A bandeira argentina

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A bandeira argentina
por Ruy Barbosa
Publicado em A Imprensa, em 10 de agosto de 1899


Sabeis a poesia da origem dessas cores sorridentes, os que as vedes agora tremular ali, por essas ruas, os que anteontem as víeis acenar do topo dos mastros, no surgidoiro de Guanabara, enlaçadas às nossas? Nunca uma bandeira nasceu mais espontaneamente da história de uma nação, do berço de uma independência, da alma de um povo, que se forma.

Ninguém pregara olhos em Buenos Aires durante a noite anterior à manhã brusca e chuvosa de 25 de maio de 1810, cujo assomar torvo e carregado preludiava, entretanto, o dia mais memorável da história argentina. Naquela data o povo havia de afirmar pela primeira vez a sua soberania, depondo o vice-rei da coroa de Castela, e ditando, na primeira Constituição que se promulgou no Prata, os princípios fundamentais da sua futura liberdade: a divisão dos poderes, a responsabilidade da administração, a segurança individual, o voto representativo, o imposto, a convocação do Congresso geral, para organizar a forma do governo. Foi essa a resposta da cidade ao grito do síndico procurador, quando, pelo cabildo reunido nas sacadas da casa capitular, perguntava para a praça: Onde está o povo?

Quando este se começava a encapelar, como o oceano aos primeiros arrepios do pampeiro, surgiu das mãos de French o distintivo patriótico, em cujo matiz se havia de tingir pouco depois o símbolo nacional. A multidão viu flutuar no sombreiro de Berutti, em apelo à união e à confiança, as fitas brancas e azuis, tomadas pelo companheiro a um armarinho da Récoba. Num instante as insígnias bicolores do movimento floreavam por toda aquela superfície de cabeças agitadas.

French e Berutti não podiam errar na escolha. Elas estavam designadas pelos acontecimentos de 1806 e 1807. Eram as que tinham brilhado no peito dos patrícios durante a campanha contra as invasões inglesas, onde se imortalizaram, entre os seus conterrâneos, os nomes de Liniers, Pueyrredón, Pio, Rodríguez, Saavedra, Viamonte e Martínez. O Daily Advertiser, uma folha londrina, analisando o relatório de Whitelocke, o general da expedição vencida, estampado na Gazeta de Londres, escrevia estas palavras, que constituem o primeiro diploma europeu do civismo argentino: “A narração da Gazeta é completa, e não deixa nada por explicar. Vê-se claramente por que modo uma população como a de Buenos Aires, animada pelos seus primeiros triunfos e por um ódio nacional, logrou resistir à acometida. Cada casa era, no dizer da Gazeta, uma fortaleza e cada rua um entrincheiramento. Um povo desta sorte deve ser invencível.”

Naufragara na bravura dos soldados orientais e portenhos o projeto da Grã-Bretanha contra a posse latina daquelas regiões. O heroísmo das tropas coletícias, que o patriotismo improvisara, arrebatara à esquadra imponente de Murray e aos onze mil homens de Whitelocke a praça de Montevidéu, rechaçara-os de Buenos Aires, e forçara-os a tomar para sempre o caminho de Inglaterra. A amargura, com que ela recebeu esse golpe, teve o mais doloroso eco nas palavras do acusador militar ao tribunal que, em 1808, sentenciou o general derrotado: “Com este desgraçado sucesso”, dizia ele, “se desvaneceram de todo as esperanças, que com tamanho fundamento e tanta generalidade nutríamos, de abrir novos mercados para nossas manufaturas, novas fontes ao nosso tesoiro, novos campos à nossa exploração, acudindo, ao mesmo tempo, às duras necessidades de países, que estão a sair da barbaria. Agravado foi ainda o revés com a desonra, que sob todas as faces acompanhou as armas britânicas. Qualquer desmerecimento da nossa reputação militar sempre se deve considerar uma calamidade nacional; mas em época nenhuma como nesta crise do mundo, quando mais necessário do que nunca se torna o nosso caráter militar, não só por amor da nossa honra e da nossa glória, senão pela independência, pelas liberdades, pela existência mesma da Grã-Bretanha.”

Essas recordações, de dois anos apenas, viviam, palpitavam na memória popular. Não podia obliterá-las a atmosfera sombria e tempestuosa daquela data. Através dessa obscuridade o instinto patriótico divisava o horizonte diáfano, onde se prateiam as né­voas matutinas da primavera. A visão entrevista do céu azulado pelo sol, do rio azulado pelo céu devia confundir-se-lhe, nos sonhos da pátria redimida, com o emblema recente das suas estréias na vitória. Alvo e cérulo como as madrugadas úmidas do Prata, ele tingira do seu colorido o triunfo contra o estrangeiro. Era natural que vestisse do seu reflexo a reação interior contra o despotismo colonial.

Não teve, pois, que inventar o herói da independência argentina, quando, resolvido a acelerá-la, envolvendo o povo e o governo nessa política audaz, procurou dar à revolução um emblema visível, cujo talismã, enfeitiçando a turba, estendesse, ao mesmo tempo, a influência da sua magia aos devotos da idéia liberal. À proposta de Belgrano cedeu imediatamente o governo, estatuindo, em 1812, que o tope nacional seria branco e azul-celeste. Ainda não era o estandarte. Mas da insígnia à bandeira não havia, no espírito de libertador, mais do que um passo. Não hesitou em o adiantar, desdobrando o decreto de 18 de fevereiro na sua conseqüência natural; e, poucos dias depois, rosto a rosto com as cores de Fernando VII, desfraldadas ainda na fortaleza de Buenos Aires, se arvorava nas baterias do Rosário a signa, celeste e branca, da nova nacionalidade, entre as invocações de Independência e Liberdade, cujos nomes batizaram aqueles postos militares. Mitre descreveu nalguns traços de artista peregrino aquela cena, em uma tarde de fevereiro, com os longos horizontes orlados pelas ilhas florescentes do Paraná, a vasta natureza reclinada, sob a sua coroa de sol, no ocaso radioso e o manto do céu anilado, com o arminho das nuvens de estio, roçagando na lenta imensidade das águas.

Para aqueles homens, naquele instante, a impressão devia ser como se a crisálida infinita do firmamento houvesse desabotoado nessa imagem inesperada: umas asas de opala e safira a ondularem no ambiente, grandes, grandes, grandes como o descortino da esperança humana, abrindo os olhos no seio de um povo recém-nascido. Eram seis e meia da tarde, quando se inaugurou assim a bandeira argentina, aclamada pelas salvas de artilharia, entre os batalhões, que, no jurá-la, ocupavam os seus postos de combate. Um ano mais tarde, no segundo aniversário de 25 de maio, recebia ela a consagração religiosa em Jujuí, desalojando o estandarte real, e, arreada então por ordem do governo, ressurgia definitivamente em 1813, após a vitória de S. Lourenço, onde acabava de assomar, para eclipse de todas as outras, a estrela de San Martín. Estava assentado o símbolo nacional, que, daí a três anos, o decreto legislativo de 25 de julho havia de adotar solenemente.

Eis aí como se faz uma bandeira, que não é astronômica, nem filosófica, nem erudita, mas que é bela, mas que é viva, mas que é nacional. Nasceu divinamente dos fatos e das coisas, das sublimidades da criação e do ideal vivo, como as grandes ações e os grandes poemas. Que a Providência libre para sempre no ambiente azulado da paz esse pendão formoso e alado, criado pelo amor da independência nas entranhas da guerra como um vexilo romano.­