A escravidão dos negros/I/I

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A escravidão dos negros por Nicolas de Condorcet, traduzido por Aarão Reis
Da injustiça da escravidão dos negros, considerada relativamente aos senhores


PRIMEIRA PARTE


I


Da injustiça da escravidão dos negros, considerada relativamente aos senhores.

     Reduzir um homem ã escravidão, comprai-o, vendel-o, sujeital-o ao captiveiro, — são verdadeiros crimes, e crimes peiores que o roubo; pois, despoja·se o escravo, não só de toda e qualquer propriedade movel ou immovel, mas ainda da faculdade de adqueril-as, da propriedade de seu tempo e de suas forças, de tudo emfim com que dotou-o a natureza para conservação da vida e satisfação das necessidades. E a tudo isto accrescenta-se ainda a injustiça de privar o escravo do direito de dispôr de sua pessôa.

     De duas uma;- õu não ha moral, ou é preciso acceitar como um principio que o crime será sempre um crime, muito embora a opinião o não estigmatise e a lei do paiz o tolere; porquanto, a opinião nem a lei pódem alterar a natureza das acções, seja essa opinião a de todos os homens e essa lei decretada unanimemente pelo proprio genero humano reunido em assembléa !

     No correr d'este trabalho compararemos por vezes com o roubo a acção de reduzir quem quer que seja á escravidão. Estes dous crimes, si bem que o primeiro seja muito menos grave, teem grandes analogias entre si; e como um tem sido sempre o crime do mais forte, e o roubo o do mais fraco, todas as questôes relativas a este ultimo acham-se já resolvidas, de accordo com os bons principios, por todos os monlistas, ao passo que o outro crime nem ao menos de nome figura em seus livros. E assim mesmo, devemos exceptuar o roubo á mão armada, chamado conquista, e algumas outras aspecies de roubos, em que é egualmente o mais forte que despoja o mais fraco, pois sobre esses os moralistas são tão mudos como sobre o crime de reduzir homens ã escravidão.