A Nova Aurora/3
III
A proclamação da
democracia
Anoitecéra, havia bem pouco, e já sob caramanchel da «Aurora» se viam instalados, na roda costumeira, os cavaqueadores que tinham pecado mortalmente na sua assiduidade, durante as noites precedentes; uns, imobilizados em caza, em atilada expectativa ou receiozos de serem colhidos pela onda da refrega, outros, bem de matreiros abispando uma pozição em que se viessem encontrar comodamente quando se consumassem os fatos.
O capitão Marçal, esse não se furtava em confessar, com franqueza, ainda não estar em si do abalo que á sua alma de monárquico, por principios e por gratidão, cauzára a inesperada e subita transformação. — Trazia, afirmava-o, o peito cheio de mágoa pela ingratidão que tiveram para com o Imperador, não se lhe respeitando tamanho acervo de serviços que, num reinado de mais de meio século, prestára o monárca-sábio deposto á Patria idolatrada. E o que mais o ralava, calando-lhe com a maior punjencia no espirito, era o não se têr a Côrte em pezo levantado, num esforço unanime, para impedir o destronamento do incontestavelmente maior homem do Brazil, não só pela realeza como pela elevação que a sua sapiencia déra ao paiz, por um impulsionamento salutar e vigorozo.—Era assim, então, que se premiava a tão magnanimo imperante, encanecido através o mais incessante labutar pela grandeza do paiz, impondo-o, pelos seus feitos, aos olhares das outras nações, grandes e pequenas, geograficamente falando, potentes e desmobilizadas, no sentido bélico?! Que estranha maneira era essa por que a Nação se mostrava agradecida ao seu imperante, esse grande patriota que lhe proporcionára o gozo de cinco décadas de serena paz e invejavel prosperidade, coiza inteiramente desconhecida nas republicas vizinhas, onde os «pronunciamientos» e as revoluções periodicas haviam assentado o seu arraial?!
E como que possuindo já a nítida certeza de estar o evento consumado, ei-lo continuando a pronunciar-se todo favoravelmente e justiceiro ao velho e bondozo soberano, que viajava rumo do velho mundo.
Do reinado de d. Pedro de Alcantara―quem não reconheceria ? — rezultaram os movimentos sociais e politicos mais decizivos, alguns dos quais, mau grado lhe prenunciassem essa perda do trono, que agora lhe parecia consumada, não tiveram a opozição do monarca deportado.
Num exaltamento mixto de pena pela ingratidão de que fizeram alvo o imperante destronado e de orgulho de brazileiro pelo metamorfozeamento politico operado no grosso do paiz, como se dizia, pacificamente, o Marçal erguia-se a passear de um lado para o outro, mãos aos bolsos do rodaque de brim pardo, falando para os seus amigos, que lhe bebiam as palavras cabeceando em apoio.
— Agora, dizia elle, podiamos afirmar que do seu longo reinado, da sua orientação e da sua co-participação pessoal, nos grandes cometimentos a que o paiz fôra chamado a partilhar, emanaram o logar de destaque especial com que sempre nos logravamos aprezentar. Haja vista esse gloriozo certamen universal de que a torre Eiffel foi o clou, certamen pela incomparavel beleza assombrador dos povos civilizados e no qual tremulou garrida e gloriozamente a bandeira imperial da unica nação monárquica da America.
Ia o oficial e proprietario repetindo-se, por essa maneira, nos considerandos, a medida que os pandegos conversadores chegavam, todos atarantados, cada qual mais sofrego em melhor se assenhorear das noticias do ocorrido, tanto na terra, como lá no teatro principal da transformação do rejimen.
Chegava, afinal, o Jovino todo expansivo e exultante. E, sem precizar que lhe dissessem estar sendo notada a sua demora, foi-se desculpando com a excessiva tarefa que, durante o dia, carregára aos hombros.--Era assim a Republica ! comentava. Tinha-se nella a cumprir uma interminavel série de deveres sociais a que se não podiam furtar todos os cidadãos que, como elle, dezejassem pratica-la fielmente. Isso lhe não viria, porém, impedir de proseguir na assiduidade com que sempre frequentára o cavaco, ali na «Aurora». — Disso, concluia, podiam estar os amigos bem tranquilos.
Houve um unizono sinal de apoio ás adocicadas palavas do néo-republicano. Nenhum obstaculo mostraram ao companheiro, que agora surjia transformado nas idéas dum dia para o outro, abdicando-as de conservadoras que eram nas abraçadas momentaneamente por quazi toda a gente. Queriam delle as novidades fresquinhas, os pormenores das arruaças da vespera, sob o rejimen monárquico, e dos acontecimentos do dia, dos quais rezultaram á Provincia a adezão á nova fórma de governo do paiz.
O Jovino seguira todo o movimento, gravara-o bem na mente, sem lhe olvidar a menor ocorrencia. E ainda bem o capitão Marçal se não mostrára interessado pelos pormenores, e o conversador que achegava a sua cadeira para junto da poltrona de vime e de largo espaldar em que descansava o dono da quinta.
A narrativa dos sucèssos ia ser ali feita por uma testemunha ocular, pormenorizada mais do que nenhum dos jornais da tarde, que as noticias por elles estampadas eram duma deficiencia pasmoza e indizivel. As folhas partidarias da monárquia derrocada não se queriam incompatibilizar numa descrição dos acontecimentos em que comprometeriam o delito dos seus adeptos; por outro lado, o jornal que apoiava o sistema de governo inaugurado preferia calculadamente acobertar-se ao laconismo noticiarista para ajir, depois, com mais incontestavel e nitida segurança.
O academico dava inicio á narração.
Quando a cidade começava a despertar, ainda apavorada com os morticinios da vespera, elle, Jovino, farejava já por bêcos e vielas as noticias. E tanto pesquizou, pondo em prática astucia e empenhos, em peregrinação tão incessante, que logrou fazer reportajem farta e precioza para uzo seu e dos amigos, ao mesmo tempo que se habilitava a contrariar os boateiros que porventura quizessem adulterar «o peixe» destinado á venda.
De todo o publico já era sabido, áquellas primeiras horas da manhã, que o coronel Luiz Taveira, para o povo eternamente —o major Taveira, então no comando do 5.. de infantaria de linha tivéra, em «palavras convincentes e determinativas», ordem telegrafica do Governo Provizorio da Republica para organizar uma Junta Governativa na Provincia e promover, quanto antes, a adezão desta ao rejimen proclamado da na corte imperial pelas classes militares, em nome da Nação.
A ordem, recebida aí por cêrca de uma hora da madrugada, quando ecoava ainda dolente o trajico termino da luta em que a mesma autoridade fôra chamada a intervir, com o fim de obstar o ataque imminente ao vespertino da dissidencia liberal, teve da parte do bravo militar jubilozo acolhimento. Tal empenho mostrou elle em cumpri-la que já se sabia quais os pro-homens que constituiriam a Junta, cuja posse pra marcada para as onze horas dia. E fôra tudo ponderadamente rezolvido em franca combinação com o dr. Pedro Belarte.
No momento dessa alta rezolução, tomada no estado-maior do quartel da tropa de linha, cuidava-se, por outro lado, dos mortos e feridos da noite anterior.
No cemiterio, após lijeiro autopsiamento, indispensavel para as indagações policiais, eram os cadaveres dados á sepultura, sob o punjente derramar de lagrimas e gritos angustiozos de parentes que haviam tido permissão de contemplar, pela derradeira vez, as pessoas estremecidas, que tinham tambem caido na ladeira do Viramundo,varadas mortiferamente pelas balas das Comblain da fôrça garantidora da inviolabilidade do edificio d՚O Globo e incumbida de impedir a agressão aos seus ocupantes. E ao tempo que, no campo santo, se deitavam em sepultura raza a pá de cal, e os sete palmos de terra caíam pezadamente sobre os corpos das infelizes vitimas do ideal por que se bateram, com lizura e corajem inauditas, adstritamente obcecadas á inconciencia, — no hospital da Santa Caza cuidava-se dos feridos que, na vespera, receberam pacientemente os primeiros curativos na botica do Vidal.
A portaria do vasto edificio da praça da Caridade estava literalmente cheia de gente, que acorrêra sofrega por saber da sorte dos entes extremozos, naquelle momento sob a ação cloroformidica e aos cuidados dos medicos da pia instituição.
Na sala das operações incrementava-se, com afã, a todo um reluzente arsenal cirurjico, no decepamento de braços e pernas dos pobres mortais que, sem esse recurso inevitavel da cirurjia, seriam fatalmente levados pela gangrena a partilhar da sorte identica á dos companheiros que, na necropole, já dormiam o seu sono eterno. E, no mortifero trabalho a que o excessivo numero de feridos sujeitava todos os operadores, a fadiga sobrevinha, dezalentando-os. Mas nenhum descanso se lhes deparava possivel. Tratava-se era de acelerar a operação, desprezando-se um exame mais detido, uma pesquiza mais minucioza, a comprovar si todos os feridos necessitavam, efetivamente, de intervenção cirurjica.
O barbeiro Macedo, o veterano dos sangradores locais, tivera os seus serviços aproveitados, auxiliando os médicos e aplicando sanguesugas. Condoia-se a alma do deitador de bichas ante aquelle enervante vibrar do serrote decepador; e tanto si lhe revoltou a conciencia quando, para terminar depressa, não se detiveram mais os instrumentos cortantes, que elle, esquecendo a sua pozição subalterna, ali, não se conteve e deixou escapar corajozamente a censura que lhe pairava aos labios: julgava verdadeira falta de humanismo aquelle preparo que se lhe evidenciava de atirar-se á cidade cêrca de duas dezenas de aleijados, o que, pela propria cirurjia, ali em ação, poderia bem ser evitado. E concluiu afirmando temerariamente ser aquillo que se estava a praticar uma verdadeira carnificina, una barbaridade sem nome.
O dr. Firmiano, chefe do serviço hospitalar, pasmou diante a afoiteza do barbeiro, em tão melindrozo momento. Suspendeu o serrote e, encarando-o, atonito, e firmemente, disse-lhe, em tom imperiozo:
—Olá, meu petulante, isto aqui não é açougue, onde a gente da tua láia rejeita os ossos! Faze apenas o teu serviço e não te atrevas a meter o bedêlho aonde não se te chamou. Quem se imiscúe em coizas de brancos, tem a mesma tristissima sorte aqui destes teus companheiros, seu refinado patife !—E sabe que mais ? rua !
E, indicando ao aplicador das sanguesugas o caminho da porta, o intrepido sangrador escafedeu-se obedecendo á intimativa.
Enquanto ao cirurjião, esse serenamente tornou a imprimir ao serrote o movimento relinchante nas amputações, entrando já a termino, das pernas e braços dos infelizes que, em tão desgraçados sucessos, talvez não suspeitassem siquer sairiam aureolados do martirio. E, porisso, entregavam-se resignados aos curativos finais, ás compressas, á gaze, deixando operar sobre as suas feridas dolorozas o sublimado e o iodoformio, com todas as meticulozas regras da antiseptica.
Ia já alto o dia e aproximava-se a hora solene da adezão.
Ao palacio da prezidencia acorriam pressurozos amigos do governo a inaugurar-se, em numero elevadissimo, contrastando estupendamente com o dos que acercavam ainda o conselheiro Tacito, prestes a ser dezapeiado das suas altas funções.
Os primeiros a chegar foram vereadores da Camara Municipal, quazi unanime de elementos do partido conservador, e que, havia dois dias, estavam em sessão permanente, aguardando ordens do Governo Provizorio, a cujos serviços se puzeram telegraficamente. Vieram, em seguida, os membros da Relação distrital e os cidadãos convidados a fazer parte da Junta Governativa, em numero de sete: o coronel Taveira e um tenente do mesmo batalhão por aquelle comandado; o dr. Pedro Belarte, o capitão do do pôrto, o comandante da escola de Aprendizes Marinheiros, um membro preeminente do partido conservador, da facção castrista, e outro reprezentante da dissidencia liberal, indicados, os dois ultimos, pelo dr. Belarte.
Procuravam todos, em unanime empenho, dar ao ato a maior solenidade; e, através esse afã jubilozo, não se podia deixar de perceber que contrastava vivamente a fizionomia dos acendentes ao poder com a daquelles cuja missão agora se findava de subito.
E logo que o têrmo da ceremonia da posse, lavrado por zelozo e antigo funcionário da Secretaría da prezidencia, foi concluido, passou-se a lê-lo, independentemente das assinaturas que, em ordem convencionada, seriam rejistradas. Era sucinta e sem redundancias, como convinha ao momento, a redação da peça documentaria, na qual ficaria assinalada para todo o sempre a implantação da fórma de governo republicano na terra ateniense. Nella se rejistrava que o comandante da força publica de linha e chefe da Junta Governativa se investia deste ultimo cargo, obedecendo a determinação telegráfica do marechal de campo proclamador da Republica e chefe do seu Governo Provizorio. Rezava ainda o têrmo da posse o qual, á exibição feita pelo coronel Taveira ao conselheiro Tacito do telegrama de Deodoro, o prezidente provincial deposto disséra que, independente de qualquer ordem, passaria a administração ao mesmo militar intimante, porisso que se lhe escaceiavam os elementos indispensaveis para a garantia da segurança e tranquilidade publicas.
Finda que foi a leitura do têrmo, os prezentes começaran a subscrevê-lo. O dr. Belarte produzia jeira e patriotica alocução congratulatória com o povo da sua estremecida terra», exultando pela metamorfoze politica do paiz, à qual o Maranhão acabava de aderir, pelo orgam daquelles cidadãos reprezentativos de elementos politicos e militares ali congregados, unizonos em uma ação toda de paz, terminando por erguer altisonantemente entuziastico e vibrante viva á Republica.
Em frente á caza do Governo, as bandas muzicais faziam ouvir, com estridor, a Marselheza, essa sujestionadora muzica de nação libertada que, já ao alvorecer, se executára no quartel do 5., quando atroou festiva a salva de 21 tiros, em primeiro anuncio da adezão.
Os populares que iam enchendo o largo, à audição da tocata do hino nacional da França, para elles até então quazi desconhecido, acompanhavam automaticamente o palmar estalidante e vigorozo dos que, das janelas do palacio governamental, se mostravam bem jubilozos em aplauzo simultaneo á compozicão de Rouget de l՚Isle e á Republica nacente.
Os membros da Junta passavam á sala dos despachos, a redijírem, na «meza da ferradura», donde se dirijia os destinos do Maranhão provincia, a proclamação inicial dos atos do governo do Maranhão estado, sob o sistema republicano federativo.
Decorrêra pouco tempo e a proclamação, subscrita pelos sete membros da governança, era afixada á porta da comuna e mandada a imprimir, para pleno conhecimento do publico.
Fôra assim concebida, a peça:
«Concidadãos: Está proclamado o governo republicano. A Junta Provizória, reunida no palacio da administração publica, delibera bem tranquila, confiando plenamente nos sentimentos de ordem da população do Estado do Maranhão e no patriotismo nunca desmentido desta provincia, ilustre pelos titulos que a nobilitam.
A Junta provizória tem fôrça para garantir a segurança de cada um dos cidadãos, e dos estranjeiros rezidentes na terra hospitaleira da patria; ella aguarda confiante o apoio que a gravidade da situação nos impõe e que, fortalecendo a administração, assegurará ao Estado a paz e a tranquilidade. Viva a Republica! Maranhão, 18 de novembro de 1889».
Entravam, então, os governantes provizórios na sua tarefa dupla: propagar e administrar.
A narrativa dos acontecimentos, nítida e fielmente feita, sob o caramanchel da «Aurora», pelo prestante Jovino, nenhum comentario vivo despertava. De quando em vez, a proporção que ali se desvendavam as tenebrozas cenas do enterramento das vitimas baleadas, os horrores do hospital, e as adezões subitas, espontaneas e surpreendentes, os bons homens prozadores da quinta entreolhavam-se; e, no seu mutismo, afigurava-se a todos elles ser aquillo tudo ali contado apenas um esboço de horrendos desmandos e iniquidades, que promanariam da transformação inesperada por que passára a nação, de governo monárquico reprezentativo constitucional para republicano federativo.
E nesse afigurar incomentado se ficaram; e tanto que, mal o Jovino, declarando-se esfalfado, se retirava, e elles que, num dezejo unanime de boa noite ao capitão Marçal, tambem imitavam o academico adezista na sua disparada rumo dos penates.
Para o pôvo fôra cruciante e, ao mesmo tempo, jubiloza a passajem dos primeiros dias do rejimen sucedaneo do monárquico.
A nova policia, transformada em administração da «segurança publica», ajia com implacavel dureza.
Findo o martirio dos mandatarios sobreviventes das arruaças da vespera da adezão, a segurança publica tratava de catrafilar os cabecilhas mandantes, que á sua sanha eram apontados por mizeraveis delatores, alguns delles que até haviam comungado na mesma idéa e planeado, em ação conjunta, o assalto a O Globo e a agressão a que lográra escapar o dr. Belarte. Varios delles, cabeças de motim, avizados a tempo, conservaram-se forajidos, sob coberta enxuta, e na expectativa do desfecho das dilijencias policiais. Outros indiciados, porém, não se puderam furtar á detença e á inquirição, indo ter á prezença das autoridades. Nesse numero foram incluidos o Joaquim Alberto e o Apolonio Gaudencio; este, foguista e, aquelle, zelador da Uzina do Rapozo, os quais a delação apontava como elementos mais felinos do motim e dos seus principais instigadores, submissos ás insinuações do dr. João Eduardo para promoverem a bernarda.
A policia civil republicana tinha á testa da sua delegacia, no seio da Capital,o tenente Queiroz, oficial do 5., que, na noite que se seguiu á refrega, se oferecera e fôra aceito para render o seu colega no comando da fôrça garantidora do vespertino ameaçado e dos homiziados no seu edificio. Os seus primeiros atos foram os mais absurdos e iniquos. Era elle verdadeira negação do tipo de autoridade calma e reflexiva; possuia os mais vivazes sentimentos de crueza e despotismo, no mando ditatorial que lhe entregavam.
Por ordem de tão arbitraria autoridade fôra uma fôrça embalada á porta principal da Uzina exijir a entrega dos dois implicados, com a determinação de conduzi-los arrastados, si recalcitrassem, ou fazer fôgo, dado que os operarios, como se propalava, instigassem o foguista e o zelador do estabelecimento a dezobedecerem o mandado de prizão. Mas ninguem se opôz, diante aquelle intimidador aparato de fôrças, a que os dois arruaceiros seguissem prêzos para a cadeia publica, onde ficaram sob a mais rigoroza incomunicabilidade.
A՚ frente da policia militar achava-se o major Honorato Clemente, tambem pertencente ao 5.. Este oficial vinha de praça no mesmo batalhão, dêsde cadête, acendendo aquella patente, sempre ataviado a uma perronice cruel, maligno por instinto, do que fazia timbre, o que refletia perseguidoramente nas praças de pret e o afastava vizivelmente da estima dos seus camaradas oficiais. Na cazerna, quando as horas de lazeres permitiam á soldadêsca pandega entregar-se á troça e que os atos pueris e os gestos caricatos do major vinham á baila, era elle adequadamente crismado de «piôlho-viajante», alcunha jocozo que transpôz celere os portões do quartel.
A՚ ação ditatorial dessa dupla policia, civil e militar, a que entregaram a cidade, deve-se principalmente a perseguição de que foram vitimas tantas e tantas pessoas, injustamente imputadas delinquentes.
O dr. João Eduardo, embora com aparato de fôrça menor do que o posto em prática na prizão do Joaquim Alberto e do Apolonio Gaudencio, na Uzina, fôra tambem detido incomunicavel, mas no quartel do 5.. Encarcerado como conspirador contra as instituições inauguradas, como mandatario da bernarda, impulsionador do movimento e seu principal braço dirijente, o ex-parlamentar e acatado cauzidico estava com sentinela á vista, sem receber nem vizitas nem noticias da familia e dos amigos. E a essa incomunicabilidade a que sujeitaram o ex-deputado ajitador das massas, já por si o bastante doloroza, para quem por tantos cadinhos ainda rezervavam fazer passar, se vinha cruelmente juntar o trucidamento que a todo o instante o major Honorato Clemente entendia de antegozar. De quando em vez, o piôlho-viajante tirava-se dos seus cuidados e ia atenazar o prezo politico sob a sua guarda. Era, então, uma chusma de invecionices que se lhe formavam à cachola e elle, prelibando um gosto todo especial, prezumia incutir no espirito do seu prizioneiro. Pintava com a mais tristissima côr o quadro da situação, de cuja policia militar era elle o chefe. E quazi de contínuo concluia afiançando ao detido que o Governo Provizório da Republica pedira informações precizas sob o motim do Maranhão, e a Junta informára o que de verdade constava.—Nessa informação, acrecentava elle, toda cheia de veracidade, como se fazia mister, fòra o dr. João Eduardo assinalado como o principal instigador do levante popular. E, nas suas ferrenhas invetivas, sempre terminava o seu atemorizamento ao prezo dizendo-lhe:
— Estou aguardando as ultimas ordens, ca o doutor, para fazê-lo passar pelas armas! O pelotão executor está pronto á primeira voz ! Rezignação e corajem, meu doutor !
O detido nada contrapunha ás invectivas piohentas, limitando-se, algumas vezes, a esboçar, no seu semblante sereno de rezignado á sorte, um sorrizo de escarneo áquelle militar forte com os fracos, que lhe vinha ali, na prizão, a toda hora, motejar da sua infelicidade, a tortura-lo vil e acremente. Elle bem que sabia, por bilhetes tranzitados pelas mãos das proprias sentinelas, que a sua vida não corria o perigo que o major lhe anunciava a todo o momento; tranquilizava-se, portanto, sabendo estar a sua prizão servindo mais de intimidação a recalcitrantes do novo rejimen que, porventura, surjissem. Tudo aquillo era feito de calculo e crueza para aumentar a sua torturante angustia moral. E, no esforço maximo de aparentar ao major Clemente uma rezignação, que não se lhe podia manter integra, diante aquella figura desprezivel e mesquinha, o dr. João Eduardo deixava perceber estar enfastiado de tanta ameaça de voar a sua cabeça, e como que dezejando fosse logo o que se deixava para mais tarde, e se fizesse a venda immediata do que se tinha a empenhar.
O adezionismo avançava celere por todos os recantos da ex-provincia. Cidade, vila ou povoação, por menor que fosse, porfiava em fazer ajitar todo pompeante o pavilhão republicano, ao som da Marselheza. As proprias Camaras municipais encabeçavam o movimento e promoviam festejos imponentes, enviando extensos telegramas congratulatórios á Junta Governativa.
Na Capital, não era menor o entuziasmo francamente manifestado por todas as camadas sociais. A edilidade fizera garbo em aderir com ruido, tornando os seus adezistas em bem evidente pozição.
Diariamente iam ter á Caza do Governo reprezentantes de todas as corporações e numerozos empregados publicos, em cumprimentos coletivos, levados pelos proprios chefes das repartições. Eram: a Associação Comercial, pela sua diretoria; o Fôro pelos membros da Relação, juizes de direito e substitutos, escrivães e o corpo de beleguins, chefiado pelo sarjento Raimundo; a Alfandega, desde o inspetor ao guarda, e do capataz ao remeiro; o Liceu, pelos corpos docente e dicente; os artistas, os práticos da barra, a oficialidade da Guarda Nacional, e uma infinidade de comissões de sociedades de fins multiplos.
Aderiam todos numa vertijinozidade pasmoza. E sempre com festas, a foguetorio estrujente, selavam os adezistas o seu ato decizivo.
Houve um néo-republicano, o dr. Alfred Gibson, interprete comercial e medico homœopata, que aventou logo a idéa duma subscrição popular com o propozito de adquirir-se um mimo a ser oferecido ao coronel Luiz Taveira, afim de ao distinto militar ser recordado, a todo o tempo, o reconhecimento da terra pelos serviços por elle prestados á cauza da ordem publica. Depressa a subscrição foi acariciada pelo comercio, indo mesmo muito além do quantum que para o brinde se fazia mister.
Todas as noites a cidade pompeava nas festas. Passeatas promovidas por todas as classes, cada qual mais brilhante, seguiam-se á iniciada pela estudantal. A retorica malhava intensa por todas as esquinas, numa catadupa de hozanas á democratica fórma de governo.
A Junta, por sua vez, não deixava arrefecer esse palpitante entuziasmo a que se arraigára a alma do povo. De quando em vez promulgava uma rezolução, procurando empenhadamente ir de encontro á fibra patriotica, eletrizando-a. E a mais recente era a que derrocava os vestijios materiais do rejimen baqueado de recente, e assim redijida:
«Atendendo a que o rejimen monarquico sucumbiu ante o esfôrço patriotico da nação, tendo sido substituido por um govêrno essencialmente democratico; atendendo a que cumpre apagar quanto possivel dos fastos nacionais a memoria ominoza do imperialismo, que atrazou corrompeu e esterelizou os sentimentos cívicos dos brazileiros; a Junta Governativa do Estado Maranhão rezolve e manda que assim se execute:
—Serão destruidos em todas as repartições publicas do Estado todos e quaisquer vestijios materiais do antigo rejimen: corôas imperiais, bandeiras, insignias e os retratos do ex-Imperador e membros de sua familia, os quais serão recolhidos ao depozito de artigos bélicos, e quanto, enfim, recorde o periodo infortunado da patria. Os militares de terra e mar, oficiais publicos, corpos de policia e municipais façam dezaparecer a corôa imperial que encima os seus botões. Publique-se e comunique-se».
E a picareta e o alvião destruidores operaram vigorozamente nos solidos granitos e nas consistentes argamassas das fachadas dos edificios publicos, apagando da contemplação humana os custozos monumentos que á esmerada ação do cinzel e do buril deveram a nítida perfeição que se lhes admirava, e agora, por ordem superior, eram sumidos, reduzidos a entulho e poeira. Sómente na fachada da igreja de S. João e no frontespicio do quadrilongo dos armazens da Companhia Confiança, á Praia Grande, ficavam os escudos imperiais inatinjidos pela picarêta oficial.
Precizamente na tarde do dia em que a Junta lançava a publico aquella rezolução, se realizava tambem a passeiata promovida pelo pessoal da Companhia das Sacas, os trabalhadores da Prensa. Vinha á testa da procissão cívica um magote de homens dos que, dias antes, partilharam da onda ameaçadora d՚O Globo, agora, porêm, fazendo côro com os que bemdiziam as virtudes e grandezas do sistema governativo institituido de pouco no torrão brazileo.
E quando,dezembocando no largo do Carmo, a passeiata defrontou o Pelourinho, este se encontrava todo apinhado, o mesmo se dando nas cercanias. No proprio degrau donde o dr. João Eduardo insuflára a populaça para o movimento de protesto contra o derruir do trono, erguia-se, na ocazião, a figura altamente insinuante e simpatica do ardorozo republicano dr. Pedro Belarte, que quizera dar essa cativante e viva mostra de comunicação com o povo, por parte do Governo Provizório local, de que era elle tão acatado elemento.
Os manifestantes exultaram, vendo-se assim juntinhos do propagandista e administrador; e, em estonteadoras e freneticas aclamações deram a palavra ao tribuno triunfante. E pronto o verbo quente e burilado do ovacionado flamejou a arrebatar e emocionar a onda popular, através um enaltecimento incensado ás grandezas da democracia. Num arremesso perorativo, maximo de entuziasmo e requintado todo de patriotismo inegualavel, as imajens se lhe chegavam estupendamente felizes, até que, descendo o degrau, a grande figura da oratoria se foi afastando, sempre arrebatadora, vindo colocar-se fronteira á coluna. Apontou, então, para ella e, intimativa, imperativamente, o dr. Belarte concluiu:
—Concidadãos! Aqui foram barbaramente surrados os nossos avós! Derroquemos, sem piedade, este monumento aviltante para os nossos dias, agora que se nos surje promissor, com todo o seu majestozo brilhar, o sol da liberdade e da fraternidade, numa patria feliz e forte !
Palavras não eram ditas e aquelles denodados homens, de fortes e salientes musculaturas afeitas ao manejar quotidiano das sacas e fardos de algodão em rama, de avantajado pezo, atiravam-se decididos e possessos á monumental coluna torcida, de pedra marmore. Como por encanto, apareceram logo ao alcance dos manifestantes, vindos das companhias das Aguas e do Gaz, poderozas alavancas e grossos martelos, malhos e marrêtas, que entraram em ação pronta no derruimento ordenado pelo chefe republicano.
Rezolutamente, implacavelmente, qual esfomeados urubús no esfacelamento devorador da carniça, os mandatarios derrocavam o quazi secular monumento que, desde 1815, se erguia ali, no adro do Carmo, sem que a historia, por mais esmiuçada que fosse, elucidasse a sua proveniencia, a sua verdadeira serventia naquelle pinturesco local.
O historico da orijem da coluna assaltada e despedaçada chegara até aos contemporaneos empanado, duvidozo: Si servira de póste de suplicio aos delinquentes, sabendo-se até dos nomes dos primeiros nelle açoitados, tambem era inconteste não haver tido outro destino que o―«indicio de ser a povoação, onde colocado, de carater de cidade ou vila, cabeça dum termo, sède principal das autoridades judiciais».
E, assim, a remoção que os edis da cidade, em 1865, pediam insistentemente á prezidencia da Provincia se fizesse do Pelourinho, dali para local que não impedisse o tranzito, solicitação reiterada com vivissimo empenho, no ano seguinte, ao proprio governo imperial, sempre indeferida, era conseguida com inaudita facilidade pelo subito e arrebatador entuziasmo do prestijiozo membro da Junta Governativa, comunicando-se á alma popular, sujestionando-a devéras.
Obtinha-se a mais estrondoza vitoria, naquelle instante, sob o som empolgante da Marselheza, que as bandas de muzica zabumbavam simultaneamente e aos repercutintes vivas á Republica e ao novo Estado confederado, para todo o sempre aflgurado grandiozo.
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.
