A Morgadinha dos Canaviais/XXII

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A Morgadinha dos Canaviais por Júlio Dinis
Capítulo 22


Dias depois das scenas descriptas no anterior capítulo, estava a morgadinha occupada a escrever n’uma das salas do Mosteiro, quando ouviu atraz de si correr o reposteiro da entrada.

Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta.

—­Retiro-me, se sou importuno—­disse a pessoa que entrára, e que ficára no limiar da porta.

Magdalena voltou-se então e reconheceu Henrique de Souzellas.

—­Ah! é o primo Henrique? Pode entrar.

—­Eu sei? Ha correspondencias tão delicadas, que demandam a applicação de todas as nossas faculdades, e a presença de um importuno...

—­Mas não se dá agora esse caso; nem quanto á delicadeza da correspondencia, nem quanto á importunidade do visitante.

—­Então utiliso-me da concessão.

—­Occupava-me a escrever áquelle pobre Cancella, para o tranquillisar em relação á filha. Pobre homem! Ainda se lhe não pôde obter fiança, apesar de meu pae tratar d’isso, a pedido meu. Ha quem trabalhe contra elle. E como ha de ter padecido na cadeia na incerteza em que está? Quem ha de dizer que n’aquelle corpo, robusto e forte, se aloja uma alma de tão delicados sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa da madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... É um modelo para seguir.

—­E como vae a pequena?

—­Mal. Estou aquí a mentir, fazendo conceber áquelle pobre homem esperanças, que eu mesma não tenho.

—­Que disse o cirurgião?

—­Nada animador.

—­Como capitulou a molestia?

—­Não sei quê de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca pude comprehender a necessidade que tem certa gente de conhecer a natureza da doença que lhes ameaça roubar uma pessoa querida. Perdel-a où salval-a, é a questão que me interessa. Tudo o maïs me é indifférente. N’uma pessoa doente vejo um espirito que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos peço que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas não quero saber o que é. Julgo natural ao sentimento o considerar assim a molestia e a morte.

—­Á maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na litteratura, prima. Mas a proposito do Herodes; deixe-me dizer-lhe que está sendo muito commentada na aldeia a violencia d’elle contra o missionario. É voz constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras d’aquella bem empregada sóva são-nos tambem concedidas inteiras. Imagine o clamor que por ahi vae!

—­Deixe clamar—­respondeu Magdalena, encolhendo os hombros.

—­Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me, quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia não sou muito bem tratado.

—­É bom acautelar-se. Não os irrite. Viu que não era prudente.

—­Não receie. Esta gente a final é cobarde.

—­Tanto peor. O inimigo cobarde é maïs para temer. Bem sabe. Foi uma desastrada ideia aquella da nossa ida ao sermão do missionario.

—­Parece-lhe? Eu não estou arrependido. Bastava-me, como recompensa, o ter presenciado o accesso de furor rábico do homem.

—­Vamos, primo Henrique; confessemos que a situação não foi das maïs agradaveis.

—­Sinto-a, principalmente por o incómmodo que tiveram as senhoras e talvez por esse episodio dar vigor á opposição, que alguem por ahi se interessa em organisar contra o sr. conselheiro.

—­Ah! pois trata-se d’isso?

—­Se se trata?! E muito sériamente. A portaria a respeito do cemiterio, a historia do sermão, e agora o episodio do Cancella, teem feito um grande mal.

—­Oh! se meu pae perdia!...

—­Não entendo essa exclamação, prima Magdalena. Ia jurar que era a expressão de um desejo.

—­E por que não? Se isso fôsse motivo para meu pae abandonar de uma vez para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus.

—­Conhece pouco ainda o coração humano, prima. Seu pae está votado á politica para toda a vida. Desengane-se. E se o prendesse n’esta aldeia, aquí mesmo faria a maïs deploravel, impertinente e inútil de todas as politicas, a politica local.

A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique dizia.

Henrique proseguiu:

—­Está organisado um club opposicionista na taberna de um tal Canada. O brazileiro capitaneia a phalange, os padres são os tribunos e a propaganda estende-se assustadoramente. É preciso olhar por isto e sobretudo não perder de vista o sr. Joãozinho das Perdizes, cujo voto seu pae tinha em grande conta, porque representa o de uma freguezia inteira. É de suppor que o requestem muito e... o homem é frágil. Já vê, prima, que eu tomo muito a sério os preceitos hygienicos, que me deu o meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou a interessar-me pelas questões locaes, como se aquí estivesse, ha annos.

—­E é um bom indicio de cura, pode crer.

—­E ainda tem empenho de me curar?

—­Empenho, todo; esperança é que menos.

—­Ó meu Deus! que sinceridade de medico tão cruel! Seja; escutarei a sentença com coragem. Diga-me o que pensa de mim. Ha muito que não falamos n’isto. A ultima vez que o fizemos, um tanto categoricamente, foi n’uma occasião bem critica. Julgo que o meu procedimento de então até hoje lhe terá feito conceber do meu caracter um não muito desfavoravel conceito. Bem vê que não abusei...

—­De quê?—­perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n’um gesto de altivez.—­É certo que tem em todo esse tempo dado provas de discreção, no que se mostrou maïs contricto que generoso. Pelo menos é assim que eu interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o.

—­Seja contricção, visto que assim o quer. Mas não lhe merecerá ella alguma misericordia para com o peccádor?

—­Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella só me obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem sempre demasiado delicadas, com que me mortifica.

—­Está sendo tão amavel!...

—­Perdôe, mas a sinceridade tem d’estas exigencias.

—­Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, primaMagdalena.

—­Vae maïs longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldía do mal, inda não desisti de cural-o.

—­Inda bem. E como? Ser-me-ha lícito penetrar no segredo do tratamento?

—­Ha já agora uma unica maneira de o salvar.

—­E é?...

—­Apaixonal-o.

—­Ah! n’esse caso estou salvo!—­exclamou Henrique, n’um impeto, que não pôde passar sem um sorriso da morgadinha.

—­Ouça. É preciso andar com tento na escolha do objecto d’essa paixão, sob pena de aggravar o mal em vez de minoral-o.

—­E como hei de escolher?

-De modo que lisonjeie a opinião que o primo tem de si proprio.

—­A opinião que eu tenho de mim! Se pudésse ser maïs clara...

—­De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma missão heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de uma vaidade de boa indole, que se lhe não pode levar a mal. Repugna-lhe a ideia da inutilidade, da insignificancia da sua existencia. Não se resigna ao papel de comparsa, ambiciona o de protector. Se o acaso, où uma inconsideração de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter igualmente forte, que, em constante opposicão, pretendesse provar-lhe que prescindia da sua protecção, grandes desgostos e amarguras o esperavam no futuro. Uma indole branda, dócil, fraca, um d’estes seres nervosamente delicados, que tremem ao verem-se sós, cheios de poeticas superstições, que tenha a dissipar; que se lhe apoie ao braço, como se n’elle encontrasse a coragem que não sente em si, e que, ao mesmo tempo, domine pela fraqueza e pela doçura, domine sem consciencia do imperio que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter d’estes é que deve procurar para salvar-se; só d’elle pode esperar a realisação da vaga ideia de felicidade, que todos concebem na vida.

—­E se essa theoria engenhosa fôsse verdadeira, parece-lhe que poderia encontrar á mão o tal anjo salvador, que precisa do meu braço para se apoiar?

—­Julgo que pode, e que já o teria encontrado, se pensasse sériamente nas necessidades do seu coração.

Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas do correio.

—­Trégoas á nossa conferencia, emquanto eu leio a carta de meu pae—­disse Magdalena, examinando a carta recebida.

—­Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos periodicos que chegaram.

E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as folhas de Lisboa.

Não tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha interrompeu a leitura, exclamando:

—­Ó meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto?

Ao ouvir estás palavras, Henrique desviou para ella os olhos.

Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commoção a carta do conselheiro.

—­Ha alguma má nova?—­perguntou Henrique, ferido por aquella expressão.

Antes, porém, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com ardor a leitura até o fim.

Henrique continuava a observal-a e cada vez maïs evidentes descobria n’ella os signaes de uma funda agitação. Ao findar a leitura, passou a mão pela fronte como para desviar uma ideia amarga.

—­Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a perturbar?—­perguntou Henrique, já assustado tambem.

—­Não sei bem; não posso ainda dizer a que se réfère meu pae; mas sinto-me interiormente sobresaltada, como se o adivinhasse.

—­Mas a final o que se diz ahi?

—­Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por certo doloroso.

Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as mãos.

N’esta carta queixava-se o conselheiro á filha de ter sido victima de um abuso de confiança commettido por alguem, que elle ainda não sabia dizer quem fôsse. N’um periodico de Lisboa fôra publicada por aquelles dias uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por não menor personagem politica do que o secretario intimo do ministro.

O proprio conselheiro confessava ser está carta demasiado compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional irritação que transparecia em todos os períodos, da que escrevêra á filha. O periodico que, para fins politicos, fizera a publicação, havia occultado os nomes, porém muitas circumstancias referidas tornavam inútil a discreção; e em Lisboa ninguem hesitou em aprontar as personagens entre quem se passara o facto. Durante uma das suas demoras na aldeia, recebêra o conselheiro essa carta; alli, no seio da familia, a confiança que depositava em quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como por hábito o era; fácil foi portanto o extravío. O conselheiro dizia á filha que era preciso descobrir o traidor, para evitar futuros abusos; e por isso, que se lembrasse de que o alcance da carta não era para todos comprehendel-o, e portanto não se limitasse a indagar entre os da baixa classe. «A vingança, concluia o conselheiro, de uma maneira mysteriosa, como de quem deseja e receia, ao mesmo tempo, fazer uma allusão—­a vingança, bem où mal fundada, obriga ás vezes os maïs nobres caractères a uma acção baixa e vil; entre os que por mim se possam julgar offendidos, é natural encontrar o criminoso.»

—­Esclareça-me este mysterio! disse Magdalena, consternada.—­De que se trata aquí?

—­Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem; é necessario descobrir o traidor por cautela. Além de que, para todos os que, como eu, teem entrada n’esta casa, é isto um mysterio em que a nossa honra está empenhada, porque v. ex.^{as} teem direito a alimentar suspeitas.

-Por amor de Deus!—­acudiu, interrompendo-o, a morgadinha.—­Não pronuncie essa palavra! Suspeitas! Esse envenenamento moral, que eu até aquí não conheci, quer meu pae que voluntariamente o contraia.

—­Seja envenenamento, muito embora, mas é um envenenamento salvador, prima, como o da vaccina; é um preservativo de traição.

—­Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido occulto! nos gestos uma expressão denunciadora! nos affectos uma intenção egoista! Oh! isto é horrivel! Mas... que carta é essa, meu Deus? Que correspondencia pode ter meu pae, que não deva vêr a luz do dia? Meu pae!... Ha por fôrça illusão n’isto! Meu pae não tem crimes; meu pae não tem acções que o envergonhem; meu pae pode franquear a todos as portas da sua casa sem receiar-se de indiscreções. Pois não é assim?

—­Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem criminosos...

—­A politica! Sim, é isso! Eu devia prevêr que essa palavra viria para explicar este mysterio! Por politica é-se cruel, por politica sacrifica-se um amigo, por politica força-se a consciencia, e depois... ella justifica tudo. Que obras são as obras politicas que precisam da sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir où salvar uma nação, pois para se tratar dos interesses de um povo, é sempre necessario o disfarce, a dissimulação, o mysterio?

—­Quando se não pode contar com a boa fé dos outros, perde sempre quem fôr escrupulosamente fiel á sua.

—­Mais valeria então abandonar por uma vez essa carreira cruel... Oh! ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa... deixe-m’as vêr... quero saber que carta é está.

Henrique procurou dissuadil-a. Um numéro avulso de um periodico, que não costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe já feito suspeitar que era esse o que publicava a carta em questão. Não fazendo do conselheiro tão subido e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso coração de filha, e para o seu caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente nobre, generoso e justo, o descobrir no pae uma d’essas máculas frequentes na vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que fôsse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. Não o conseguiu, porém. Magdalena, com aquella firmeza de resolução que energicamente se lhe revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a mão para receber os periodicos:

—­Deixe-me vêr, primo Henrique. Não é possivel que de meu pae se diga ahi alguma coisa que não devam ler os olhos de uma filha.

E quasi arrebatou das mãos de Henrique a folha, justamente aquella de que elle maïs receiava.

E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril.

Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia deMagdalena.

Viu-a tornar-se de repente maïs attenta á leitura; os olhos, que até alli vagueavam por diversas secções do periodico, fixaram-se n’um ponto; contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios; córou e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de si a folha com um movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o dominio de uma commoção profunda:

—­Ó meu Deus! E não ter um coração, como o d’elle, a fôrça precisa para fugir d’estes enredos! Isto é de enlouquecer!...

Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e examinou-a.

Tinha conjecturado bem.

O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem tão perfeito na vida politica e na vida social, como na vida de familia. Para Henrique, em quem havia muito se inoculára o scepticismo da época, impedindo-o de divinisar os homens, por maïs rodeados de prestigios que lhe apparecessem, não tinha o facto de que se tratava grande significação nem gravidade. O caso era o seguinte:

Tempos antes havia-se agitado nas cámaras uma importante questão politica; uma d’estas questões que servem para estremar os campos e descriminar os programmas dos partidos. Vacillar n’ellas é já trahir os principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de maïs avançadas ideias liberaes, tinha de antemão traçado por elle o caminho a seguir n’esta conjunctura, o circulo, fóra do qual não poderia combater sem apostasia; mas, como já atraz dissemos, o conselheiro não era já o homem que fôra nos primeiros tempos da sua carreira publica; perderà a fé nas utopias e nos principios abstractos, e trocava-os de barato por qualquer pequena vantagem positiva que pudésse obter, se não para si, para a localidade de que era representante. A logica partidaria sacrificára-a, sem remorsos, maïs do que uma vez, ao que, em linguagem não sei se parlamentar, se chama conveniencias politicas.

Déra-se maïs um exemplo d’esta flexibilidade de principios no conselheiro.

Comquanto membro da opposicão, e dos maïs temidos pela sua eloquencia, variados conhecimentos e vigor de discussão, não era elle de tão espinhosa moral que não tivesse amigos no seio da maioria, sendo até o proprio ministro um dos maïs intimos. No tempo da discussão, de que falamos, o ministro, que desejava afastar das cámaras todos os adversarios de importancia, não duvidou entrar em ajustes com o conselheiro. Este, que já não era homem para repellir com indignação taes factos, teve a astucia precisa para se aproveitar das contingencias. Entenderam-se.

Chegada a época da discussão, o conselheiro, que sempre se mostrou ardente adversario da medida ministerial, e de quem se esperava uma opposicão vigorosa e efficaz, pretextou subitos negocios a chamal-o á provincia, e partiu, promettendo voltar a tempo ainda de discutir a questão.

Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que inesperados negocios de familia o retivessem alli maïs tempo do que contava, e alentando-os de longe á lucta. No entretanto, a questão foi apresentada nas cámaras: oradores tibios e mal escutados acharam-se sós a combatel-a; apagadores officiaes e officiosos abafaram a tempo a discussão; e, quando o conselheiro voltou a Lisboa, só pôde protestar nos círculos politicos contra o resultado da votação e expender as razões que deveriam fazer repellir a medida.

Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o elegia; e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal fôra o preço d’ella.

Tudo isto trazia agora á luz a carta desencaminhada, que era do secretario do ministro, e que no seu conteúdo deixava vêr claramente as condições do pacto.

Esta publicação causou profunda sensação em Lisboa. A importancia politica do conselheiro soffreu com isso.

Atacavam-n’o os partidarios do governo, para declinarem d’este, quanto possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n’o os opposicionistas declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio.

Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem, invejosos que só almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora caia com elles o partido a que se filiam.

Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mãos dos taes; originou discussões e ataques violentos; e o conselheiro correu risco de se malquistar por causa d’ella com gregos e troyanos.

Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma significação dolorosa e triste que só desillusões, como as de Henrique de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impénitente, poderiam attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto.

A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de familia.

É que a moral é uma. O homem não pode dividir-se; os peccados sociaes de quem é virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n’esses mesmos lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da virtude, serão maïs tarde os seus proprios juizes, e que cruel julgamento para o coração de um pae! É justo que a patria peça contas dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que não sabem ser paes, filhos, irmãos e esposos; é justo que a familia exija que se seja fiel á prática e ás crenças que se professam, e castigue, pelo menos com lágrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para os actos domesticos.

Henrique procurou minorar o effeito que está leitura tinha produzido no animo da morgadinha por meio de algumas consolações, que uma indulgente moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava.

Percebeu porém, que, embora as manifestações do sentimento tivessem cessado já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado a profunda e penosa impressão que lhe ficára da leitura.

Como para fazer cessar aquelle genero de consolações, a que Henrique se julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse, em tom já apparentemente sereno:

—­Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas não se pronuncia claramente.

N’isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de manhã os fogões da casa.

Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu cunhado, levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e inconveniencia d’esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar de toda a prudencia e dissimulação n’esta pesquisa.

—­Aquí entre nós—­dizia Henrique—­vejamos em quem se pode, com plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem; um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de valor intrinseco; porém os ladrões de cartas como estás, são de outra especie e de intelligencia maïs apurada. Ora entre a gente que frequenta o Mosteiro...

E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para elle com um gesto espantado:

—­Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo excluir da lista dos indiciados, e n’esse caso deixo v. ex.^{as} livres para me instaurarem processo.

—­Ora essa, primo Henrique!—­exclamou D. Victoria.—­Era o que faltava! Nada, nada; não se cance; não tem que vêr. Aquillo foram os criados.

Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu attenção a este episodio.

Henrique proseguiu:

—­Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, porém, alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que n’estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que por vingança... Ora actos capazes de trazer estás animadversões a seu pae, prima Magdalena, só a questão do cemiterio, mas essa não importa a ninguem que tenha entrada aquí... Ha tambem as das expropriações, porém...

Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava, antes de enuncial-a.

—­Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o.

—­Diga, primo, diga—­acudiu logo D. Victoria.

—­A expropriação da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha áquella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores velhas...

—­Então julga que foi o Vicente?—­perguntou D. Victoria.—­Mas elle não vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo.

—­Não digo que fôsse elle, minha senhora—­disse Henrique, cujo embaraço augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante, como se lhe estivesse lendo o pensamento.

—­Então?—­insistia D. Victoria.

—­Mas—­proseguiu Henrique—­o velho exerce certa fascinação na gente da terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e alguem que tem aquí entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero seguir maïs adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse rejeitado com indignação por quem me escuta e attribuido a mesquinhos resentimentos da minha parte.

—­Faz bem em o abandonar, primo Henrique—­disse Magdalena, com severidade.—­Entre ser victima de uma traição e culpada de uma suspeita injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas maïs tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio, não são garantías bastantes para protéger um homem contra os ataques da suspeita, não quero entrar n’essa pesquisa inquisitorial que nada respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia; culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n’esse tribunal impío que quer arvorar.

—­Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode dar do proprio caracter.

D. Victoria não percebeu nada d’este rapido dialogo; por isso exclamou:

—­Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo! Quanto a mim, foram os criados, e d’isto é que ninguem me tira.

Abriu-se n’este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora das lições dos pequenos.

Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os dias ao Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e com Henrique, depois da scena que entre elles se passára na noite de Natal.

A morgadinha fitou por momentos n’elle os olhos; pareceu-lhe maïs pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como se até sentisse remorsos de ter escutado as allusões de Henrique sobre o caracter de um homem que ella se costumára a respeitar. Porque o leitor, cuja intelligencia é, sem lhe fazer favor, maïs perspicaz do que a de D. Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos termos trocados entre Henrique e Magdalena.

—­Muito bons dias, sr. Augusto,—­disse D. Victoria affavelmente—­então são horas de me vir aturar a pequenada? Não lhe invejo a vida. Sabe? De manhã até á noite a aturar creanças! Deus me livre!

—­Agora já não succède assim, minha senhora. Estou dispensado de parte das minhas obrigações—­disse Augusto, depois de cortejar as senhoras e Henrique.

—­Como?

—­Pois v. ex.^a não sabe que já foi nomeado outro professor para o meu logar?

—­Que me diz?

Em todas as pessoas presentes produziu sensação está noticia.

D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O gesto de Henrique tinha uma expressão particular.

—­Recebi ha dias a participação official—­continuou placidamenteAugusto.

—­Mas—­proseguiu D. Victoria—­o mano tinha aquí dito que o seu despacho estava seguro, que, além de ser de toda a justiça, elle o tomaria a seu cuidado. E então agora... Olhem, sabem que maïs? eu cada vez me entendo menos com está gente. Isto de politicos...

Magdalena inclinou a cabeça, suspirando.

—­Bem vê v. ex.^a—­disse Augusto, com lève tom de amargura—­que ás vezes ha grandes interesses sociaes dependentes do despacho de um modesto professor de instrucção primaria da aldeia, e portanto não se deve extranhar que um homem politico attendesse a elles antes de tudo.

Magdalena que, ao ouvir estás palavras, levantára os olhos, encontrou os de Henrique, que parecia procurarem os d’ella com intenção.

A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgôsto, que se lhe manifestou na contracção da fronte.

—­V. ex.^a dá-me licença que principie os meus trabalhos?—­disse Augusto.

—­Ai, quando quizer—­respondeu D. Victoria.—­Os pequenos estão na sala verde.

Augusto saiu.

D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e não se fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, apregoando o muito que aproveitavam os pequenos sob tão intelligente direcção.

—­Olhe que o Eduardito já escreve e já lê manuscripto como um homem—­dizia ella.—­Quer vêr? O sr. Augusto deixou aquí ficar a pasta; ha de ter alguma escripta do pequeño. Ora tambem vou vêr.

E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de mãe, foi buscar a pasta de Augusto e pôz-se a procurar n’ella a escripta do filho.

—­Não vejo ...—­disse ella, remexendo os papeis.—­Isto que é?... Ai, isto é uma escripta de Marianna... Ora veja.

Henrique fingiu examinar com attenção a escripta.

—­Aquí estão os themas francezes d’elle. Quer vêr? Eu d’isso não entendo, mas hão de estar bons.

E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma attenção.

—­Ora onde estará a escripta de Eduardo? Eu sempre queria que a visse. Isto... isto é... Ha de ser alguma carta, que elle anda a ler. Ora veja, primo; olhe que a lettra ainda não é das maïs faceis... Eu por mim não a leio... Quer vêr?

Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade dos filhos.

Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pôz-se a lêl-a no fim; cêdo, porém, começou a examinal-a com grande curiosidade; leu uma e outras das faces escriptas, e, ao acabar a leitura, estavalhe nos labios um sorriso entre de ironia e de triumpho.

Offerecendo á morgadinha a carta que lêra, disse-lhe, com um modo que a impressionou:

—­Veja se comprehende a significação d’esta carta, que estava na pasta do sr. Augusto, do amigo de seu irmão. A mim parece-me que as creanças não a comprehenderiam bem.

Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a ler.

Succedeu-lhe como a Henrique; cêdo a dominava uma anciosa curiosidade, que a obrigou a ler com rapidez até o fim.

Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao chão; escondeu o rosto entre as mãos e não pôde reter o pranto que lhe rebentava dos olhos.

D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta.

—­Que é isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina?

—­É que ha momentos, minha tia,—­respondeu Magdalena, fitando-a com os olhos arrazados de lágrimas—­em que eu não sei como se résiste á loucura; em que, para não duvidarmos de nós mesmos, é necessario duvidar da Providencia, que dizem que protege os bons.

E levantando-se n’esta agitação nervosa, saiu da sala, suffocada pelos soluços.

D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d’este episodio, que ella não podia comprehender.

Henrique respondeu simplesmente:

—­Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr. Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravío o sr. conselheiro se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa.

D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira significação da resposta.

—­Mas... n’esse caso... visto isso...

—­Visto isso, só o sr. Augusto pode explicar o mysterio que inda ha pouco nos preoccupava a todos. Os meus presentimentos malignos tinham infelizmente um fundo de verdade.

D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou:

—­Pois seria elle! Era d’elle que o primo ha pouco falava? Por está não esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n’estes santos! Uma coisa assim! Ora deixa estar que eu vou... Ahi está o pago que se tira de bem fazer! Ahi está! Veremos a cara com que elle me responde. Ora deixa...

—­Eu retiro-me—­disse Henrique, pegando no chapéo para sair.

—­Fique, primo, fique... Até é bom que ouça...

—­Perdão, minha senhora. É melhor que eu não fique. Ha razões para isso... Tudo deve passar-se entre v. ex.^a e elle, e, se me é lícito um conselho, bom será que não seja demasiado violenta.

Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se.

Não ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por quê? Não tinha feito o seu dever? Por acaso não era flagrante o delicto de Augusto e irrecusaveis as provas que o acaso contra elle ministrára?

Mas em nós todos se deve ter já passado um phenomeno moral, comparavel ao que se estava dando com Henrique. Occasiões ha em que, apesar de todos os argumentos da razão, apesar da conspiração de todas as provas a justificar-nos, persiste em nós uma voz instinctiva a avisar-nos de que commettemos um mal, formulando uma accusação.

Isto sómente não succède a quem tenha adormecidos os maïs generosos escrúpulos da consciencia; e este caso não se dava com Henrique.

D. Victoria ficou só na sala, meditando na maneira de confundir e castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo o dialogo que se ia seguir, encarregando-se ella propria de responder por Augusto.

Não se passou muito tempo que Augusto não viesse procurar a pasta que lhe esquecêra na sala.

—­Que procura?—­disse D. Victoria, que, ao vêl-o, parou junto da mesa.

—­Uma pasta que deixei aquí!

—­Será está?—­disse D. Victoria, mostrando-a.

—­É essa mesma—­respondeu Augusto, indo para buscal-a.

—­Como vão na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr. Augusto?—­perguntou D. Victoria, retendo a pasta.

—­Muito bem, minha senhora.

—­Já entenderam está carta?

Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente.

—­É provavel que já, minha senhora; ainda que não me lembro de haver escolhido está entre as que v. ex.^a me deu.

—­Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe pareceu difficil de maïs para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a imprimir para elles lerem melhor. Não posso consentir que entre n’esses gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a despeza que fez, para se mandar pagar.

D. Victoria tirava da raiva, que se apossára d’ella, uma ironia superior aos seus habituaes expedientes de espirito.

Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque não podia comprehender aquellas singulares palavras.

—­Diz v. ex.^a que...

Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico queHenrique deixára sobre a mesa, e maïs exaltada já, accrescentou:

—­Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda.

Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que fazia nem o que queria dizer tudo aquillo.

—­Mas, por amor de Deus, minha senhora,—­disse elle, jásobresaltado—­que quer dizer tudo isto?

—­Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de atraiçoar maïs alguem que o tenha favorecido, seja maïs cuidadoso em esconder as provas da sua villeza.

—­Minha senhora!—­exclamou Augusto, fazendo-se pallido.

—­Fez mal em não nos ter prevenido antes do que tinha descoberto; nós ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir o lanço e ficarmos com a carta.

—­Oh, meu Deus! pois suspeita-se...

E Augusto, quasi como louco, arrancou das mãos de D. Victoria a folha, e começava a lel-a; mas as nuvens que lhe passavam pelos olhos, a vertigem que lhe turbava a cabeça não o deixavam comprehender o que lia.

Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia:

—­Agora é que eu entendo o que queria dizer o primo Henrique. Sempre é um homem que sabe o que é o mundo...

Ao ouvir estás palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e scintillou-lhe o olhar de cólera:

—­Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar que o fizesse. É o pretexto. Minha senhora, ha aquí uma traição infâme, uma traição que eu não ousaria suspeitar de ninguem! Mas juro-lhe que...

—­Ha de dar-me licença de ir accommodar meus filhos—­disse D. Victoria, interrompendo-o friamente. E encaminhou-se para a porta.

Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido:

—­Vá, minha senhora, vá; mas se tem a essas creanças amor de mãe, não lhes ensine por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham habituado a amar e a venerar. Peço-lhe por ellas, maïs do que por mim. É uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar; vae-lhes envenenar para toda a vida o coração e talvez que contra si mesma veja voltar-se a desconfiança que lhes semeia tão cêdo.

D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; é certo, porém, que não ousou dizer aos filhos coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as singularidades do genio d’aquella senhora havia um fundo de bom senso, onde perfeitamente calaram as reflexões de Augusto.

É singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os olhos, commovida.

Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n’aquelle momento tivesse visto dissiparem-se todas as esperanças da sua vida. Lagrimas inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao vêr-se humilhado no seio de uma familia que elle respeitava, da familia d’aquella a cujos olhos maïs desejaria nobilitar-se, engrandecer-se, revestir-se de todos os prestigios.

Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu, porém, a reacção; n’aquelle caracter havia latente uma energia de homem.

—­Agora, maïs do que nunca, preciso de alento para não succumbir;—­exclamou elle, erguendo a cabeça e vindo-lhe ás faces o rubor da exaltação—­obriga-me a isso o nome honrado de meu pae, a santa memoria de minha mãe. A consciencia me dará forças para luctar com a intriga e com a calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao encontro, a descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador leal. E se ha justiça no Céo, hei de vencer! Não voltarei maïs a está casa, sem ser com a cabeça erguida; não pensarei maïs em ti, Magdalena, unica, suave imagem que ainda me offerecia vida, emquanto não saiba que no teu pensamento o meu nome não é o de um infâme.

Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta.

Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a turbação, curvou-se respeitosamente perante a morgadinha, e ia a retirar-se.

—­Espère,—­disse-lhe ella, estendendo-lhe a mão, e com profunda melancolía—­não saia sem se despedir de uma amiga que, apesar de tudo, o reputou sempre innocente.

Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no coração.

Magdalena, com as faces pallidas e as lágrimas nos olhos, continuava a estender-lhe a mão.

Augusto apoderou-se d’ella e cobriu-a de beijos e de lágrimas.

—­Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!—­exclamou elle—­precisava d’essas palavras para não enlouquecer.

—­Vá, Augusto, vá. Dentro em pouco tempo todos lhe pedirão perdão. Creio-o firmemente.

—­E eu não procurarei tornar a vêl-a, senão quando pudér justificar essa generosa confiança. Juro-lh’o.

As lágrimas de Magdalena não podiam maïs tempo conter-se-lhe nos olhos; iam soltar-se e já ella, para as occultar, desviava o rosto, quando Christina entrou na sala.

Christina, a quem a mãe acabára de contar o acontecido, parou a ver a scena e a commoção dos dois.

Augusto não se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra.

Magdalena deu largas á tristeza, que lhe pesava no coração, deixando correr livremente o pranto.

Christina correu a abraçal-a.

—­Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?—­exclamou Christina.

E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel ingenuidade:

—­Pois tu... amaval-o?

Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio.

E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas.