A Noite do Nacimento

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A Noite do Nacimento
por Anónimo
Vilancico publicado em Villancicos que se cantarão na Capella do muito alto, e muito poderoso Rey D. Afonso VI. Nosso Senhor. Nas Matinas da Noite do Natal. em 1666 (como Villancico 3).


ROMANCE.

A Noite do Nacimento,
Com muzicas, & galhofa,
Vieraõ da nossa Aldea,
Os pastores, & pastoras.
De Rozas trazem Capellas,
Em vez de cajado, & roca,
Porque quando nace Deos,
He certa a marè de Rozas,
Começàrão a balhar,
Com mil mudanças graciosas,
Que nos rusticos o gosto
He salça das cabriolas,
Chegàraõ todos alegres,
E vendo o Portal sem porta,
Olhando para o Minino,
Lhe cantàraõ estas trovas.

Estribilho.

Este Minino que nace
Diz que he milagre de Amor,
Ay meu Minino,
Ay minha vida,
Ay meu regalo,
Vem a pagar o que devo,
Que soberano favor.
Ay que ventura,
Ay que primores,
Que grande extremo,
Que soberano favor.

Coplas.

Este Minino que nace,
Vem a penar em Belem,
Grande fineza,
E por livrarme de mal,
Chorando diz que he meu bem,
Que grande gosto.
Este Minino que nace
Nas tyranias do frio,
Lastima grande;
Posto que o vedes tremendo,
He infinito no brio.
Que valentia!
Este Minino que nace
Nos braços de sua Mãy,
He cousa certa;
Que com ser taõ pequenino,
He tanto como seu Pay.
Ay que grandeza!
Este Minino que nace
Neste Portal, abatido,
Que desemparo!
A sua Mãy, & donzela,
Jà lhe vem como nacido,
Grande milagre!
Este Minino que nace,
Admiração dos Pastores,
Por dar me vida,
Quantos extremos promete,
Nacem de ser meus amores.
Divino Amante.
Este Minino que nace
Sobre as palhinhas deitado,
Grande humildade!
Inda que chora de frio,
De amores vem abrazado.
Que maravilha!
Ficai embora meu Lindo,
Que nos queremos partir,
Cruel auzencia!
E serà de vòs auzentes
Tudo chorar, & sentir,
Que saudades!
Tudo chorar, & sentir.

Estribilho.

Este Minino, &c.