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A infanta D. Maria de Portugal e suas damas/As mestras, damas e companheiras

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As Mestras e Damas da Infanta. — O testemunho já allegado do benemerito cathedratico Azpilcueta Navarro põe fora de discussão que no pino do seculo, a filha de D. Manoel mantinha em sua casa mulheres doutissimas, em cujo trato e conversação se deleitava sobremodo.

Simultaneamente Resende, o velho pagão que foi durante toda a sua vida o mais forte esteio dos estudos aulicos — robur aulae — ao fazer perante a Universidade reunida o elogio de D. João III e dos seus esforços a favor da instrucção, alludia ás melhores letradas, que provavelmente estavam presentes, exclamando: «posso apontar tambem mulheres que rivalizam em saber com os varões mais eruditos, sem por isso despirem a sua gentileza. Entre ellas tem o logar primacial a irman do nosso rei».

Já em outra occasião, o Eborense havia-se curvado respeitoso e cheio de sympathia deante da princesa e suas principaes mestras e companheiras. Nessa occasião nomeára entre as latinas officiaes, as duas que lograram fama duradoura: Joanna Vaz e Luisa Sigea. [1]

Além d'ellas, ainda lhe mereceu menção honrosa Angela Sigea, a irman de Luisa, boa latina, mas melhor musica e mestra de canto. Os posteros enalteceram tambem Paula Vicente, a tangedora, filha do immortal Gil. Per nefas é que incorporaram na Academia da Infanta, como já indiquei, a erudita Hortensia de Castro afamada em Evora e Villaviçosa, e duas distinctas fidalgas que, a meu vêr, haviam recebido fóra do paço, no seio das illustres familias a que pertenciam, o impulso para a sua actividade litteraria: [2] D. Leonor Coutinho, auctora de um romance de cavallaria, [3] e D. Leonor de Noronha, que traduziu do original latino uma obra de historia universal, muito em voga naquelle tempo. [4]

No meio das damas nobres que de facto lhe serviam de dueñas de honra, acompanhando-a no seu paço, escolhidas naturalmente entre as primeiras linhagens (Guzmanes, Mendonças, Portugaes, Coutinhos, Noronhas, Meneses, Silvas, Silveiras) não ha nenhuma de cujos talentos restem vestigios ou informações. Entre a seguinte geração de meninas, que estudaram sob a egide de Joanna Vaz, Luisa e Angela Sigêa, quer fosse junto á Rainha, ou na aula da Infanta, as de mais nomeada são de sangue real e sobrinhas suas: a princesa D. Maria de Portugal, e as senhoras D. Maria, futura duquesa de Parma, e D. Catharina, futura duquesa de Bragança.

Das muitas donzellas que sem pretenções nem ostentações eruditas, pela graça, gentileza, formosura e espirito encantaram poetas, uma pelo menos surgirá ao fallarmos dos Serões.

Primeiro tratarei das mestras, e começarei com as indigenas Joanna Vaz e Paula Vicente, porque precederam as estrangeiras.



Joanna Vaz, a Vazia dos latinistas, a philosopha dos que escreveram em português, clarissimo portento do lysio paço na linguagem bombastica dos versificadores seiscentistas — Lysia clarissimus aula splendor — já era matrona respeitavel, de fama impolluta e meritos consagrados pelo voto de patricios esclarecidos, quando da casa da Rainha passou para a da Infanta. [5] Assim o patenteia o primeiro que em 1551 traçou em escorço o quadro poetico da regia academia, já repetidas vezes utilizado nas paginas precedentes. [6] Apresentando a Infanta em companhia das duas latinas, ornadas com as insignias do officio, uma empunhando calamo e papel, a outra o livro aberto...

haec graphium et tabulas gestabat et illa libellos

— Resende caracteriza a Joanna Vaz [7] como guia excellente das donzellas estudiosas, mestra e directora na aula regia:

... Laus est ea magna quod aula dux bona virginibus latias praluxit ad artes.

Terminantemente a declara bastante madura, iam maturior ævi, ou pelo menos muito mais idosa que a admiravel Luisa, menina e moça então de apenas quatro lustros, mas já douta em cinco idiomas da antiguidade — admirabilis virgo linguarum quinque perita. Um traductor hespanhol ao paraphrasear esses versos carregou as côres indevidamente, designando aquella que el aspecto mas anciana muestra como varon en genio si en las canas dueña. [8] Mas no fundo terá razão. [9]

O velho aio dos Infantes, não era o primeiro a render-lhe culto. João de Barros, não o historiador e panegyrista, mas antes o cidadão portuense a quem devemos o livro inedito das Antiguidades entre o Douro e Minho, havia muito anteriormente elogiado a Joanna Vaz, e em geral as mulheres instruidas, num curioso, se bem que assaz indigesto tratado ethico, denominado Espelho de Casados. [10]

Oriunda de Coimbra, segundo informa, consideravam-na mui douta em letras latinas e outras artes humanas, auctora de cartas que vira e admirara. Servindo de criada á Rainha, era por suas virtudes e doutrina mui «aceita a ella». [11] Isso em 1540, ou pouco antes.

Retrocedendo um decennio, encontramos no concerto de applausos ás empresas da dama conimbricense outro vulto superior aos dois citados, o proprio patriarca dos hellenistas, que havia trazido em triumpho para Hespanha e Portugal a arte de Poliziano. O venerando Aires Barbosa, mestre do Commendador Grego [12], de passagem em Coimbra, fora visitar a latina que já conhecia de fama pelos seus escriptos, movido pelo desejo de a avistar e conversar com ella. Não a encontrando, dirigiu-lhe uns versos elegantes, em que gaba o estylo suave, eloquente e castiço das suas cartas [13] (scripta tua), lamenta o mallogro do passo dado para se aproximar d'ella, e conclue conceituosamente: «de sabor doce é a maçan colhida directamente da arvore; e muito agrada a agua bebida na propria nascente.» Como todavia nem mesmo este galante implantador do gosto atheniense em terra lusitana allude á tenra idade de Joanna Vaz, concluo que em 1530 (anno da morte de Aires Barbosa), a erudita senhora já não merecia o epitheto de menina. [14]

E' quanto sei. A quem me perguntar, se era versada no idioma de Homero e no de Salomão [15] ; se uma carta sua, trilingüe, foi entregue ao Papa Paulo III, mandando-lhe este resposta benigna; se realmente casou, e quando, com Fernão Alvares da Cunha; se correm impressas varias obras poeticas d'ella, havendo outras manuscriptas; se é facto que, dotada de dulcissima voz de soprano, costumava cantar versos da sua lavra, a testa coroada de louros, de lyra na mão, qual outra Corinna, enfeitiçando além dos homens os monstros do Oceano, emmudeço sorrindo, ou respondo que o creia quem tiver a ingenuidade de jurar nas indicações contidas no Enthusiasmo Poetico do Padre Antonio dos Reys [16], ou em todas as noticias laboriosamente enfeixadas por Barbosa Machado. Incerta se metrificou, e se André de Resende allude, como creio, a poesias d'ella, [17] suspeito que esses traços todos foram irreflectidamente transferidos da biographia da Sigea para a de Joanna Vaz, por quem desejava que ambas figurassem na galeria feminina como gemeas em genio, em gloria, e na amizade da Infanta. Phantasia a que a realidade não corresponde inteiramente. Joanna foi a estrella, o Vesper da manhã, Luisa o sol glorioso do humanismo português.



Luisa Sigea. — Criança gentil, realmente extraordinaria, cuja fama reboou com rapidez, de um extremo ao outro da Europa. Luisa Sigea foi enaltecida em vida por enthusiasticos louvores, mas infamada depois de morta, com vilissimas calumnias, inventadas no seio da propria nação, á qual pertence pelo pae, e que The havia imposto, primeiramente, com galharda imparcialidade, o stemma de Heloisa portuguesa, [18] ao propagar pela imprensa o seu melhor escrito. [19]

Francesa de origem [20], mas castelhana pela mãe, dos Velascos de Toledo, (razão porque ambas as irmans usavam do appellido de Velasco [21] ) Luisa era um pequeno prodigio de erudição quando aos doze annos entrou em Portugal (1543) [22]. Diogo Sigeo o sabio progenitor, havia ganho em quinze annos de magisterio na culta cidade dos Arcebispos Cisneros e Fonseca, a reputação de discipulo notavel do grande Nebrissense, homem de bem, letrado de merito, elegante latinista e glottologo distincto. Aos desvelos d'elle e em parte tambem á amizade que em Toledo o ligava a outros humanistas eminentes, devia Luisa a vantagem de ter aprendido na mais tenra infancia, a lingua de Vergilio e a de Homero. Na idade em que outras meninas só querem saber de bonecas, cultivava a predilecta arte ou mania dos sabios da Renascença [23]. Já então redigia epistolas latinas, ornamentadas com sentenças dos lyricos e philosophos antigos [24] Mas ainda não satisfeita com estes resultados, havia começado o tirocinio do hebraico, arabe e chaldaico [25], attrahida pelos sons e caracteres peregrinos e pela estructura estranha das linguas semiticas que actuaram poderosamente sobre o sea cerebro privilegiado de polyglotta.

As suas escriptas orientaes, as cartas que recebera em resposta ás suas missivas, e principalmente uma epistola dirigida ao Papa. Paulo III como primicias do seu ingenho — quosdam ingenioli mei flosculos [26]— abriram-lhe de par em par as portas da aula regia. Note-se bem, as da Rainha e não as da Infanta. A ella, a Angela sua irman, e ao pae Diogo Sigeo de Toledo [27], que entrava como Secretario das cartas latinas, servindo ao mesmo tempo de mestre de rhetorica a alguns varões de sangue real, e tambem aos moços fidalgos. [28] Tudo isto por imposição dos monarcas que haviam instado com a familia Sigeo para que transferisse os penates para Lisboa. [29]

Por elle dirigida, Luisa continuou os seus estudos, collocada talvez debaixo do patrocinio maternal de Joanna Vaz, — in Regum aula adscita — inque lusitanicam aulam benigne admissa, como assentou em preciosos documentos autobiographicos). [30] Acostumando-se, graças ao exemplo das damas, na convivencia com as meninas da Rainha e com as Infantas, ao trato delicado da vida cortesan, conseguiu decerto apurar as maneiras e o seu estylo; aprendeu a metrificar em latim e cultivou, além do grego e das linguas orientaes, os quatro idiomas romanicos que possuia. [31] Despertando em todas as espheras do seu trabalho a admiração das condiscipulas, respectivamente das discipulas, fazia nascer entre ellas uma nobre emulação. De pequena estatura, franzina, olhos pretos muito vivos, alegrava sempre pela sua graça franco-castelhana, as severas e ás vezes monotonas lições dos professores. [32]

Quando passou de alumna excepcional a mestra? do serviço da Rainha á companhia da Infanta? Supponho que aos dezaseis annos, depois de haver offertado ao Papa Paulo III a sua obra-prima, um poema descriptivo sobre as bellezas naturaes da serra e villa de Sintra, acompanhando-o de uma carta de obediencia em diversos idiomas [33] — offerta a tal ponto fóra do commum que foi recompensada por um expressivo Breve. [34] Pela data vê-se que ainda assistia na aula do invictissimo Rei de Portugal. Na carta ha, porém, elogios sentidos ao caracter da Infanta, e o poema é, em grande parte, uma apotheose d'ella. A descripção de Sintra, rica em bellezas bucolicas e pallida apenas, se a conferirmos com o hymno do bardo mysterioso que na sua peregrinação artistica designou de «gloriosamente paradisiacos» os seus encantos, serve de introducção ao vaticinio de uma nympha, a qual promette a D. Maria o throno imperial dentro de um anno:

Digna petunt divi regali in principi dona
imperio ut superet quas superat meritis

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haec reget imperium felix, quum nupserit, orbis

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Ante polum quam sol circumvolvatur utrumque
quæ cecini venient.

Não acharia estranho se os protectores tivessem demonstrado a sua satisfação, transferindo-a ao paço da Infanta (1546). [35] A mu- dança não tornou todavia menos arduas as suas attribuições. Mestra das donzellas, companheira da Infanta, e ás ordens d'ella, sempre que a sua presença fosse desejada, talvez sua secretaria, utilizando as breves horas vagas e o silencio da noite para pôr em dia a sua correspondencia pessoal, ou para idear novos trabalhos litterarios que a tornassem conhecida nos grandes centros do mundo latino, Luisa não podia achar suave e saboroso o serviço palaciano. Posto que todos a tratassem com affecto, como lume do paço, das musas mimosa, ella aspirava á independencia, ao livre desenvolvimento das suas faculdades affectivas e intellectuaes, a um lar seu, caricias de crianças. E quando mais tarde recordava o tempo passado, os treze annos que por junto vivera no paço figuravam-se-lhe não só como de muito assiduo trabalho (sedule servitutis) mas de pesada servidão (onerosa servitutis). [36] A ella, ao pae e á irman.

Juntos retiraram afinal para Torres Novas (1555). Não sei se a contento dos soberanos ou contra o desejo d'elles, como penso. Em todo o caso, ainda dependiam da côrte. Luisa teve de sollicitar o regio consentimento, quando após um triennio de descanso resolveu casar e regressar á patria, quer fosse nos ultimos dias de D. João III, quer nos primeiros da regencia de D. Catharina.

Nesse momento em que, jubilosa, liberta, imagina ter attingido a felicidade, alguma cousa de amargo surge no seu caminho. O sunt lacrymæ rerum do poeta revela-se à sua consciencia. Com orgulho, conscia de ter prestado serviços, e de estar fóra das fileiras (extra aliorum alcam posilam) espera receber o premio devido (sat debita praemia), premio que a eximisse para sempre da lucta pela vida [37]. Quando lh'o negam, lamenta-se, por amor ao dulcissimo conjuge [38] Repugna-lhe ser um encargo a D. Francisco de Cuevas, fidalgo castelhano, letrado mas pobre, em logar de o fazer participe dos louros e da gloria que sonhara. Repugna-lhe não ter valia bastante para melhorar a situação dos irmãos. [39] Em Valladolid e Burgos redige cartas e memoriaes a Felipe II, Paulo IV [40], D. Maria de Bohemia e Hungria. Essa concede-lhe espontaneamente o posto honroso de latina em sua casa, e ao marido o de secretario particular. Mas o infortunio persegue-a. Ao cabo de poucos meses, a generosa e energica irman da Rainha D. Leonor fallece (1558). Novamente sem meios sufficientes, Luisa expõe ao rei de Hespanha o que é e fez, o que soffre e pretende. Emquanto este se dispõe a contentá-la, tem a suprema ventura de se sentir mãe. Mas ao apertar a primeira vez a filhinha contra o coração, exhala o ultimo suspiro (13 de Out. de 1560) [41]. Com apenas trinta annos, sem ter chegado ao mezzo del cammin [42]. Rica em trabalhos e em encomios, que o leitor, já ensinado pelos muitos exemplos que accumulei, vae adivinhar: Minerva do seu tempo, Christiana Cynthia, decima Musa [43], gloria do seu sexo, seu tempo, seu paiz. Mais valioso do que taes epithetos, mais significativo que os solemnes necrologios, as sentidas elegias que os amigos lhe dedicaram é o ultimo adeus do marido á esposa, cuja rara erudição só era ultrapassada pela sua suave candidez. Vale, beata animula. Adeus, bemdita alminha [44].

Ao passo que na peninsula redigem epicedios [45] e epitaphios [46], um francês, relacionado com Diogo Sigeo, resolve tornar conhecida na sua patria a maior polyglotta do mundo. E' Nicot, o da Nicotiana , então em Lisboa como embaixador do rei de França (1559-1561), que leva a Paris, juntamente com a decantada flor da Havana, o poema Sintra, entretendo-se a lê-lo em frente do cabo da Roca. Com bastante demora o fez imprimir (1566), acompanhado de alguns epigrammas e a carta do Papa. [47]

Antes não o fizesse! Em meado do seculo XVIII, quando ninguem em França se lembrava da mestra da Infanta D. Maria, o nome sonoro e impolluto da Heloisa Portuguesa serviu a um espirito perverso, ingenhosissimo sim, mas de insondavel cynismo, para mascarar uma composição sua, de tal maneira abjecta e abominavel que os bons engenhos a chamaram e chamarão sempre <<nascida no orco e digna de trevas eternas [48] , ex orco nata et perpetuis tenebris damnanda.

Na realidade, Luisa havia composto, fóra o poema Sintra e muitas cartas [49], um Dialogo entre duas damas sobre a vida rustica e a palaciana, nunca impresso, gabado como engenhoso pelo unico coevo que o viu [50]. Infelizmente, por ora ninguem se lembrou de colleccionar e editar os restos da actividade litteraria d'esta sympathica precursora [51].



De Angela Sigea ha pouco a dizer. Instruida em ambas as linguas classicas, segundo informação do facundo flamengo João Vaseu de Bruges [52] que, em doze annos de residencia entre portugueses, teve ensejo de saber a verdade, a irman de Luisa era excellente musica a ponto de poder concorrer com os melhores professores. Foi esta a arte que cultivou e ensinou no paço da Infanta, a qual nella se exercitava [53]. Posteriormente, depois de haver casado em Torres Novas com Antonio Mogo de Mello e Carrilho (prole de um filho natural do Conde da Atalaia) continuou amada e estimada por D. Catharina de Bragança. Com ella trocava cartas a miudo. Deixou descendencia em Torres Novas onde viveu, morreu e foi sepultada [54]. Em casa de seu terceiro neto, João de Mello Carrilho e Velasco, via-se, em principios do sec. XVIII, a sua effigie com a da irman. A descripção aponta: um rosto algum tanto cheio, nariz mais afilado que redondo, olhos engraçados e por isso negros (sic), testa larga, sobrancelhas bem tiradas, côres pallidas, aspecto veneravel, vestidos negros à portuguesa antiga e por isso modestos, estatura bem proporcionada. Estava representada rezando por umas Horas de N. S. e cercada de livros. Dos traços de Luisa, o informador não dá noticia [55].


Paula Vicente, filha do genial poeta comico, se pelos annos e sua nacionalidade caminha de braço dado com Joanna Vaz, estende a mão a Angela na qualidade de musica da academia feminina. Como tangedora a inscreveram no rol dos Moradores da Rainha. Com o titulo modesto de moça da camara figura (1561) no privilegio que obteve em nome de D. Sebastião, para publicação das obras poeticas de Gil Vicente [56]. Segundo calculos que parecem certos entrou no serviço da Infanta por occasião da morte de seu glorioso progenitor [57]. Por ella foi favorecida ainda de outro modo: com a doação de terras nas proximidades da Quinta do Mosteiro (concelho de Torres Vedras), propriedade do pae, onde nascera em 1513.

Tudo quanto se narra dos seus talentos tem, infelizmente, certos laivos de lendario. Nomen omen. Paula devia forçosamente lembrar a todos os latinistas, Pola a Romana, que ajudou o auctor da Pharsalia, seu esposo, em trabalhos litterarios [58]. E' o que torna duvidosos os boatos sobre a sua collaboração effectiva na composição dos Autos. Aceitemos, comtudo, como muito provavel que fez companhia carinhosa ao pae nos annos em que, satisfazendo os desejos de D. João III, preparava para a imprensa, no isolamento da quinta, as suas obras dramaticas e lyricas. E' muito possivel que lhe servisse de secretaria intelligente e mesmo de ajudante chistosa e de fino gosto. Acreditamos piamente que entendia diversos idiomas, bordava e pintava. Menos ainda repugna crer que sabendo dançar, cantar e tocar varios instrumentos, recitasse deliciosamente com graça e naturalidade, trechos soltos e composições inteiras das obras do pae, agradando sem ser formosa. Ou ainda, que a sua veia dramatica e talento mimico a levassem a organizar, no circulo das damas, ligeiras representações scenicas, ex-improviso, ou com a devida preparação. Ao fallar dos Serões tornarei a tocar nesta hypothese.

Mas ponhamos de remissa o que dizem da sua sabedoria em architectura civil; de uma grammatica inglesa e hollandesa da sua lavra, nunca vista por ninguem; assim como de um volume inteiro de comedias originaes que legou á posteridade [59].

Angela e Paula, representantes da tradição portuguesa ou Escola velha, conduzem-nos do gabinete de estudo ás salas de recepção. Festas, quer intimas, quer solemnes, sem o suave concerto de instrumentos musicos, tocados por damas gentis, acompanhando cantigas, vilancetes, chistes, elegias, eglogas ou danças artisticamente ordenadas; serões sem declamação de versos, jogos de espirito, motes glosados; representações improvisadas sobre themas dados, ou previamente estudadas, quem as poderá imaginar? Antes de lá entrarmos, devo apresentar as tres infantas portuguesas que seguiram o exemplo da filha de D. Leonor, progenie sua espiritual. A imitação é evidente e significativa, porque mostra que, embora não fosse muito instruída, nem ligasse excessiva importância ás sciencias profanas [60], a Rainha D. Catharina não contrariou, antes favoreceu o alvitre da irman [61]. Entre as filhas de D. Juana, a Louca, a que physicamente e psychicamente mais se parecia á grande Isabel, era a Rainha de Portugal. Bella, energica, esperta, reconheceu a necessidade de mandar educar a nova geração, pelo systema em voga, segura de que convenientemente dirigido o ensino do latim e das humanidades, longe de estorvar os seus scopos, lhes havia de servir de esteio, e de incentivo ás praticas religiosas.

Não só os varões, incluindo o bastardo de D. João III [62] e o do Infante D. Luiz [63], mas tambem as princesas dão prova d’isso.



A Princesa D. Maria; a Senhora D. Maria; a Senhora D. Catharina. — A homonyma da nossa Infante foi a unica filha dos reis que não morreu em idade infantil. Ainda assim, attingiu apenas dezoito primaveras! Por isso os documentos do seu saber e das suas relações com poetas e letrados são diminutos. Já conhecemos um escrito que João de Barros lhe consagrou [64]. Da correspondência infantil que manteve [65], extracto a passagem em que o pae, ausente em Almeirim, a censura brandamente porque aos quinze annos ainda preferia o português á lingua dos eruditos: «Com vossa carta, filha, folguei muito, ainda que esperava que fosse em latim» [66]. Um anonymo castelhano fez a relação (inédita) das festas celebradas quando casou [67]. Imagino que não andará despida de louvores á sua formosura, boa indole e esmerada educação. Na mesma occasião uns conselhos propheticos de futuras desgraças, em verso, foram dirigidos aos reis, por seu tio, o discreto D. Luis. Era uma emanação de doloroso despeito, porque não só por conveniência de estado, para dar mais um fiador á successão manoelina, mas por verdadeiro amor, o Infante havia planeado casar com a sobrinha [68]. A morte prematura da princesa provocou uma lamentação, assaz convencional, da parte de um novato, poeta e musico luso-castelhano, que a seguira, com desejos de entrar como cantor na capella de Felipe II, seu esposo. O novo Recuerde el alma dormida, ou seja glosa das primeiras Coplas de Jorge Manrique, é uma composição curiosa, em que Jorge de Montemór a apelidou — receio que com tão escassa veracidade como elegância — bella y sana e la mas rica pieza (!) que nunca viu. [69] Identica homenagem, comquanto um pouao mais tardia, lhe prestou em latim Ignacio de Moraes, representando-a no Empyreo, em conversa com o príncipe seu irmão [70], o ultimo vastago de dez, que em dois decennios foram arrancados aos braços de D. João e D. Catharina (1553).

Si spectes quoties Lucinam experta faventem
uxor magna fuit, praesto est numerosa propago.
Si spectes quoties Libitinam expertus uterque
de grege bis quino nullum superesse dolebis.
Tot pueri immaturi cevo, tot morte puella
absumptce vacuam liquere parentibus aulam [71].

De alguns escritos, em vernáculo, hoje perdidos, de Gaspar de Barreiros, é impossível dizer, qual das duas Marias portuguesas visava, se a Infanta ou a Princesa [72].

Quando est’ultima deixou vago o seu logar no paço, já lá estavam a substitui-la, no affecto dos paes, as pequeninas orfans do Infante D. Duarte (1515-1540). Educadas pela Rainha como se fossem filhas suas, os méritos da Senhora D. Maria (n. 1538) e da Senhora D. Catharina (n. 1539) deixaram rasto, não só na obra de latinos como Diogo de Teive [73], mas tambem na dos verdadeiros lyricos portugueses.

Ouçamos por exemplo o cysne de Montemór que as avistou no paço da Rainha, ao lado da Infanta, nas festas do Noivado de D. João e D. Juana (1552). Ao dar á luz a sua obra-prima, o romance pastoril de Diana, pendurou os retratos das duas meninas num d’esses Templos de Gloria em que era praxe collocar celebridades coevas [74]. Primeiro a Infanta, no momento em que a perda da mãe a perturbou profundamente:

Mirad, Ninfas, la gran dona Maria,
De Portugal infanta soberana,
cuya hermosura y gracia sube hoy dia
ado llegar no puede vista humana:
Mirad, que, aunque fortuna alli porfia,
la vence el gran valor que d’ella mana
y no son parte el hado, tiempo y muerte
para vencer su gran bondad y suerte [75].

E logo em seguida as suas sobrinhas:

Aquellas dos que tiene alli a su lado
y el resplandor dei sol han suspendido,
las mangas de oro, sayas de brocado,
de perlas y esmeraldas guarnecido,
cabellos de oro fino, crespo, ondado,
sobre los ombros suelto y esparzido —
son hijas dei infante lusitano
Duarte valeroso y gran christiano. [76]

Foram gabadas tambem pelo doutor Antonio Ferreira [77] e seu amigo Pedro de Andrade Caminha, poeta aulico por excellencia [78], e camareiro de seu irmão o Senhor D. Duarte (o mais novo entre os tres Duartes que é preciso distinguir) — vates que nünca fizeram vibrar sua lyra para cantar a Infanta.

Nascidos na era tridentina, de paes devotíssimos, as irmans foram criadas numa atmosphera saturada de clericalismo. A mãe, D. Isabel de Bragança, traçara de sua própria mão um volume de Notas aos Evangelhos [79]. Imitando o exemplo, a Senhora D. Maria, a mais douta das duas, boa latina, entendida em mathematicas e philosophia natural, inclinava-se muito ao estudo da theologia e compôs, dizem, um tratado sobre Sentenças dos Santos Padres. [80] Por escrúpulos religiosos nunca quis exercitar-se na arte poética. Tão longe levou o seu receio de versos de amor profano que, abrindo duas vezes as Rimas de Petrarca, a poucas regras de leitura, como castigando-se, fechou o livro.

A propensão de genio da Senhora D. Catharina, que em 1580 se revelou como briosa e altaneira competidora de Felipe II na successão portuguesa, foi muito diversa. Amiga, protectora e correspondente de Angela Sigea, parece ter cultivado as artes, especialmente a que foi sempre querida dos Braganças. Ao fallar dos Serões terei de mencionar algumas cultoras de musica que brilharam no seu Museu, ou Estudo [81]. Quando em 1565 D. Maria, desposada com Alexandre Farnese, embarcou para Flandres pouco depois de D. Catharina haver celebrado bodas com o Duque de Bragança, estabelecendo residencia no opulento palacio de Villaviçosa, os poetas que citei levantaram hymnos de felicitação, mas tambem queixumes sentidos. [82]

De então em deante os Serões, se não acabaram de todo, cahiram em decadencia. O joven rei, o casto e desequilibrado Sebastião, fugia do convivio, aborrendo le donne. A Regente, sua avó, embora velasse activa e sollicita pelo bem das suas damas e donzellas, venerada como santa velhinha, no seu manto de viuva, só de longe em longe, quando as circumstancias o requeriam, abria as salas outr'ora tão animadas [83].

 

  1. 136 O algarismo está fóra do seu logar. E' á linha 12.a da pag. 36 e não á 16.a que diz respeito esta nota. O discurso academico do qual extractei a passagem allegada, foi impresso em Julho de 1551: L. Andr. Resendii Oratio habita Conimbrica in Gymnasio Regio anniversario dedicationis eius die. Tem dedicatoria á Infanta: D. Emmanuelis P. Invicti filia D. Joannis III P. F. invicti Sorori Maria principi eruditissima, quasi igual á do Poema-Epistola, citado na Nota 59. Devo emendar aqui uma asserção inexacta, contida nessa Nota. Resende não teceu louvores a Angela Sigea. O unico entre os coevos que dedicou algumas palavras elogiosas á irman de Luisa, foi João Vaseu. — Uma emenda de redacção fez-me affirmar o que nunca pensei.
  2. 137 Fernão d'Oliveira, a quem os Portugueses devem a primeira grammatica em vernaculo (Cf. Nota 107b), havia ensinado antes de 1536 não só filhos-varões de alguns principaes da terra, mas tambem algumas damas. E como elle, houve indubitavelmente mais mestres, que seguindo o exemplo do Nebrissense, dos Giraldinos, de Marineo Siculo, longe de se negarem, se orgulhavam de ensinar fidalgas.
  3. 138 D. Leonor Coutinho, 4.a Condessa da Vidigueira e mãe do 1.o Marquês de Niza (1606), pertence à geração immediata. A Chronica do Imperador Beliandro e de D. Belindo (ou Belindor), ficou inedita, mas existe em varios treslados, em bibliothecas publicas e particulares.
  4. 139 D. Leonor de Noronha, filha do Marqués de Villareal, era, pelo contrario, da idade da mãe da Infanta. Não é estranhavel que Nicolas Antonio lhe désse o appellido de Meneses. — Nascida em 1488, em Evora, morreu em 1563. venerada pelas suas virtudes, conforme se lê no Agiologio Lusitano de Jorge Cardoso (1 454). Essa dama traduziu do latim a Chronica do Mundo de Marco Antonio Sabellico, chamada Enneadas por andar dividida em onze partes (e não Aeneidas ou Eneida!) O livro sahiu dedicado á Rainha D. Catharina (1550 e 1553). As duas partes que tratam do christianismo ou da Redempção, tiveram edição separada, a qual o editor João Barreira endereçou em 1570 à Infanta D. Maria. D'ahi a fama que D. Leonor pertencera á Academia da Infanta.
  5. 140 Falta-nos até hoje copia exacta e completa das listas dos moradores da Infanta. Quanto ao livro das moradias da casa de D. Catharina, tambem só possuimos extractos insufficientes. Na Hist. Gen. (Provas II e IV), nem mesmo estão consignados os nomes de Joanna Vaz e Luisa Sigea, que o Visconde de Juromenha descobriu nos originaes, com verba de latinas e 6$000 reis de ordenado. Vid. Obras de Camões I p. 31.
  6. 141 A Epistola poetica a que me refiro — o titulo está impresso na Nota 59 — foi a meu ver composta no mesmo anno de 1551, em que o Eborense recitou o seu discurso academico. Mas anteriormente a 9 de Junho, dia de annos do reinante, em que era praxe celebrarem a reforma da Universidade em commemoração solemne. Na Dedicatoria, anteposta ao Discurso, Resende affirma ter sido «outro dia» recebido pela augusta dama com muita affabilidade: qua me etiam in tuam fidem non gravate pridie adcepisti.
  7. 142 Ignoro se Joanna Vas (Nicolas Antonio, seguido de muitos outros, dá-lhe o nome de Anna) estava por ventura aparentada com a mãe de Resende. Essa chamava-se Angela Leonor Vaz, segundo consta do pathetico epitaphio que o grato filho inscreveu na sua lousa. Graças ás investigações de Barbosa Machado sabemos apenas que o pae de Joanna era licenciado (João Vaz) e o irmão, conego e doutor (Antonio Vaz).
  8. 143 D. Manoel de Salinas y Lizana, Preposito e Conego da Catedral de Huesca, no reino de Aragão.
  9. 144 Quem, abrindo a Vida da Infanta se der ao trabalho de estudar as folhas 135 a 143 ficará surprehendido ao ver attribuido a Achiles Estaço o poema que eu lhe apresentei como obra de Resende. Não sei explicar o erro de Pacheco, que já passou para livros de consulta como o Catalogo de Salvá (n. 3484). Apenas posso affirmar que o douto frade se enganou e que sou eu quem lhe diz a verdade. Possuo o rarissimo folheto que o Eborense mandou imprimir em Coimbra, nos prelos de João Barreira e João Alvares, em Junho de 1551 (Quarto Calendas Julii) a fim de offertar á Infanta a Oração, a Dedicatoria, o Poema, e ainda uns versos a Christo Crucificado. — Salinas y Lizana illustrou as obras de Gracian com uma versão dos Epigrammas de Marcial, e contribuiu com rimas para varios certamens celebrados na segunda metade do seculo XVII.
  10. 145 João de Barros principiou a redacção do Espelho de Casados em 1529, coucluindo-a no anno 1540, que é o da impressão. Ha edição moderna (Porto, 1846). — De passagem seja dicto que o historiador designa como patria sua a cidade de Viseu no § 32 do Panegyrico da Infanta.
  11. 146 Eis o teor literal do trecho em que Barros quer demonstrar a these que as mulheres são em sciencia tão habeis e tão «sabedoras» como os homens. «Mas acabo este conto, com quem fora razam hir mais cedo, que he Joana Vaz, natural de Coimbra, criada da Rainha Nossa Senhora, por suas virtudes e doctrinas muy aceita a ella nas lettras latinas e outras artes humanas mui docta, de quem vi algumas cartas por que bem se pode provar esta noticia que dou della».
  12. 147 Fernan Nunes de Guzman, Comendador da Ordem de Santiago (1553), é mais conhecido por esse titulo, que os coevos lhe deram-distinguindo assim o varão que em Alcalá e Salamanca era o mais profundo conhecedor do idioma de Homero. Hoje estimamo'-lo especialmente como collector de 6:000 proverbios peninsulares.
  13. 148 Os versos dirigidos a Joanna Vaz formam parte de um livrinho raro e precioso: Arii Barbosa Lusitani Anti-Moria, Coimbra, Santa Cruz, 1536.— Vid. p. XXXVI: Ad Johannam Vaas.
  14. 149 Calculo que ella entraria em 1530 no paço da Rainha e que nesse anno começaram os estudos de latim da Infanta D. Maria. — Do Cardeal-Infante D. Affonso sabemos que gastou sete annos nesse estudo, com mestres competentissimos como Ayres Barbosa. — E' este erudito que assim o confessa na Introducção ao livro acima citado, que dedicou ao discipulo: Hoc alterum laboris nostri munus septennio absoluimus in quo & loquendi & orandi & disserendi artem didicisti cum ceteris humanitatis munditiis. Com respeito a Joanna Vaz, ainda o seguinte: No Poema de Resende ha uma passagem que parece estar em contradicção com as phrases sobre a sua idade, pois diz, gabando os seus bons costumes, que até então passou sem culpas a sua juventude (ut sileam mores inculpateque iuventam hactenus exactam). Não seria, comtudo, inexacto traduzirmos: toda a sua juventude. P. S. — Graças ás inquirições a que procedeu o distincto paleographo a que já alludi ao fallar da letra da Infanta, sei agora (a 28 de maio de 1901) que não me enganei nos meus calculos. O 1.o livro de Moradias da Casa da Rainha em que aparece Joanna Vaz, é de 1530. Sei mais (em data de 27 de junho) que a Joanna Vaz estavam entregues e confiados em 1534 os codices e livros da Rainha D. Catharina. Vid. a laboriosa e muito interessante Memoria de Sousa Viterbo sobre A Livraria Real, especialmente no reinado de D. Manuel (p. 37), que acaba de sahir dos prelos da Academia (Lisboa, 1901).
  15. 150 Para fallar de Joanna Vaz explorei todas as fontes indicadas por Barbosa Machado, menos duas que não pude compulsar, e são: Frei Luis de S. Francisco, Prologo ás Linguas Sanctas e C. J. Imbonati, Bibliotheca Latino-Hebraica. Acho pouco provavel que estes auctores soubessem da illustre portuguesa mais do que os conterraneos e coevos. Ainda assim deixo em aberto, se por acaso apurariam noticias que desconheço sobre os seus estudos hebraicos. A este respeito lembrarei que Frei Fortunato de S. Boaventura, não satisfeito de repetir as informações de Barbosa Machado, avança no caminho das affirmações não provadas, dando por mestre a Joanna Vaz o pae da Sigea. Como Diogo Sigeo sabia e ensinava o hebraico (em Toledo pertencera ao circulo dos que trabalharam na Biblia Polyglotta de Cisneros) não é impossivel que o ensinasse a Joanna e Luisa, juntas. Tambem póde ser que de mestre figurasse Frei Francisco Foreiro, o qual, sendo conhecedor eminente das linguas semiticas, era muito do agrado dos Reis e da Infanta.
  16. 151 Escrito em tempo de D. João V (Pro epistola nuncupatoria) o Enthusiasmus foi publicado no tomo I do Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum. Alli diz:

    Vasia prima sedet Lysix clarissimus Aulæ
    Splendor, operta comas lauri viridante corona,
    Plectra canora manu feriens sic dulciter, immo.
    Posset ut e pelago melius Delphinas in auras
    Vellere quam vulsit quondam Citharaedus Arion
    In sua damna fera cum vidit surgere nautas.

    João de Sousa Caría, ao verter em 1731 para português as exagerações encomiasticas do Padre Antonio dos Reis, foi muito mais além na demasia dos louvores, traduzindo p. ex. splendor pela palavra portento, conforme já foi indicado por Silvestre Ribeiro na biographia da Sigea, que mais abaixo terei de citar.

  17. 152 No Poema de Resende vemos applicado a Joanna Vaz a expressão carminibus tibi nota suis isto é, «conhecida a ti, Resende, pelos seus canticos». Infelizmente, nas Obras do Eborense (1551 e 1600) lê-se: tuis. A meu vêr é erro, que os posteros emendaram com toda a razão.
  18. 153 Primeiramente aqui não significa «antes de ninguem». Não foi Nicot quem lhe conferiu o nome romantico de Aloysia. Nem tão pouco João Vaseu, que o usou no seu Chronicon (Hispania Illustrata, I, 593). Inventor do termo foi o papa Paulo III em 1556, ou antes um dos seus secretarios. Bembo? ou Sadoleto? — Ainda assim, os latinistas peninsulares, não podendo ter conhecimento do Breve do pontifice, utilizaram até 1566 as formas Loysa, Luisia e Ludovica.
  19. 154 O poema Sintra foi impresso em 1546 (?) 1566, 1781, 1862 e 1880. O titulo completo vae na Nota 181.°
  20. 155 Modernamente um erudito musicographo castelhano, F. Asenjo Barbieri, tentou impugnar a origem francesa dos Sigeos, por causa do apellido Toletenus que viu apposto ao nome Diogo Sigeo num rarissimo opusculo sobre acentos musicaes, impresso em Lisboa (1560) e dedicado ao Cardeal-Infante D. Henrique. Satisfeitissimo por assim restituir á Hespanha um varão illustre, esqueceu chamar á auctoria os contemporaneos de Diogo e a propria Luisa. Aliás, teria encontrado entre os primeiros um conhecido que em vida do pae o chamou francês de nação. Fallo do celebre erasmista palentino, o Arcediago de Alcor, Alonso Fernandez de Madrid que se occupou da gentil Luisa, o «monstruo da natureza», na sua Historia de Palencia. Quanto a essa, ha em uma das cartas d'ella uma passagem em que se caracteriza a si propria de «toledana de nação, portuguêsa pela criação, e oriunda de França» (quum patria essem Toletana, nutrita tamen apud Lusitanos, ac e Gallis oriunda). A essa carta, dirigida a Felipe II, ninguem poderá negar valor documental. — Conhecendo estes pormenores é facil avaliar com quanto direito uns dão a Luisa o titulo de toledana, emquanto que outros, sabendo unicamente dos louros que colheu em Portugal, a tratam de foemina lusitana. — Mais estranhavel do que a precipitação de Barbieri (Boletin Historico, 1, 53) é a de Silvestre Ribeiro, que propagou a novidade na Revolução de Setembro (N. 11:234), sem recordar-se dos trechos que acabo de explicar e fazem parte da extensa monographia, por elle proprio dedicada á gentil Aloysia Toletana. Vide Nota 185.
  21. 156 A mãe chamava-se D. Francisca de Velasco, segundo informação de Carvalho, na Corografia Portuguesa III 284. E' pois com justo motivo que muitos auctores lhe dão o nome Luisa Sigea Velasco. Parece mesmo que ella assignava assim em cartas intimas. Cf. Nota 158. Ignoro se a mãe estava viva em 1543 e acompanhou as filhas. Segundo Carvalho (III 284), tem jazigo commum com o marido, no Carmo de Torres Novas, circumstancia que, a ser veridica, fallaria a favor da hypothese.
  22. 157 Graças a apontamentos seus e alheios, sabe-se ao certo que, nascida em 1530, veio a Portugal na idade e no anno que indiquei. Bastará lembrar mais uma vez o que em 1551 Resende dizia d'ella Contando apenas tres vezes sete annos, compulsa indefessa, de dia e de noite, codices latinos, gregos, hebraicos e arabes:

    Nam quum septenæ vix dum trieterides annos
    Computet, indefessa, dies noctesque, Latinas
    Voluere non cessat chartas, non cessat Achæas,
    Moseaque & Solymos rimatur sedula vates.

    Muitos auctores portugueses trocaram os papeis, caracterizando Joanna Vaz como menina-prodigio e Luisa Sigea como matrona, e professora d'aquella! Outro erro é o de representarem ambas como alumnas da Infanta. Trabalhando no seu paço, consultando a sua bibliotheca, lendo com ella escritos de poetas e historiadores, ambas fariam progressos notaveis. Tambem é possivel que assistissem ás prelecções, dadas à Infanta por summidades scientificas. Mas de lá a tratá-las de discipulas da propria Infanta ― ainda ha distancia!

  23. 158 (P. 39 l. 14, e não 16). O pae fóra principal preceptor d'ella, segundo declaração da propria Luisa (patre quo in plurimis usa sum praeceptore), fazendo-a tomar parte nas lições de um irmão mais velho, do qual diz: paribus mecum auspiciis in linguarum varietate est institutus. Mas outros mestres o haviam secundado (et latina lingua, graeca, hebrea, chaldea, nec non arabica mediocriter a patre meo caeterisque praeceptoribus erudita). Entre elles tem o primeiro logar o castelhano Alvaro Gonaez de Castro, elegantissimo humanista toledano, e o melhor biographo do Cardeal Cisneros. Outro conhecido seu que talvez ajudou a instrui-la era Alonso Garcia Matamoros. Ignoro quem se interessou em Portugal pelos seus progressos. André de Resende? Frei Francisco Foreiro?
  24. 159 Numa carta infantil que deve ser das primeiras que escreveu, ainda em Toledo, a pequena epistolographa agradece um ramo de violetas e herva cidreira que o mestre e amigo paternal havia colhido para ella no seu jardim. Muito lhe agradara o aroma. Mais suaves lhe foram todavia as flores do ingenho de Alvaro Gomez que acompanhavam o ramalhete.
  25. 160 Tambem neste caso é ella quem assevera haver-se occupado de tantas linguas, já antes de ter sido chamada a Portugal (quum tot linguarum atque aliarum artium studiis a teneris annis desudarin ac deinde in regum avla adscita fuerim). Sem isso, quem nos prestaria fé? — O chaldaïco é evidentemente a lingua semitica fallada na Syria, e não o idioma turaniano, cujos caracteres cuneiformes ainda não eram no seculo XVI objecto de estudo. Erroneamente alguns biographos da Sigea fallam do syriaco e chaldaico como se se tratasse de dois idiomas diversos!
  26. 160b (P. 59 l. 26). D'esta primeira carta ao Pontifice, ainda não procurada nos Archivos do Vaticano, sabemos pela 2.a. Não verifiquei quem é o egregio poeta-philosopho Britonius ahi nomeado, que fora em 1540 portador ou expedidor da primeira carta e persuadiu a Sigea a dirigir a segunda a Paulo III. Seria um hespanhol chamado Breton? um francês Lebreton? Ou por ventura o Eusebio, residente em Coimbra, ao qual Nicolas Antonio se refere?
  27. 161 Diogo Sigeo assignava de Toledo em vernaculo; Toletanus em obras latinas, até morrer, em 1562, ou pouco depois. Nesse anno dirigia uma carta latina a Miguel Cabedo, que o curioso encontra nas Antiguidades Lusitanicas (Ed. Roma de 1597, p. 514). A epigraphe diz: D. Sigeus Toletanus Michaeli Cabedio Regio Senatori Salutem. — E' datada de Lisboa: 4 Id. Febr. ann. salut. 1562. Desconheço ulteriores sinaes de vida.
  28. 162 Entre os seus discipulos, os mais notorios são o Principe real, D. Theodosio de Bragança e os irmãos d'est'ultimo. — Da sua actividade como mestre dos moços-fidalgos existem provas abundantes. Vejam p. ex. a Hist. Gen., Provas II 381, 382, 67; v 384, VI 620 (O Doutor Mestre Diogo).
  29. 163 A principibus rogato ac potius coarcto patre. Estou persuadida, repito-o, que foi D. Leonor quem instigou Carlos V a recommendar as pequenas latinas e o pae, aos monarcas portuguêses, sempre com o intuito de beneficiar a Infanta, sua filha.
  30. 164 Creio que admittida no paço, permaneceu entre as meninas até 1546, embora logo vencesse ordenado de dama. A pouca idade excluia a possibilidade de immediatamente lhe darem honras de mestra. E' assim que deveremos entender as palavras do flamengo Vaseu, amigo de Clenardo e relacionado com Sigeu, que «Luisa foi educada no paço regio durante muitos annos.» (Vid. Schott, Hispania Illustrata I, 593). Quanto à erudição, embora nenhuma no paço podesse concorrer com ella quanto à vastidão do saber linguistico, é quasi certo que em latinidades, incluindo composições epistolares, a Infanta e Joanna Vaz não lhe ficavam atras, e por muito que soubesse, muito mais lhe restava aprender! P. S. — Nos livros de Moradia, Luisa figura desde 1543. E' quanto o Snr. General Brito Rebello apurou até hoje.
  31. 165 O francês e o castelhano deviam ser-lhe familiares desde a meninice. Igualmente o português, ao cabo de curto prazo. Quanto ao italiano, temos o testemunho de Resende que affirma no Epicedio, em que chorou a sua morte, ter ella fallado com grande pureza a lingua de Dante (o tusco ou etrusco), e a francesa com tal naturalidade que todos a tomavam por francesa. Os que a chamaram perita em cinco linguas contavam apenas as linguas antigas classicas e orientaes — como p. ex. seu fiel amigo, o velho Resende, na composição de 1551! Perita em nove linguas seria mais exacto.
  32. 166 Retrato de pura phantasia, abstrahido das noticias soltas, espalhadas nas obras que me servem de fonte.
  33. 167 As redacções eram cinco, como fôra de esperar, e não tres como por engano foi affirmado. O proprio papa assim o expõe na memoravel resposta de 6 de janeiro do 1547, com que a distinguiu, dizendo: Delectati valde sumus in Domino ex tuis litteris quas ad nos latine, graece, hebraico, syriace, atque arabice scriptas dedisti. — E' natural que apenas se publicasse o texto em latim (1566, 1862 e 1880). Mas para nós, os philologos, formarmos ideia dos conhecimentos positivos de Luisa seria muito para desejar que em Roma procurassem as outras versões, principalmente a arabe. Em vista das sérias difficuldades com que teve de luctar Nicolau Clenardo, para travar relações com arahistas doutos, bom era apurar quanto a Sigea sabia.
  34. 168 O curioso encontra o Breve do Papa e a Carta de Luisa na Memoria de Silvestre Ribeiro (a p. 25 e 37), cujo titulo indico na Nota 183. As outras impressões são rarissimas.
  35. 169 Em testemunho de que realmente foi mestra da Infanta, basta citar uma passagem da carta de queixumes e sollicitações que a propria Luisa dirigiu em 1558 a Felipe 11. Diz ella: «não sem gloria desempenhei as minhas funcções como preceptora da Serenissima Infanta D. Maria» (erga Mariam Infantem Serenissimam praeceptoris munere non infeliciter usa. — Vaseu, dirigindo ao Cardeal-Infante D. Henrique a sua Chronica Rerum Memorabilium Hispaniae, metteu entre os louvores tributados aos Sigeos a sentença: in familia est Ser. Maria principis primariæ. O Arcediano só pode repetir o que constava a todos: «el padre la puso en palacio en servicio de la Princesa Maria». Deante do seu tumulo, Resende perguntava: Quem teria sido mais apto a servir de mestra da Infanta?

    Ecqua autem Maria divino principis ortu
    aptius a studiis danda ministra fuit?

  36. 170 E' numa epistola intima a seu cunhado Alonso de Cuevas que se lêem as expressões citadas.
  37. 171 De varias cartas transpira a consciencia que tinha da sua nobreza scientifica, a qual obriga tanto como a do sangue. Para todos os seus requer aquella condição que convém aos irmãos e ao esposo de Sigea, a Polyglotta.
  38. 172 Vid. Nota 170.
  39. 173 De dois irmãos seus, o mais velho, educado com ella, havia estudado theologia em Alcalá e Coimbra; o mais novo estava em Roma, em companhia de Gaspar Barreiros, desejoso de alcançar um emprego, junto da curia.
  40. 174 Enganam-se os que crêem destinada a Paulo III (Farnese) a carta escrita em Julho de 1557. Este morreu em 1549. Paulo IV (Caraffa) occupou a Santa Sé de 1555 a 1559.
  41. 175 Na sentida inscripção tumular do marido não ha data. Tão pouco no epitaphio do francês Claude Monseau, nem na que foi elaborada em Portugal por André de Resende. As que indico acham-se exaradas no epitaphio litterario, composto por Juan de Merlo (port. Mello, lat. Merulus), coevo, patricio e amigo de Diogo Sigeu. (Vid. Nic. Ant. e Gallardo, Ensaio N.° 1494). Alguns auctores pensam que Luisa morreu em 1561, fiados nas palavras do Arcediano de Alcor, que a deu por viva ainda nesse anno. O facto de as homenagens funebres de Resende terem sahido em 1561 não é decisivo para a data 1560. O robusto ancião trabalhava com desembaraço tal, e a sua veneração pela Heloisa portuguesa era tão férvida que, sabendo do seu passamento em principios de Novembro, o resto do anno chegava para elle compor e fazer imprimir a sua concisa commemoração (quatro folhas apenas): Ludovica Sigaa Tumulus L. Andrea Resendio Auctore. Apud Hæredes Germani Galiardi, An. M. DLXI. Olyssippone. Venalis apud Iohnnem de Borgo. Regium Bibliopolam in vico novo. Nicot as reimprimiu em 1566.
  42. 176 O algarismo está fóra do seu logar. As palavras «rica em trabalhos e em encomios» é que se refere esta minha glosa sobre as riquezas de Luisa. Lá fóra não quiseram acreditar que em Portugal os governantes lhe faltaram com a justa remuneração. João de Mello, o de Toledo, citado em a Nota anterior, — auctor de uma collecção de proverbios — rematou o seu epitaphio com a sentença: «Toledo lhe deu a vida; a Lusitania honras e riquezas (Lusitania honores et divitias dedit); Burgos o marido, a filha, o coval.» E essa fama voou. Vejo-a assentada p. ex. na Italia et Hispania Orientalis de Paulo Coloma (1730), que affirma: non modicas opes ex regali munificentia sibi paravit.
  43. 177 Nem todos os panegyristas se conformaram com este titulo. — E' curiosa a opposição de Resende. No dithyrambo sincero em que exalta os meritos da Sigea, são as nove Musas que choram o seu fim prematuro. Mais ainda porém, o facto... de não a poderem admittir no seu côro virginal! Para que tambem se lembrou ella de casar? Tres vezes entoam o estribilho:

    Et nisi virgineum thalamus violasset honorem
    Hac ultra noster cresceret ordo novem!

  44. 178 Eis o epitaphio expressivo, gravado em doze linhas de estylo lapidar na sepultura de Luisa pela mão do esposo: D. O. M. | Loisia Sigaa Foemina | Incomparabili | Cujus Pudicitia cum Eruditione | Linguarum | Qua in ea ad miraculum | Usque fuit Ex aquo certabat | Franciscus Cuevas Moerentiss. | Conjugi B. M. P. Vale Beata Animula. Conjugi | Dum vivet |Perpetua lachryma.
  45. 179 Varios estão colligidos. Outros continuam ineditos. Tenaionava publicar aqui a Elegia de Pedro Lainez, que principia:

    Si de triste licor tan larga vena,
    Musa llorosa mia, has derramado,

    segundo os Mss. Paris. 598 f. 99 e 603, f. 135. Sabendo todavia á ultima hora que um douto hespanhol havia encommendado um treslado, afim de o publicar na Revue Hispanique VII, desisti do meu intento. Falta-me descobrir um soneto de uma dama italiana, mencionado por Faria e Sousa, sem informações que facilitem a procura.

  46. 180 O melhor de todos é o de Resende. Traduzido diz: Aqui jaz Sigea. Isto basta. Quem ignora o resto, necessitando explicações, é barbaro, avesso ás boas artes. Quanto ao logar onde jaz, mal se pode duvidar que seja Burgos. A lenda conta que Luisa desejou dormir em terra portuguesa e que a familia a tresladou para o Carmo de Torres Novas. Essa lenda nasceu a meu ver do facto que entre os descendentes de Angela houve outra Luisa Sigea, ahi enterrada no jazigo dos Mellos. — Cf. Carvalho, Corografia Portuguesa III 284 e 287.
  47. 181 Syntra Aloisia Sigaa Toletana aliaque eiusdem ac nonnullarum praeterea virorum ad eandem epigrammata quibus accessit Pauli III P. M. epistola de singularis eius doctrina ac ingenii præstantia. Tumulus eiusdem ab Andrea Resendio et Claudio Moncello concinnatus. — Parisiis M. DLVI. — Silvestre Ribeiro reimprimiu o poema. Suspeito que em 1546 a propria Luisa havia mandado compor alguns exemplares, perdidos hoje, para a Infanta, e os amigos e admiradores, visto que na carta a Paulo III, nomeando a sua composição, a caracteriza do modo seguinte: in gratiam Maria Portugallia Infantis Serenissima editam, cui nostras operas eo libentius locamus quod quemadmodum cum Caesare ac reliquis monarchis sanguinis splendorem sic cum Musis rationem studiorum habet coniunctissimam.
  48. 182 De Arcanis Amoris et Veneris Aloysia Sigaa Toletana Satyra Sotadica. O verdadeiro auctor é, na opinião geral, Nicolas Chorier; e não Meursio, ao qual em França quiseram impôr a responsabilidade do nefando crime.
  49. 183 Alvaro Gomez de Castro, fiel ao culto de amizade que lhe consagrou, foi guardando as cartas de Luisa, e alguns versos d'ella. — O seu espolio veio ter á Bibliotheca do Conde-Duque de Olivares, e posteriormente ao Convento del Angel, de carmelitas descalços de Sevilha. No catalogo respectivo, extractado por Gallardo no Ensayo, vol. IV sob N.° 4541, vejo registadas 1.°) Algumas cartas y poesias de Luisa Sigea de Velasco na Caixa D. N.° 11 f. 72 ss. (col. 1509); 2.° Quatro cartas mui doutas a um seu amigo (ib. col. 1494); 3.° Cartas d'ella a Alvar Gomes; Caja 1, N.° 10 da Miscellanea X das que juntara o sabio toledano. (ib. col. 1508). — Pacheco (f. 96), viu um maço de cartas suas em poder de um tartaraneto de Luisa, D. José Ronquillo, Visconde del Villar, gentil-homem da camara de D. Juan de Austria. — Nicolas Antonio (Bibl. Hisp. Nova II, p. 57 e 346) possuia copia, de letra de Pellicer; e tão curiosas as achou que resolvera publicá-las em Appendice á Bibliotheca — plano que não se realizou. Francisco Cerdá y Rico, que as teve entre mãos, prometteu supprir esse esquecimento; mas tambem não chegou a desempenhar-se da sua promessa. — Algumas, que pertencem ao Museu Britannico, serão publicadas em breve, juntamente com a Elegia a que já me referi, por Adolpho Bonilla y San Martin, na Revue Hispanique, segundo teve a bondade de informar-me o illustre director d'essa publicação, R. Foulché Delbosc.
  50. 184 O já citado Arcediano de Alcor, que viu o Dialogo autographo, exalta-o muito na sua Historia de Palencia. Silvestre Ribeiro attribue a Luisa ainda uma Arte Poetica. Mas erradamente. Poetica eius quædam de Nicolas Antonio significa alguns versos d'ella e refere-se aos papeis de Alvar Gomez, guardados na livraria olivarense.
  51. 185 As fontes para a Vida de Luisa Sigea são, além dos seus escritos, os apontamentos de Resende (1551 e 1561); os de Vaseu (1555), os de Alonso Garcia Matamoros, no escripto De Academiis et doctis viris Hispania (1558); Alonso Fernandez Madrid (1561); Nicot (1566); Nicolas Antonio. Os melhores estudos modernos são os seguintes: Allut, Aloysia Sigea et Nicolas Chorier, Lyon 1862, opusculo bastante raro, de tiragem restricta (112 ex.); J. Silvestre Ribeiro, Luiza Sigea, Breves apontamentos historico-litterarios, Lisboa 1880. — Como fiz com respeito a D. Maria, supprimi tambem a lista extensa das obras nacionaes e estrangeiras que encerram apontamentos derivados sobre Luisa.
  52. 186 Hispania Chronicon, em Schott, Hispania Illustrata 1 593. Fallando de Diogo Sigeo e de Luisa continua: sed alteram quoque filiam Angelam Graece Latineque pro ætate et sexu nonmediocriter eruditam, tam exacta Musices scientia curavit perdocendam, ut cum praestantissimis illius artis professoribus contendere posse putem.»
  53. 187 Já citei o paragrapho do Panegyrico de Barros, dedicado aos exercicios musicaes da Infanta.
  54. 188 A respeito dos Sigeos de Velasco e Mello, de Torres Novas, e do retrato das duas irmans, consulte-se a Chorogr. Port. III 289 ss.
  55. 189 A familia do marido tinha jazigo na egreja parochial de Santiago.
  56. 190 cancioneiro de todas as obras de seu pac, para o qual obteve privilegio em vida de D. João III, foi afinal publicado por Luis Vicente, irmão de Paula que serviu de moço ao Principe e subiu depois a escudeiro e cavalleiro (1594).
  57. 191 Vid. o estudo do Visconde de Sanches de Baena sobre Gil Vicente, Lisboa 1890.
  58. 192 O primeiro que a comparou à mulher de Luciano, fallando da sua collaboração na obra do pae, foi o auctor do Enthusiasmo Poetico.
  59. 193 Vid. Juromenha, Obras de Camões 1, 30; Visconde Sanches de Baena, p. 6 e 55, Documento VIII; Silvestre Ribeiro 49, e Th. Braga, Gil Vicente, ed. 1898, obra na qual ha reflexões judiciosas acerca de Paula, no mesmo sentido restrictivo que aqui advogo (p. 146, 174, 181, 269 e 273).
  60. 194 O grande zelo religioso da Rainha D. Catharina só poderá ser estranhado por quem não se lembrar das tristissimas scenas que presenciara na sua juventude. Filha posthuma de Felipe o Bello, nasceu em Torquemada, durante o phantastico cortejo funebre com que a viuva levou a Granada o corpo do defunto rei. E viveu sempre em severa reclusão, ao pé da mãe, em Tordesilhas, d'onde sahiu directamente para occupar o throno portuguez (1524).
  61. 194b Nas Notas Addiccionaes 107b 149b já me referi à copiosa livraria da Rainha D. Catharina e aos importantes subsidios para a sua physiognomia intellectual, recentemente desenterrados por Sousa Viterbo. Nos codices 160, 161 e 163 da Torre do Tombo (da antiga Casa da Corôa) em que se descreve a despeza da Rainha, ha verbas importantes relativas aos seus livreiros, encadernadores e impressores; longas listas de volumes entregues á camareira ou a Joanna Vaz; sommas para livros da Infanta (sua filha). A maior parte dos livros que mandou comprar versava sobre assumptos devotos e ethicos. Já mencionei as grammaticas que adquiriu. Entre os textos profanos, ha muitos de historia antiga e moderna: Plutarco, Julio Cesar, Quinto Curcio, Josepho; Cronicas de Hespanha, Aragão, Navarra; as do Condestavel, Rey D. Pedro, Juan de Castella; a Cronica fabulosa del Rey Rodrigo, a Cronica Troyana, a dos Nueve de la Fama. Não desprezou de modo algum a poesia. Ao lado do Cancioneiro Portugués estava o Castelhano, o de Juan del Enzina, o de Jorge Manrique, as poesias de Mena e Santilhana, e o Mingo Revulgo.
  62. 195 Este Senhor D. Duarte, filho de D. João III, nascido antes do casamento com D. Catharina, destinado para Arcebispo de Braga; era muito afeiçoado ás letras, e documentou essa sua inclinação em um tratado, repleto de citações e allusões eruditas. (Hist. Gen., Provas III 40). Os mestres e condiscipulos enalteceram-no como um portento de sabedoria. Mas nem mesmo este rebento-espurio do tronco regio medrou. Ao cabo de quatro lustros, definhou, extinguindo-se em 1543.
  63. 196 D. Antonio, o infeliz Prior do Crato, de caracter e actos tão problematicos e controversos, fora educado em S. Cruz.
  64. 197 Veja-se p. 34 e Nota 126.
  65. 198 Hist. Gen., Provas 11 436-438; Bibl. Eborense, Cod. CIII — 2 — 26 f. 70, 72 e 309. — Rivara, no Catalogo da Bibliotheca, vol. III 179, attribuiu erroneamente à filha de D. Manoel essas cartas infantis, confundindo as duas Marias, como tantos outros auctores nacionaes e estrangeiros. Escritas em português, são dirigidas ao noivo (D. Felipe), á cunhada (D. Juana) e ao Imperador (Carlos V). Falta a carta ao pae, a cuja resposta me refiro no texto e na Nota que segue.
  66. 199 Hist. Gen., Provas II 438. O «fosse» é accrescento meu.
  67. 200 Recibimiento de D. Maria, muger de Felipe II. — Bibl. Nac. de Madrid, Ms. P. 47.
  68. 201 Trovas que se fizeram quando el-rei D. João III casou a Infanta D. Maria sua filha com Filippe, filho do Imperador Carlos V, Rei de Espanha, e dizem que as fez o Infante D. Luis seu irmão. Conheço-as, directamente, de uma Miscellanea da Bibl. do Porto, já explorada por Camillo Castello Branco (Jornal da Manhã 1890 N.° 172) e tambem por Fernando Palha no Catalogo da sua Livraria (N.° 4570). — Outros restos da actividade litteraria do Infante estão ineditos: cartas, aphorismos, trovas sentenciosas. Alguns Sonetos sacros, de sentimento profundo, e forma polida, andam encorporados nas obras lyricas de Camões.
  69. 202 Esta composição talvez represente a estreia poetica de Jorge de Montemór. O curioso encontra-a no Catalogo Rasonado de D. Garcia Perez (p. 393), copiada sobre o unico exemplar conhecido da edição original, resguardado na Bibl. Nac. de Lisboa. — Desconheço os motivos porque o auctor as dedicou ao esclarecido Regedor das Justiças de Portugal, D. João da Silva. Apenas tenho vagas suspeitas a que darei vasão no fim d'este estudo, ao fallar dos Silvas.
  70. 203 Ignatii Moralis in Interitu Principis Joannis Elegia dua 1554. Joannes Princeps recenti fatu functus et Maria eius soror in Olympo colloquuntur.
  71. 204 In obitum D. Joannis III Lusit. regis conquestio, v. 37 ss.
  72. 205 Barbosa Machado II 336 (s. v. Gaspar Barreiros) regista uma Carta Consolatoria, escrita em Roma a 4 de Dez. de 1563 (sic) á Infanta D. Maria ácerca da morte do Infante D. Duarte seu irmão; e uma Egloga pastoril em louvor da Infanta D. Maria. Não discuto neste logar os pontos duvidosos, que são tres: a identidade do Infante D. Duarte, a da Infanta D. Maria, as datas das viagens de Barreiros a Roma. Tocando pela ultima vez na confusão entre as varias Marias, estabeleço apenas que a Infanta á qual Jorge de Montemór offertou no anno 1548 a Exposicion Moral sobre o Psalmo 86, não é nenhuma princesa portuguesa, mas sim a filha de Carlos V, e que é esta mesma que vemos nomeada no Canto de Orfeo, na primeira das estrophes laudatorias, ainda com precedencia a D. Juana, sua irman:

    Los ojos levantad, mirando aquella
    Que en la suprema silla está sentada,
    El cetro y la corona junto à ella,
    Y de otra parte la fortuna airada:
    Esta es la luz de España y clara estrella,
    Con cuya ausencia está tan eclipsada.
    Su nombre; oh ninfas! es doña Maria,
    Gran reina de Bohemia, Austria, y Hungria.

    La otra junto à ella es doña Juana,
    De Portugal princesa y de Castilla,
    Infanta á quien quitó fortuna insana
    El cetro, la corona y alta silla,
    Y á quien la muerte fue tan inhumana
    Que aun ella á si se espanta y maravilla
    De ver cuan presto ensangrentó sus manos
    En quien fue espejo y luz de lusitanos. (Estr. 4 e 5).

    A explicação é simples. Jorge de Montemór, embora português de nação, era devedor de fervorosos agradecimentos ás filhas de Carlos v porque o haviam admittido como cantor da sua capella. Na viagem a Portugal acompanhou a Princesa D. Juana como seu aposentador (1553-1554).

  73. 206 Epithalamium in laudem nuptiarum Alexandri et Maria principum Purma es Placentia.
  74. 207 Esse Templo de Gloria, ou Conto de Orfeo, acha-se no Livro Quarto do Romance Pastoril.
  75. 208 Estancia 6. — A allusão à morte de D. Leonor serve para determinarmos a data 1558 como termo a quo da conclusão e publicação da Diana.
  76. 209 Estancia 7.- Confira-se a descripção das filhas de D. Duarte na Egloga III de Caminha.
  77. 210 Epithalamin ao casamento da Senhora D. Maria. Do mesmo Ferreira ha uma carta e uma Ode ao Senhor D. Duarte.
  78. 211 As Poesias Ineditas de Pedro de Andrade Caminha, publicadas pelo Dr. Joseph Priebsch (Halle 1898) e por elle illustradas com Notas elucidativas e uma judiciosa Introducção, dão ideia cabal da bem merecida veneração que a esse Senhor D. Duarte (1540-1576) e a suas irmans dedicavam todos os servidores da sua casa, e dos Braganças.
  79. 212 Essa prosa devota foi, por ordem de D. Catharina de Bragança — filha da auctora — entregue em 1633 ao Inquisidor D. Manoel de Valle de Moura, que a achou digna de sahir a lume. A familia preferiu, porém, deixá-la sepultada no esquecimento, na Bibliotheca Brigantina, onde talvez pereceu em 1755.
  80. 213 Ignoro, se o tratado subsiste, ou não.
  81. 214 Museu é nome dado ao gabinete de estudo das doutas Senhoras por Andrade Caminha num dos seus Epigrammas, por signal muito insulso (N. 469 das Poesias Ineditas). Ahi só falla de sciencias e virtudes, omittindo as artes, que exalta todavia em outras composições.

    Neste real Museu a ociosidade
    Nunca tem tempo; cabe aqui sómente
    Onra e preço, e saber e auctoridade,
    Letras, contino estudo e diligente,
    Santissimos costumes, gram bondade,
    Maravilhas d'ingenho alto e prudente:
    Tudo em dous reaes espiritos, dous estremos,
    E em graça e fermosura dois estremos. (sic.)

  82. 215 Vejam, além do Epithalamio de Ferreira, a Egloga Protheo de Caminha; e as suas Epistolas 13 e 15.
  83. 215b (P. 47, l. 5). Recapitulando, indicarei a chronologia das damas quinhentistas, illustres por letras, de que me occupei, ou occuparei: D. Leonor de Noronha nasceu em 1488. Joanna Vaz, certamente antes de 1510. Isabel de Bragança, antes de 1512. Paula Vicente, no anno 1513. A Infanta D. Maria, 1521. A Princesa D. Maria, 1527. Luisa Sigea, 1530. Angela Sigea, 1531. (?) A Senhora D. Maria de Parma, 1538. A Senhora D. Catharina de Bragança, 1540 (casou em dez. de 1563 e morreu em 1614). Hortensia de Castro, 1548. D. Leonor Coutinho, entre 1570 e 1580