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A Nova Aurora/4

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IV

As festas adezonistas

As manifestações adezonistas á proclamação do Governo da Democracia proseguiam crecentes, sempre com o mesmo intenso e vivo fragor,unjidas de inquebrantavel fremito de entuziasmo, e partiam de todas as classes sociais, vizando talvez um paliativo ao temor reinante no seio dellas proprias.

Eram festivais atrativos da afeição do novo rejimen aos que porventura o repudiavam.

Até os magarefes, sacudidos pelo instinto de animação que empolgava a todos, no momento, deixavam de lado os aventais tinjidos de sangue bovino e as reluzentes facas e machadinhas da retaliação das pôlpas da carne do adoravel bife, e tambem iam levar, ao som de marchas triunfais e ao estalido reboante do foguetorio, a sua solidariedade ao republicanismo de implantação recente.

Por sua vez, a Junta, aproveitando-se de tão acendrado civismo, não deixava de proclamar exultante a todo o transe a consolidação da nova fórma governativa. E, conjuntamente esse vivido afã,com que ella procurava incutir, no espirito dos convertidos democratas, as grandezas e os frutos, que do rejimen recem inaugurado adviriam salutarmente á Nação, tornava conhecidos, numa tarefa quotidiana, atos e palavras com os quais o Governo Provizorio evanjelizava, no Rio.

Semelhante divulgação, feita pela imprensa republicana, era transcrita empenhadamente pelas proprias folhas que não comungavam no crédo dos governantes provizorios do Estado, coartadas por completo na liberdade dos comentarios e de verberar os dezatinos e as estultices que, diariamente, partiam da «meza de ferradura» e concorriam para que os seus autôres alheiassem de si toda a simpatia do povo, que os ovacionava com de lirio falseado.

Creciam, sem prever-se um paradeiro, as arbitrariedades com que o delegado Queiroz dispunha a bel talante,na policia civil,da sorte dos seus concidadãos levados aos postos policiais. A inquirição para a insensata autoridade era letra morta, no que ella não diverjia do procedimento dos governativos, cuja volubilidade nos atos aumentava todos os dias, a proporção que elles se iam habituando a não serem contrariados em nenhum dos seus caprichos. O detido, pela menor queixa, era conservado a pão e agua, quando lho davam, por mais de vinte e quatro horas; e, antes de posto em liberdade, se lhe inflinjia, numa intimidação de reincidencia, repelentes e indecorozos castigos, dos quais os menores se limitavam á aplicação de duzias sobre duzias de estalidantes bolos, palmatoados a sustança, e á raspajem dos cabêlos, operada por qualquer esbirro policial. A conquista da liberdade era mediante o sujeitamento das mãos a causticantes pancadas de férula e a cabeça entregue á navalha raspadora.

Suprimira-se o direito de reunião, a simples aceno do delegado ditatorial.

E a população, numa pacificidade de carneiro, sem meios de defeza, amoldava-se aos ditames das inclementes autoridades sustentadas pelo poderio dos pontifices do Provizório.

Na «Aurora», por cujas cercanias já rondavam, farejando motivos para a delação, os secretas que o façanhudo Queiroz distribuira pelos bairros suspeitos, havia cessado a costumeira reunião noturna, e isso por previdente convencionalismo entre os cavaqueadores. Não, que nenhum delles si não queria atrever, com a sua perzença, a um ensejo de vir a ser alvo da sanha da despotica autoridade. E, porisso, fôra o proprio capitão Marçal Pedreira, por astucia e prevenção aliás mui louvaveis, ciozo do instinto conservador da sua pele e da dos amigos, quem propuzera a suspensão temporaria das dezopilantes seratas.

A quinta, entretanto, se imolára. Nenhum rumor vinha lá de dentro; nenhuma figura humana mesmo ali aparecia em determinadas horas diurnas; poucos vultos se mostravam nos arredores da chacara.

Ao Marçal parecia já um sonho essa transformação subita do seu incomparavel sitio em um izolamento, a cujo amor e encanto se ia enlevando, o dezaparecer dessa amenidade e do repouzo de que apenas na sua «Aurora» se gozavam, em plenitude grandemente invejavel.

Igual retraimento voluntario de comentar os acontecimentos locais e do coração da Republica punha-se tambem em prática por todos os clubes e cafés, ás portas das boticas Franceza e do Vidal, do Ribas e do Abreu, nas lojas do Ribeiro e Notre Dame, na livraria do Magalhães, nos botequins do Hermeto e do Queiroz, na «Caza do Diabo», e isso numa preocupação unanime de evitar averbamanto de suspeição. Em alguns trechos citadinos então o movimento havia paralizado por completo, manifesta como era a desconfiança contra todos os que perturbavam e comprometiam a paz das ruas.

Não porque apavora ssem e ainda surpreendessem os desmandos que á Junta aprazia praticar e sancionar, pois que do elemento popular eram elles conhecidos, em toda a sua minudencia. Mas continuava detido e incomunicavel, no quartel do 5', sob os torpes desvarios e tormentos dos piôlho-viajante, o dr. João Eduardo, cuja cabeça, como se lhe anunciava, e tambem ao povo, rolaria por terra ao primeiro bramido dos populares contra as façanhas dos governantes. A figura do antigo parlamentar monárquico, agora servindo de refem, transfórmára-se em idolo do povo, que, em sacrosanta deificação, prefereria o azorrague policial a saber se havia tocado siquer em um unico fio dos encanecidos e preciozos cabelos do prizioneiro ajitador das massas.

E, para maior atemorização da populaça, o Provizório, ao mesmo tempo, como para redimir-se das culpas que se lhe avultavam mais a mais no seu já amontoado acêrvo, pedira ao governo central enviasse de outros Estados tropa para reforçar a que já se achava exausta, por afadigamento oriundo da prontidão obrigada a interminavel vijília, nessa tarefa nobilitante de sopitar qualquer movimento, sempre em imminencia, opozitor á estabilidade do rejimen de que se fizéra ella mui abnegada garantidora.

Os governantes federais foram solícitos em atender ao pedido que, com tal justificativa, lhes fazia a Junta, por via telegráfica. No despacho por meio do qual o ministro dos Negocios Interiores se mostrava presto em vir de encontro ao apêlo, despacho logo divulgado em boletim d՚O Globo, comunicava Aristides Lobo a partida. para o Maranhão de fôrça auxiliar de linha, da estacionada no Piauí e Ceará, e mais que viria do Camocim, em cujo pôrto permanecia fundeada, havia tempos, a canhoneira Traripe, da marinha de guerra nacional, sob o comando do capitão-tenente Alvares Camara. O telegrama mensajeiro de tão grata nova para a Junta Governativa, terminava com este brado entuziastico do ministro do Provizório:

«Saúdo os bravos que defenderam a cauza da Republica e felicito o doutor Pedro Belarte».

E os soldados e o navio de guerra, não se fizeram esperar no dezempenho da alta missão a que lhos enviavam.

Entre as pompozas rezoluções governamentais vinha agora a que feria diretamente'o decano dos quotidianos da terra, o Diario, até então impronunciavel contra os desmandos e desvarios, e que por contrato legal, durando já além de ano, publicava os atos oficiais. A Junta fundamentava o seu decreto na afirmativa de que «concorrendo motivos de ordem publica, rezultantes da pozição duvidoza, perante o Governo do Estado, do Diario, contratante da publicação dos atos oficiais, tinha rezolvido na rescizão, além do arbitrio conferido ás partes contratantes de poder cada uma desmanchar o pacto a seu aprazimento». E, pela mesma rezolução, era contratado, nos termos estabelecidos com o decano, e por quatro anos, o dito serviço com O Novo Brazil, antigo orgam republicano, que se deveria, para esse mister, transformar em folha diaria.

A administração do jornal de contrato rescindido não se animou a verbetar o cazo, dado os considerandos que precediam precizamente o decreto abrogador. Limitou-se sècamente a prover a venda avulsa da folha, que a sua circulação era, até ali, circunscrita a assinantes e a permuta, timbrando num conservantismo arraigado aos costumes primévos do jornalismo provinciano.

Outros decretos e rezoluções se vinham sucedendo, amontoadamente, recebidos sem o menor protesto por parte dos que por elles saíam prejudicados. Extinguia-se a verba «Guizamentos», aplicada no dispendio com o culto católico; revogava-se a dispozição lejislativa, pela qual se subsidiava os alunos do seminario de Santo Antonio; abolia-se o dote até então garantido ás educandas do Azilo de Santa Thereza que contraissem matrimonio; suprimia-se a verba subsidiária aos capelães da Cadeia, da Caza dos Educandos Artifices e do curato do Gurupí, e respectivos sacristães.

Para a suspensão do auxilio ao culto católico, estribava-se a Junta Governativa provizória nestas razões:

«Considerando que as subvenções a estabelecimentos relijiozos reprezentam privilejio odiozo e diametralmente opôsto ao principio republicano da liberdade e igualdade dos cultos; que é ofensiva á conciencia publica toda preferencia manifestada pelo Estado em favor de uma relijião que não é comum a todos os cidadãos; que não é de direito pagar impostos para aplicar-lhe o produto a serviços que aproveitam unicamente a uma parte do corpo social, e não inteira comunhão do Estado, — Rezolve, ctc».

Mau grado o descontentamento latente, que lavrava no seio das coletividades, era por todas as fizionomias um eloquente finjir de profundo bem estar. O tratamento de «senhor» sumira-se como por encanto, substituido pelo de «cidadão», atestador vivo da mais absoluta igualdade social. Parecia se encontrarem todos muito alheios aos desmandos, ás perseguições, que por pouco mais de uma quinzena de dias bastou para os amoldar a esse finjimento de converzão democrática, expontanea e dilijente.

 

Do interminavel cantar de hozanas á Republica proclamada, certo foi a procissão cívica promovida pelas classes reprezentativas dos três poderozos fatores da riqueza publica—o Comercio, a Lavoura e a Industria, a que, pela sua grandioza imponencia, se considerou o clon dentre tantas outras. O advento do rejimen da democracia provocára dessas coletividades uma manifestação unica em aparato e galhardia, destinada a ser relembrada ad perpetuam rei memoriam.

As burras dos senhores das classes conservadoras abriram-se em prodiga derrama de dinheiro, os cordeis das bolsas se deixaram afrouxar sem pena, contanto que se não empanasse, nem por sonho, o vivo brilhantismo do festival de tão potenciais classes.

Era ao declinar da tarde de um dia em que todo o comercio permanecêra inativo e não funcionaram as repartições de publico serviço. Raros recalcitrantes, apenas, a quem os populares convertem, ouzam abrir os estabelecimentos. Nos consulados e edificios publicos as bandeiras flutuavam numerozissimas ao vento. Nesse estadear de regozijo o povo ocupa o primeiro plano, na folga precursora da manifestação de regozijo de que deveriam partilhar todas as outras classes sociais, por comissões de seus diretores.

No largo dos Remedios, todo apinhado pela fôrça militar, em uniforme de gala, e por crecida massa de povo, entravam trinfantemente os menbros da Junta do Provizòrio, em landaus grandiozamente imponentes, saudados pela Marselheza das bandas marciais e homenajeados pelas corporações ali formadas. Vinham de semblantes bem demonstrativos do lizonjeio pela pompa ostentadora.

Ordenou-se logo o prestito, a que se incorporaram, em logar de honra, os veículos dos governantes. Era o foguetório de bateria, partido de numerozas e bastas girandolas, a crepitar intenso nos ares, era uma salva dos classicos 21 tiros a ecoar com estridor por toda a cidade, na anunciação afanoza do contentamento dos manifestantes. E, terminanda a salva, o cortejo punha-se em movimento, numa ordem meticulozamente cuidada. Cavaleiros enfaixados, empunhando bandeiras de todas as Republicas do universo, encabeçavam a passeiata. As tropas abriam fileiras, para continenciar, aguardando o logar em que marchariam. Aos cavaleiros bandeirantes seguia-se o carro alegorico, conduzindo o grupo simbolico da Republica, da Glória e da Liberdade: eram três formozas moçoilas, belas e sedutoras, tanto e tanto que, no ajustamento do seu porte ao simbolo, mais pareciam estátuas. Em dispozição simetrica formavam os carros conduzindo cada qual o seu guião, com inscrições das grandes dadas republicanas locais e nacionais.

Estas eram: 2 de Novembro 1685—Suplicio de Bequimão; 1789—1792-Inconfidencia mineira; 1817—Revolução de Pernambuco; 1835 —45—Republica de Piratinin; 23 julho 1824— Confederação do Equador; 7 Novembro 1848— Revolução Brazileira; 1888—1.° Congresso Republicano no Rio de Janeiro; 1870—Grande manifesto Republicano; 15 Novembro 1889—Proclamação da Republica Brazileira; 18 Novembro 1889—Adezão do Maranhão á Republica. Depois, os landaus dos governantes, que rodavam acompanhando o portentozo grupo alegorico e a que se sucediam outras carruajens: a da Deuza da Justiça, precedendo os majistrados, a envergarem austeros as suas negras bécas; a de Minerva, guiando os estudantes secundarios; au grand complet, e os primarios, por delegações, a de Cères, á frente dos propulsionadores da civilização agricola, dos cultivadores de cereais brotados da nossa terra abençoada e fecunda; a das Belas-Artes e Oficios, seguida do operariado, grandiozo nas aclamações ao Trabalho; e, finalmente, o derradeiro carro alegorico, de Marte, o deus dos guerreiros, abrindo caminho á toda a fôrça militar, que marchava luzida e garboza no seu uniforme de gala.

O rutilante cortejo percorreu, sempre com a mesma ordem e galhardia, as principais ruas e praças da cidade, indo dissolver-se em frente ao Teatro S. Luiz, fazia já noite.

Daí a instantes, a caza de espetaculos regorjitava. Ia ter começo a sessão magna, parte ultima da manifestação das classes produtoras.

O edificio ostentava feerica iluminação, resaltando maravilhozamente fulgurante a ornamentação, dum esmero artistico esplendorozo. Além dos membros da Junta e delegações de todas as classes sociais, no Teatro se via toda a élite da sociedade local.

Entre os oradores inscritos, achava-se o Fabricio, chefe duma das oficinas da Uzina do Rapozo, homem de instrução acima do vulgar. O seu nome, de sobejo conhecido em todas as sociedades, era acatado com reverencia. Fôra elle prezidente e um dos fundadores do Clube Artistico Abolicionista e, na Uzina, si os operarios possuissem regular instrução, teria elle,inspirado pelo seu saber, conquistado logar preeminente; levantaria um partido, se quizesse, tal a céga abnegação que lhe votavam. Acercava-se, no estabelecimento, dos poucos que, pela sua intelijencia, o poderiam compreender e explicava-lhes, fundado na sua farta e variada leitura, as grandezas e virtudes da Republica, que elle considerava a melhor forma de governo para um paiz. Pregava-a com uma eloquencia em nada inferior á dos melhores e mais festejados tribunos. E, dos que o podiam entender nessas prédicas continuas, apenas um, o João Cadète, chefe da oficina de modeladores e veterano do Paraguai, diverjia das suas idéas. Todas as vezes que o ardorozo republico terminava, entre os operaris, as suas palestras doutrinárias, o Cadête repondia-lhe convincente:

—Qual, seu Fabricio, si isto por aqui chegar a ser Republica, algum dia, muita gente apanhará bolos e você irá á Cadeia !

O apregoador das grandezas do rejimen da democracia sorria ás sentenças do modelador, motejava do que elle considerava puro seticismo. Ainda no dia em que pelo telégrafo chegava a sensacional nova de que a Republica passára a rejer os habitantes das terras brazílicas, o Fabricio, opulentamente possuido de incontida alegria, chegou-se todo sorridente ao Cadête e, esfregando as mãos, num exultamento unico, disse-lhe:

—E՚ agora que você vai vêr o que é governo ! Tome nota !

—E՚ agora, retorquiu-lhe o modelador, que você vai á Cadeia e muita gente apanha bolos ! Note bem !

 

Do pessoal da Uzina, grande parte se achava no Teatro, vivamente empenhado em ouvir o discurso de seu colega de trabalho. Afirmava-se, entre o operariado do estabelecimento, que o Fabricio, sem intimidar-se com o amordaçamento a que haviam sujeitado a imprensa, e nem menos com o pavor que a todos cauzavam as severidades ilegáis das autoridades de policia, iria dizer, nas chinchas dos governantes, o seu modo de sentir, profligar os desmandos e arbitrariedades, lançar um protesto refletor do que de verdadeiro se passava na alma popular.

Assomando á tribuna, quando chegada a sua vez, pelo numero da inscrição, o Fabricio foi recebido por uma estridente salva de palmas, que rumorejou altisonante pelo abobadado edificio, ao contrario do que o auditorio fizéra com os oradores precedentes, friamente recebidos e discursando sem aplauzos. Diante a estrepitoza manifestação que o povo lhe faz, o tribuno deixa transparecer a comoção, dominando-se, porém. E, fitando a enorme massa popular, que incessantemente o aclama, como que procura precrustar o que vai na alma dos aclamantes, o que elles sentiam e o que de sincero iria nas suas constantes e vivissimas ovações.

A assistencia, de instante a instante, ajita-se sofregamente; todos como que anciam pela palavra do orador. Sente-se aquelles milhares de cerebros tendo o mesmo objetivo, o mesmo dezejo.

Fez-se, finalmente, o silencio. E a palavra do orador, temida e querida, é escutada. Fluente, emocionante e carinhozo, umas vezes, causticante outras, vai dominando o auditorio que, de compacto, se acotovelava.

O povo, agora mudo e quiéto, sentindo vibrar-se-lhe a alma ás palavras fabricianas, ouvia-as atentamente, embaladamente prêzo ao silencio. Aquelle discurso, em que ironicamente, mas sem papa na lingua, se fazia um verdadeiro libélo de acuzação aos membros do Provizório local, era tambem o porta-vóz das angustias de todos os corações. E, quando o fogozo tribuno compreendeu ter por si a grande onda popular e que, pela palavra, dominára aquella avalanche de sêres e pensantes, perorou rezolutamente:

—Concidadãos! Esta fórma de governo, que ora nos felicita,de Republica apenas tem o rótulo ! A Republica, como deve ser, ainda não a temos, pois os bolos estão chovendo nos postos policiciais, e cidadãos livres, como somos nós, os brazileiros, assistimos numa capital de antiga provincia, que sempre primou pela altivez e independencia, ao degradante espectaculo de vêr os nossos irmãos com as cabeças raspadas á navalha, por futeis delitos, e a um simples aceno dum senhor Queiroz, desbriozo da sua farda ! Abaixo, pois, os tiranos ! Viva a futura Republica !

A grandioza assistencia avermelhou as mãos e enrouqueceu-se, tão estrepitozos foram os aplauzos, por palmas e hurras, com que ella abalou as ultimas palavras do corajozo e vibrante orador republicano.

E a sessão magna findava por uma apoteoze á Republica, na qual a irradiação dos fogos cambiantes, em variegadas côres, vinha aureolar mais ainda a cabeça do fulgurante dissecador dos desmandos dos nobres pró-homens da governança provizória.

O Fabricio, ao deixar a tribuna, erguida ao lado do palco do S. Luiz, avaliava a profunda impressão produzida pelo seu vibrante discurso no espirito publico, mas não supunha e nem calculava o odio que elle havia cauzado aos mandantes da sua terra natal.. Por isso, não foi sem grande estranheza que, ao aproximar-se da caza de sua morada, se lhe deparou, formado á porta, um pelotão de policiais, que lhe deram ordem de prizão.

E, sem que rezistisse, deixou-se conduzir placidamente pela numeroza escolta á prezença dos membros da Junta governativa, cujos atos foram por elle, instantes antes, criticados com acrimonia irrefutavel.

O seu semblante, naquelle momento, estava revestido da mais doloroza impressão. Desditozo contraste ! Uma hora antes, quando muito, recebia elle as unanimes aclamações dum povo, por intermedio dos reprezentantes de todas as classes sociais, e encontrava-se radiante de gloria, enlevado, satisfeitissimo, por haver advogado calorozamente a cauza desse mesmo povo, conspurcado nos seus direitos, os mais sagrados. Agora, ali no palacête, onde se tinham reunido os governantes, estava elle como diante dum tribunal, inquizitorial. Atiravam-lhe toda a sorte de improperios, insultavam-o, baixa e torpemente; e elle, impotente para se defender diante aquelles espiritos neronianos, quedava-se submisso á rezignação de tudo ouvir. Por fim, ainda elle tentou justificar-se, dizendo timidamente:

—Eu pensava que a liberdade franca da palavra me seria mantida, como cidadão que sou...

—E tu ouzas, porventura, falar em pensamento e liberdade ? ! atalhou-o, encolerizado, um dos do Provizório, que assumira a pozição de inquiridor:

—Pensar !... Liberdade !... Si me definires estes dois vocabulos, proseguia o interlocutor, deixar-te-ei ir em paz !

Mas o democratico operario rezolvêra de si para si nem mais um murmurio deixar cair em sua defeza.

Então, o verberante, tomado dum tom impetuozo e forte para com o detido, fraco e indefezo, atirou-se á ameaça, num flamejamento de doutrina diante os seus colegas da Junta e do oficial comandante da escolta.

—Rezolveste, então, avocar á tua mui insignificante pessoa um supôsto direito de açular os teus parceiros contra as instituições vijentes, empregando, para isso, a astucia de decorar trêchos de Castelar, José Bonifacio, Nabuco e mesmo meu, esmiuçar analectos, para acompanhar os oradores hodiernos na enfaze, como na doutrina ? ! Pois fica sabendo que a Junta vai considerar-te bebedo; e, como tal, irás para a cadeia publica !

O ditador, naquella sanha iníqua, com convicção de apóstolo, estava quaze só na verberação, que os seus colegas da governança se acolhiam a um alheamento pasmozo, sem a menor idéa nítida do momento. Apenas um, o tenente Caligula, era quem se destacava daquella maioria muda e inerte, para vir em apoio ás descomposturas de que tornaram alvo o Fabricio. Esse unico apoiante passeiava por toda a sala, cheio de orgulho e muita empáfia, pavoneando-se em finjir indignação para com o prêzo indefezo. E o invectivador, numa eloquencia de proféta, concluiu a sua derrama de ameaças ao discursador homenajeado da multidão, dizando-lhe:

—Segue para a Cadeia ! E, ao menor movimento da turba, serás deportado para as inóspitas praias do... Rio Grande do Norte !

Num assomo de imitação ás apóstrofes, o tenente Caligula exclamou, apontando para o paciente:

—Eu cá, na minha opinião, achava que o fuzilamento rezolveria mais enerjica e sumariamente a punição dêste arrojado perturbador da ordem publica!...

O Fabricio, deixando aquella especie de pretório inquizitorial, seguiu caminho da detenção, com ordem da mais absoluta incomunicabilidade. Era mais um prêzo politico, outra figura ainda que se mandava izolar do contato com as camadas inferiores, em cujo seio a paciencia em suportar os desmandos governamentais já se esgotava.

 

Todo o povo se regozijava agora com a noticia da nomeação de um Governador, mandado do Rio de Janeiro, e estava na rezolução firme de atirar-se á reação ao despotismo com que o vinham infelicitando os dirijentes. Ao demais, propalava-se insistentemente que uma canhoneira, a Traripe, ancorada no pôrto de S. Luiz, ficaria adstrita á mais completa neutralidade, ante qualquer pronunciamento, partido do elemento popular, porisso que o comandante da pequena nave da armada nacional não comungava com os desregramentos que lavravam em terra. Na Capital da Republica, eram com veemencia profligados os dispauterios dos que, na ex-provincia imperial, dirijiam, sem parcimónia, a barca governamental. Qualquer movimento reacionario, portanto, não importava de que classe partisse, teria os aplauzos do pôvo, sôfrego de liberdade, e as fôrças de mar e terra reunidas seriam impotentes para contê-lo.

 

O Clube Artistico Abolicionista tivera o Fabricio por muito tempo como seu prezidente, reeleito de contínuo pelo voto unanime dos seus consocios, e dispensava-lhe carinho e considerações, cuja valia iam pôr em prova, amparando certeiro, como si fôra para toda a classe, o golpe de arbitrariedade perpetrado na pessoa do seu factotum. E a diretoria foi incorporada ter com o governo, a pedir com empenho a soltura do seu antigo prezidente, prevenir-lhe mesmo de que a reprezália se não faria esperar, no cazo delles, os governantes, não accederem.

Ou fosse por temêr o rebentar do complot, que se anunciava imminente, ou por haver sido deferido o solicitado pela diretoria do Clube, ou ainda por confissão tácita de arrependimento da violencia, o certo foi que, logo ao alvorecer do dia seguinte, emanava da Junta a ordem para ser posto em liberdade, incontinenti, o extremozo prezidente dos abolicionistas.

Centenas de pessoas, e de todas as pozições sociais, se encaminhavam, em interminavel romaria, para a caza da vitima, a levar-lhe, num abraço cheio de sinceridade, os protestos da mais franca e inquebrantavel solidariedade com as sãs idéas eloquentemente expendidas pelo tribuno, restituido ao convivio da familia e dos amigos. As simpatias populares, expontaneas e ardentes, para elle se volviam em um crecendo admiravel.

E quando, dois dias depois, o Fabricio se fez vizivel na Uzina, era de vêr os seus co-operarios em concerto harmoniozamente unico, do mais veterano ao aprendiz recruta, correrem para elle, em penetrante e incomparavel azafama congratulatória. Era uma chuva de parabens pelo seu flamejante discurso, a cujo estupendo sucésso a prizão iniqua nem de leve siquer conseguíra ofuscar; ao contrario, enaltecêra-o inda mais aos olhares dos seus concidadãos.

O Graciliano, quiçá um dos seus maiores admiradores incondicionais, classificou-o de «Grande martir» e, numa insistencia viva, pedia-lhe o orijinal do rezumo da vibrante peça, afim de remetê-la para a Côrte (elle ainda se apegava á denominação antiga da capital brazileira) onde seria exibida, entrelinhadamente, na Tribuna Liberal. A Côrte inteira, capitais e cidades, vilas e povoações, até mesmo o estranjeiro, isso elle o jurava, flcariam sabendo das horripilantes barbarias e das inqualificaveis violencias de que estava a ser teatro a sua terra mui estremecida. E mudassem-lhe o nome de Graciliano, si não lhe fôsse dado o sensacional prazer de vir o dezumano delegado Queiroz chamado á prezença do ministro da Guerra; e quem poderia duvidar até si, pelo revéz da sorte, não iria elle dar com os costados no prezidio de Fernando de Noronha !

Mas o orador lizonjeado negava-se peremptoriamente em franquear ao prestante Graciliano as tiras em que ficaram esculpidas as ricas e preciozas frazes, que constituiram o seu causticante discurso, e cujo fama resoava pela cidade toda. Não, tivesse paciencia o seu dedicado companheiro: não se poderia desfazer daquelles linguados de almasso; guarda-los-ia como reliquia de um valor inestimavel, para atestar aos posteros o que de desditas havia pezado sobre o seu estremecido torrão natal, ao termino do ano de 89.

E o Graciliano admirou mais ainda a nobreza d՚alma do amigo. Acatando as justas considerações do «reivindicador da liberdade», abandonou o seu propozito. Entretanto, não ocultava o grande desgosto que lhe cauzava ter perdido o ensejo a si deparado tão propicio de dar uma lavajem, verdadeira tunda de mestre, nos governantes, lá mesmo ás barbas dodeorinas.

Chegada que foi a vez do João Cadete estender a mão amiga ao co-operario de idéas diversas das suas, o modelador destacou-se bem do grupo e, em alta voz, impondo a sua pessoa aos olhares dos circunstantes, falou saboreando o seu prenuncio:

—Então, seu Fabricio, que lhe dizia eu?

—Muitas coizas, seu Cadête, bôas e más... disse o inquerido, meio dezalentado, e assim como que eximindo-se de entrar em delongas.

—Não, meu caro, nada de subterfujios; fale verdade ! Eu não lhe dizia que, quando por aqui chegasse a Republica, muita gente apanharia bolos e você iria á Cadeia ? !

O Fabricio esboçando um sorrizo amargo, confessou que, francamente, não se estava a praticar a Republica por elle sonhada...

 

Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.