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A Nova Aurora/1

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I

A rejeneração social

Era num dos extremos da cidade, em bairro dos mais pinturescos, e por entre as ruinas dos ranchos da outróra florecente Fazenda do Medeiros, que se erguia, no seu estilo sinjelo, a confortante caza de vivenda da grande chácara que o Marçal Pedreira encontrára chamando-se «Aurora», ao adquiri-la para sua morada.

Achava-se ella situada em local donde a vista abranjia fartamente o antigo e amplo dominio do senhor da Quinta do Marajá, com a sua fonte de cristalina agua entregue á serventia publica. Em pozição elevada, na perspectiva, a pequena ermida da Santa da festividade tradicional, com as suas duas torres muito alvas, ao lado do cazario pompozo, extremado pelo belissimo palacête do Poróróca, rezidencia do solitario antistite, ainda abatido do acerbo sofrer oriundo da campanha que lhe movêra o orgam dos interesses da sociedade moderna; á frente, a estatua de marmore branco do mais vultuozo lírico pátrio. Mais além, os negrejados paredões da «Caza do Navio» e de outras edificações inconcluzas, atestando,nas suas ruinas esboroadas,o trabalho frutificante e o zelo empreendedor de Medeiros, nas duas primeiras décadas do século XIX; ao nacente, a Gamboa do Mato, a cuja sitio se ia de constante, á cata de salubridade reconfortadora, beneficamente facultada pelas suas altitude e viração ventina; mais ao lado, a floresta, onde, de pouco palmilhar o pé humano, parecia silvestre, e se comunicava, pela parte sul, com o Mamoim, abrigando a sua secular fonte, condenada por imperdoavel desleixo, a escoamento completo; pelo lado norte, bem fronteira, a «Vitoria», a formoza chacara do solitario poeta do Allah errante, ostentando alto e extenso panejamento de gradís de ferro por sobre os muros pintados a vermelhão, paralelos ao vasto Tabocal, e guardando ciozamente a variegada coleção de arvorêdos frutíferos, em copados e verdejantes especimens; ainda proximo, o edificio da Cadeia, de arquitetura banal,em um immenso quadrilatero de altas parèdes, cobertas de espêsso limo por amontoados invernos.

Junte-se a tudo isso: os campos, que da Gambôa se prolongavam na sua arbustaria reverdecente de «Bôas noites» e «João de Puçá», dando pastajem ao gado do Ascanio, tanjido por pequenino tenor a desferir pelo bairro afóra o seu cantar sonoro e melodiozo; o braço do Anil, no vai e vem da maré, aumentando e diminuindo a munificencia das ilhotas, aqui e ali, mal escondendo o areial das praias do Calhau e do Araçaji em morros alvinitentes; Nazareth, com a sua capelinha carinhozamente festejada, resaltando todo um alvor de santidade; a porção de bancos de areia e pequenas coroas segmentarias da Minerva e os igarapés, ziguezagueando em direções varias—e teremos o empolgante panorama que da «Aurora» impressionava admiravelmente a vista do observador.

Era o mesmo sempre o brilho, fôsse á luz pura da manhã nacente, ou ao sol crecente, no zenit, ou ainda pelo crepusculo vespertino, quando, ás bandadas, garças, na sua alvura do gèsso, e guarás, todos tinjidos de rubro, pipiando alacres e ariscos, num esbater meticulozo e rapido d՚azas descrevendo curvas, ora alongadas ora curtas,contornavam os ares,—mais acima, parecendo perto das nuvens, mais abaixo, tocando á flôr d՚agua, —tornavam da faina quotidiana ao seu poizo, aos ninhos nas siribeiras entigueadas e no mangal florido e reverdecente.

Marçal Pedreira era o proprietario unico dessa chacara de edificação confortavel e cuidadozamente hijienica. O enorme terreno lateral mais o que, pelos fundos da caza, se estendia a perder de vista, tinham, no seu cultivamento esmerado, o produto da intelijencia e amor á terra arroteada de um descendente, em linha diréta, de antigos e abastados lavradores da rejião do majestozo Itapecurú, certo a em que maiormente se cultivára na época de florecer riquissimo da lavoura.

A fatalidade caíra célere nos seus maiores, morrendo prematuramente todos. De modo que o Marçal foi crecendo senhor de uma herança cada vez mais amontoada e garantidora de futuro despreocupado e ociozo a tão ilustre rebento dos não menos ilustres Pedreiras. Orfam de pai e mãi quando ainda não atinjira a adolecencia, passára pelas compressoras mãos de um tutor bastante apegado ao dinheiro e, até certo ponto, á cauza da ignorancia. Daí o ter sido a emancipação para o Marçal, como elle sempre narrava, uma coiza de pouca monta: se alcançára a maioridade, nada de mais lhe fizeram dando-lhe a posse do que de direito a si pertencia.

Marçal cra alto, elegante. O rosto levemente moreno e o nariz fino acuzavam as mesmas linhas corrétas dos Pedreiras nesse decendente, cuja cabeça principiava a grizalhar. Entrára na vida publica e social, alistando-se eleitor no partido liberal e recebendo as mãos duma matrona, tambem órfã de pai e mãi, sem eira nem beira e que, pelos janeiros carregados nos costados, poderia servir-lhe de mãi. Ao fim de um ano enviuvava, ficando-lhe desse matrimonio de doze mezes uma filha, a Cornélia, que passou a receber os cuidadoz de remotos parentes da finada, surjidos a quando se realizou o enlace.

Da politica, nada almejava o independente Marçal, que se mostrava de satisfação plena com a patente de capitão da Guarda Nacional, por elle de constante apregoada, e oriunda de uma dedicação extremoza que lhe votava o Carlos Ribeiro, chefe do partido a que se filiára, agremiação aliás sempre abraçada por todos os Pedreiras seus antecessores.

O seu apaixonamento pelas idéas do partido em que militava orgulhozamente,—elle o apregoava sempre, com lizura,—não ia a ponto de negar as grandes conquistas amplamente liberais que para o paiz lográra fazer o partido adverso —o conservador. Daí a sua admiração por Eusebio de Queiroz, o abolicionista do tráfego dos escravizados; pelo primeiro Rio Branco, o excelso paladino da lei do ventre livre, que desbravou o caminho á Abolição integral; e, finalmente, por João Alfredo, o chefe de gabinete a quem coube a gloria de coroar triunfantemente o grandiozo movimento nacional.

Enviuvando aos trinta anos de idade, o Marçal recebèra o golpe corajozamente, como mais uma fatalidade a acrecer ás muitissimas que de remotas éras vinham pezando sobre o tronco genealojico daquella abastada familia de lavradores itapecurúenses e de que elle era o penultimo rebento, pois contava a Cornélia como a unica herdeira dos seus bens de raiz e immoveis.

Não se quizera desfazer da «Aurora», havida principalmente pela salubridade do local onde situada, e provida, como ia sendo, dia a dia, de beneficencias multiplas, redundando em admiravel conforto, que a tornava de maior valia.

Proseguiu o nobre capitão no cultivo esmerado das uberrimas terras dominadas pela espaçoza e invejavel caza de vivenda. As enxadas e foices arroteavam o sólo em vigoroza continuidade. Ali, no vasto terreno da quinta, mantinha-se em frescura verdejante e cheiroza a hortaliça, que medrava em canteiros e mais canteiros simetricamente dispostos, sem falar na extensa plantação de agrião, que vejetava pelo refrescar ininterrupto das aguas a correrem do regato vindo de nacente mui distante.

Ao lado sul da «Aurora», ocupando enorme área de terreno, era a «baixa», onde, além de altas e esguias juçareiras pojadas de cachos, por entre lequeadas palmeiras de buriti, no ciciar agudo e cantante das suas ramajens, medrava no seu verdor marinho o capinzal, diariamente decepado aos feixes pelo serrote relinchante.

As rendas, do capinzal da «baixa» e da horta, custeavam folgadamente os zeladores do pomar e os horteleiros, cuidadozos cultivadores das terras.

Ficava a caza de vivenda da formoza chácara a uns vinte e tanto metros do portão principal da entrada. E nessa distancia corria um caramanchel, a «latada», por onde esgalhavam,havia anos, maracujázeiros, cuja ramificação se entrelaçava cobrindo até ás cimalhas da morada.

O sólo, debaixo desse caramanchel, era de ladrilho, tendo bancos de madeira fixados lateralmente. Nesse local, enfrentando e ladeando a caza de vivenda, era que sussurrava, com vivacidade, um arvorêdo frondozo, resaltando altamente lindo na sua dispozição combinada. As frutas pendiam dos galhos num sazonado cheirozo e cobiçante. Pés de abricó e abacate, esguios e muito altos, e sapotis, em arvores carregadas de tão aromatica fruta, brotavam em fartura que, pela grandiozidade, sómente se comparava á da goiaba e da tanjerina, da romà e da pitanga, da manga, produzindo de porfia com o tamarindo, que, aos cófos, ia atulhar o laboratorio da Botica Franceza, para a manipulação da saboroza e reconfortante pólpa. E seculares jaqueiras, com o pomo brotando desde o tronco, quazi que escondiam, com as suas distendidas e folhudas ramas, os cajueiros floridos. Era a frutaria em todas as suas variedades, a ostentar-se na beleza do seu arvoredo farfalhante, a aromatizar salutarmente a «Aurora».

Estabelecêra-se em tào deliciozo ponto uma «roda» de conversação noturna e domingueira. Nella se passavam a revista homens e coizas locais, em vivissimos comentarios. Jogava-se o sòlo, bebericava-se café e, uma vez ou outra, ceiava-se o peixe frito com farinha d՚agua, quando não se passava, por subita rezolução, a tomar pr՚ai uma barrigada farta de melancia.

O toque das nove horas, de vibração sonora e firme, no sino da Cadeia, cra o avizo de constante para a debanda dos causeurs. Apenas nas noites lunares era que a proza e o sólo se manitestavam mais demoradamente.

Marçal Pedreira tinha ali, na quinta, todas as noites e aos domingos, á luz do dia, este pessoal conversador: o Landerico Antunes, oficial mecanico na Uzina do Rapozo, sempre palrador e sempre pensando de acórdo com o Marçal, embora se saísse uma por outra vez com uns arremėdos de idéas socialistas, oriundas de leituras que, apezar de pouco assimiladas, o habilitavam suficientemente a poder afirmar, uma vez por outra, que a questão social nacèra com a humanidade e tem provocado, em todos os tempos, reivindicações mais ou menos violentas; o Romualdo Nogueira, amanuense apozentado da administração dos Correios e agora escriturário da fabrica Gamboa, de construção a concluir-se; o Camillo Souza e o Augusto Fonseca, mecanicos do mesmo estabelecimento fabril.

Ia tambem partilhar da proza o Jovino Carneiro, academico de direito, estacionado na terceira série do curso, havia seis anos, depois de passar cinco no Recife, a dissipar sem dó as mezadas, sem nenhum progresso nos estudos, até que a familia, por uma provocação deciziva de refreamento, lhas cortou de vez. O terceiro anista morava em unia «republica» proxima á «Aurora» e preferia, na sua ociozidade latente, o cavaco e o sólo da quinta do Marçal a uma reconciliação com a familia, que lhe déra por sèca a téta. Apenas tratára de promover a sua maioridade, metendo ás aljibeiras alguns cobres, e pôz-se a aguardar, com rezignação plácida e atilada, melhores dias para ir concluir o curso.

Alguns palradòres mais, sem assiduidade notada, incorporavam-se ao cavaco noturno da quinta.

 

Era então ainda comentário vivo, na chacara, como por toda a parte, a longa e interminavel série de festas de que fora teatro a cidade de La Ravardière no ano da graça dos très oito, que se passara todo envolvido em interminavel apoteóze. Relijiozos foram os festejos em multiplicidade perene, salientando-se, no seu esplendor maximo e brilhantismo dezuzado, as procissões saídas da Sé, de N. S. da Victoria, promovida pelos libertos a 13 de Maio e que se não tazia desde a época do regressar triunfante do 36. de Voluntários da Patria dos campos paraguaios, e a do Corpo de Deus, ao reboar das salvas das belonaves da divizão da esquadra então ancorada no porto, sob o comando do chefe Eduardo Wandenkolk.

Esse pompear majestozo estendia-se ás festas semi-profanas de Santo Antonio, por devoção particular. O gloriozo taumaturgo portuguez, cognominado ora dos Cozinheiros, ora da Palma ou da Gruta, recebia, naquelle ano festeiro, mais trombonescas e prolongadas as litanias em seu louvor desferidas.

Profanas, puramente desligadas do ceremonial liturjico, foram as passeiatas repetidas além de mez, numa ovação unanime aos grandiozos vultos da campanha da extinção de elemento servil, desde Izabel, a Redentora, até ao José Maranhense e outros pioneiros do Club Artistico Abolicionista, que celebravam entre laureis e rozas o triunfo da sua missão gloriozamente benefica.

E essa porção de festas consecutivas déra ensejo ao Marçal Pedreira envergar, por mais de uma vez, a sua farda agaloada de oficial da brióza milicia, de cuja patente muito se ufanava elle.

No baile de estrondo, da élite social, em honra da oficialidade da esquadra Wandenkolk, tivéra Marçal o exultante prazer de fazer arrastar a sua espada virjem de batalhas pelos vastos salões do palacête Corrêa Leal, e hombreára ufano com o principe d. Pedro Augusto de Saxe. Tambem o Marçal exibira o seu luzido uniforme nos salões do munificente baile com que os Bancos e as Associações Comercial e Agricola se demonstraram para todo o sempre gratas ao prezidente Beltrão, no seu curto periodo administrativo, todo de reais proveito aos acatados elementos reprezentados por aquellas instituições.

O capitão Pedreira bem que se exteriorizára na época de tanto deslumbramento, á cata de outras relações porventura ainda não cultivadas, a busca de vêr o nome nas colunas dos quotidianos da provincia, que esse era um dos seus fracos. E assim se mantinha relacionado sempre, até mesmo com familias de intranzijentes adversarios politicos, que o apreciavam pela caracter adamantino e pelas virtudes raras.

 

Terminada a prolongada apoteoze aos da cruzada abolicionista, cuidou-se de dar impulsionamento ao progresso da Provincia, que ficava bem desprovida de braços laboriozos e a contemplar, submissa, a latente transformação em tapéras de uma infinidade de fazendas e enjenhos de grandeza até então afigurada immarcessivel.

Não havia róda ou conciliabulo de comerciantes ou lavradores onde se não mostrasse quão apreensiva era a situação economica prezente comparada com a do passado, para o qual se entoavam hinos e teciam lôas.

O comercio provinciano, comentava-se, que em tempos remotos atinjíra a notavel gráu de prosperidade, destacando-se, pela importancia, no seio das demais circunscrições imperiais, vinha de certa época para cá definhando, caindo em preocupadora estagnação, oriunda de multiplas cauzas. Intermediária outróra das suas vizinhas do Pará, Piauhi e Ceará, no comercio com os paizes estranjeiros, a provincia teve de sentir cruelmente a sua fama comercial ir declinando, desde que aquellas começaram a comunicar-se, por via diréta, com os portos europêus, onde passavam a prover-se dos produtos com que dantes supriam o seu mercado pela praça maranhense. Posteriormente surjiram, com arrocho, as dificuldades com teve de lutar, provenientes dos enormes compromissos contraídos a quando da guerra norte-americana e em que, por cauza do elevado preço a que atinjiram o algodão e outros produtos, parecia tudo prosperar, nadar parapemando em mansuetude de mar de rozas Finda a guerra e volvidas as couzas ao estado normal, viu-se o comercio tremendamente embaraçado nas suas tranzações, dolorozissima situação a que chegou por haver tomado como permanente tal estado de couzas, ficticio por completo e que, necessariamente, teria de modificar-se, era o bastante cessar o motivo que o fizera nacer. E, então, esse mesmo comercio provinciano, como meio unico de remediar os males orijinados do erro em que havia caído, teve de retrair-se nas suas operações, para assim lograr o restabelecimento do seu equilibrio financeiro e manter o credito com as praças estranjeiras. Disso procedia a aparente apatia e o abatimento que nelle se notava, no momento, embora na exportação se não houvesse dado avultada diferença.

A promulgação da lei aurea, que redimia os cativos, deixára a lavoura bem desfalcada, não de braços apenas, mas de capitais, igualmente. E o ato que celebrizou o gabinète João Alfredo e que, com a imperioza vontade de Izabel, veiu selar gloriozamente essa campanha entuziastica que de ha muito era trabalhada, na imprensa e na tribuna, principalmante, abalou immenso o trabalho rural.

Eram o algodão e a cana de açucar a cultura a que se dedicára preferentemente a Provincia, desprezando outros ramos da industria de cultivo facilimo em sólo tão prodijiozamente uberrimo, cuja eficácia vinha sendo decantada por incessante trombetear.

A carencia de braços e a rotina dos processos industriais se evidenciavam inda mais palpaveis e concorriam para obstar poderozamente a prosperidade e o dezenvolvimento da lavoura em território vastissimo como o da Provincia. A guerra contra o Paraguai retirára della para o exercito avultado numero de braços válidos, ao mesmo tempo que a exportação de escravizados, de ha muito praticada em grande escala, privava os estabelecimentos agrícolas desse elemento vital em que até então se apoiava a lavoura local.

Os enjenhos—Central São Pedro, d՚Agua e Castelo, fundados todos três precindindo do auxilio do poder central, formavam, entretanto, melhoramentos que, pela sua relevancia, não se poderiam deprezar diante o profundo abatimento que afetava as principais industrias constitutivas da primordial fonte de riqueza.

E notavel era tambem o atrazo da colonização, reconhecia-se. O proprio cearense, astuciozo e ativo, nobre no trato e honrado no trabalho, chegava como que desconfiado, acudindo ao apêlo insistente dos publicos poderes, que haviam ido de encontro aos almejos dos agricultores provinciais, providenciando na vinda de retirantes para varias fazendas, no que foram solicitamente secundados pelo prezidente Caio Prado, o qual fê-los seguir da Terra da Luz para a sua vizinha, em numero que de pronto atinjia quatorze centenas.

Alguma coiza que de proveito se punha em prática era mais com a propria prata cazeira. Colonias se iam formando, á marjem de rios, á beira de estradas. Assim, Pedreiras, simples povoado marjinal do Mearim, constituindo diminuto nucleo, era já emporio de comercio com a rejião sertaneja localizada no seu mais alto ponto.

Mas semelhante movimento colonizador fòra um rebate falseado. Depressa surjiu a deziluzão aos que, porventura, crêram na sua eficácia. Familias inteiras de semeadores e cultivadores do sólo provinciano abandonavam o plantio do algodão e da cana de açucar e outros produtos de cultivo em menor escala, nas róças e enjenhos dos ex-senhores, do dia para a noite desprovidos do seu imprecindivel auxilio, e procuravam avidamente a Capital, onde sonhavam nadar-se em dinheiro pelos estabelecimentos fabris, que, como se propalava por todas as circunscrições do interior, surjiriam por encanto em edificações aceleradas. Vinham sófregas, atraídas cegamente por um imajinario nucleo centralizador do Trabalho fecundo e altamente remuneratorio.

As cidadas e vilas mais importantes perdiam subitamente o seu aspéto algo ajitado, oriundo do movimento que lhes imprimia o trabalho agricola. Quedavam-se na tristeza e em emaranhamento tais que se não imajinava até onde iriam, por mais atilados que fossem os vaticinios dos crentes e descrentes de uma éra proxima de grandeza e progredir invejavelmente promissores.

Os poucos traballadores rurais restantes queriam a todo o transe transformar-se em urbanos e se predispunham a atirar-se já, com as maiores enerjias, ao apedrejamento ao passado. Em vez de hinos patrioticos, cantando a obra dos heróes subidos á imortalidade da História, entoavam lôas injustificaveis aos que ainda não haviam merecido o bastante para igualar aquelles, cujos feitos gloriozos a posteridade não poderia obumbrar.

No estupendo movimento de aparente animação, pela propria praça encabeçado, vizando salvar a Provincia do abismo que a ameaçava, e coloca-la na senda do progresso, cujas proporções lhe não faltavam, cojitava-se da fuzão dos Bancos do Maranhão e Comercial em um grande estabelecimento emissor. E outro banco, o Hipotecário, realizava já operações sobre o emprestimo á lavoura.

A Sociedade Auxiliadora da Lavoura e Industria, que se organizára dois anos antes, sob os mais felizes auspicios, como elemento de propaganda o mais proveitozo, vinha prestando á cauza publica o serviço dos intuitos que prezidiram á sua fundação. Solicitára os cuidados da prezidencia provincial para a mui imperioza necessidade da abertura de uma estrada de rodajem ligando a vila de Monção, no Pindaré, á de Imperatriz, no alto sertão.

E, entre outras multiplas questões de assunto momentaneo,que procurava salutarmeute solver, a prestante Sociedade punha em fóco a já immensamente debatida da abertura do Furo, ou Canal do Arapapai,cujas obras jaziam abandonadas desde 1858, insistindo, agora, pela sua realidade, como o meio prático e exequivel, quer de facilitar o comercio da Capital com o do interior, pelas suas principais arterias fluviais: Munim, Itapecurú, Mearim, Pindaré e Grajahú, quer de prover, e sem grandes dispendios, o melhoramento do porto de S. Luiz, perfilhando, para este cazo, a abalizada opinião dos enjenheiros inglezes John Harhshaw e Milnor Roberts.

Unanime se manifestava, entre as classes produtoras, principalmente, o dezejo de proceder-se, quanto antes, á abertura do canal, como medida imprecindivel e de alta monta. E tão intenso se mostrava esse almejo que dir-se-ia ser o Furo a vereda pela qual se navegaria a defrontar uma nova Jeruzalem. Os vapores e barcos á vela da navegação interior, a mais extensa e ativa no paiz, depois da do Amazonas, poderozamente auxiliada pelas marés, que no rio se fazem sentir, durante a estiajem, para dentro do litoral até trinta milhas, ficariam agora, pelo estabelecimento do novo canal, indenes dos perigos a que se expunham, não sómente á pavoroza passajem do Boqueirão, mas ainda ao seguirem o canal que dá acesso á barra do Bacanga.

Assim, ao mesmo tempo que volvia as vistas para o urjente problema da ligação das aguas bacanguenses ás do rio dos Cachorros, a Sociedade Auxiliadora da Lavoura e Industria, em gestos pasmatorios, atirava-se deciziva a outros cometimentos, alguns bastante arrojados e, pela temeridade, bem duvidozos do exito, em prol da elevação economica da terra ateniense.

Cabia-lhe, agora, a melindroza tarefa de aparar certeiro o golpeamento que a Abolição, sem indenização, fazia cair penetrantemente sobre os principais fatores da riqueza publica.

Havia ella se estreado promissoramente, incorporando a Companhia de Fiação e Tecidos, com fortes capitais, excluzivamente levantados na Provincia.

Os prospétos elucidativos, distribuidos a mancheias pelos incorporadores do grande estabelecimento fabril, tentavam irrezistivelmente. E, ao demais, a cidade de Caxias, toda cioza da sua pompa de «princeza do sertão», instálara já a Fabrica Industrial, sob os mais felizes e provocadores augurios. A ceremonia da inauguração, prezidida pelo proprio prezidente provincial, no meio dos mais ridentes aplauzos de um povo sereno e confiante no seu futuro, assumiu proporções apoteoticas.

Por essa época, como que em irritada incerteza, no intimo, pregava-se trombonescamente o progredir da Provincia por um metamorfozeamento subito e enfitado. Qualquer idéa, por mais impraticavel que se evidenciasse, mal era apregoada e logo a se lhe surjirem aplauzos de milhares de mãos, que se vermiculavam palmando obsedantemente a sua aceitação franca como medida salvadora de grandiozidade rara, tão enquistada estava no' espiritos dos reformadores a preocupação de marchar e marchar, embora para o icognocivel. Os problemas mais obscuros e complicados se afiguravam com clareza bastante nítida aos homens de razão esclarecida e forte que, no momento, se julgavam os guias supremos, os fecundos esplanadores de quanto, porventura, importasse no dezenvolvimento da terra donde naturais ou a que, por qualquer circunstancia, se tivessem ligado.

As vias ferreas projetadas tinham agora formal condenação de alguns dirijentes, os quais, arrogando-se de mais práticos, julgavam de maior proveito á sua terra cuidar-se, quanto antes, de conservar, melhorando-os consideravelmente, todos os rios que a banhavam, quer os de maior quer os de menor curso, com a esclarecidissima idéa de serem as vias de comunicação fluvial as mais convenientes e dezafiadoras de toda a concorrencia na barateza dos fretes e na tarifa das passajens.

De «essencialmente agricola» que era, com o crédito de constante reafirmado, no exterior, maximé pelo algodão de fibra a mais consistente em toda a produção mundial, passava a Provincia, por dadivoza e gentil fortuna, a ser a Manchester brazileira. E, para comprova-lo, fazia erguer por todos os seus recantos, numa acariciante epopéa hinária, a chaminé simbolica do Trabalho fabril.

E não houve quem se não tentasse diante da rejeneração que se badalava em face da nova aurora, anunciada em castelos pirotecnicos de reinadio efeito.

Todos os possuidores de dinheiro e joias que de ha muito acumulavam na Caixa Economica e no Monte Socorro, a modo de combinação adrede, se entregaram de chofre a uma corrida nos dois estabelecimentos, que funcionavam em edificio unico. Em nenhum delles, porém, a respectiva caza forte se mostrou surpreza ante a exijencia do numerario e das joias. De pronto cram conferidos os juros das cadernetas e os cupãos das cautelas, atendendo-se aos retirantes, que reclamavam sofregamente os seus honestos depozitos. E, nas mesmissimas notas em que saía das tezourarias da Economica e do Monte, era a dinheirama levada a satisfazer as primeiras chamadas do capital integralizador da nova companhia, em poucos dias coberto.

Tão avultado era o numero de subscritores de ações, tamanho o empenho em ser possuidor dos titulos da empreza nacitura, que se fizera mister um rateio vizando a contemplação de todos pela aguçante incorporação.

 

Depressa adquiria-se todo o vasto planalto da Gambôa do Mato, verificado prestar-se magnificamente a ser nelle edificada a primeira fabrica de fiação e tecidos que a cidade-capital ia possuir.

A enjenharia aprestou-se para atacar com afã o erguimento do grandiozo edificio. Veiu o prezidente Bento de Araujo, envergando austero a sua cazaca e trazendo as insignias de conselheiro, bater solene e delicadamente, com fino martelo de prata, na pedra fundamental da construção, estendendo sobre ella a primeira colher da argamassa alicerçadora.

E esse ceremonial, revestido de pompozo ruido, continenciado pelo batalhão de linha e recebendo grata saudação, a marcha batida, do corpo de Educandos Artifices e da milicia urbana, era a apoteoze ao Trabalho, coroada pelo interminavel aplaudir da multidão, que ali marulhava rumorejante, espessa.

Reinou, de então, um labor incessante e produtivo na edificação, que surjia como por encanto do aceleramento das obras prestes a concluir-se. Chegavam já as grandes caldeiras e as peças dos maquinismos das diversas seções, esmerada manufatura de Rogers Sons, de Wolverhampton. De Marselha, diretamente, aportava um veleiro conduzindo dezenas de milhares de telhas, enjenhozo produto da olaria franceza que, pela preferencia, vencia a industria indijena em toda a linha. Tilintavam já com fragor o entrechocar das ferramentas e o barulho da maquinaria, a encherem dum ruido dezuzado aquellas pinturescas parajens. Nos vastissimos salões, por onde se movimentavam já os cem primeiros teares instalados, acionados pela maquina Compound, dava-se a derradeira de mão, assim como se aprestava a concluzão dos demais compartimentos da caza, sob cujo abençoado tecto se iam abrigar centenares de individuos, absorvidos pelo trabalho assegurador da sua honesta subsistencia.

A companhia, incorporada com o capital de 450 contos, aproveitára-se ainda do barateamento do material de mão d՚obra para fazer erguer um edificio admiravel na solidez e beleza da construção, grandioza concepção da enjenharia provinciana,em uma arquitectura que facinava admiravelmente.

Tentados, talvez, pelo febricitante incremente dado ás obras do estabelecimento em concluzão, apareciam outros arrojados empreendedores, que, em rezolução quazi subita, incorporavam a Fabrica de Papel S. Luiz. Todavia, no aceleramento da incorporação não previram a insuficiencia do capital para a montajem do novo estabelecimento. Era que a empreza nacente vinha com o brilho da sua estrêla vizivelmente empanado, surjia com o destino condenado a duração efemera, mau grado o bafejo de simpatia com que o publico a acariciára.

As enerjias dos incorporadores se dezatremavam todas, excluzivamente, no monumento cuja construção chegava a termino com indizivel aceleramento. A industria textil não cederia, por enquanto, logar a outra de ramo diverso.

 

De um trabalhozo aterro, entre o igarapé do Medeiros e o mangal divizor da Gamboa e do Mamoim, emanou uma ponte com o competente escoadouro das aguas pluviais e das marés altas. Essa obra, que vinha encurtar a distancia aos que quizessem transpôr as muradas do terreno em cujo centro se edificára a fábrica, aproximava esta bastante da «Aurora».

Foi por sobre essa ponte, entregue já á serventia publica, que rodou celere a carruajem palaciana conduzindo o Conde d՚Eu, então de passajem pela cidade, na sua excursão através as capitais das provincias nortistas. Gastão d՚Orleans se mostrára vivamente interessado em assistir a experiencia oficial a que se sujeitava a maquinaria da nova fiação. E, no interior do edificio, ouvindo o crepitante ruido oriundo do acionamento á centena de teares, batedores e cardas, naquella caza que se batizava para glorificar a Industria indijena, quem sabe si a Alteza Impeperial, o augusto consorte da Redentora, não via em tal movimento de trabalho pacifico e enobrecedor um poderozo lenitivo ás agruras que, momentos antes, lhe haviam cauzado á alma as injustas manifestações de dezagrado de que os liceistas rebeliados o haviam tornado alvo !

 

E a aprazivel chacara do nobre capitão Marçal, valorizada agora muito mais com o monumental templo do trabalho ali junto, tendo mais propicia aos seus operarios a passajem pela ponte do aterro, acompanhava, por bem carinhozo metamorfozcamento, o progresso do bairro onde situada.

Vieram pintores, chefiados pelo Fernando Cruz, lustrar em côr mais atraente e fixa a fachada da caza e o portão principal que lhe dava acésso, colocando-se ao alto desse portal gradeado um mastro para bandeira. Um riquissimo mobiliario artistico, còr de nogueira, vinha substituir, na sala de vizitas, as obsoletas peças de esmerado taile em anjico, com adornos de pau setim, que ali se ostentavam pezadamente apegadas ao seu estilo colonial.

A concluzão do aformozeamento da «Aurora» forneceu ensejo a mais um opiparo ajantarado, dos com que a miudo vinha o Marçal obzequiando o pessoal amigo. A՚quelles que, porventura, o acoimavam de perdulario sorria egoisticamente, deixando-lhes perceber que nenhuma satisfação era obrigado a dar pelo dispendio do que lhe pertencia, daquillo que era muito seu. E foi picado por várias censuras, oriundas de alguem, que lhe tinha especial ojeriza, que se lhe sujeriu o capricho dum almoço lauto aos causeurs da roda e a outros para quem se abriram todas as portas da quinta, no Domingo dos Remedios.

O dia da tradicional festividade escolhera-o o nobre capitão para aquella demonstração de carinho e aféto aos que alimentavam tão invejavel camaradajem.

O Benjamin e o Lourenço haviam sido chamados a operar, como preciozissimos elementos de aguçante e fino paladar que eram, na culinaria indijena.

Na fartura opulenta da sua meza, o Marçal Pedreira, nada tinha, entretanto, de perdulario. O patrimonio herdado nenhum malbaratamento sofria, embora elle bem se pudesse haver criado na mais absoluta independencia de uma mocidade dinheiroza, si lho não impedisse a avareza tutelar, sob cujos ferrenhos laços caíra.

Em lugar de honra, estava á meza a Cornelia, toda loira e gracioza, pompeante nos seus dez anos, toda finura nas suas feições, linda com os seus lindos olhos, bela com os seus cabelos belos.

Educava-se a menina no Colejio de Nazareth, onde internada, e era a primeira vez que aparecia á meza paterna, sentada ao lado dos amigos do projenitor. Estava ali a meiga Cornelia enververgando o vestido de colejial, talhado em cambraia branca, simples, com lijeiros bordados, liberto da rendaria e dos folhos atufadores. Como adorno, pendia-lhe do colo um cordão de oiro com crucifixo, artistico e fino produto da ourivezaria portugueza, e figa de azeviche artisticamente encastoada.

O pai, devéras envaidecido com essa interessante menina, na qual se adivinhava, em futuro não mui remoto, uma mulher de formozura estonteadora, não cabia em si de contentamento, em divinal adimiração pela filhinha idolatrada. Fitava-a embevecido, acompanhando-lhe todos os gestos, a beber babozo todas as suas palavras, nas historiêtas que ella já improvizava pinturescamente e nas anedotas que recontava, com chiste no falar e gentileza no travêsso rizo.

O Pedreira não se cansava de proclamar-se feliz. Para o lar, tinha elle, no futuro, aquella criança, que a todos impressionava agradavelmente. Na politica, via o seu partido no poder, a dar cartas, com a Camara dos Deputados Gerais em via de reconhecimento quazi unanime, e mais agora elle prelibando ufano o aproximar da eleição de senador, para a cadeira de Luiz Antonio, o visconde de Vieira da Silva, da lista triplice de cujo pleito o imperante, tinha-se já como certo, escolheria outro visconde, o de Desterro, então a serviço da patria no estranjeiro, porisso que era elle o candidato de melhor cotação no seu prestijiozo partido.

E, na afirmativa desse prurido de felicidade politica, não olvidava de bater na técla de que, graças ao Saraiva, a vontade nacional sairia expressa desse «santuario da conciencia politica» que era a urna eleitoral.

Terminava o agápe, evidenciando o capitão, orgulhozamente, aos amigos comensais esta dupla ventura:

—Meus amigos, dizia-lhes, isto é que é a grandeza desta vida, o que todos nós levamos cá do mundo: A familia, para consolar; a politica, para se figurar!

Houve um movimento unizono de aprovação franca ás palavras do dono da chácara.

Da copa chegava o ruido da louça e dos cristais, pratos e copos, a cairem com fragor alegre.

Ouvia-se, então, vindo da torre da ermida dos Remedios, o som farfalhante e bronzeo da sinarada, na tocata alegre das quatro horas.

Consoladores sinos! Quanto haviam elles cantado sonoros pela apoteoze de arrebatamento do povo, no ano anterior, quando a emancipação incondicional dos cativos se promulgou solenemente, como prenuncio grandiozo da edificante obra da Rejeneração Social, em um relampejar vivo de suprema e deslumbradora vitoria !

E sob a verdejante e frondoza pomaria florida, que crecia ao lado do caramanchel, sentavam-se os almoçantes ajantarados, á meza do sólo, embaralhando afoitos as cartas para a partida inicial.

Numa bandeja de charão, precioza reliquia da familia Pedreira, chegava fumegante e cheirozo o café pospasto, logo avidamente saboreado como excelsior elemento dijestivo.

A galante Cornelia, trajando na mesma simplicidade, e seguida da governante da caza paterna, uma gorda e ajil mulata cincoentona, saía a vizitar pessoas amigas do Pedreira, na circunvizinhança.

O Marçal, esse ficava a prezidir, com o sorrizo expansivo de serenidade e confiança pairando-lhe nos labios, o tic-tac das cartas no jogo quazi dezinteressado ante o chistozo prozar que o alimentava com a maior vivacidade.

Até ali, á «Aurora», chegavam agora, alternadamente com a sonoridade dos sinos, o ruido da tocata da muzica, do borborinho da multidão e da assuada infantil, no largo dos Remedios, desde a ponta do Romeu aos dominios do Medeiros, na expectativa de promissor resurjimento.

Era todo um povo de uma cidade que, a diminuta distancia da quinta, se entregava á expansão maxima do folguedo, em um mixto sacrosanto de relijião e hosanas á sua historia, a que se associavam, em magno triunfo, os tradicionais sinos, tanjendo repinicadamente, a alvoroçar a multidão folgazã, exultando-a grandemente, acariciando-lhe a inabalavel Fé.

 

Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.