A Alma do Lázaro/II/XIX

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A Alma do Lázaro por José de Alencar
Segunda Parte: O Diário, 12 de abril de 1752


Apareceu esta noite.

Como costumava, rezou a sua oração da tarde, e ficou no terrado com os olhos engolfados no horizonte.

Eu que me havia escondido atrás de um coqueiro, para não assustá-la outra vez, como a visse distraída, criei ânimo para chegar-me e vê-la de mais perto.

De repente voltou-se ela e pondo em mim seus olhos, que me deixaram transido e quedo, sem acordo para fugir, quando tudo eu dera para sepultar-me ali na terra, e subtrair-me à sua vista.

Ela, em vez de esquivar-se, como antes fizera, reclinou-se ao balaústre, e começou a desfolhar os botões da roseira, soltando à fresca brisa do mar as pétalas que vinham farfalhar-me no rosto.

Por instantes fiquei sem outro sentido, que não fosse uma delícia como nunca tive, nem cuidei que se pudesse gozar na terra, pois me parecia estar no céu, afagado pelas asas dos serafins do Senhor, a brincarem-me entre os cabelos e a borrifarem-me as faces de angélicos sorrisos.

Eis que no meio desse êxtase de ventura, caí em mim arrojado ao abismo da minha miséria, como Satanás submergido nas trevas pela mão do Sempiterno!

Lembrou-me quem eu era, e o horror de mim mesmo espancou-me daqueles lugares.

Ainda o trago comigo! Ah! mãe, porque não estás aqui a meu lado para reerguer-me desta abjeção em que me sinto. Tua palavra me daria força para exaltar esta alma abatida. Ao calor de teu seio, creio que se havia de regenerar esta natureza pusilânime.