anos suportaram o mais miserável despotismo, e ainda o suportam, na verdade pregam a economia burguesa vulgar, apenas idealizada à sombra de Proudhon! Proudhon causou enormes danos. Suas falsas críticas e oposições aos utópicos (ele próprio não é mais do que um filisteu utópico, ao passo que nas Utopias de Fourier, Owen, etc., existe o pressentimento e a expressão visionária de um novo mundo) atraiu e corrompeu primeiro a "jeunesse brillante", os estudantes, depois os trabalhadores, especialmente aqueles em Paris que, como comerciantes de luxo que são, sem saber estão vinculados ao lixo do passado. Ignorantes e levianos, arrogantes, falastrões, presunçosos, estavam à beira de estragar tudo, pois afluíram ao Congresso em números bem fora de proporção ao número de seus membros. Em meu relatório darei um discreto safanão neles.

Fiquei excessivamente contente com o Congresso dos trabalhadores americanos, que ocorreu no mesmo horário em Baltimore. A senha lá era a organização para a luta contra o capital, e, curiosamente, a maioria das questões que encaminhei para Genebra também foram levantadas lá, pelo correto instinto dos trabalhadores.

O movimento da reforma aqui, que foi posto pelo Conselho Central (quorum magna pars fui),[2] assumiu agora enormes e irresistíveis dimensões. Sempre mantive-me atrás dos bastidores e não me preocupei com o assunto desde que esteve no caminho correto.

Seu,

K. Marx


Á propos:

http://www.marxists.org/archive/marx/works/1866/letters/66_10_09.htm

[editar] Notas

  1. Marx se refere ao O Capital
  2. Em que desempenhei grande papel

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