A Alma do Lázaro/II/XXIII

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A Alma do Lázaro por José de Alencar
Segunda Parte: O Diário, 24 de abril de 1752

Todas as noites, as tenho passado naquele doce enlevo!

Ali, próximo a ela, sinto-me como outrora quando me recolhias em teu regaço, mãe, e à força de carinho me acalentavas a dor horrível.

Como teus braços outrora, cinge-me o olhar de Úrsula, e me envolve. As folhas das rosas, que ela esparge sobre mim, são carícias tão doces como eram teus beijos, mãe, quando derramavas em meu seio o bálsamo santo da tua alma.

Horas e horas ficamos ali, mudos a olhar-nos, eu repassando-me de sua imagem, ela talvez admirada, em sua ingênua isenção, do meu estranho pasmo.

Ontem, sem o sentir, rompeu-me da seio o seu nome, que meus lábios repetiam submissos, uma e muitas vezes, como as palavras de uma oração. Interrompeu-me a voz de Úrsula.

— Acha bonito meu nome?

Naquele instante não atinei o sentido das palavras, tão absorto fiquei a ouvir a voz melodiosa que falava. Mas quando entendesse, podia eu exprimir em linguagem o que se passava em meu ser, e pronunciar seu nome?

Movi a cabeça maquinalmente como se dissera: sim.

— E o seu? Qual é? perguntou-me ainda.

Meu nome?... Há no mundo para os desgraçados como eu outro nome que não seja o de miserável?... Tive outrora um; nem já me lembro qual fosse, pois há tanto tempo que ninguém o chama! Para ti, mãe, eu era o filho; para o mundo, o lázaro!

Não se abriram meus lábios, porém com o gesto supliquei-lhe silêncio.

Teve ela sombra do horrível mistério, que reclinou a fronte merencória? Não; se a menor suspeita passasse em seu espírito, a houvera espavorido.

Sua tristeza foi sem dúvida por não ver satisfeito seu desejo. As crianças são assim, tiranas e absolutas em seus caprichos.