A Luneta Mágica/V/V

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Epílogo, Capítulo V


Não posso dizer o que se passou durante meia hora ou mais; porque eu nada vi, nada podia ver, pobre míope quase cego que eu era.

O armênio procedera a uma operação mágica não sei como, nem em que altar de cabala improvisado à luz do sol e no alto do Corcovado.

Ouvi piar de aves, silvos de serpentes, conjurações do armênio que me pareciam sair ou do seio da terra, ou de profunda gruta, senti frio de gelo e calor de fogo ardente; em seguida reinou silêncio, e em breve o mágico lançou-me ao pescoço um trancelim que suponho ser de arame que enlaça a luneta pelo competente anel, onde, como vim a saber depois, estava gravado em letras microscópicas o nome— raro.

— Fixa a luneta! gritou-me com sua voz ronca o armênio.

Obedeci, e fixando a luneta mágica, vi diante de mim o mágico melancólico e carrancudo, e o meu amigo Reis agradável e risonho.

O armênio voltou-nos imediatamente as costas, e desapareceu logo, descendo apressado a montanha.

O Reis abraçou-me: e disse:

— Aquele homem é irresistível; adivinhou o ato de loucura que o senhor ia praticar, e prometeu-me salvá-lo sob duas condições, de que não quis prescindir: a primeira foi que eu conviesse em ser-lhe dada uma terceira 6 última luneta mágica, que teria a visão do bom senso; a segunda que eu consentiria em expor à venda no meu armazém lunetas mágicas com a visão do bom senso.

— E o meu amigo...

— Poderia eu hesitar, quando se tratava de impedir o seu suicídio? .. Comprometi-me a tudo; mas consegui do armênio três concessões.

— Quais?

— Que ele faria suas operações mágicas fora da minha casa; que ficaria em sigilo o que o senhor porventura observasse por meio da visão do bom senso; e que exclusivamente aos meus fregueses e amigos de intima confiança eu pessoalmente e só eu cederia, vendidas ou doadas, as lunetas mágicas do bom senso, ficando ainda a meu arbítrio a exigência de segredo, até que provas irrecusáveis do forçado encantamento experimentado por diversas pessoas, excluíssem qualquer suposição de credulidade pueril.

— Portanto o armênio começa enfim a convencê-lo.

— Ainda não; mas é um homem extraordinário. Quer ver? Acertou pelo seu o meu relógio; marcou precisamente a hora em que eu devia chegar ao alto do Corcovado, e encontrá-lo, lançando-lhe ao pescoço a sua nova luneta, e eu cheguei aqui exatamente à hora precisa, e no momento em que o armênio alargava com as mãos o cordão da luneta acima da sua cabeça e o fazia logo descer ao seu pescoço!...

— E se soubesse ..

— Perdão; saberei tudo depois. Agora urge satisfazer a dois empenhos, um meu, e outro nosso.

— O seu antes do nosso: qual é? ..

— Promete-me o sigilo, a que o armênio não se opõe? .

— Pela minha gratidão e amizade juro guardá-lo.

— Obrigado! disse o Reis apertando-me britanicamente a mão

— E o nosso empenho? ..

— Não o adivinha?... são onze horas da manhã e ainda não almoçamos ... eu apenas tomei café às três horas da madrugada.

— E eu não ceei ontem, e estou morrendo de fome .. desçamos para a cidade.

— E lá almoçaremos, jantando.

Pusemo-nos alegremente a caminho.

Apesar da fome devoradora que sentia, reconheci que é menos fatigante e desagradável descer do que subir às montanhas, exceto, exceto sempre, mas exceto somente, quando se trata das alturas do governo.