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A Poetica de Aristoteles/XIII

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CAPITULO XIII.
Dos Caracteres, que deve haver na
Tragedia para ſer perfeita.
I.

TEmos pois explicado em primeiro lugar as Partes de Qualidade, de que ſe ha de uſar na Tragedia. Referimos depois as diverſas Partes, em que ella ſe divide, ſegundo a ſua Quantidade. Expoſto tudo iſto, fegue-ſe agora por boa ordem dizer quaes couſas devem procurar os que compõem as Fabulas, ou quaes hão de evitar, e qual caminho hão de ſeguir para ſe alcançar o fim da Tragedia.

II.

Não ſe deve eſcolher o caracter de hum homem muito bom, e juſto, que paſſe da fortuna para a deſgraça.Como pois a conſtituição das Tragedias mais bellas não ha de ſer Simples, mas Implexa, e ha de ſer além diſſo imitadora de couſas, que excitem o terror, e a compaixão, porque iſto he proprio deſte genero de imitação; ſegue-ſe evidentemente, que nem devem introduzir-ſe homens muito bons, e juſtos, que paſſem da fortuna para a deſgraça, porque iſto não he terrivel, nem digno de compaixão, mas ſim abominavel;Nem tambem o caracter de hum homem mão, que paſſe da deſgraça para a fortuna. nem tambem homens máos, que paſſem da deſgraça para a fortuna, pois que não ha couſa menos Tragica, porque lhe faltão todos os requiſitos, que deve ter a Tragedia. Por quanto nem he conforme aos ſentimentos da humanidade, nem excita compaixão, ou terror.

III.

Ou da fortuna para a deſgraça.Finalmente tambem hum homem muito máo não deve voltar da felicidade para a infelicidade; porque eſta compoſição, bem que foſſe conforme aos ſentimentos da humanidade, não produziria com tudo compaixão, nem terror: porque a compaixão tem lugar a reſpeito do que he infeliz ſem o merecer; e o terror a reſpeito do noſſo ſemelhante deſgraçado. Pelo que neſte caſo o que acontece, nem parece terrivel, nem digno de compaixão.

IV.

Qual ſeja o caracter, que ſe deve eſcolher.Reſta pois o homem, que eſtá no meio deſtes extremos. Eſte he aquelle, que nem ſe diſtingue muito pela virtude, e juſtiça, nem tambem cahe em deſgraça pela ſua malicia, ou maldade propria, mas ſim por algum erro, ou defeito. E ha de ſer alguma perſonagem das que eſtão em grande gloria, e felicidade, como Edipo, Thyeſtes, e outros homens illuſtres de ſemelhantes familias.

V.

I.º genero de conſtituição da Fabula.He pois neceſſario que huma Fabula bem conſtituida ſeja antes Simples, do que Compoſta, como alguns querem, e que a mudança não ſeja da deſgraça para a fortuna, mas pelo contrario da fortuna para a deſgraça; e finalmente que não aconteça por maldade, mas por erro, ou defeito grande de alguma peſſoa, que ſeja tal, qual diſſemos; ou quando não, que antes propenda para melhor, do que para peior.

VI.

Iſto ſe prova com a experiencia; porque antigamente ſervião-ſe os Poetas de quaeſquer Fabulas, que encontravão; mas hoje as mais bellas Tragedias tomão o ſeu aſſumpto de hum pequeno número de familias, como são as de Alcmeon, de Edipo, de Oreſtes, de Meleagro, de Thyeſtes, de Telefo, e de quaeſquer outros, que ou obrárão, ou padecêrão couſas terriveis.

VII.

He o melhor genero.A mais bella Tragedia, ſegundo as regras da Arte, he aquella, que for compoſta por eſte modo. Por iſto errão os que culpão Euripedes por obſervar eſtas regras nas ſuas Tragedias, e por dar a muitas dellas hum exitio infeliz, pois que iſto he o que deve ſer, como já diſſemos.

VIII.

Provas deſta doutrina.A prova mais evidente he, que as Tragedias deſte genero parecem as mais Tragicas de todas, tanto no Theatro, como nos Certames, ſe forem bem executadas. E o meſmo Euripedes, poſto que não diſponha bem outras couſas, parece com tudo ſer o mais Tragico de todos os Poetas.

IX.

II.º genero de conſtituição da Fabula.O ſegundo genero de conſtituição das Fabulas (que alguns põem em primeiro lugar) he o que tem huma conſtituição compoſta, como a Odyſſea, e que ſe conclue por hum modo contrario ao primeiro, tanto a reſpeito dos homens bons, como dos máos.

X.

Razão por os antigos preferião eſte genero.Julgou-ſe que eſta merecia o primeiro lugar por impericia dos Theatros, porque os Poetas ſe accommodárão a ella, compondo á vontade, e ſabor dos eſpectadores. Porém o prazer, que reſulta deſte genero de compoſição, he muito mais proprio da Comedia, que da Tragedia; porque nella os que são na Fabula inimiciſſimos, como Oreſtes, e Egiſtho, ſe tornão por ſim amigos, e nenhum delles he morto pelo outro.