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A Nova Aurora/2

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II

Na alvorada da
Republica

Quedára-se a tarde do fatídico dia, todo apreensivo e cheio de novidades, no decurso do qual os habitantes da cidade se encontravam immersos em estonteadora preocupação. Era a duvida a trabalhar marteladamente no espirito da maioria dos circunstantes, obstinados em não darem crédito à boataria dezencontrada, que se alastrava por todos os bairros da urbs.

A noticia mais fresca, a que fòra propalada em lètra de fórma, era precizamente ainda a que já passára ao dominio publico, desde o amanhecer, e concebida neste inquietante laconismo:

«Doletim d՚O GloboTelegrama—Rio, 15 novembro 1889.—Dr. Pedro Belarte— Maranhão:—Republica Proclamada. Ministerio prêzo. Exercito povo confraternizados. Viva a Republica! Sà Valle»

A folha que, inesperadamente, por um simples boletim, atirava aos quatro ventos a sensacional nova da mudança da fórma de governo do paiz e da prizão dos membros do gabinête Ouro Preto, era orgam da dissidencia do partido liberal; e, si bem que de circulação, não muito remota, vinha de certa maneira trabalhando simpaticamente pela cauza republicana local, até então com restrito numero de adeptos. O seu principal redator era o dr. Pedro Belarte, advogado notavel no fòro da Capital da provincia, tribuno eloquente, eletrizador das massas populares, nos meetings, e empolgador dos auditorios, nas audiencias e nos tribunais, pelos lances felicissimos e boutades oratorias, com a sua palavra burilada e quente.

O valente tribuno e jornalista, figura grandemente simpática, insinuante, de porte fidalgo e irrivalizavel elegancia, parecia-se com o então Principe de Galles, no olhar aclarado e na barba cuidada que uzava, sempre envergando, austero, calças brancas gomadas com um burnido irrepreensivel. O vestuario, o andar, as atitudes, assinalavam-lhe o espirito altamente superior e culto. Vinha o notavel cauzidico do partido liberal, militando ao lado de outros patricios de peregrino talento e invejavel patriotisino, sem que os seus predicados se obumbrassem. Tinha-os no olhar rasgado e penetrante, e isso já o havia provado exuberantemente, quando reprezentou a terra natal na camara baixa do parlamento imperial, em duas lejislaturas, deixando nos Anais um marco indelevel do seu talento.

De tirocinio academico memoravel, durante o qual deu vivas mostras do seu cultivo inteletual, o dr. Belarte começára a terçar armas na imprensa da provincia de São Paulo, em cuja Faculdade de Direito se formára em ciencias juridico-sociais. Debutando no Ensaio Paulistano, periodico academico, escrevera, logo depois, O romance dum moço rico, chistoza comédia-drama, em cinco atos e sete quadros, de colaboração com Salvador de Mendonça e Luiz Bivar, passando a redijir outro periodico academico, A Razão, no qual tinha como companheiros Campos Salles e Quirino Santos.

Não sómente nos mencionados, mas ainda noutros periodicos de ensaio academico, afirmára o dr. Pedro Belarte a sua envergadura para as lides da imprensa, e nos comicios promovidos pela mocidade da escola superior que cursava, educou convenientemente a sua fibra oratoria. Possuia,em dom mui invejavel,prodijiozos recursos de imajinação e fórma colorida, a vizão animada das cenas produzidas e figuras evocadas, assimilação admiravelmente facil, acariciando e arrebatando, com esse predicado raro, a alma popular, que se impressionava deliciozamente com a sua pronuncia á luzitana.

A sua estadia agora na direção do vespertino da dissidencia liberal, onde o vinha colher o novo sistema de governo, matinha-o como em uma ponte ocilante entre os diverjentes do partido politico a dominar e o rejimen democràtico que a Abolição havia acelerado a proclamar-se. Era elle o genuino chefe dos republicanos, na Provincia, que a tal lhe davam pleno direito a fama do seu talento e a propaganda arriscada e tenaz que sustentava, não tanto em O Globo, mas de contínuo, na tribuna, a peito descoberto, a arrostar impavido com as chufas e improperios dos dezalmados.

De quando em vez o antigo reprezentante na assembléa geral promovia uma série de conferencias republicanas, que se realizavam aos domingos, á tarde, ora na sacada da janela principal do palacête dum cidadão norte-americano, mr. Harrison, cirurjião-dentista de grande clientela, ora do Hotel Central, do Picot, onde as iguarias não tinham comensais em numero para invejar.

Na propaganda, habilitavam-se a serem sagrados «históricos» os conhecidos republicanos Carlos Medrado, o poéta másculo de O Allah errante, quiça o brazileiro mais viajado detidamente nas duas Americas, e mesmo na Europa, e o jornalista Saturnino Romario, ao tempo com o seu semanario O Novo Brazil, de circulação na Capital, ambos figuras infaliveis no auditório das conferencias belartinas, e aos quais se vinham juntar os estudantes dos ultimos anos do curso secundario, então com um periodico, O Seculo, tambem pregador das idéas republicanas.

Para o brilhante jornalista e advogado sem dúvida que não fôra surprêza o despacho telegráfico que elle mandára distribuir em boletim, pois que, dizia-se, certamente alguma senha lhe teria passado aos olhos, tanto que o seu jornal, na semana anterior, num dos Écos, disséra constar a existencia na Côrte, de séria diverjencia entre o exercito e o governo, ou, por outra, tendo recrudecido ali a questão militar, agora mais encarniçada, bem mais atemorizadora.

E O Globo circulou nessa tarde sucessôra dum dia cheio de boatos inconfirmados, pormenorizando o telegrama divulgado no boletim da vespera e adiantando mais a noticia do embarque da familia imperial para a Europa, a bordo do Alagôas, e a organização do Govêrno Provizorio da Republica.

Vinha o editorial do conceituado vespertino, como de costume, claro e concizo; mas sem exames profundos nem meditações exaustivas, que a isso não era dado o vigorozo articulista. E deixava perceber ao conselheiro Tacito Augusto que o dezaparecimento do ministério Ouro Preto e do rejimen dinástico implicava tacitamente na renuncia do prezidente da Provincia, mero delegado do gabinete derrocado.

Do mesmo prélo, donde acabava de sair á circulação o diario contendo esse editorial tezo e ameaçador, eram ainda tirados, e logo distribuidos fartamente pela cidade, boletins encerrando, em caractéres de côrpo graúdo, esta proclamação:

 

«Concidadãos! Está proclamada a Republica Federal Brazileira !

Este grande povo fornece á civilização e á historia um grande testemunho. Nem uma gôta de sangue, nem a mais tenue alteração da ordem publica. Em nome da liberdade, em nome da democracia, em nome da humanidade, sejamos calmos, generozos e grandes. Reconstituámos a Patria, readquirámos os direitos civicos.—Pedro Belarte».

 

Assim falava aos seus concidadãos o homem que, por atos e palavras, bem acentuados e de mui clarissima significação, conquistára o direito de erguer o bastão de chefe dos republicanos na Provincia.

O festejado cauzidico, na conciza mensajem, exaltando a grandeza do povo, na hora da sua transformação politica, falava a toda a sua terra, porque se não limitava á Capital a ação expansiva dos republicanos.

No interior, lá na rejião sertaneja, o movimento se dezenrolára vívido, marchava sublimemente, sem pêias, intranzijente. De cidade em cidade, de vila em vila, ia em uma ramificação que, pelo vultuozo, impressionava os monarquistas. Em Barra do Corda, a chave do sertão, Izaac Martins fazia circular um semanario, orgam das idéas republicanas, e fundava-se um clube democratico. Na cidade de Carolina, formava-se tambem um clube republicano; e, na Imperatriz, as urnas, com estupefaciante surprêza, deram votos a Benjamin Constant e a Quintino Bocayuva, para deputado geral, contra o candidato situacionista.

E esse congregar de elementos anti-monárquicos fôra encarado pelos dominantes como uma inquietadora alvorada de novos engalfinhamentos onde, havia bem pouco, havia sido teatro de fraticida luta, cujos caudilhos, os Leões, os Araujos e sequazes, ainda tinham os seus apavorantes nomes a tenalhar os correlijionários.

 

Ao amanhecer do dia seguinte, um domingo, mais intensa era a ajitação no espirito publico, mais sedendo de novidades. Todo um fremito de ancia empolgára a alma do povo, mantendo-se muitos no recesso do lar, junto da familia, para garanti-la, na previzão dum levante; outros erravam pelas esquinas, na indagação sofrega de noticias, na enjenhoza armação de castelos de cartas.

De instante a instante, um moleque dava de gambias pelas ruas, distribuindo boletins, que eram celeremente devorados pelos leitores curiozos. Os boatos se sucediam numa vertijinozidade pasmoza, e tinham cunho de verdade, por por mais descabelados que se afigurassem.

A՚ proporção que o dia se adiantava nas horas, o movimento era mais crecente por todas as ruas, já não sendo segredo que se tramava uma rezistencia belicoza a qualquer ordem que porventura viesse do centro para os republicanos assumirem o governo. E até o proprio quartel do 5.° batalhão estava em imminencia dum ataque; e certamente não foi senão por se arreceiar disso que o oficial de estado ordenára a saída duma faxina de vinte homens, para conduzir da Escola de Aprendizes Marinheiros, ao mesmo quartel, todas as armas portateis e dois canhões Whytworth, de calibres diversos, recolhendo esse armamento sob a maior vijilancia.

Estavam á testa dos dirijentes do movimento embaraçador da ação dos adeptos do novo rejimen vultos salientes dos partidos monárquicos, si bem que nem todos açulassem ás claras.

Os magotes se vieram formando, as adezões eram crecentes, e começava-se já a concertar o plano de ataque á redação d՚O Globo.

De vez em quando, um cabecilha inflamava o pessoal, incitando-o á luta, sem timidez.

Ao largo do Carmo, certo o local onde maior era a aglomeração, iam ter a toda a hora mensajeiros de diretores imajinarios ou icognitos da rebelião decidida. Era o meeting, por convite anonimo, que se ia realizar ali, aonde haviam convertido em centro das operações. Parecia que todos os homens que, no ano anterior, estavam delirantes pela extinção do elemento servil, se achavam congregados na praça, formando uma guarda avançada ao trono em que dezejariam ver Izabel, a Redentora, pois que vizando a este bemdito nome, de propozito, eram os vivas que soltavam ininterruptamente, num entuziasmo eletrizante, e em convicção profunda de baterem-se por um ideal que não compreendiam com absoluta nitidez.

E quando, a mingua de oradores mais decididos, que encaminhassem intelijentemente o movimento, bem se lhes surjiu uma bandeira diretriz da campanha a travar, depressa se recordaram ser o Clube Artistico Abolicionista quem lhes deveria servir de guia nessa peleja, na qual se iam empenhar rezoluta e patrioticamente. Então, os estafetas partiram rapidos, a busca das adezões dos pioneiros abolicionistas.

Si da missão não regressavam cantando vitoria completa, por não trazerem combatentes em numero elevado, como almejavam, vinham, todavia, bem radiantes, pois que conquistaram dois valorozos companheiros : o Victor Castello e o José Santa Rosa. O primeiro, sobretudo, era um homem de ação decidida, talhado para a luta, da qual não sabia recuar uma vez nella empenhado; o segundo, si bem que tímido, algumas vezes, nunca dezertára da peleja quando esta se tornava, pelas circunstancias, bem renhida.

A chegada desses dois salvadores elementos foi saudada por entre hurras e palmas, num crecendo de aclamações pompeantes aos da dinastia bragantina deposta, e em frenetico exaltamento aos seus mais dedicados servidores.

O sol dum dia ardente dardejava aquella onda humana, que agora apinhava o largo, num borborinho belicozo, immovente, indecizo quazi, para uma rezolução extrema. Havia gente, havia chefe de arruaça. Apenas faltava uma cabeça pensante ou um braço forte para intemeratamente dirijir o movimento a estalar.

Estivadores do Jeronymo Tavares, trabalhadores das companhias das Sacas (Prensa) e União (Tezouro) operarios da Uzina do Rapozo, embarcadiços, catraeiros e pescadores das praias do Cajú e do Desterro, aos magotes, todos se vinham juntar áquelles que, premeditando uma sanha felina e implacavel, ali se achavam inertes, limitando-se a erguer vivas e a brandir ameaçadores porrètes, aos quais vinha tilintar um ou outro fragmento de arco de barril.

Debalde os chefêtes lizonjeavam o Victor Castello para que assumisse o comando em chefe das hostes. E elle, todo cheio de perspicacia e de ironia perante as coizas da vida real, se retraía sempre.

— Estava pronto, afirmava, a seguir com o grosso do povo; mas iria sem ser no dezempenho das funções que a todo o tranze lhe queriam dar.

O ajitador, porém, reconhecia estar indo o dia ao seu termino e ser precizo fazer-se alguma coiza de rezultado eficaz.

Estavam todos a abeberar-se nas ponderadas e decizivas palavras vitorinas quando, de todas as esquinas, que iam ter á grande praça, apareceram moleques distribuindo boletins, em que se convidava o povo para a conferencia belartina, naquella tarde domingueira, e na qual o fogozo tribuno evidenciaria aos seus concidadãos, em linguajem cristã, as grandezas e vantajens inauditas do novo rejimen.

Depressa encontraram o x da questão. Não se indagaria mais aonde iria ter aquella multidão sedenta de luta. Num abrir e fechar de olhos se ordenou a onda dos manifestantes. Eram os chefêtes metamorfozeados em chefes, ao mesmo tempo que da massa belicoza novos chefêtes surjiam possuídos de fremito por demais alegre e clamorozo.

Como por encanto trepou ao mais alto dos degraus do Pelourinho, secularmente erguido no largo, um crioulo bem corpolento e invejavelmente robusto, charuto ao canto da bòca, deixando espelhar-se no semblante o que de entuziástico lhe ia na alma. Com a mão direita, o rapaz brandia a sua bengala «canela de veado» e, na outra, empunhava, atado á uma vara tortuoza, o auri-verde prvilhão com a coroa da monarquia derrocada.

Palmas reboavam em frenezi por toda a praça, saudando o porta-bandeira do exercito que ali se improvizava,e agora ia marchar a sitio conhecido—obstar a realização da conferencia anunciada.

E, formando pelotões, entre aclamações que não cessavam, deixaram os arvoredos copados e redondos, sob os quais se abrigavam até então, numa conspirata indeciza, e julgavam chegado o supremo e consolante momento do desfilar. Marcharam rezolutos e compenetrados de irem a salvamento da Patria.

A algazarra era ferrenha, estonteadoramente grossa. Como tivessem, porém, ainda umas duas horas diante si para o começo da conferencia que elles vizavam impedir, aumentaram o intinerario, não sómente com o propozito duma exibição, porém para o aliciamento de mais adeptos, porventura tentados por aquella insinuação assim tão viva. Tranzitaram por bairros estreitos e ingremes, e a cauda acrecia, a medida que por maior numero de ruas girava o préstito apupante.

Já o tempo vencia, aproximando a hora ou do retraimento dos republicanos ou da sua dogladiação com os atacantes. Porisso, retrocederam rumo do largo do Carmo, para daí seguirem á rua 28 de Julho, ao edificio do vespertino.

Na rua do Sol, o cortêjo estacou em frente ao palacête do chefe do partido, cuja situação baqueára com o trono, e onde se achava homiziado o conselheiro prezidente da Provincia, que acorreu á sacada duma das janelas a observar a onda desfilante. Impressionava confranjedoramente aquella nobre figura de veterano de inumeros serviços á monarquia, a cabeça encanecida, palidamente ciozo de sua função de conselheiro e guarda-roupa de S. M. o Imperador, e rezignado á sua atribuladora sorte de depozitario dum espolio, que outra significação não tinha, no momento, a prezidencia provincial.

Da multidão movente partiram repercutintes hurras ao conselheiro Tacito Augusto, em atitude provocadoramente justa de que seguisse com ella para o Palacio, a sède do govêrno, e lá deixar-se ficar, no seu pôsto, para cair com o partido todo, no qual aquella turba não via, agora, senão a força viva reprezentativa dos Braganças. Mas o homenajeado, todo unjido dum sentimento de clemencia e cordura, aconselhava aos exaltados a paz, a volta ao lar, para junto dos entes queridos; e, em muito insinuante lucidez, apelava já para os fatos consumados.

Em vão, porém, o conselheiro falou como amigo politico e como prezidente que ainda o era da Provincia. A nenhum dos títulos se lhe mostravam submisos. Redobravam as aclamações aos da familia imperial, e proseguiram indomaveis os ovacionantes na sua marcha, para o triunfo ou para o inconoscivel.

Foi com o pavilhão desdobrado aos ventos que a avalanche de manifestantes tornou ao largo do Carmo, onde se manteve, enquanto mais um discurso incendiario se pronunciasse.

E ainda o degrau do Pelourinho dava guarida a um orador. Este, porém, pezava promissoramente, deslumbrava maiormente, envolvia mais em entuziasmo. Era o doutor João Eduardo, antigo deputado geral, advogado e professor, figura estreitamente familiarizada com a multidão, afeita aos comicios populares, com a palavra facil, correntia, empolgante e sempre vitorioza. O ex-reprezentante dum dos distritos cleitorais da Provincia, no parlamento, não militava no partido que a revolução dezapeiava; ao contrario, fôra por elle derrotado nas eleições de camara unanime, prezididas pelo gabinête Ouro Preto. Porisso, a sua figura insuspeita para os rebeldes, ali entre elles, vinha agora recrudescer o movimento, ampara-lo, dar-lhe calor e vivacidade ainda mais fortes.

Mas o antigo parlamento discursava já com entuziasmo, que se foi inflamando por tal fórma que, de muita paz e cordura por elle aconselhadas, ao preludio do discurso, passou a lavrar ferrenho protesto verbal pela transformação do sistema governativo, perorando num incitamento penetrante e comunicativo com a massa, ali propensa ao que désse e viésse, á rebelião sem tregoas, e a não se acobardar nem se coadunar com os «conselheiros propensos a amoldarem-se aos fatos consumados».

Essa peroração, em que se não ocultava a luva dezafiadora á placidez do prezidente, caído em inanição, mal lhe chegavam aos ouvidos a noticia da mudança do rejimen, fizéra tocar ao auje o delirio dos defensores da monarquia, empolgando-os todos, tornando decididos pouquissimos porventura ainda vacilantes e como curiozos adstritos ao movimento,

 

Da torre da igreja do Carmo vinha o tilintar dos sinos. Era o Anjelus, anunciando do campanario a sua hora, naquelle momento em que ninguem previa senão laureis, triunfos, reconquistas.

A esse tempo desfilava ás barbas dos amotinados, vinda do quartel do 5.., uma tropa, armas embaladas, sob o comando dum alferes, requizitada e de boamente enviada para guardar a redação d՚O Globo, ameaçada de investidas, já tendo sido apedrejada, por um pequeno grupo de populares, a tabolêta contendo os ultimos telegramas recebidos.

Não se realizaria mais a conferencia, por bem prudente deliberação, para evitar o ataque de que já eram sabedores o chefe republicano e os seus amigos, que, desde alto dia, se fizeram prizioneiros voluntarios da redação da tolha democratica. A՚ proporção que os discursos incendiarios se iam produzindo, no largo do Carmo e nas esquinas proximas, delles se tinha conhecimento na redação, em rezumos feitos ao sabor dos delatores. E isso déra ensejo a um acautelamento sério por parte dos que ali reconheciam não ter a vida para negocio, nem o pêlo para chamusco. Clandestinamente chegou a dar entrada algum armamento, e esse de genero mui diverso do dos amotinados. Em poucos instantes o interior do edificio d՚O Globo, era um arsenal. A garantia pedida vizava unicamente o exterior, que internamente se predispunham a ataques um homem para o outro, peito a peito, sem recuo, nem temor.

Mas, na praça, o parlamentar incendiario déra o seu recado e se deixára partir, tomando outro rumo, pois que, no momento, não se lhe despertava n՚alma nenhuma aspiração elevada.

Enquanto à multidão, essa não recalcitrára, não cedèra uma linha do que a si traçára. Não se apavorava com o desfilar da tropa de linha embalada, que decia em proteção do chefe republicano e do seu jornal. Seguiria inabalavel, certa de que um só tiro não partiria das espingardas Comblain do 5.. de infantaria, si fôssem apontadas aos peitos dos seus irmãos. — E quando o quizessem, ajuizavam, a inferioridade de numero abateria a soldadesca ante aquella avalanche rezoluta e propensa a tudo, agora, naquelle crepusculo vespertino.

Assim falavam pábulos os chefes aos chefétes, e estes repetiam aos que constituiam o grosso dos rebeliados.

—O que se tivesse a empenhar, se venderia logo, eram todos concordes.

E ainda sob a melodioza sinarada, a multidão, num arremesso ouzado, desfilou vertijinoza e possessa a ladeira do Vira-mundo. A bandeira era conduzida pelo mesmo crioulo, que a fazia tremular no ar. Como armamento, além dos porrêtes de madeira indijena, levavam pedras e matacões, agarrados ao acazo de sobre os calçamentos mal preparados, entrando nesse aparato bélico alguns pedaços de canos enferrujados, não esquecendo os dois elementos másculos das assuadas—o côfo e a chupa, prontos a tirarem o seu quinhão no desfecho da investida a que os precipitavam.

Aquelle povo, aparentemente reivindicador e idolatra, seguia sem a serenidade reflexiva, impelido pela sujestão de emocionais argumentos

Mal os que formavam á frente paravam ao fim da ingreme ladeira e a provocação partia, insultuoza e pozitiva, ao chefe da propaganda, e as janelas do edificio assediado que se cerravam rápidas, deixando os encastelados á fôrça de linha a liberdade de operar.

O comandante da tropa intimou, por mais de uma vez, aos turbulentos se não aproximassem e retrocedessem incontinente. Era, porém, em vão. De pé firme, decididos, os peitos francamente expostos ás baionetas, aumentavam a grita e exijiam da tropa abrisse alas, que elles queriam invadir a redação a todo o tranze. O nome do doutor Pedro Belarte, o ardorozo jornalista republicano, reboara naquelle clamor intenso. Queriam beber-lhe o sangue... E certo o fariam, tão rezolutos se evidenciavam os assaltantes, si o alferes não ordenasse á soldadesca cerrar fileiras, e ficando na defensiva. Mas já as pedras e os matacões zuniam por sobre as barretinhas dos soldados, amolgavam o reboco da fachada e estalidavam nas vidraças do edificio do jornal, produzindo um ruido confuzo e immenso.

A onda ganhava terreno, e a tropa seria, na certa, dizimada a pau e pedra... Nisto, o oficial, medindo rapido a situação, ordenou uma descarga para ar, em intimidação ultima.

Ao estrondar dos tiros a vozeria aplaca, para surjirem as imprecações, sob novas e mais decizivas arremetidas. Outra descarga, agora certeira á mutidão apupante. Os soldados falhavam á previzão dos intemeratos irmãos atacantes, pois a diciplina mandava obedecer incontinenti, disparando as espingardas para rechasssar o povo, cujo grosso recuava já em debandada infrene.

Três ou quatro dos assaltantes, incluzive o crioulo porta-bandeira, caem instantaneamente mortos. Dezenas de feridos, uns graves, rolando ao estertor da agonia, nas negras pedras do calçamento da ladeira, aos gritos lancinantes, outros levemente, praguejando, clamavam por socôrro, que não chegava.

E o dispersar, ante as duas descargas das Comblains, foi rapido qual relampago. O grito de salve-se quem puder atroava por todas as cercanias da folha democratica, cujo cêrco agora se levantava. Por todos os lados era uma correria indomavel. A corajem dos salvadores do principio monárquico abatêra com os heróes tombados mortos pelas balas da fôrça de linha e com os feridos que, na rua, em frente ao edificio d՚O Globo, jaziam inertes em rubras pôças de sangue.

A policia chegava vagaroza, a cuidar dos mortos e feridos, distribuindo estes para a Botica do Vidal e o hospital da Santa Caza, conforme a aparente gravidade dos ferimentos, e fazendo remover os cadaveres para o cemiterio da pia instituição.

Na igreja, ainda a sinarada cantava sonora na torre. E, na sua tristeza latejante, parecia o dobre do De profundis pelos que acabavam de baqucar, a pouca distancia do templo, lamentavelmente vitimados pelo apego á insensatez.

Estava feita a implantação do rejimen republicano, sob o batismo lustral do sangue do povo, passando o Maranhão á historia como a unica provincia heróica que, dentre as vinte, opuzera tenaz rezistencia, pelas armas, ao derruimento subito da nobre dinastia.

Enquanto á cidade, essa se enlutava e fechava toda em entorpecimento e mutismo confranjedores e em comovente situação de indizivel tristeza.

 

Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.