A Alma do Lázaro/II/XXII

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A Alma do Lázaro por José de Alencar
Segunda Parte: O Diário, 20 de abril de 1752


Infame sou eu, que de minha hediondez ousei erguer os olhos para a mais bela das criaturas de Deus.

Como foi isto?... Como foi que me não acometeu o horror que ainda me transe neste momento? Por que me não fulminastes, Deus de Misericórdia, quando sem tento de mim, transpus a distância que me separava dela?

Mas não fui eu, que morreria ao primeiro passo... A insânia que me arrancava a mim mesmo, apoderou-se deste esqueleto vil, e arrastou-o miseravelmente ao sopé do terrado.

Ao ver-me ali perto de si, Úrsula debruçada à balaustrada, começou a desfolhar as. rosas sobre minha cabeça, rindo faceiramente de sua travessura..

Disto não tenho mais que uma vaga e tênue reminiscência, pois meus espíritos ainda estavam nesse momento alheios de mim com a grande torvação.

Colhia ela as rosas que me atirava e eu recolhia em meu seio. Correram assim as horas da noite, sem que as sentisse.