A Divina Comédia/Purgatório/XXVI

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XXVI


Entre os luxuriosos e os que pecaram contra a natureza Dante encontra o poeta Guido Guinicelli, ao qual exprime a sua profunda admiração. Guido lhe aponta o poeta provençal Arnaud Daniel, que o saúda em versos provençais.

Enquanto irmos a borda costeando.
Um após outro, o Mestre repetia:
“Eu te previno, vai com tento andando!?

O sol pela direita me feria;
Purpureava a luz todo o poente:
Do céu o azul de branco se tingia.

Co?a sombra minha ainda mais rubente
Parece a flama; e as almas, que passavam,
Notando-a davam-me atenção ingente.

Nessa estianheza ensejo deparavam
Para, entre si, conversação travarem.
“Não é fictício o corpo seu” — falavam.

Quando podiam, mas tendo cuidado
Avançavam por mais certificarem,
O fogo expiatório em não deixarem.

— “Tu, que vais após outros colocado,
Mostrando ser, não tardo, respeitoso,
Responde: em fogo e sede ardo, abrasado.

“Não sou eu só de ouvir-te desejoso:
Quantos vês da resposta sentem sede
Mais que Etíope da água cobiçoso.

“Diz-nos como o corpo teu parede
Oponha desta sorte à luz do dia:
Não te colheu da morte acaso a rede?” —

Uma sombra falou-me. Eu pretendia
Logo explicar; porém fui distraído
Pelo que então de novo aparecia.

Pelo caminho andando escandecido,
Outra grei ao encontro veio desta:
Atalhei-me, em mirar pondo o sentido.

De parte a parte se dirige presta
Uma alma a outra; osculam-se e em seguida
Vão-se, contentes dessa breve festa.

Assim da negra legião saída,
Em marcha, toca em uma outra formiga,
Por saber do caminho ou sorte havida.

Separando-se após a mostra amiga,
Antes que o giro sólito transcorra
Cada uma grei em brados se afadiga.

— “Sodoma!” — clama a última — “Gomorra!”
E a outra: — “Entrou Pasifae na vaca,
Por que à luxúria sua touro acorra.” —

Como grous, de que um bando se destaca
Para os Rifeus e o outro pra o deserto,
Pois calma ali e frio aqui se aplaca,

Uns se vão, outros vêm; voltando, ao perto
O hino se renova, e o pranto e o brado,
Que tem, qual mais convém, efeito certo.

Os mesmos, que me haviam perguntado,
De mim como inda há pouco, se acercaram:
Stá desejo nos gestos desenhado.

Vendo ainda o que já manifestaram,
— “Sabeis vós, que tereis de glória em dia,
Paz que os vossos martírios vos preparam,

“Que inda não jaz meu corpo em terra fria;
Comigo vem na própria compostura,
Com seu sangue e seus membros” — lhe dizia.

“Minha cegueira aqui a luz procura:
Lá no céu santa Dama há conseguido
Que eu, vivo, por aqui me eleve à altura.

“Dizei-me (e seja em breve concedido)
Quanto anelais, no céu, que é de amor cheio
E em que espaço mais amplo está contido!

“Para que eu tenha de narrá-lo o meio,
Quem fostes e também que turba é aquela,
Que como hei visto ao vosso encontro veio.” —

Se o pasmo seu o montanhês revela,
Quando rude e boçal vê de repente
Quanto pode encerrar cidade bela,

Na grei não foi o efeito diferente.
Tornando sobre si, porém, do espanto,
Que se esvai logo em peito preminente,

— “Ditoso tu, que vendo o nosso pranto” —
Respondeu quem primeiro há perguntado —
“Alcanças ao viver ensino santo!

“Inquinaram-se aqueles no pecado,
Porque César outrora, triunfando,
Rainha, em vitupério, foi chamado.

“Eis por que se acusavam se apartando,
Contra si de — Sodoma! alçando o brado,
Do fogo à pena o opróbrio acrescentando.

“Hermafrodito foi nosso pecado;
Mas tendo as leis humanas transgredido
De brutos no apetite desregrado,

“Por nossa injúria o nome é repetido,
Quando partimos, da mulher impura,
Que em bestial figura besta há sido.

“Se queres, vendo a nossa nódoa escura,
Do nome de cada um ser instruído,
Não sei, nem tempo para tal nos dura.

“Mas o meu te farei bem conhecido;
Vês Guido Guinicelli: o crime expia
Por se haver inda a tempo arrependido.” —

Quais, ante a fúria em que Licurgo ardia,
Os filhos dois achando a mãe, ficaram,
Tal senti, sem correr viva alegria,

Quando o nome essas vozes declararam
Do pai meu e do pai de outros melhores,
Que em doce metro amores decantaram.

Sem falar, sem ouvir perscrutadores
Longamente olhos meus o contemplaram:
Vedavam-me acercar do fogo ardores.

Depois que em remirá-lo se enlevaram,
Ao seu serviço declarei-me presto,
E solenes promessas o afirmaram.

— “Imprimiu tal vestígio o teu protesto” —
Tornou — “no peito meu agradecido,
Que fora além do Letes manifesto.

“Se hei de ti a verdade agora ouvido,
O que di?no me fez do sentimento,
Que tens na voz, nos olhos insculpidos?” —

E eu: — “Das rimas vossas o concento,
Que, enquanto usar-se do falar moderno,
Salvas hão de viver do esquecimento.” —

— “O que te indico, irmão” — tornou-me terno
(E seu dedo outra sombra me apontava)
Mais primor teve no falar materno.

“Nos versos, nos romances superava
A todos: stultos só dizer ousaram
Que o Limosim aquele avantajava.

“Pelo rumor verdade desprezaram,
E, como arte e razão desconheceram,
Sem fundamento opinião formaram.

“Assim muitos outrora procederam
Com Guittone e o seu nome hão proclamado;
Mas verdade alfim todos conheceram.

“E pois que o privilégio hás alcançado
De entrar nesse mosteiro portentoso,
Por Cristo, como abade governado,

“Um Pater Noster diz por mim piedoso;
Quanto mister havemos neste mundo,
Onde ato algum não há pecaminoso.” —

“Por dar lugar ao spírito segundo,
Já próximo, no fogo desparece.
Qual peixe, quando imerge de água ao fundo.

Acerquei-me da sombra que aparece,
E disse que ao seu nome apercebia
Meu desejo o lugar que assaz merece.

Logo assim livremente me dizia:
— “Tão cortês vosso rogo é, que escutando,
Me encobrir não quisera ou poderia.

“Arnaldo sou, que choro e vou cantando,
Triste os erros passados meus lamento,
E o fausto dia estou ledo esperando.

“E peço-vos pelo alto valimento,
Que da escada a eminência ora vos guia,
Que em tempo vos lembreis do meu tormento.”

E, após, ao fogo apurador se envia.