A Menina do Narizinho Arrebitado/I

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O somno á beira do rio
por Monteiro Lobato


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O SOMNO Á BEIRA DO RIO



N

AQUELLA casinha branca, — lá muito longe, móra uma triste velha, de mais de setenta annos. Coitada! Bem no fim da vida que está, e tremula, e catacega, sem um só dente na bocca– jururú... Todo o mundo tem dó d'ella: — Que tristeza viver sozinha no meio do matto... Pois estão enganados. A velha vive feliz e bem contente da vida, graças a uma netinha órfã de pae e mãe, que lá mora des'que nasceu. Menina morena, de olhos pretos como duas jaboticabas – e reinadeira até alli!... Chama-se Lucia, mas ninguem a trata assim. Tem appellido. Yayá? Nenê? Maricota? Nada disso. Seu appellido é "Narizinho Rebitado", – não é preciso dizer porque. Alem de Lucia, existe na casa a tia Anastacia, uma excellente negra
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de estimação, e mais a Excellentissima Senhora Dona Emilia, uma boneca de panno, fabricada pela preta e muito feiosa, a pobre, com seus olhos de retroz preto e as sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma cara de bruxa.

Mas apesar disso Narizinho quer muito bem á Sra. Dona Emilia, vive a conversar com ella e nunca se deita sem primeiro accommodal-a numa rêdinha armada entre dois pés de cadeira. Fóra esta bruxa de panno, o outro encanto de Narizinho é um ribeirão que passa no fundo do pomar, de aguas tão claras que se vêem as pedras do fundo e toda a peixaria miuda.

Não se passa um dia sem que Lucia vá sentar-se á beira d'agua, na raiz de um velho ingázeiro, alli ficando horas, a ouvir o barulhinho da corrente e a dar comida aos peixes. E elles bem que a conhecem! É vir chegando a menina e todos lá vêm correndo, de longe, com as cabecinhas erguidas, numa grande famiteza. Chegam primeiro os piquiras, os guarús barrigudinhos, de olhos saltados; vêm depois os lambarys ariscos de rabo vermelho; e finalmente uma ou outra parapitinga desconfiada. E nesse divertimento fica a menina até que a tia Anastacia appareça no portãosinho do pomar e grite com a sua voz socegada: — Narizinho! Vovó está chamando!

E assim vivem aquellas tres creaturas, lá no fundo do grotoão, muito socegadas da vida, sem inquietações nem aborrecimentos.

Certa vez, estando a menina á beira do rio, com a sua boneca, sentiu os olhos pesados e uma grande lombeira pelo corpo. Estirou-se na relva e logo dormiu, embalada pelo murmurinho do ribeirão. E estava já a sonhar um
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lindo sonho quando sentiu cocegas no rosto. Arregalou os olhos e, com grande assombro, viu de pé na ponta do seu narizinho um peixinho vestido. Vestido sim, pois não! Trazia casaco vermelho, cartola na cabeça e flôr ao peito: — uma galanteza! O animalzinho olhava para o rosto della com ar de quem não está comprehendendo coisa nenhuma.

Tão admirada ficou a menina da maravilhosa scena que reteve o folego, com medo de assustar o curioso, e assim permaneceu algum tempo até que a zoada de um insecto a distrahiu. Era um besourão que voava por cima da sua cabeça e que depois dumas tantas voltas veiu pousar-lhe na testa. Narizinho, arrepiada, ia espantal-o com um bom tabefe, quando notou que tambem elle estava vestido de gente, com sobrecasaca, oculos e bengalão. Conteve-se e ficou bem quietinha a ver em que dava aquillo. O besouro, notando a presença do senhor peixe, levou a mão ao chapéo e cumprimentou-o amavelmente:

— Ora viva, mestre Escamado! Como lhe vae a saúdinha?

— Assim, assim, amigo Cascudo. Lasquei hontem tres escamas do lombo e o medico receitou-me ares de campo. Vim tomar o remedio, mas aqui encontrei este morro que não é meu conhecido, e estou a parafusar que diacho de terra tão branca e lisa é esta. Será porventura marmore? disse, batendo com a biqueira do guarda-chuva no nariz de Narizinho.

O besouro, sujeitão muito entendido em questões de terra, pois vive
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a fazer buracos, agachou-se, ageitou no bico os oculos e depois de examinar a "terra" disse:

— Marmore não é. Parece antes borracha ou requeijão!...

— E estas plantinhas sem folhas? perguntou Escamado, mostrando as sobrancelhas.

— Devem ser varas de vime ou barbatanas, não vê como são flexiveis? Vou levar um feixinho dellas ao compadre Grillo para que me faça um balaio de costura.

— E eu outro, para Dona Aranha Costureira collocar nos espartilhos.

E puzeram-se os dois a tirar fios da sobrancelha de Narizinho. Cada "barbatana" que arrancavam era uma dorzinha aguda, e bem vontade teve a "terra" de varrel-os d'alli com uma tapona, mas tudo supportou, sem a menor careta, tão

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interessante estava achando a singular aventura. E ficou immovel, a espiar a manobra dos curiosos bichinhos entretidos na colheira das varas de barbatana, pensando lá comsigo:

— Esta é boa! Parece que virei baleia!...

Em seguida o peixinho, com o feixe de barbatanas debaixo do braço, desceu e principiou a examinar attentamente os labios e as faces da menina. Deante do nariz parou e, apontando-lhe para as ventas, disse:

— Ora aqui está uma tóca muito geitosa para um casal de besouros. Dois commodos, um para o marido, outro para a senhora besoura. Optimo !...

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— Geitosa ella é, disse o besouro, mas bom será que não more aqui algum maldicto escorpião!...

— Não creio, retrucou o peixinho. Os escorpiões mudaram-se para o outro lado do rio, onde ha muitos cupins velhos.

— Apesar disso, acrescentou o besouro, corre na bocca do povo que um delles anda por cá, assolando estas paragens. E bem pode ser que esteja escondido justamente nesta caverna.

— Não creio, disse o peixinho. Tenho uma boa policia que me informa dos menores passos desses monstros.

— Em todo o caso vejamos, disse prudentemente o besouro, sacudindo dentro da "tocca" o seu bengalão :

— Hu! Hu! Sae fóra, tinhoso!

Mas aconteceu que a bengala fez cocegas nas ventas da menina e ella, por mais que se expremesse, não poude conter um grande espirro: "Atchin!"
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Os dois bichinhos, pegados de surpreza, reviraram de pernas para o ar, cahindo um grande tombo no chão.

— Não disse? exclamou o besouro, erguendo-se e limpando com a manga o chapéo sujo de terra. Não disse que havia "coisa" ahi dentro? É a tóca do Escorpião Negro, não resta a menor duvida, e eu com raças de ferrão venenoso não quero historias, não! Até logo, amigo Escamado, sáre bem e seja muito feliz. Caspité!

E lá se foi pelos ares afóra, zumbindo que nem um aeroplano...



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peixinho, porem, era um guarú valente que nunca teve medo de cucas, e porisso alli continuou firme, cada vez mais interessado em decifrar o enigma. Pensou, pensou muito tempo, de mãosinha no queixo, e de repente, vendo a boneca ao lado da menina, bateu na testa, numa grande alegria:

— E esta! Pois não é que é Narizinho Rebitado, a nossa amiguinha de todos os dias? Bello encontro! Vou convidal-a a visitar o Reino das Aguas Claras. Empertigou-se todo, arrumou a gravata e gritou no ouvido della:

— O' de casa!

— Quem fala? respondeu Narizinho, fingindo não saber de nada.

— Sou eu, o principe Escamado, guarú de prata para te servir.

— E que queres tú, peixinho?

— Quero convidar a menina para conhecer os meus dominios, lá na cidade das Pedras Redondas, no Reino das Aguas Claras.

Narizinho, que não desejava outra coisa, bateu palmas de alegria e exclamou:

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— Com todo o prazer! Estou ás tuas ordens, amavel principe das Escamas de Prata.

Dizendo isto, ergueu-se, deu-lhe o braço, e seguidos pela Emilia, que, muito têsinha, ia atraz feito criada, foram-se os dois, como um casal de namorados, em direcção ao Reino das Aguas Claras.

Depois de muito caminhar, chegaram a uma grande pedreira, numa curva do ribeirão.

— A entrada do meu reino é por aqui, disse Escamado, apontando uma furna entre as pedras e dando a mão á menina para ajudal-a a subir. Entraram. Mas a escuridão era peior que a de uma noite sem estrellas, e Narizinho parou, cheia de medo. O peixinho sorriu e disse:

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— Os filhos dos homens só enxergam quando ha luz, mas os filhos das aguas são como as corujas: — tanto vêem no charo como no escuro. E puxou do bolso um vagalume de olhos accesos, pendurado num cabinho de arame. A caverna clareou á luz da lanterna viva, e Narizinho poude ver que se achava n'um corredor comprido, especie de tunnel, com uma porta ao fundo, fechada. Encostado nessa porta estava um sapo rajado, de espada á cintura, capacete na cabeça e lança na mão. Era o guarda do palacio. Mas dormia a somno solto, num regalo!

— É isto! exclamou o principe, furioso. Pago a mestre "Agarra - e - Não - Larga - Mais" cincoenta moscas por dia para me tomar conta desta porta e assim que sáio o ladrão ferra-me no somno! Mas desta vez me paga! disse preparando-se para acordal-o a ponta-pés.

— Não! Não! interviu Narizinho. Vamos antes pregar-lhe uma boa peça. Tiramos as armas desse dorminhoco e vestimol-o com a roupa da Emilia. Imagine o espanto delle quando acordar!

Escamado achou optima a idéa e, pulando os dois de contentes, puzeram-se a despir o sapo, muito devagarinho : depois amarraram-lhe á cintura o saiote de pintas vermelhas da Emilia, puzeram-lhe na cabeça a touca da boneca e, em lugar da lança, um guarda-chuva. Ficou tão engraçado o pobre sapo que a menina a custo continha as gargalhadas.

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— Vamos acordal-o agora, disse Escamado, pespegando-lhe um formidavel pontapé na barriga.

— Hum! gemeu o sapo, arregalando os olhos e abrindo a bocca, espantado de ver o principe em companhia d'uma menina desconhecida e d'uma senhora boneca muito envergonhada de achar-se em fralda de camisa. Escamado, muito têsinho, engrossou a voz e ralhou:

— Bella cousa, mestre Agarra. Vestido de mulher, você o guarda do palacio!

— Vestido de mulher? Eu? disse o sapo espantado.

— Mire-se neste espelho, disse o principe.

Só então o sapo percebeu a judiaria de que tinha sido victima. Ficou apalermado, a olhar para o principe, para a menina e para o espelho, sem nada comprehender do caso.

— Agora, por castigo, disse o principe, em vez das cincoenta
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moscas do nosso trato, vae engulir hoje cincoenta pedrinhas redondas, ouviu?

O sapo derrubou um grande beiço, e foi encorujar-se a um canto, muito desconsolado da vida, emquanto Narizinho ria a mais não poder.

Em seguida Escamado abriu a porta e, dando a mão á menina, introduziu-a numa grande sala onde havia um throno.

— E' aqui a sala do governo, onde dou audiencias aos meus subditos e distribuo justiça, castigando os máos e premiando os bons.

Sentou-se no throno e bateu, com um martellinho de prata, tres pancadas num gongo de bronze: pom! pom! pom! Immediatamente surgiu um destacamento de grillos fardados sob o commando do capitão Gafanhoto. Perfilaram-se todos e ficaram immoveis como se fossem de páu.

— Adeante-se! ordenou o principe. O capitão adeantou-se e veiu postar-se em frente do throno.
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— Que novidades ha no reino?

— Poucas, Magestade. Houve um crime na Tóca Preta. A rá verdolenga embriagou-se, e entrando em casa d'uma familia de baratas matou a barata-mãe, feriu gravemente a barata-pae e comeu todas as baratinhas-filhas.

— Mande enforcar a criminosa num galho do espinheiro grande. Que mais?

— Corre noticia de que o Escorpião Negro anda a rondar o reino, lá dos lados da Pedra Branca.

— Má nova! exclamou o principe, franzindo a testa. O Escorpião é o nosso peior inimigo. Precisamos reforçar as muralhas da fronteira. Que mais?

— Foram encontrados sem sentidos dois bagres amarellos, a boiar na lagoa pequena. Recolhi-os á enfermaria e lá estão sob cuidados do doutor Caramujo, que receitou purgante e suadouro.

— É isso mesmo. Que mais?

— Saberá Vossa Magestade que é só.

— Perfeitamente, disse o principe. Faz-se mister agora que o reino saiba da presença, entre nós, desta linda princeza de olhos negros, afim de que o povo e a nobreza lhe prestem todas as homenagens. Quero uma grande festa como nunca houve igual. Avise a côrte e dê as ordens necessarias, mas antes de nada, mande vir o coche real. O capitão saudou militarmente e sahiu acompanhado dos guardas.

Não demorou muito e uma carruagem appareceu á porta, puxada por tres parelhas de lambarys.

Servia de cocheiro um bello camarão de libré vermelha, muito leso no alto da boléa. Mal o principe e a menina entraram na carruagem, mestre Camarão estalou o chicote e os lambarys partiram como raios.