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A Poetica de Aristoteles/V

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CAPITULO V.
Da Tragedia em particular, e das
ſuas Partes.
I.

DA imitação, que ſe faz por Hexametros, e da Comedia trataremos depois: fallemos agora da Tragedia, deduzindo a ſua verdadeira definição do que temos dito.

II.

Definição da Tragedia. He pois a Tragedia a imitação de huma acção grave, e inteira, de juſta grandeza, em hum eſtilo ſuave, mas de varias eſpecies, de que ſe ſerve ſeparadamente nos ſeus lugares, a qual não por meio da narração, mas ſim pela compaixão, e terror, conſegue o expurgar-nos de femelhantes paixões.

III.

Explicação dos alguns termos da Definição. Chamo eſtilo ſuave ao que tem Rythmo, Harmonia, e Melodia. Chamo ſervir-ſe ſeparadamente de cada huma das eſpecies ao executar algumas coiſas ſómente pelo Metro, e outras pela Melodia.

IV.

Das ſeis Partes da Tragedia. Como eſta imitação he executada por homens, que obrão alguma acção, primeiramente o Apparato da Scena ha de ſer neceſſariamente huma das partes da Tragedia; e depois a Melopêa, e a Dicção, porque a imitação ſe faz com eſtas couſas. Chamo Dicção á meſma compoſição dos metros, e Melopêa áquella, cuja força a todos he manifeſta.

V.

E como ella he imitação de huma acção, e ſe executa por alguns agentes, que neceſſariamente recebem o ſeu caracter dos coſtumes, e dos ſentimentos, pois que por eſtes principios he que conhecemos a qualidade das acções, vem por conſequencia a ſerem duas as cauſas das acções, a ſaber, a Sentença, e os Coſtumes; e por eſtas conſeguem todos a felicidade, ou a deſgraça.

VI.

Ora a Fabula he a imitação da acção. Chamo aqui Fabula á compoſição das couſas; Coſtumes aquillo, por onde conhecemos qual ſeja o caracter dos agentes; e Sentença a todas aquellas expresſões, com que elles deſcobrem alguma couſa, ou manifeſtão qual he ſeu animo.

VII.

He logo neceſſario que as Partes de qualquer Tragedia ſejão ſeis, que conſtituem a ſua Qualidade. Eſtas são: a Fabula, os Coſtumes, a Dicção, a Sentença, o Apparato, e a Melopêa. De ſorte que os inſtrumentos, com que ſe imita, ſão dous; o modo, por que ſe imita, he hum ſó; e as couſas que ſe imitão, ſão tres; e além deſtas Partes não ha mais alguma. He certo pois que a maior parte dos Poetas, para o dizer aſſim, uſa deſtas ſó fórmas, porque tudo igualmente tem Apparato, e Coſtumes, e Fabula, e Dicção, e Melopêa, e Sentença.

VIII.
I.
Da Fabula.
Porém o mais importante de tudo iſto he a compoſição das couſas; porque a Tragedia he huma imitação não de homens, mas das ſuas acções, e da ſua vida, e da ſua felicidade, ou deſgraça. Por quanto a felicidade conſiſte na acção; e o fim, que os homens ſe propõem, he ſempre huma acção, e não huma qualidade. Quaes ſejão os homens, conhece-ſe pelos coſtumes; ſe são felices, ou infelices pelas acções.
IX.

Elles pois não obrão na Tragedia para imitar os Coſtumes, mas com as acções involvem os Coſtumes juntamente de maneira, que as acções, e a Fabula são o fim da Tragedia, e o fim he o mais importante de tudo; porque ſem acção não poderia haver Tragedia, mas podellahia haver ſem coſtumes; pois que as Tragedias da maior parte dos Modernos não tem coſtumes, e em geral ha muitos Poetas deſte genero: aſſim como tambem entre os Pintores he Zeuxis a reſpeito de Polygnoto, porque Polygnoto foi hum excelente pintor de Coſtumes, e Zeuxis não tem coſtumes alguns.

X.

Além diſto, ſe alguem ordenar algumas fallas, em que ſe expreſſem os Coſtumes, e Dicções, e Sentenças bem executadas, nem por iſſo ſerá feito, o que he proprio da Tragedia, antes muito melhor o fará aquella Tragedia, que deſtas couſas uſar mais parcamente, mas tiver Fabula, e conſtituição das acções.

XI.

Ajuntemos a iſto, que as principaes couſas, com que a Tragedia deleita os animos, iſto he, as Peripecias, e Agnições, são partes da Fabula.

XII.

O meſmo finalmente ſe prova de que os que emprendem fazer Tragedias, conſeguem mathematicamente a perfeição na Dicção, e nos coſtumes, do que na conſtituição das acções, como ſe vê em quaſi todos os Poetas antigos.

XIII.

He pois a Fabula o principio, e como a alma da Tragedia, e depois della os coſtumes, e tambem niſto he ſemelhante á Pintura; pois, que ſe alguem pintar com as mais formoſas cores, porém miſturadas, e confufas, não ha de deleitar tanto, como ſe debuxaſſe ſimplesmente huma figura. He pois a Tragedia a imitação de huma acção, e por iſſo meſmo deve imitar principalmente os que obrão.

XIV.
II.
Dos Coſtumes.
Os coſtumes ſão aquillo, porque ſe manifeſta qual ſeja a noſſa inclinação, e reſolução. Pelo que não tem coſtumes algumas orações, nas quaes ſe não reconhece, ſe o que fala ſe inclina, ou ſe deſvia.
XV.
III.
Da Sentença.
A Sentença tem o terceiro lugar; eſta he a faculdade de dizer as couſas, que ha no ſujeito, e as que lhe convém; iſto nas Orações pertence á Politica, e á Rhetorica. Os antigos enſinavão a fallar ſimplesmente, e ſem artificio; e os modernos enſinão a fallar rhetoricamente. A Sentença tem lugar, quando moſtramos como alguma couſa he, ou não he, ou de qualquer modo a declaramos.
XVI.
IV.
Da Dicção.
Em quarto lugar he a Dicção das palavras. Digo pois, como já ſica expoſto, que a Dicção he huma interpretação do animo por palavras, a qual tem a meſma força nos metros, e na proſa.
XVII.
V.
Da Melopêa.
A Melopêa he a quinta Parte, e a mais ſuave de todas as demais.
XVIII.
VI.
Da Decoração.
Finalmente o Apparato he de grande deleite para o animo, mas he o de menos artificio, e o menos proprio da Poetica; porque a força da Tragedia ſubſiſte ainda ſem repreſentação theatral, e ſem Actores. Além de que a diſpoſição deſte Apparato pertence mais á Arte dos que fazem as Scenas, do que á dos Poetas.