A Luneta Mágica/IV/IV

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Visão do Bem, Capítulo IV


Que mal pode vir do bem?

Devo abster-me da visão do bem depois de haver experimentado uma vez as sensações mais deliciosas, a suavíssima consolação que ela assegura ?

O armênio me aconselhou que me abstivesse da visão do bem, declarando-a tão perigosa como a visão do mal; eu porém involuntariamente já infringi esse preceito do mágico...

Se há perigo na visão do bem, já pois inadvertidamente me expus a ele...

A falta, a desobediência estão cometidas...

Ainda mais: o armênio afirmou que hoje mesmo eu desobedeceria aos seus conselhos, e assim aconteceu sem que da minha parte houvesse intenção premeditada.

Portanto o que aconteceu tinha de acontecer.

Não seria estulta vaidade pretender levantar-me contra a fatalidade, resistir à lei da magia?

E a visão do bem me foi tão agradável!

Se eu não pude vencer o encantamento da visão do mal, que me fazia sofrer tanto, como poderei triunfar do encanto da visão do bem, que é tão deleitosa?...

Eu não sei se estou sofismando para me enganar a mim próprio, imaginando, inventando escusas e desculpas com o fim de serenar a minha consciência, que escrupulosa me repete os conselhos do armênio; sei porém e confesso que a curiosidade, um desejo irresistível me impelem com a mais viva força para o gozo da visão do bem, que já me encheu a alma de felicidade e de contentamento.

Eu sinto que há verdade e enlevo, beatificação da vida, amor da terra e dos homens, sorrir do coração, luz do céu iluminando a terra na visão do bem.

Quaisquer que sejam os perigos a que me arrisque pela visão do bem, de boa vontade os arrostarei.

E impossível que eu me torne desgraçado por ver o bem.

Perdão, armênio! doravante vou desobedecer-te intencionalmente.

Visão do bem! eu te quero, eu te adoro, eu te bendigo, e te aceito para guiar-me no caminho da vida.