Lendas do Sul/A M'boi-tátá

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Á Andrade Neves Netto

 
A M'boi-tátá
 
 
Meu caro Simões L. Netto

Agradeço não me haveres esquecido com a tua amizade e com o teu talento. A lendada «Boi-tátá», tambem conhecida dos nossos sertanejos, com variantes que muito a differençam da que escreveste, deve figurar no «folk-lore» gaúcho, onde já scintilla, accesa por ti, a velinha do «Negrinho do Pastoreio», á cuja claridade puzeste o meu nome. Prosegue, porque fazes trabalho de valor e muito me alegro por haver insistido com a tua modestia para que continuasses a colher, aqui, ali, essas flores eternas da Poesia do povo, fazendo com ellas o ramo que será um encanto para todas as almas e gloria para o teu nome. Abraço-te

teu

Coelho Netto

 
Rio 20-xi-09

A M’boi-tátá

I

 

Foi assim:
num tempo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia.

Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores da mataria.

Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo canjica insôssa; os borralhos estavam se apagando e era precizo poupar os tições...

Os olhos andavam tão enfarados da noite, que, ficavam parados, horas e horas, olhando, sem ver as brazas vermelhas do nhanduvai... as brazas somente, porque as faiscas, que alegram, não saltavam, por falta do sopro forte de bocas contentes.

Naquella escuridão fechada nenhum tapejára seria capaz de cruzar pelos trilhos do campo, nenhum fléte crioulo teria faro nem ouvido nem vista para bater na querencia; até nem sorro daria no seu proprio rastro!

E a noite velha ia andando... ia andando...

II

 

Minto:
no meio do escuro e do silencio morto, de vez enquando, ora duma banda ora doutra, de vez quando uma cantiga forte, de bicho vivente, furava o ar; era o téu-téu ativo, que não dormia desde o entrar do último sol e que vigiava sempre, esperando a volta do sol novo, que devia vir e que tardava tanto já…

Só o téu-téu de vez em quando cantava; o seu — quero quero! — tão claro, vindo de lá do fundo da escuridão, ia agüentando a esperança dos homens, amontoados no redor avermelhado das brasas.

Fora disto, tudo o mais era silêncio; e de movimento, então, nem nada.

III Minto:

na ultima tarde em que houve sol, quando o sol ia descambando para o lado para o outro lado das coxilhas, rumo do minuano, e de onde sobe a estrela d’alva, nessa ultima tarde também desabou uma chuvarada tremenda; foi uma manga d’água que levou um tempão a cair, e durou… e durou…

Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas

coleando os tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos, num; os passos cresceram e todo aquele peso d’água correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. E nessas coroas é que ficou sendo o paradouro da animalada, tudo misturado, no assombro. E era terneiros e pumas, tourada e potrilhos, perdizes e guaraxains, tudo amigo, de puro medo. E então!…

Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas, as cobras se enroscavam na enrediça dos aguapés; e nas estivas do santa-fé e das tiriricas boiavam os ratões e outros miúdos.

E, como a água encheu todas as tocas, entrou também na da cobra grande, a — boi-g uassú — que, havia já muitas mãos de luas, dormia quieta, entanguida. Ela então acordou-se e saiu, rabiando.

Começou depois a mortandade dos bichos e a boi-guassú pegou a comer as carniças. Mas só comia os olhos e nada, nada mais.

A água foi baixando, a carniça foi cada vez engrossando, e a cada hora mais olhos a cobra grande comia.

IV Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu.

A tambeira que só come trevo maduro, dá no leite o cheiro doce do milho verde; o cerdo que come carne de bagual nem vinte alqueires de mandioca o limpam bem; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no sangue tem cheiro de pescado. Assim também, nos homens, que até sem comer nada, dam nos olhos a cor dos seus arrancos. O homem de olhos limpos é guapo e mão aberta; cuidado com os vermelhos; mais cuidado com os amarelos; e toma tenência doble com os raiados e baços!…

Assim foi também, mais de outro jeito, com a boi-guassú, que tantos olhos comeu.

V Todos — tantos, tantos! que a cobra grande comeu —, guardavam entranhando e luzindo, um rastilho da ultima luz que eles viram do último sol, antes da noite grande que caiu… E os olhos — tantos, tantos! — com um pingo de luz cada um, foram sendo devorados; no principio um punhado, ao depois uma porção, depois um bocadão, depois, como uma braçada

VI E vai,

como a boi-guassú não tinha pêlos como o boi, nem escamas como o dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro grosso como a anta vai, o seu corpo foi ficando transparente clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boi-guassú toda já era uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos…

VII Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela primeira vez viram a boi-guassú tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamaram-na desde então, de boi-tátá, cobra de fogo, boi-tátá , a boi-tátá !

E muitas vezes a boi-tátá rondou as rancherias, faminta, sempre que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.

E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande corpo de serpente, transparente — tátá, de fogo — que media mais braças que três laços de conta e iam alumiando baçamente as carquejas… E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo, pois as suas lágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os olhos e a boi-tátá ainda cobiçava os olhos vivos dos homens, que já os da carniça enfaravam…

VIII Mas, como dizia:

na escuridão só avultava o clarão baço do c orpo da boi-tátá , e era por ela que o téu-téu cantava de vigia, em todos os flancos da noite.

Passado um tempo, a boi-tátá morreu; de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não lhe deram sustância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si entranhada tiveram quando vivos…

Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobre os montes pelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamas soltas, sobre as ossamentas desparramadas, o corpo dela desmanchou-se, também como cousa da terra, que se estraga de vez.

E foi então que a luz que estava preza se desatou por aí.

E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!

IX Minto:

apareceu, sim, mas veio de sopetão. Primeiro foi se adelgaçando o negrume, foram despontando as estrelas; e estas se foram sumindo no coloreado do céu; depois foi sendo mais claro, mais claro, e logo, na lonjura, começou a subir uma lista de luz… depois a metade de uma cambota de fogo… e já foi o sol que subiu, subiu, subiu até vir a pino e descambar, como dantes, e desta feita, para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.

X Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu, para nascer de novo: só a luz da boi-tátá ficou sozinha, nunca mais se juntou com outra luz de que saiu.

Ainda sempre se arrisca e só, nos lugares onde quanta carniça houve, mais se infesta. E no inverno , de entanguida, não aparece e dorme talvez entocada.

Mas de verão, depois da quentura dos mormaços, começa então seu fadário.

A boi-tátá , toda enroscada, como uma bola — tátá, de fogo! — empeça a correr pelo campo, coxilha abaixo, lomba acima, até que horas da noite!…

É um fogo amarelo e azulado, que não queima a macega seca nem aquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre, corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagando… e quando menos se espera, aparece, outra vez, do mesmo jeito!

Maldito! T’esconjuro!

XI Quem encontra a boi-tátá pode até ficar cego… Quando alguém topa com ela só tem dois meios de se livrar: ou ficar parado, muito quieto, de olhos apertados e sem respirar, até ir-se ela embora, ou se anda a cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande e atirar-lha em cima, e tocar a galope, trazendo o laço de arrasto, todo solto, até a ilhapa!

A boi-tátá vem acompanhado o ferro da argola… mas de repente batendo numa macega, toda se desmancha, e vai esfarinhando a luz, para emulitar-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.

XII Campeiro precatado! reponte o seu gado da boi-tátá : o pastiçal, aí, faz peste…

Tenho visto!
 

Á Alcides Maya

 
A Salamanca do Jarau