A Alma do Lázaro/II/XXVI

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A Alma do Lázaro por José de Alencar
Segunda Parte: O Diário, 29 de abril de 1752

Não pude acabar ontem. Embruteceu-me o desespero, se não é que empederniu-me; pois nem gemer eu podia como a besta quando sofre...

Que medonho transe!

Tinha-me eu embuçado na sombra das árvores, que serviam de manto escuro, e não deixavam que ela entrevisse mais do que um vulto. Meu semblante, se o descobrisse à claridade da lua, não resistiria à hedionda catadura do maldito!

Do seio da terra, que é o meu só regaço, mãe, depois que perdi o teu, onde me conchegava no delírio da dor; dás entranhas da noite, onde se gerou o aborto de peste que eu sou, estava alheio de mim na contemplação de Úrsula.

Eis rasga-se a escuridão e vomita sobre mim uma chama do inferno. Alaga o rúbido clarão todo o arvoredo, e cinge-me de uma labareda sinistra.

Corro; mas além está o luar alvacento, que amortalha-me em fantasma. Volvo esvairado sobre os passos, e entro de novo na flama vermelha que me persegue como a língua de Satanás.

Nisto surge o corpo alquebrado de um velho e afasta-se horrorizado.

— É o lázaro!... É o lázaro!...

Ainda ouvi o grito de angústia que despedaçou a alma de Úrsula, mas vindo doutro mundo diverso daquele onde eu estava. Do mais não soube, até as alvoradas que me acharam estremunhando na vasa onde eu jazera o resto da noite; da noite dos outros, que não desta contínua e perpétua que se estende sobre minha vida.

Mas até o sono do jazigo me rouba a sorte ímpia.