A Verdade/1
I
Contando 15 annos de idade, abandonei os meus estudos, e, voluntariamente, fui reunir-me áquelles que, nos pampas paraguayos, com as armas em punho, desafrontavam os brios patrios traiçoeiramente vilipendiados pelo tyranno D. Francisco Solano Lopez, como seu finado pai, Presidente vitalicio da Republica do Paraguay.
Contuso em Itororó e gravemente ferido sobre as formidaveis trincheiras de Lômas Valentina [1], na celebre noite de 21 de Dezembro de 1868 [2], e em Campo-Grande [3], na batalha ahi ferida no dia 16 de Agosto de 1869, sob o commando em chefe de S. A. o Senhor Marechal de Exercito Conde d՚Eu, quando estava com o ferimento recebido em Lômas Valentinas, ainda aberto, vendo-me, no Hospital de Sangue, em Villêta, n՚esse grave estado, Sua Alteza dignou-se conceder-me licença para tratar-me no Brasil.
Sómente em Novembro d՚esse anno, na cidade de Assumpção, Capital do Paraguay, pude embarcar no transporte a vapor — « Presidente ».
Curado do ferimento recebido em Campo-grande, porém ainda não cicatrisado o recebido em Lômas Valentinas [4], assim mesmo apresentei-me ao distincto Ajudante-General do Exercito, o Tenente-General João Frederico Caldwel, prompto para seguir, no primeiro transporte, para o Paraguay.
Tive ordem para seguir no dia 2 de Abril de 1870; mas, recebida, pelo telegrapho, via Santos, a noticia do combate ferido nas margens do Aquidaban, no dia 1.° de Março, no qual teve o desfecho, com a morte de Solano Lopez, a titanica guerra do Paraguay, em que o nosso Exercito patenteou ao mundo civilisado a sua — indomita bravura, correcta disciplina e humanidade para com os vencidos, sem igual — fui avisado para ficar na Côrte, até nova resolução do Governo.
Não tendo, effectivamente, cicatrisado ainda o ferimento, com perda de substancia óssea, que recebi no angulo supero anterior do parietal esquerdo, e aliás sendo o seu estado melindroso, fui submettido á inspecção da Junta Militar de Saude do Exercito, e julgado o ferimento incuravel, e por isso incapaz do serviço militar, fui reformado com o soldo por inteiro, por decreto de 24 de Abril de 1874.
Em vista d՚isso, retirei-me para esta cidade — Angra dos Reis — meu torrão natal.
Soldado — sempre disciplinado — do partido liberal, sendo meu finado Pai — conservador extremado, — até 1877, em Angra dos Reis, nunca intervi-me na politica local.
Em 1878, porém, por desgostos, retirando-se meu Pai da politica, reorganisei o partido liberal angrense que, depois do fallecimento de seu venerando Chefe, o Coronel João Pedro de Almeida, sómente existia in nomine. [5]
Em 1881, eleito pelos liberaes angrenses, Chefe do partido, em 1882, tomei assento na Assembléa Provincial do Rio de Janeiro, effectuando aqui e em Paraty, com o meu subsidio, alguns melhoramentos intellectuaes e materiaes. [6]
N՚essa ASSEMBLÉA, em conversa com os meus collegas, e na tribuna respectiva, manifestei-me sempre contra os — Creditos Supplementares — que eram todos os annos solicitados para pagamento de verbas votadas para a — Força Publica — por terem-se ellas esgotado antes de findo o respectivo exercicio.
Sempre, affirmava cathegoricamente: — Cumpridas, nos seus devidos termos, as verbas votadas, serão sufficientes.
Em 1883, vendo que não pudia, por méras questões politicas entre o Presidente da Provincia e a maioria da Assembléa, fazer no meu Districto os beneficios de que carecia, por isso, da tribuna, declarei que não tomaria mais assento na alludida Assembléa; e apesar dos pedidos dos meus correlligionarios, e das censuras de meu Chefe, o inolvidavel Conselheiro Octaviano Rosa, persisti no meu firme proposito, apresentando, porém, de 1884 em diante, em meu logar, os illustres amigos e correligionarios drs. Tertuliano Portugal, Augusto Santos e Santos Bastos — que foram eleitos. [7]
Em 1887, retirei-me para a Côrte.
Mais tarde, queixosos os meus velhos companheiros de campanha, pelo modo que eram tratados pelo Gabinete Cotegipe, foi resolvido organisar-se um — Club Militar — afim de pugnar pelos direitos adquiridos pela classe.
Convidado para esse fim, compareci á reunião para effectuar-se a organisação do Club, que teve logar no Recreio Dramatico, sendo ahi nomeada a Comissão que tinha de elaborar os respectivos Estatutos—que foram, posteriormente, discutidos e approvados no — Club Naval — em Assembléa Geral.
Achando-me presente n՚esta Assembléa, tendo á mão um exemplar dos Estatutos, então vigentes do Club Naval, no qual consignava como seu Presidente Honorario — Sua Magestade o Imperador o Senhor D. Pedro II — de gloriosa e inesquecivel memoria pela sua extremada dedicação ao Brasil, seu berço natal, logo que foi submettido a discussão o Capitulo que tratava da Directoria do Club Militar que se organisava, pedi a palavra.
Depois de fazer algumas considerações sobre os nobres intuitos do Club, assim como sobre os altos e relevantes merecimentos de Sua Alteza o Senhor Conde d՚Eu, que, como Marechal do nosso Exercito, na Campanha do Paraguay nos havia, com a sua proverbial pericia e bravura, guiado nos gloriosos feitos d՚armas feridos em — Juquery, Ipacarahy, Areguá, Aschurras, Pirabebuy, Capiatá, Campo—Grande, Aquidaban e outros, assim como na qualidade de presidente do antigo Club Militar que ha annos installara-se na rua do Ouvidor n. 119, tantos serviços havia prestado á classe militar e á Patria, sem nunca ter recebido dos Cofres Nacionais um ceitil, dos seus vencimentos, nem mesmo durante o tempo que nos commandou na Campanha do Paraguay, por isso, apresentei o additivo seguinte:
— « E՚ Presidente Honorario do Club Militar, Sua Alteza o Senhor Marechal de Exercito Conde d՚Eu.»
De todos os companheiros presentes, o unico que — como republicano — se oppoz a esse meu additivo, foi o 1.° Tenente do Corpo de Fazenda da Armada, José Francisco da Conceição, hoje Capitão de Mar e Guerra, Chefe do Commissariado da Armada.
Em vista d՚isso, o inolvidavel Tenente-Coronel Antonio de Senna Madureira — o maior e mais desinteressado paladino que teve a classe militar do Brazil, chamou-me ao gabinete do Club Naval e ponderou-me :
— « Sendo o Club Militar instituido para arcar contra os actos prepotentes do Gabinete Cotegipe, e sendo Sua Alteza esposo da Serenissima Princeza Imperial, herdeira presumptiva do Throno, ficava em posição difficultosa, no caso de acceitar; e não acceitando, seria solidario com os actos do mesmo Gabinete contra a classe militar, e por isso, pedia-me para eu retirar o additivo proposto. »
Por tão ponderosas razões, retirei o referido additivo e como uma pequena prova do meu assentimento ás justas razões apresentadas pelo Tenente-Coronel Senna Madureira, puz á disposição do Club a quantia que fosse necessaria para a impressão dos Estatutos, assim como para compra de utensilios de que carecia, o que satisfiz logo que meu velho amigo e companheiro, o actual General de Brigada, Marciano Botelho de Magalhães apresentou-me a conta, como Thesoureiro do Club.
Mais tarde, sendo Ministro da Guerra o Exm. Sr. Conselheiro Ribeiro da Luz ---- foi o General Marciano de Magalhães, então Capitão do Estado-Maior de Artilharia, transferido, sem ser a seu pedido, para o 4.° Batalhão de Artilharia a pé, aquartellado na cidade de Belém, Capital da Provincia do Pará !...
Essa intempestiva e arbitraria transferencia, tinha dous fins :
---- Afastar da Côrte, e portanto do cargo de Thesoureiro do Club, o transferido; e indicar o destino que teria ---- outro official que acceitasse o cargo, e por elle se dedicasse até o sacrificio, como o fazia o prestimoso General Marciano de Magalhães !
Além d՚isso, a ordem desse official seguir para o Pará, era de cinco dias improrogaveis !
N՚essa difficil emergencia, dignou-se o Exm. Sr. Marechal Manoel Deodoro da Fonseca, Presidente do Club, acompanhado de seu illustrado irmão, o dr. João Severiano da Fonseca, Cirurgião do exercito, e de meu cunhado Francisco José de Carvalho, cunhado do Barão de Alagôas, irmão d՚aquelles, procurar-me em nossa residencia á rua 24 de Maio n. 53, no Riachuelo.
Expondo-me S. Ex. aquella occurrencia, pedio-me para, como official reformado do Exercito, acceitar o cargo de Thesoureiro do Club ---- visto que nada podia fazer o Governo a meu respeito.
Ao principio, devido aos meus multiplos affazeres, escusei-me acceitar o cargo; porém, tendo S. Ex. e seus companheiros de visita invocado a nossa antiga amisade, as relações de familia e a necessidade absoluta que tinha de meus serviços ---- promptamente cedi ao pedido.
No dia seguinte, ao meio dia, hora designada, compareci no edificio do Club, onde encontrei S. Ex.
Minutos depois, chegando o ex-Thesoureiro, foram por estes apresentadas as respectivas contas e documentos, o que tudo conferido pelo Marechal Presidente, verificou-se um saldo a favor d՚aquelle, que, tendo de embarcar no dia seguinte para o Pará, entreguei-lhe a importancia respectiva, ficando eu o credor do Club.
Queixando-se os socios de que a permanencia do Club no principio da rua dos Ourives, os inhibia de frequental-o ---- transferio-o para o sobrado da rua do Ouvidor n. 155, canto do Largo de S. Francisco de Paula, sendo eu o fiador e principal pagador para com o locador.
Antes de acceitar o alludido cargo, tinha um Contracto de Fornecimento aos Corpos da Guarnição da Côrte—sem ter havido, até então, a menor duvida.
Depois de assumir o cargo — começaram as recusas, multas, etc., e tendo comprehendido o verdadeiro motivo, passei o Contracto ao meu antecessor, dando-lhe uma luva !... Foram testemunhas signatarias, o Marechal Deodoro e o Tenente João Francisco de Souza Pimentel, encarregados de cuidar do edificio em que funccionava o Club.
Apesar d՚esses prejuizos, dos conselhos que me foram dados e dos pedidos que me foram feitos [8] continuei como Thesoureiro, com a condição de me ser dada a demissão, logo que subisse a situação liberal, o que eu estabeleci ao acceitar o cargo.
No desempenho de taes funcções, todos os dias uteis, do meio dia á 1 hora da tarde, comparecia ao Club, encontrando sempre, n՚essa hora, o Marechal Deodoro e ahi conversavamos largamente sobre diversos assumptos, menos em politica.
Surgindo uma difficuldade com a Bolivia, segundo foi annunciado, tendo de seguir uma columna de observação para a Provincia de Matto-Grosso, foi nomeado para commandal-a o Marechal Deodoro.
Era, então, Ministro da Guerra, o Conselheiro Thomaz Coelho.
Ficando decidida essa nomeação, recebi, por intermedio do Tenente João Francisco de Souza Pimentel, encarregado de zelar o edificio do Club, um recado do Marechal Deodoro, para ir á sua casa almoçar, visto que tinhamos de pôr os negocios do Club em dia, para entregar a Presidencia ao seu substituto, o actual Contra-Almirante Marques Guimarães, e devido á presteza da viagem, estava atarefado com os respectivos preparos, e não podia ir ao Club.
Conforme seus desejos, no dia seguinte, ás 8 ½ horas da manhã, compareci na casa de sua residencia, no Campo da Acclamação.
Durante a longa conversa que tivemos, queixou-se S. Ex. das calumnias que lhe foram assacadas sobre essa expedição para Matto-Grosso, citando-me, como seus autores, notaveis homens politicos, alguns d՚elles meus amigos.
Procurei, quanto em mim coube, varrer do espirito de S. Ex., de cuja magnanimidade de coração deu solemnes provas durante seu Governo Dictatorial [9] — as inverdades que levaram ao seu conhecimento, forgicadas ad rem.
Então, S. Ex., com a franqueza rude do soldado acostumado ao sol das batalhas, a dizer o que sente, sem rebuços, disse-me:
— « Assim mesmo doente e acabrunhado de desgostos, vou, mais uma vez, cumprir o meu dever de soldado; mas declaro que—em quanto viver o nosso Bom Velho Pedro Segundo, e Deus me der forças para servil-o e á Patria, cumprirei as ordens d՚Elle, e não deixarei nunca ninguem molestal-o... »
Felizmente, n՚esse mesmo dia, no Senado, para onde logo dirigi-me, tudo relatei aos Exmos. Srs. Viscondes de Assis Martins e de Ouro Preto.
Fechadas as contas do Club e verificado por S. Ex. o saldo a meu favor como Thesoureiro, ao despedir-me, disse-me .
— « Tenha paciencia, meu amigo. Vá aguentando o Club até minha volta ou subirem ao Governo os seus amigos, conforme a condição que me estabeleceu ao acceitar o cargo. Algum dia, será recompensado da sua dedicação a mim e dos relevantes serviços que tem prestado ao Club.
— « Adeus, até a volta, se Deus quizer. »
— Na verdade: a dedicação do finado Marechal Deodoro da Fonseca, e de toda a sua illustre Familia — Mãi, Irmãos e Esposa — para com Sua Magestade o Imperador e toda a Sua Augusta Familia — era extremada; e se outras provas não existissem, bastaria esta:
Quando, em 1888, se achava Sua Magestade o Imperador em tratamento na Europa, e correu na Côrte a noticia vinda pelo telegrapho, de que Sua Magestade estava Sacramentado e já agonisante, S. Ex. mandou-me chamar pelo já referido Sr. Tenente João Pimentel, no meu escriptorio á rua Primeiro de Março n. 20, para ir com presteza ao Club.
Ahi chegando, disse-me S. Ex. com todo o sentimento de cordeal e profunda tristeza:
— « Na porta do Jornal do Commercio — acabam de affixar um telegramma communicando que o estado do nosso Bom Velho Pedro Segundo é desesperador; e que a todo o momento espera-se um desfecho fatal; por isso, mandei-te chamar para combinarmos o seguinte: — Logo que nos chegue tão infausta noticia, manda forrar este salão, de crépe, assim como içar a Bandeira Nacional, tam- bem envolta em crépe, a meio páu, durante 10 dias; e como as finanças do Club não são boas, as despezas correrão sómente entre nós dous.»
Annuindo a tão nobres manifestações d՚aquelle grande coração, immediatamente dei minhas ordens ao Sr. Tenente João Pimentel, entregando-lhe a quantia que calculamos ser necessaria para tudo effectuar-se — se infelizmente chegasse tão dolorosa noticia.
Felizmente para o Brazil, Sua Magestade foi obtendo continuas melhoras, e de novo voltou ao seu paiz tão idolatrado !
Altos, porém, são os designios de Deus, quão triste e contradictoria é a contingencia humana !!!...
— Longe do Club cobrir-se de pesado crépe, mais tarde, voltando Sua Magestade o Imperador a Côrte, no dia da sua — chegada, emquanto os alumnos da Escola Militar içavam, jubilosos, no cume do Pão de Assucar a expressiva bandeira branca com a palavra — SALVE — com lettras encarnadas, eu, de todo o coração, por ordem do Marechal Deodoro, auxiliado pelo Sr. Tenente João Pimentel, e socios do Club Militar, alcatifava-o de flores artificiaes e naturaes, de galhardêtes, bandeiras e colxas de damasco, procurando rivalisar com as manifestações que se effectuavam no Club Naval para tambem saudar a boa vinda do Grande e Magnanino Brazileiro que, até desprender-se do seu corpo a sua grandiosa alma — sómente pensava no real progresso do seu Brazil !...
Durante a noite d՚esse dia, a par do Hymno Sagrado da Patria, dos vivas e hurrahs a Sua Magestade e a Sua Augusta Familia — as côres multiplices das lanternêtas, combinando com as brilhantes luzes dos arcos illuminativos da rua, e dos globos e lanternas, etc., collocadas nas casas particulares visinhas do Club transudava sómente — uma alegria que parecia infinda !...
Seguio o Marechal Deodoro com a columna expedicionaria para a Provincia de Matto-Grosso.
Dias antes da partida, S. Ex. o Sr. Visconde de Ouro-Preto encarregou-me de obter noticias de todos os actos da alludida expedição, em fórma de correspondencia, para serem publicados na A Tribuna, orgão do partido Liberal, sob sua criteriosa direcção, que se publicava na Côrte.
Encarreguei do cumprimento d՚essa ordem, ao meu finado amigo e companheiro de campanha, Capitão Antonio Raymundo Miranda de Carvalho, que tinha relações mais intimas com um dos officiaes que seguiam na alludida expedição.
Dous mezes depois, o Capitão Miranda recebeu e entregou-me a primeira correspondencia.
Lendo, aliás bem modelada, e vendo que n՚ella eram relatados certos e graves factos succedidos durante a viagem, e no porto de desembarque, os quaes, offendiam ao Marechal Deodoro, como Chefe das forças, deixei de entrega-la ao exmo. sr. Visconde.
Dias depois, foi ao meu escriptorio o capitão Miranda, e disse-me:
— « Até hoje, não veio publicada na A Tribuna, a correspondencia que F... me remetteu, e te entreguei, conforme pediste... »
— « Com effeito, respondi-lhe eu, não tem sido publicada — e o unico culpado sou eu. Vou dar-te a razão.
— « Li com toda a attenção a correspondencia de F...; porém, deparando-se-me factos graves, tenho escrupulos em dal-a para ser publicada. »
Replicou-me o Capitão Miranda :
— « Já sei !... Estás muito mudado !... Como é negocio que diz respeito á Familia Fonseca, á qual, além da tua dedicação, estás ligado pelo teu cunhado Carvalho, não queres prestar esse serviço á A Tribuna. »
— « Não é assim, trepliquei-lhe, sou sempre o mesmo; porém o tempo e os factos me têm ensinado que — ha casos que tornam-se mister as provas provadas, para, com vantagens, dal-os á publicidade. Além d՚isso, F., é official effectivo do Exercito, e a qualquer tempo, como presentemente, poderá estar sob as ordens do Deodoro ou do Severiano (o Barão de Alagoas), Ajudante General do Exercito, e terá de pagar...; mas, para que não repitas que eu não quero prestar esse serviço á A Tribuna, á noite, passarei a limpo a correspondencia e te entregarei amanhã o original, e a cópia, ao Visconde de Ouro Preto, para ser publicada a correspondencia de F..., que, d՚esse modo, nunca será descoberto.»
Com effeito, passei a limpo a alludida correspondencia, e no dia seguinte, encontrando-me na rua do Ouvidor com o Capitão Miranda, entreguei o original.
Seguindo para o escriptorio da A Tribuna, não encontrando o Exmo. Sr. Visconde de Ouro Preto, nem o Sr. Dr. Carlos de Laet, deixei de entregar a alludida cópia.
Voltando, encontrei-me com o cidadão X..., reporter da A Tribuna, entreguei a alludida copia para dal-a ao Exmo. Sr. Visconde.
Por espaço de cinco dias, não tendo sido publicada a referida correspondencia, dirigia-me ao respectivo Escriptorio, quando ao chegar em frente ao Jornal do Commercio fui sorprehendido com a noticia de haver fallecido, repentinamente, o Exmo. Sr. Marechal Severiano da Fonseca, Barão de Alagôas, Ajudante General do Exercito !...
Indo immediatamente á casa do finado — que sempre distinguio-me, á rua do Barão de Itaúna, n. 21, dar meus pezames á sua Exma. Familia, ahi... horresco referens !... só então tive conhecimento de que a alludida correspondencia — tinha sido entregue pelo referido reporter, ao Barão de Alagôas; e que este fallecera convicto de que a correspondencia era minha, não só por tel-o declarado o reporter, como pela lettra, muito conhecida por elle, pela nossa antiga correspondencia amistosa !
Sómente mais tarde, sem declinar nunca os nomes do autor e de quem me havia entregue, ficaram as Exmas. Sras. Baroneza de Alagôas e D. Amelia Fonseca, e o Dr. João Severiano da Fonseca, no conhecimento d՚esta verdade :
— Que apenas, por força maior, passei a limpo a tal correspondencia e dei-a para ser publicada.—
Ahi estão ainda vivos o General Piragibe e os Coroneis Olympio e Percilio da Fonseca para confirmarem essa verdade.
Essa deslealdade do reporter da A Tribuna sómente levei ao conhecimento do Sr. Visconde de Ouro Preto, depois que ella foi assaltada e empastellada !....
Chamado o Exmo. Sr. Visconde de Ouro Preto para organisar o Gabinete que tinha de succeder ao Gabinete João Alfredo, immediatamente pedi exoneração do cargo de Thesoureiro do Club Militar, que me foi concedida, sendo nomeado para succeder-me o Major do Estado-Maior de 1.ª Classe, Henrique Valladares, actual Coronel do mesmo Corpo.
Apresentado por mim o competente Balancete acompanhado dos respectivos documentos, examinados e verificada a sua exactidão, o meu successor firmou um documento do saldo a meu favor, como tudo consta da Acta respectiva, e foi noticiado pela imprensa.
Deixei, pois, o cargo de Thesoureiro; continuando, porém, sómente, como socio contribuinte do Club Militar.
- ↑ Por uma bala, no angulo supero anterior do parietal esquerdo, com perda de substancia óssea.
- ↑ O 25ª Corpo de Voluntarios da Patria, depois de tres horas de um medonho tiroteio effectuado por uma nossa Divisão de Infanteria, sem que esta carregasse contra as trincheiras de Lômas
Valentinas, recebeu ordem do venerando Duque de Caxias para, a
marche marche, carregar sobre as alludidas trincheiras protegidas de
— fossos, abatizes, boccas de lobo e grossa artiheria — sómente fazendo
fogo ao chegar ás mesmas.
Isso effectuamos ; porém, no dia 22, de todo o batalhão --- restavam 46 praças e um official ! !
Tudo mais --- morreu ou foi ferido, e, entre estes, eu. - ↑ Por um estilhaço de metralha, na região hypogastrica, junto á verilha direita.
- ↑ A ultima esquirolla foi extrahida em Junho de 1874, pelo Dr. Paulino Corrêa Vidigal, em sua casa, em S. Christovão.
- ↑ Os liberaes entravam, de accôrdo, na chapa conservadora, e acceitavam cargos policiaes, etc.
- ↑ Em Angra dos Reis, além da quota para o Chafariz na Praça do Marquez do Herval, etc., mandei fazer um rico paramento para a porta principal da respectiva Matriz; e em Paraty, dei uma quota para o Lycêo Paratyense, e impressão, a favor do mesmo, de um bem modellado trabalho sobre a emigração chineza, escripto pelo Dr. Antonino da Silva, actual Juiz de Direito, na Comarca de Campos, Estado do Rio.
- ↑ Depois de proclamada a Republica fui convidado pelo finado Dr. Alberto Brandão, para fazer parte da Chapa Portellista ;
e pelo Exmo. Sr. Conselheiro Paulino de Souza, para fazer parte da
Chapa do Partido Moderado.
Recusei ambos os offerecimentos ; e, não obstante, meu obscuro nome, foi incluido na Chapa do Partido Moderado. - ↑ Grande numero de officiaes da Guarnição da Corte, e dependencias, não quiz fazer parte do Club; e depois da proclamação da Republica, muitos delles tornaram-se socios e acerrimos
defensores desse mesmo Club que já não era ---de soldados indisciplinados---como qualificavam-no.
Sempre foi assim o mundo!... - ↑ Se não fosse a tenaz opposição do Marechal, quantos crimes, violencias, etc., não ter-se-iam commettido durante esse tempo ! ?...
Todas as obras publicadas antes de 1.º de janeiro de 1931, independentemente do país de origem, se encontram em domínio público.
A informação acima será válida apenas para usos nos Estados Unidos — o que inclui a disponibilização no Wikisource. (detalhes)
Utilize esta marcação apenas se não for possível apresentar outro raciocínio para a manutenção da obra. (mais...)