A Nova Aurora/5
V
O Natal da Liberdade
Singrando os mares já se vinha das sulistas plagas o novo governador da glorioza terra, onde todos o esperavam ardorozamente, de braços abertos, como o mensajeiro da paz que se lhe fujira, como o rejenerador das coizas sumidas no ondeamento das depredações.
Uma subita situação toda de tregoas se formára agora, na espectativa, contando-se como vitoriozo cada dia decorrido, e que aproximava mais e mais do da chegada do vapor em cujo bojo navegava, rumo do norte, o novel Messias. Todos vislumbravam uma aurora de liberdade, de paz e de justiça.
Os governantes interinos ainda não tinham mãos nos desmandos, embora proseguissem, através bem matreiro co-honestar, na prática de atos com que procurariam ante os olhos do dirijente esperado, justificar a sua evanjelização dos principios da democracia pura. Assim era que se decretava, entre outras rezoluções, vizivelmente salutares, o direito de reunião e crítica, com a livre expansão do pensamento e, logo depois, a proibição absoluta do trabalho aos domingos. E era ella feita com estes fundamentos:
«A Junta do Governo Provizório do Estado, atendendo a que é da essencia do rejimen republicano o direito de reunião e da livre enunciação do pensamento, e a que a palavra e a imprensa livre são a garantia e, a mais sólida, das liberdades politicas, e que não se deve impôr áquellas sinão as limitações de direito e ordem publica; atendendo, finalmente,a que a liberdade de culto e relijiões carece da maior expansão e rezume em si uma das mais formais aspirações da Republica, rezolve decretar o seguinte:—E՚ garantido, neste Estado, o direito de reunião e nesta a livre enunciação do pensamento politico ou relijiozo de cada um, sem outro limite sinão a ordem e a moral publica».
A outra rezolução, expedida oito dias após, escudava-se em considerandos de que: sendo lejitima a pretenção das classes trabalhadoras de repouzarem aos domingos; que tais dias são consagrados ao culto, ou ao descanso, em todos os paizes civilizados; e que, enfim, as antigas posturas municipais, e em especial a da Capital, condenavam e puniam o trabalho que os patrões impunham aos seus prepostos e operarios,―decretava a Junta: — E՚ expressamente proibido o trabalho aos Domingos, em todo o territorio do Estado.
A proibição, que abranjia todos os armazens de comercio em grosso e a retalho, lojas, oficinas industriais e quitandas, penalizando com a multa de duzentos mil réis, e mais quinze dias de prizão aos reincidentes, excetuava os hoteis, restaurantes, farmácias, padarias e açougues, os quais poderiam comerciar metade do dia.
O Provizorio armava-se, assim, com o primeiro decreto, duma atenuante á arbitrária detenção do Fabricio, o da Uzina, e com o segundo, evidenciava-se amoravel protetor das classes laboriozas.
Dos proprios considerandos das duas rezoluções se poderia inferir não ser outro o mobil que os sujeriram. Entretanto, o efeito era nulo, porisso que da liberdade de pensamento ninguem se atrevia a aproveitar-se, assim como do descanso obrigatorio se orijinou balburdia tão emaranhada que, na sua aplicação, foram impotentes os fiscais do municipio, que deixaram, logo ás primeiras horas do dia, transparecer a sua ineficácia.
No proseguimento ininterrupto do desvairamento, a que se entregava, o Provizório não se comedia em dezatinos quotidianos.
Quando do Tezouro se lhe mostraram vazias, atinjidas por um entizicamento irremediavel, as burras das verbas orçamentárias, a que o deficit vinha do rejimen extinto amontoando apavoradamente, os governantes, logo e sem mais preambulos, concluiram que, si a Republica adotára a fórma federativa, claro estava cumprir á Tezouraria de Fazenda auxiliar de pronto os cofres da antiga provincia, cujo numerário se esgotára de todo.
E logo os dirijentes cairam a fazer, por conta propria, nomeações e promoções no quadro do pessoal de fazenda, depressa anuladas pelo centro, que a ellas não anuia. Vencido o primeiro mez de governança, indagaram elles sofregamente do governo federal a quanto montavam os honorarios, que estavam percebendo pelo dezempenho da sua espinhoza missão. O consultado respondeu, sem demora; e disse-lhes estar na prezunção de que o patriotismo dos pró-homens da Junta iria até ao ponto de nada perceberem pelo provizório encargo, por tão meritoria tarefa em prol do rejimen nacituro; mas, uma vez que lhe era impossivel impôr o patriotismo, respondia-lhes, em concluzão, que os consultantes teriam direito aos mesmos honorarios dos prezidentes da extinta provincia. Excetuando três, que se arraigaram ao patriotismo, em cuja fibra tocára a resposta do governo central, os demais componentes da Junta reclamaram da Tezouraria a pága dos seus honorarios vencidos. A repartição de fazenda ainda vacilou sobre o quantum a pagar. Ordenaram-lhe logo, porém, que nesse pagamento deveria ser computado cada membro do Provizório como si um prezidente fôra. A inspetoria, cumprindo as ordens oriundas do palacio da administração publica, accedeu ao pagamento reclamado, mas não esteve pelos autos em arcar com a responsabilidade, e sujeitou o cazo á aprovação de repartição superior,na Capital Federal. Desta, immediatamente lhe fizeram sentir ser impossivel aprovar-se o ato: o honorario, elucidava a repartição consultada, era fixado numa quantia unica para todos e não para cada um de per si e, porisso, se deveria incontinenti recolher aos cofres federais a cobreira mui indevidamente embolsada.
A inesperada comunicação, feita pela Tezouraria, do determinado pela repartição de superioridade hierarquica, produziu estupendo abalo na governança estadual, cujos membros, que se consideravam rejiamente pagos, tiveram de cair em intensa dobadoura para o reembolso do que haviam recebido a mais, ao mesmo tempo que ouviam o cantar sonoro do galo de outro poleiro, que bem mais alto se levantava, passando-lhe uma censura enluvada em pelica, mas bastante certeira e compreensivel.
Então um paliativo aparentemente se pôz em prática. O dr. João Eduardo deixou o quartel, por ordem superior. Era, afinal, posto em liberdade, ilezo, máu grado as torturas que de quotidiano lhe levava á alma o major Honorato Clemente, que fiscalizava o batalhão guardador do ex-parlamentar e acatado professor. Da Cadeia publica sairam logo Joaquim Alberto e o Apolonio Gaudencio, que eram restituidos ao trabalho da Uzina do Rapozo, cessando, porisso, a sua pozição de refens, duramente amargada durante tão excessivo numero de dias.
Estavam os prezos politicos reintegrados em sua liberdade plena.
Subtraiam-se, assim, os governantes, intencionalmente, ás aluzões picantes e demolidoras dos adversarios; escapavam-se elles sorrateiramente ás crudelissimas alfinetadas da maledicencia publica.
Era agora um vivo aparentar de garantias de direitos, irmamente distribuidos. Entretanto, a populaça que, em dado momento, vibrava intensa, sob a pressão de ameaça da guerra civil, via que o perigo da refrega amainava.
A cidade toda amanhecêra lindamente engalanada, para receber o seu novo governador. Era elle natural do proprio Estado a que vinha administrar, embora delle auzente desde criança. Vinha pelos serviços inestimaveis da propaganda republicana, como fiel delegado dos poderes federais, por quem eram já de sobejo conhecidos os dispauterios praticados pela Junta local.
Os jornais, emudecidos, privados de verberar os atos ditatoriais, que se punham em prática, havia já um mez, tinham, na vespera, por combinação tacita para uma ação conjunta, rompido o seu mutismo e procedido a uma dissecação vigoroza dos decretos e mais rezoluções com que aos dirijentes aprouvera infelicitar a terra. E, então, deitavam a boca pelo mundo, narrando que as doutrinas democráticas se vinham falseando, e era á «debacle», á ruina maxima que se conduzia a terra ateniense. O rejimen nella se havia implantado oriundo do terror, traspassado de odios inclementes.
Confraternizando com a populaça, que em pezo acorria á rampa, na qual deveria dezembarcar o intinerante, formava a tropa, no seu uniforme de gala, luzidio. Delegações de todas as classes sociais compareciam radiantes a receber o novo administrador. Este, trazido de bordo do paquete por uma flotilha de escaleres, bandeiras tremulantes, saltava na mesma rampa por entre estrepitozos hurras e ao som, da Marselheza. Milhares de petalas de finissimas rozas, desfolhadas por delicadas mãos infantis, se foram juncar, no seu aroma penetrante, aos pés do mensajeiro da paz, daquelle em que se advinhava o refreador dos doutrinamentos e práticas grandemente deturpados.
As ovações, de imponentes e sincerissimas, eram como o feliz prodromo de uma éra toda de harmonia e de confiança reciproca...
O governante, que pizava o sólo onde lhe ficára o umbigo, deixava perceber, no seu semblante sereno, do qual resaltava um largo gesto de nítida conciencia cívica, entre a viva comunicação da sua alma com a dos seus conterraneos, que, daquella hora em diante, se separariam do constranjimento em que se encontravam imersos, para terem noção mais vivida e pura da Democracia, para entrarem na percepção clarividente dos insofismaveis principios da liberdade, no seu verdadeiro e nobilissimo sentido. Na sua fizionomia espelhava-se que elle bem compreendia a ancia de paz e tranquilidade, manifestada em toda a ex-provincia, através esse nobre e edificante gesto com que se o recebia.
O Provizorio lhe preparára um opiparo almoço, no qual cada prato, pelo exorbitante custo, dir-se-ia de oiro. Ao toast trocaram-se os brindes estilares, repassados de certa frieza, o que bem denotava apreensão de ambos os lados, tanto do dos que arriavam o bastão, como pelo do delegado do Centro, que aportava ao Estado, por entre aclamações festivas unanimes de um povo sedento de liberdade, ávido de quem melhor lhe dirijisse os destinos, distribuindo imparcialmente a justiça e provisse, sem predileções molestaveis, o bem estar da comunidade.
Nesse dia, em que todos procuravam exteriorizar retumbantemente o seu jubilo, fazia precizamente um mez da adezão á proclamação do sistema republicano.
O Diario, falando com o direito facultado pela sua invejavel pozição.de decano, sempre ciozo da sua atitude neutral na imprensa indijena, saudava o governador empossado, em extenso e bem convincente editorial, que assim concluía:
« A imprensa no Maranhao, retraida até ha pouco, por uma bem aconselhada prudencia, mostra-se confiante agora. E o Diario estará sempre pronto a auxiliar os governos dêste Estado, falando-lhes a linguajem franca e verdadeira, aquella que nos impõem a neutralidade, imparcialidade e izenção com que ora nos pronunciamos, dezejando ao governo que começa um brilhante rezultado, e que todos as seus atos sirvam para ilustrar as novas pajinas da historia maranhense».
Era por tal modo que falava o decano ao novo chefe do Estado, na tarde desse dia em que elle dezembarcava na terra natal e assumia a sua administração.
O editorial em que o veterano da imprensa amordaçada verberava os atos da governança provizoria e recebia o seu sucessor, entre ramos e palmas, era transcrito em A Civilização, o semanario oficial da dioceze, editado em prélo proprio, no seminario de Santo Antonio. Na transcrição, a folha católica comentava com veemencia e acrimonia a situação finda, deixando transparecer na sua linguajem, comedida mas enerjica, continuar ella ante a ameaça de novas dissenções relijiozas, e tão grandemente profundas quanto ás politicas.
Mas as novas pajinas da historia, a que se referira o veterano da imprensa local, iam efetivamente surjir, porque o governador empossado de recente apenas aguardava o outro dia para, indene das perturbações cauzadas pela penoza viajem, entrar no conhecimento plenissimo dos desmandos e prover, pelo menos do efeito moral, o seu termino inadiavel.
E, com efeito, no dia subsequente ao da sua chegada, elle sentava-se á «meza de ferradura», já de rezolução engatilhada, predisposto a correr a esponja apagadora no que não se lhe deparasse irremediavelmente perdido ou consumado. Esperava sómente désse entrada em Palacio o doutor Pedro Belarte, a quem convidára para uma conferencia. O testejado tribuno e chefe republicano não se fez demorar; accedeu de boamente ao gentil convite do seu patricio e sucessor na administração do Estado.
Então, passou o novel dirijente a dezenrolar, diante a principal figura da extinta Junta governativa, o interminavel rozario de queixas. verbais e escritas que, dêsde a Capital do paiz, elle vinha recebendo dos desmandos que anarquizaram o Estado, ora sob a sua gerencia, além de que um estudo, embora perfuntorio, por elle feito, dos atos emanados dos seus antecessores, o haviam inteirado já da procedencia das acuzações e dos protestos incontaveis, todos muito veridicos.
Na sua exprobração virulenta e no transparecer da surprêza que lhe cauzavam tamanhos dispauterios, o governador cruzava os braços, confessando-se quaze impotente para assumir a responsabilidade e sair-se daquella situação melindroza em que se encontrava. E, empolgado devéras pelo cipoal em que se emaranhára, sentia, por vezes, fujir-lhe a luz do raciocinio. Por fim, depois de muito censurar, falou rezolutamente ao dr. Belarte, afirmando-lhe não carecer de mais tempo para reconhecer, sem laborar em engano, achar-se na prezença dum homem cuĵo talento não se poderia nunca pôr em dúvida.—Era bem verdade, considerava, que a sua opinião não poderia prevalecer numa comissão de sete; porém era tambem inconteste que o seu saber juridico, aliado á acatavel opinião de chefe do republicanismo proclamado, seriam pelo menos fôrças atenuadoras de tantos dislates.
O notavel cauzidico, nimiamente lizonjeado como excepção entre os pró-homens seus colegas de governança, defendia-se das increpações dizendo:
—Que queria o doutor, si eu me encontrava entre a espada e a ignorancia?! O meu papel, concluia, limitava-se a salvar a gramatica, redijindo os decretos e as rezoluções...
Nunca se protestou, em letra de fôrma, não haver sido da lavra do proprio chefe republicano exprobrado a redação da minuta do primeiro decreto do novo administrador, decreto que rezolvia a situação embaraçoza, e era concebido nêstes termos:
«São declarados sem nenhum efeito todos os atos da extinta Junta do Governo Provizório, e que não tenham o carater de meros atos de expediente; os funcionarios dispensados do exercicio de seus cargos poderão a elles voltar, dentro do prazo de três dias, contados da data em que tiverem conhecimento do prezente decreto, pela sua publicação no jornal oficial,—revogadas as dispozições em contrario».
Para entrar em ação franca o governante estadoal não pudéra precindir do concurso do ardorozo tribuno, o qual, entregando o pescoço ao cutelo, se rehabilitava perante a opinião de todos os seus conterraneos, penitenciando-se, embora alheasse de si a co-participação nos rasgos ditatoriais da Junta de que fôra elle incontestavelmente a principal cabeça pensante.
O desmoronar dos atos do Provizório ecoára por toda a cidade como sendo a rezolução iniciadora duma nova éra de comedimentos, por todos anciozamente esperada.
No mesmo dia, publicava-se o segundo decreto do governo rejenerador, pelo qual se dissolvia a Camara do municipio da Capital e se criava uma Junta especial para gerir os negocios e interesses da comuna. Para ella foram logo nomeados cinco cidadãos: o dr. Pedro Belarte, com a incumbencia de prezidir a todos os trabalhos e reuniões, os três chefes dos partidos monárquicos com ideas e principios homojeneos e coezos, agora em dissolução, e o Carlos Medrado, o velho poeta republicano.
Impressionava mui agradavelmente esse outro decreto, pelo qual se provinha a confraternização da familia partidaria, entregando-se a injerencia da comuna aos seus chefes principais e mais ao moderado propagandista Medrado.
Esse vulto bastante saliente da propaganda nenhum encargo quizera aceitar do governo republicano antecessor, pois que se não coadunara com os desmandos, havendo tido hombridade e lizura para censura-los acremente. Possuindo, nos seus anos, bastante experiencia e conhecimento pleno dos homens e das coizas, para se não deixar embarcar em frota sem bandeira, preferira, até então, ficar meio esquecido em vida, levando a doce existencia apegado a um ostracismo voluntario. Embora o seu traje rigorozo, adequado á fizionomia alegre e insinuante, destoasse do das notabilidades que enchiam as ruas de pernas, o Carlos Medrado, sempre retraído, obstinando-se em dar sanção aos dislates, preferira aguardar os acontecimentos.
O ardorozo poeta era, naquella idade já avançada, ainda o mesmo gentleman de idéas embaídas dumia democracia purissima.
Enamorára-se todo, na sua mocidade, dos homens e coizas das duas Americas, a dos espanhões e a dos saxonios, e tinha um culto fervorozo pelos helenos e outros povos da antiguidade. Dispondo de vastissimo cabedal de erudição, falando uns seis idiomas vivos com indizivel primor, alem do grego e do latim, a si bem familiares, era a palavra nos seus labios sazonada de chistes com sabor mui picante e admiravelmente tino.
Carlos Medrado, no seu poema forte e excelsamente grandiozo, maximè na contextura da idéa, tem nos lindos versus homericos, verdadeiros hinos entoados ás rejiões dos Incas e dos Aztecaz, ás magnificencias dos paizes dos Andes, na sua civilização invejavel; evocações luminozissimas ás carateristicas das raças povoadoras do continente colombiano, num elevado simbolizar da riqueza exuberante da flora e da fauna da America meridional. O espirito do civismo, a enerjia e o otimismo, principais marcos de norteamento dos povos do Novo Mundo, tudo se refléte em estudo profundo, acurado, nesse O Allah errante, todo unjido de arte, erudição e... amor.
As idéas do autor pela prática da democrácia pura, em principios até então irrealizados pela comuna, iam ser a bandeira que o novo edil arvoraria ao lado do chefe republicano e dos chefes dos partidos que se degladiaram, sem trégoas, durante a monarquia derruida. Propaga-los entre os seus colegas não lhe seria precizo despender extensos considerandos, por uma expozição de grande clareza e entuziasmo, para torna-los convincentes no seu aceite sem relutancia.
E fôra esse o seu belo programa, quando se efetuou a sessão inaugural dos intendentes sucedaneos da vereação dissolvida. Elle queria pôr logo em prática, sem esmorecimentos injustificaveis, como a mais proveitoza, a mais arrojada mostra de lição cívica: os serviços de instrução primaria disseminados pelas infimas camadas sociais, a inspeção do trabalho com garantias mutuas ao operario e ao patrão, e o alargamento do conceito administrativo, partindo da comuna, sem quebra de autonomia, para o Estado, integrando-o na função, compreendendo-se nisso a mais ampla injerencia social, ou antes uma ação certamente mais vasta da sociedade sobre o individuo.
Era o municipalismo amplamente dezenvolvido nas suas atribuições, a auxiliar poderoza e eficazmente a governança rejeneradora do Estado, a nova administração em que se concentravam todas as enerjias. E as invetivas reformistas do Medrado iam até á criação da «Atlantida», a escola universitária para a prática dos novos metodos da cultura intelectual.
Sob a prezidencia do doutor Belarte, restituido ilezo ao pontificado, como á disseminação dos sãos principios democráticos, a Camara entrava a evanjelizar com acendrado patriotismo, procurando evidenciar aos olhares dos seus municipes as grandezas multiplas do rejimen inaugurado, havia mais de mez. Criavam-se, nos principais bairros da cidade, escolas mistas de funcionamento diurno e provia-se o aumento das aulas noturnas.
Em memoravel sessão do conselho dos edis, Carlos Medrado, em concienciozo dezempenho de sua função, e evidenciando aos seus pares estar convicto de que o mal, em todo o gráu e em qualquer sentido, rezidia na ignorancia, a qual era precizo a todo o tranze combater, justificára, escudado em valiozos argumentos, o seu voto contra a proposta, em discussão, mandando se aplicasse ás despezas com o serviço da limpeza publica o saldo de várias verbas orçamentárias existente no caixa da comuna.
—A essas verbas, argumentava, que melhor aplicação se poderia dar, além da instalação das escolas mixtas municipais, pelos diversos bairros, pois que o defeito da educação na massa popular se explicava pela insuficiencia da Escola ? E necessario se tornava que os fundadores da Republica bem compreendessem a necessidade do dezenvolvimento da instrução, de fórma a corresponder ao progresso social rezultante da transformação do rejimen.
Sacrificava-se a tradição para substituir, nas rúas e praças, as denominações de remotas éras por outras em que o sentimento cívico despertasse interessadamente. Assim, tinha-se agora as praças de Washington e Deodoro, Tiradentes e Bolivar, da Justiça e do Progresso, Treze de Maio e da Republica; e o Cais, cujo inicio fôra na época da sagração do ultimo imperante, era crisinado de— parque 15 de Novembro.
Tamanho afã na rapida mutação dos nomes por que de principio se batizára ruas e praças da cidade banhada pelos rios Anil e Bacanga, repercutiu entuziasticamente na administração do Estado, que anulava o batismo da altiva vila sertaneja Imperatriz, sujeitando-a a novas aguas lustrais, bem solenes, de que lhe rezultava a denominação de Benjamin Constant, homenajem da «alma maranhense ao fundador da Republica».
O governador, que fazia agora converjir toda a sua enerjia, para a reconstrução empenhada do que na avalanche não se derruira de todo, tinha como seu braço forte, embora em esfera diversa, o quintêto de intendentes. E ambos os executivos, o municipal e o estadoal, porfiavam no apregoamento, por atos e palavras, das virtudes e grandezas democráticas.
Como medida moralizadora social decretava-se a extinção das loterias de qualquer especie, proibindo-se a venda de bilhetes, até de outros Estados ou do estranjeiro, e escudando-se a rezolução em que «as loterias constituiam uma instituição immoral, visto repouzarem em jogo ilícito, e no qual o dono ou o empreiteiro nenhum capital arriscava, formando-o simplesmente com os dinheiros pertencentes áquelles que concorrem, pela compra dos bilhetes». E mais ainda considerava o decreto, para a sua promulgação: que as loterias reprezentavam um tributo pezado, onerador quazi excluzivamente da mizeria aventuroza, a distrair de emprego util grande soma de capital, não podendo o Estado, porisso, «tolerar por mais tempo em seu seio essa verdadeira chaga, erijida, em algumas das antigas provincias, em fonte de renda ordinaria».
Nenhuma duvida, pois, restava de que se provinha a redenção dos costumes... Para que bem alto se inscrevesse a rejeneração do novo Estado, e se pudesse assinalar a sua autonomia, no seio da federação nacional, era mister elle adotasse uma bandeira. E, no simbolo da afirmação politica estadoal, atendia-se, pelas córes, ás tres diferentes raças que se fundiam e fraternizavam na prosecução dum destino identico e comum.
A bandeira, cujo dezenho tivera a paternidade dum intelijente funcionario de fazenda, e vinha em modelo anexo ao decreto que a instituia, compunha-se de nove listras em sentido horizontal, intercaladas, quatro brancas, três encarnadas e duas prêtas, com um quadrado superior, unido á lança, e tendo, ao centro, uma estrela branca, ocupando o quadrado uma terça parte do comprimento da bandeira e a metade da sua largura.
Com o simbolo decretado entrava-se, afincadamente, a alicerçar o novo Estado federativo, rehavendo-se para elle, por um propozito indene de atropêlos e de perturbação, a primazia na consolidação do rejimen, invocando-se para o conseguir com presteza, o batismo de sangue a quando se proclamou o adezonismo da ex-provincia nortista. O novo pavilhão surjia enastrado de flôres triunfais, vizando missão toda de paz e de fraternidade amorozas, e insinuando-se nas suas facinantes côres, um acariciamento terno e grato de sentimentalidade popular.
A vespera de Natal havia sido marcada preferentemente para o restabelecimento, na «Aurora», da reunião dos palradores da antiga roda. E pela volta ao rebanho das fieis ovelhas aurorais, uma ceia lauta, uma meia-noite opípara, com todos os requintes da culinaria indijena, se preparára para festejar ruidozamente o «levantamento do cêrco», o dezapego do retraimento a que os frequentadores da formoza quinta tinham sido impelidos pelas atemorizadoras façanhas de dezabuzado delegado policial, o Queiroz.
Os sinos duma igreja matriz, os de outras e, afinal, os de todas ellas tocavam alegres, unizonos na harmonioza vibração bronzea e disputando a honra de cantar cada qual mais alto a gloria ao Senhor.
De todos os recantos citadinos, até então immersos na doçura e paz, num resfolegar de agruras e provações, o conclamar tornava-se mais intenso, e as portas das cazas, abertas de par em par, mostravam o seu interior todo cheio de luzes e flôres. A populaça seguia a apinhar as igrejas, chamadas pelo repinicar festeiro e anunciador da missa do galo.
Ao mesmo tempo, na aprazivel vivenda, feericamente iluminada a tijelinhas, a balões venezianos e japonezes, tilintavam pratos e talheres. Era a ceiata celebradora da bemdita volta do rejimen normal.
Chegára já a ocazião dos brindes.
Num arremesso expansivo, era o academico Jovino quem, a pedido do proprietario da chacara, oferecia a festa; e concluia a sua alocução dizendo folgar immenso em aproveitar-se de tão propício ensejo para comunicar aos amigos, ali prazenteiramente reunidos, a sua nomeação para promotor de justiça em Iguará, comarca que o novo governador lhe offerecêra para nella se estrear. Presto movimento de entuziastica acolhida á noticia da nomeação e retinente entrechocar de copos e taças.
Tocava, então, a vez ao Landerico Antunes de fazer a sua saude. O mecanico enalteceu a estima fraternal que todos votavam ao Marçal Pedreira, exuberantemente provada ao termino daquelles trinta e tantos dias de terror, sem de leve siquer arrefecer, afirmando-se inabalavel e sincera. Em nome de todos esses amigos de todos os tempos, verdadeiras ovelhas tornadas ao aprisco, oferecia ao magnanimo amigo, ao filantropo, ao briozo oficial-fardado da milicia garantidora suprema da integridade do torrão pátrio idolatrado, uma lembrança simples, mas unjida de grandioziozidade, pelo sentimento sincerissimo que a inspirára.
Toda a nobre face do Marçal dezenhou, então, um claro gesto de interesse e prazer ante a oferta anunciada assim tão solenemente.
Exibindo-a, como reponso final, o mecanico suspendeu ás mãos ambas, pelas extremidades, uma placa de bronze, com lêtras embutidas a massa envernizada, e na qual se lia:
Destinava-se a lamina metalica a substituir a antiga denominação da quinta, almejo que, desde a restauração da normalidade, vinha atenazando o espirito marçalino e, agora, pela voz providencial do Landerico, era acariciado e posto em prática.
O dono da oferenda, com os olhos a sorrirem de doce contentamento, correu para o mecanico, a estreita-lo apertadamente num fervorozo abraço fraternal. E, mimozeando a espelhante fita de bronze, não se conteve em pronunciar as palavras patrioticas que, no momento, lhe acudiram:
—O՚ noite santa, bemdizia, de santo Nascimento, graças ao Senhor que via a sua terra sair ileza, tendo ciozamente amparadas, em todas as suas linhas, as tradições de polidez, de elegancia e (porque não?) o senso comercial dos nossos maiores!
Por entre estrepitozos hurras e palmas, a bronzea placa instalava-se no local onde, havia dezenas de anos, perdurava a tabolêta de bacuri, com a inscrição carcomida pela ação destruidora dos tempos.
E ali ficava, assinalando aos tranzeuntes a prosperidade incessante do penultimo decendente dos Pedreiras.
O alvorecer do dia de Natal veiu encontrar dansando e cantando a cidade em pezo, partindo de todos os habitantes, com alarido, a exteriorização de seu jubilo. Consolador alvorecer ! A aurora já aparecia no oriente e os sínos ainda cantavam sonoros, numa alegria infindavel, chamando ás missas paroquiais.
No mastro, por sobre o portão principal da entrada da chacara, no jardim, tremulava toda triunfante, desde a vespera, a bandeira quadrioclôr do Estado.
Num divino clarão purificador das almas do ilustre e expansivo Marçal, e de todos os seus alegres companheiros de pandega e de infortunio, a luz da nova aurora penetrava grandioza e limpida naquelle ambiente saturado todo da santidade do Natal.
E, como elles, o povo era feliz, era gloriozo nesse abraçar ardente a que se entregava, num estremecimento incontido de fraternidade e paz, que os sinos bem celebravam porfiada e solenemente.
S. Luiz, Nov.—1912.
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.
