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A infanta D. Maria de Portugal e suas damas/Lenda dos Amores da Infanta

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ESTAMOS chegados ao termo.

A Lenda, sempre mais indiscreta, mas muitas vezes mais humana do que a Historia — como acertadamente escreveu, com respeito a outra princesa portuguesa, um mallogrado historiador da dynastia brigantina — encarregou-se de romancear a memoria da sempre-noiva erudita. Já o deixei dicto na Introducção.

Como a Imperatriz D. Leonor, sobrinha do Infante, e filha de El-Rei D. Duarte, que inconscientemente enfeitiçou o Beato Amadeu [1]; como D. Isabel, outra Imperatriz e filha de D. Manoel, cuja formosura, num só dia, cadavericamente decomposta em ascorosa podridão, transformou um Duque de Gandia em asceta e santo; como D. Beatriz de Saboia que arrastou a um louco amor o sonhador da Menina e Moça, assim mesmo a Infanta D. Maria inspirou uma violenta paixão a um dos muitos fidalgos do paço que lograram ensejo de a admirar em festas diurnas e nocturnas — sempre, bem se vê, no dizer da fallaz e phantasiosa Dama-Lenda, verdadeira no primeiro caso; mentirosa nos outros dois, conforme está hoje provado [2]; e problematica com respeito á Infanta.

Eis o que ella conta:

«Jorge da Silva, filho terceiro do 4.o Regedor das Justiças, João da Silva, e irmão de Diogo da Silva, casou com D. Luiza de Barros, filha herdeira de João de Barros e de D. Philippa de Mello, de quem não teve filhos. Foi fidalgo de grandes brios e altivos pensamentos. Sendo moço namorou a Infanta D. Maria, filha de El-Rei D. Manoel e fez taes extremos, que, chegando á noticia d'El-Rei D. João III, irmão da Infanta, o mandou prender no Limoeiro, onde esteve o tempo que pareceu bastante para seu castigo. A esta prisão e amores fez Luiz de Camões umas Voltas áquella cantiga velha

Perdigão perdeu a penna etc.

que começam:

Perdigão que o pensamento etc. »

Pelo teor, o leitor reconhece logo nessa vaga Lenda da Infanta uma tradição genealogica; motivo sufficiente para encará-la com certa desconfiança. E as suas suspeitas augmentarão, ouvindo que o trecho citado, unico conhecido, e sem confirmação em outras fontes não se acha em resenhas coevas, mas apenas na compilação tardia de um Nobiliarista anonymo; surgiu mais de um seculo após os factos e personagens a que diz respeito, para logo depois se sumir até nossos dias [3]. Ignota ou muito de proposito posta de parte, por todos os historiadores e biographos que tiveram de occupar-se da Infanta ou de Jorge da Silva [4], a Quarta Parte das Familias Nobres de Portugal, preenchida pela ramificadissima arvore dos Silvas, foi manuseada exclusivamente pelo Visconde de Juromenha que aproveitou o trecho tresladado, como illustração ás Redondilhas de Camões [5].

Certo é que o grande poeta lyrico, ao paraphrasear o adagio popular [6], pensava em qualquer aventura, determinada, de amor: no vôo de Icaro de algum temerario moço palaciano que, menos calado, retrahido e circumspecto do que o Beato Amadeu, tornára publicos os seus mais secretos sentimentos, sendo por isso despenhado, de asas quebradas e ferido, do alto dos seus sonhos. Certo tambem, que a familia dos Regedores, e a dos Silvas de Portalegre, lhe era conhecida [7]. Mas nenhum manuscripto das Rimas indica como nome do apodado Perdigão, o de Jorge da Silva. Se realmente um — julgando que o amor como a morte iguala tudo — amou onde não devia, e não soube ou não quiz encobrir a sua paixão, tendo de soffrer as conseqüencias fataes de tão doce e tão louco engano d'alma, seguramente não foi o unico a quem se podiam referir as vagas condolencias de Camões. Hoje mesmo, á distancia de tres seculos e meio, sabemos de infelizes empresas amorosas de João Lopes Leitão, D. Antonio de Noronha, D. Antonio de Mendonça, D. Manoel de Portugal, Luiz de Camões, para citar apenas fidalgos que já apresentei ao leitor. — Quem nos diz que entre os olvidados não houve um da familia Perdigão?

Mas fosse quem fosse, ao Icaro, visado pelo Poeta, havia succedido, a meu vêr, apenas um desastre tragicomico, numa aventura galante de pouco alcance, como a de João Lopes Leitão e que não produziu profundo abalo psychico, de effeitos perduraveis. Tão lindamente ligeiras são essas voltas com os seus equivocos e trocadilhos banaes entre pena e penna, ganhar e perder, asado e desasado:

Perdigão, que o pensamento
Subiu a um alto logar,
Perde a penna de voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sostenha:
Não ha mal que lhe não venha!
Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado,
E vendo-se depennado
De puro penado morre.
Se a queixumes se soccorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não ha mal que lhe não venha!

[8]

Pelas circumstancias da vida, assaz conhecidas, e pelo caracter de Jorge da Siva, delineado por muitas pennas, nada de decisivo se apura [9]. Como seu pae, o Regedor por excellencia, que, durante quarenta annos, administrou as Justiças de Portugal e, como seus irmãos e sobrinhos, Jorge da Silva era da confiança de D. João III e da Rainha D. Catharina, a qual tentou garantir-lhe, em 1557, o cargo de Regedor [10]. Um dos mais graduados no serviço do Principe D. João [11], entrou, após alguns annos de abstenção, no Conselho de D. Sebastião, a quem serviu até á hora da morte. Acompanhando-o na ultima jornada, não obstante a sua idade avançada, ficou sepultado nos areaes adustos de Alcacer-Quebir [12], longe do logar que lhe competia em S. Marcos de Tentugal, no admiravel Pantheon dos Silvas-Regedores [13]. Varão de rara inteireza, e virtuosissimo, chamado «servo de Deus», «pae dos pobres» pela sua estremada caridade e insigne clemencia, havia assistido aos ultimos momentos de D. João III, ajudando-o a bem morrer [14]. Escriptor apreciado, compôs Homilias, Tratados e Poemas sacros, muitas vezes impressos, lidos com tal afan que os exemplares subsistentes são raridades [15].

Todos esses titulos e essas virtudes, claro, não põem embargo a que na sua mocidade se apaixonasse por uma Infanta. Podiamos mesmo considerar a sua mystica fugida da côrte, realizada antes de 1549, segundo chronistas coevos [16], e sua actividade como escriptor devoto [17], conseqüencia de um profundo desgosto e de uma crise affectiva. Mas ainda aqui, varias difficuldades inhibem-nos de ceder à tentação.

Se um homem de bem como Jorge da Silva casou [18] ― ignoro quando, mas pela idade d'elle e dos sobrinhos calculo seria antes de 1540 ― se morreu sem successão, quem nos garante que não foi a maior dôr humana, ― a perda da mulher amada e de filhos dilectos ― que o deprimiu e santificou?

Collocando a sua mocidade entre 1526 e 1540 [19], noto que mesmo nos primeiros momentos do escasso decennio em que o ge- nio de Luis de Camões illuminava a côrte (1544 até 1549; ou 1543 até 1553 se quiserem estender o prazo o mais possivel), a Infanta já contava mais de quatro lustros, passando dos trinta o supposto amador. Ambos deviam por isso ser, não lhes parece? tanto pela sua categoria como pela sua indole peculiar, superiores não a ternos e profundos affectos, mas a loucos devaneios e atrevidas galanterias, que merecessem reparos e castigos dos soberanos?

Em terceiro logar, se foram precisas medidas severas, como se concilia e entende então que um doidivanas, capaz de manchar, levemente que fosse, a honra de uma filha de D. Manoel, continuasse dentro do paço, com entrada franca na Camara do Principe? Num reinado em que era costume desterrar da corte para os campos de batalha da Africa, ou para a India, os moços-fidalgos arrebatados de paixão, como João Lopes Leitão, D. Antonio de Noronha, Luis de Camões? a não ser que livremente tomassem o habito, como D. Antonio de Mendonça.

Reservei para o fim a objecção principal. Já sabemos que até 1543 coexistiam na côrte portuguesa duas Infantas, de nome Maria. Do mesmo modo havia entre os moradores da côrte, outro Jorge da Silva [20], além do filho do Regedor. Esse, dos Silvas de Portalegre (que já conhecemos como parentes dos condes de Linhares [21], em cuja casa Luis de Camões vivia), irmão alem d'isso de uma dama da Rainha [22], expiou, é certo, após assaz longa detenção na Torre de Belem, delitos graves que os reis não lhe queriam perdoar; batalhou depois nos campos africanos, e foi morrer em Mazagão! Isto no anno 1544. Os historiadores e genealogistas registam como origem do desfavor regio as suas relações com o celebre cardeal D. Miguel da Silva, seu tio «a quem el-rey tinha desnaturalisado [23]. Alguns relacionam o caso todavia com a outra Infanta D. Maria, filha dos reinantes, contando com discrição, que só ás supplicas d'ella, no momento em que com apenas dezaseis annos, sahia de Portugal para casar com Felipe II (1543), deveu Jorge da Silva a permutação da pena maior em desterro [24].

Nos caminhos arriscados e sempre tortuosos da hypothese é raro acertarmos. Mas d'esta vez, o tempo, o nome, o infortunio concorda tão perfeitamente que é justo preguntar, se as relações illicitas com D. Miguel da Silva não seriam mero pretexto, sob o qual se escondem loucuras de paixão d'esse Jorge da Silva (Portalegre)? O auctor tardio, explorado pelo visconde de Juromenha, confundiu-o nesse caso com o seu muito mais notavel homonymo, o ancião morto em Alcacer-Quebir.

 

Quanto à nossa Infanta, é natural que nova, bella, cheia de espirito e amavel, exercesse tambem certa seducção mundana sobre os moços-fidalgos da corte. Um sorriso benevolo, um lampejo de luz nos olhos geralmente serenos, uma suave commoção na voz bem timbrada, ao pronunciar palavras de agradecimento, seriam de longe em longe a recompensa de acções nobres, feitos cavalheirescos praticados, ou de versos sublimes escritos em sua honra; resposta digna e recatada á admiração submissa, manifestada ora por rubores ou pallidez, ora pelo emmudecer de uma boca geralmente buliçosa. Galanteios exagerados não podiam, porém, ser do seu agrado. Uma grande reserva, seu justo orgulho de filha e irmã de reis protegiam-a, como couraça impenetravel, contra a paixão dos outros, e os impulsos do proprio coração. Como D. Leonor, a gentilissima irman de D. Affonso V, venerada casta e occultamente por João Amadeu da Silva, podia dizer de si, com a Beatrice do Dante:

 

Io son fatta da Dio, sua mercê, talc
Che la vostra miseria non mi tange,
E fiamma d'esto incendio non m'assale.

 
Não faltará quem, á procura de aphorismos sobre o «proveito de tanta erudição», goste de vêr levantada numa especie de epilogo essa questão utilitaria?

A meu vêr, esse proveito é positivo.

Quanto ao mundo, é facto que em litteratura a Infanta não lhe legou nada que perdurasse. Mas nem por isso os seus estudos foram estereis.

Aos coevos deu um exemplo luminoso de abnegação e força d'alma; inspirou poetas e sabios; instigou a imitá-la as princesas e damas da côrte.

Aos posteros deixou valiosissimas instituições de educação e beneficencia, algumas das quaes ainda subsistem, embora modificadas.

Varias disposições do seu testamento revelam a superioridade do seu espirito. Especialmente os seus carinhosos desvelos pela saude, o bem-estar, e a boa direcção das religiosas e dos collegiaes aos quaes edificou casas, mostram como o muito saber, longe de paralysar as virtudes femininas da sua psyche, lhes serviu apenas d directriz pratica [25]

Quanto à propria Infanta, os fructos ideaes que colheu não foram de menos preço.

A filha do Rei Venturoso era uma infeliz, uma victima. Como grande parte das mulheres, talvez mesmo a maior parte, pertence ao numero das sacrificadas — sacrificadas a interesses alheios, ás conveniencias politicas dos que se consideravam seus senhores e tutores naturaes.

Bem inspirado foi portanto o amor materno que, não podendo torná-la feliz, lhe proporcionou no trabalho intellectual desinteressado um elemento compensador — o melhor, ou antes o unico que existe.

A verdadeira cultura, excluindo ostentações pedantescas, obriga a uma longa e ardua iniciação, e leva-nos a esquecer o nosso pequenino eu. Quem estuda a serio já não se preoccupa demasiadamente, num egoismo acanhado, da sua pessoa e do seu gozar. Quem estende a vista pelo universo, sente dilatar-se não só o seu intellecto, mas tambem o coração, e fica mais apto a comprehender tanto a humana pequenez como os deveres sociaes, e a cooperar na solução dos magnos problemas que agitam o mundo.

A primeira e infantil carta latina da Infanta revelou-nos as suas ideias e o seu intimo sentir a este respeito.

Estou a vê-la, meditabunda, absorta em qualquer leitura scientifica, erguendo o limpido olhar ao firmamento, para confessar que do estudo ardente relampejam prazeres ideaes, feitos para as almas nobres: «Il y a dans l'ardeur de l'étude des joies idéales faites pour les nobles âmes.» [26]

Estou a ouvir-lhe bençãos

 

ao doce estudo

mais certo manjar d'alma emfim que tudo.
 

para concluirmos com um conceito do magno Poeta que antecipou tudo quanto nós, modernos, pensamos.


  1. 304 Já deixei citada a obra de Luciano Cordeiro na Nota 13.
  2. 305 Sanchez Moguel dedicou um estudo a S. Francisco de Borja; o Visconde Sanches de Baena outro a Bernardim Ribeiro.
  3. 306 Visconde de Juromenha, unico auctor, que remette ao Nobiliario, não affirma ser do sec. XVI, o que me parece significativo. Apenas regista o facto que em fev. de 1649 o Prior do Hospital do Beato João de Deus de Montemór entregou ao Chantre Manoel Severim de Faria a Genealogia dos Silvas, em que se lia a Lenda de Jorge da Silva.
  4. 307 Os que com mais acerto trataram dos Silvas desconheceram ou desprezaram a anecdota. Citarei apenas Salazar (Casa de Silva VIII, 7), Anselmo Braamcamp Freire (Brasões de Cintra) e um Nobiliario dos Silvas, ms. de fins do sec. XVI ou principios do sec. XVII, que possuo. Sobrio e em geral exacto, constitue excepção á regra de o genealogista ser mentiroso por indole e officio ou por vaidade e parvo geralmente de nascença — regra antiga com muita graça resuscitada pelo Cicerone da Sala de Cintra.
  5. 308 Juromenha IV 452. De lá passou para a Historia de Camões, de Th. Braga, 125 ss.; para as obras de Wilhelm Storck Vida § 138 e 165; id. Obras Completas de Camões, vol. I 381 e 399, sem lhes merecer reparos. Creio ter sido a unica que levantou duvidas sobre a sua veracidade na Zeitschrift VIII p. 13.
  6. 309 Hoje o antigo proverbio é citado em geral na variante: Papagaio perdeu a pena; não ha mal que lhe não chegue. Conheço mais tres variantes: Quando ao gavião lhe cae a pena, tambem the caem as asas; Oliveira não tem folha, o pavão lha comeu toda, e O' pavão cahiu-lhe a pena, não ha mal que lhe não venha. Mulher do povo que cite est'ultima, á vista de qualquer ave de Juno em muda, costuma entoar logo a quadra:

    Coa pena do pavão
    E sangue de minhas veias
    Hei de escrever ao meu amor
    Que anda em terras alheias.

    As Oitavas VII sobre uma infeliz, presa no Limoeiro, contêem uma Petição ao Regedor, escripta provavelmente em 1572. N'esse anno quem exercia o cargo era um sobrinho de Jorge: Lourenço da Silva, primogenito de seu irmão mais velho, Diogo da Silva. Cf. Nota 313.

  7. 310 O primeiro Conde de Linhares (1551) casara com D. Joanna da Silva, filha do primeiro Conde de Portalegre; e Camões era servidor d'esses titulares.
  8. 311 Na Carta da India ha outro pequeno e singelo improviso sobre o mesmo mote, mais sentido que o primeiro. Creio que se refere, entre lagrimas brincando, ás tristezas do proprio poeta:

    Em um mal outro começa
    Que nunca vem só nenhum,
    E o triste que tem um
    A sofrer outro se ofreça!
    E só pelo ter conheça
    Que basta um só que tenha
    Para que outro lhe venha!

    Estas Trovas andam intercaladas entre una poesia humoristica a João Lopes Leitão e os versos galantes a D. Guiomar de Blasfé.

  9. 312 E' escusado insistir no facto que fidalgo tão illustre teve mil occasiões de se aproximar da Infanta. Um irmão de Jorge, Ruy Pereira da Silva, em 1549 guarda-mór do Principe, teve um filho Fernando, o qual era da casa da Infanta. Vid. Andrade, Chronica de D. João III, Parte IV, cap. 381 e Pacheco f. 91. Provavelmente depois da morte do Principe, cujo pagem fôra.
  10. 313 cargo, hereditario na familia, costumava passar de pae a filho. O Regedor João da Silva morreu em 1557, um anno após seu primogenito Diogo da Silva, que era considerado herdeiro do cargo. O filho d'este, Lourenço da Silva, chefe natural da casa de Vagos, entendia que o cargo tambem lhe pertencia de direito. Teve todavia que disputá-lo em longa demanda a Jorge, que apoiado pela Rainha, entendeu que o fallecimento de Diogo, antes do avô, lhe dava a elle, Jorge, a preferencia, por ser filho segundo do Regedor. Lourenço venceu porém o pleito, no reinado de D. Sebastião (1568), e provou pelo acerto e inteireza do seu proceder que tambem era digno das elevadas funcções tradicionaes na familia. Vid. Joaquim de Vasconcellos, O Convento de S. Marcos em Rev. de Guimarães XIV, p. 69. — Jorge era, segundo o parecer de uns, filho segundo; no de outros Ruy Pereira o precedeu em idade. Neste caso a razão porque esse não reclamava o posto seria falta de estudos juridicos?
  11. 314 Andrade, Chronica IV cap. 38.
  12. 315 Ver os Chronistas de D. Sebastião, como p. ex. D. Manoel de Meneses, p. 45 e os especialistas da Jornada de Africa. Tão velho, fraco e doente estava que era transportado numa liteira, a historica liteira em que o corpo del-rei foi levado do campo de batalha. Mesmo o Regedor Lourenço, seu sobrinho, que tambem ficou no campo de honra, com tres ou quatro irmãos, já era na occasião de veneravel presença.
  13. 316 Acerca da igreja e do convento veja-se o estudo supra-citado de Joaquim de Vasconcellos e outro do mesmo na publicação A Arte e a Natureza em Portugal, Porto 1901, N.o 2.
  14. 317 E' o que dizem os historiadores. Em 1557 Jorge desempenhava as funcções de Regedor. A' morte de D. Manoel fôra presente o Regedor João. Creio que o ceremonial exigia essa presença do magistrado supremo das Justiças.
  15. 318 Innocencio da Silva IV 176 e XII 184; Canc. d'Evora 56. — Falcão de Resende dedicou-lhe um Soneto, mandando-lhe os versos de S. Bernardo.
  16. 319 Andrade, 1. c.: «De Jorge da Silva, filho do mesmo regedor João da Silva, hum dos tres primeyros no serviço do Principe, se não tratou por então, por elle ter tomado hum modo de vida com que parecia que tinha renunciado a tudo o que da corte se podia esperar.» Outros auctores especializam, narrando que naquella epoca punha todo o seu desvelo em soccorrer diariamente os desvalidos com largos donativos.
  17. 320 Os seus escritos sahiram de 1552 a 1557. Não sei se erro, calculando a epoca de maior fervor religioso de 1548 a 1556.
  18. 321 Barbosa Machado falla de dois casamentos. Enganam-se os que consideram D. Luis de Barros como filha do historiador. A esposa d'este não se chamou Filipa de Mello; mas antes Maria de Almeida, dos Almeidas de Pombal e Linhares. Cf. Nota 326.
  19. 322 Pelos dados que nos ministram os historiadores (incluindo Frei Luis de Sousa, nos Annaes e na Hist. de S. Domingos) e auctores genealogicos como Salazar (VIII c. 7 e 9), fallando unanimes da sua velhice e tratando-o de ancião muito virtuoso e santo, calculei que nasceria em 1508, pouco mais ou menos, e assim o apontei na Zeitschrift 1. c. (O pae viveu de 1482 a 1557). Manuscriptos relativos ao Convento de S. Marcos indicam todavia, indirectamente, data um tanto posterior. Exarando 1511 como anno do nascimento do primogenito do Regedor, e 1517 como o do 4.o filho João Gomes da Silva (fall. em 1543, na idade de 26) obrigam-nos a collocar os principios de Jorge em 1513, se foi filho 2.°, ou em 1515, a terem razão os que lhe dão o terceiro logar.
  20. 323 Outro, ou outros. Além dos dois citados, conheço um Jorge da Silva, filho de Ruy Pereira, e outro, filho de Lourenço, o qual, captivo na batalha de Alcacere, falleceu depois em Africa. Vid. Hist. Gen., XI, 719 e 924; XII, 97; S. Marcos, 70.
  21. 324 Já disse que D. Joana da Silva, irman do Cardeal D. Miguel, foi mulher do 1.° Conde de Linhares. Cf. Hist. Gen., X, 132.
  22. 325 D. Catharina da Silva.
  23. 326 No meu Ms. leio a íl. 17: «D. João da Silva, filho de D. Diogo da Silva, foi 2.° Conde de Portalegre e herdou a mais casa de seus pais. Cazou com D. Maria Manuel de Vilhena, filha do Senhor D. Alvaro, Conde de Tentugal, da qual houve D. Álvaro, D. Jorge que matarão os mouros em Mazagão, indo desterrado por El-Rey Dom João o 3.°, culpado e convencido na comonicação que tinha com o Cardeal seu tio a quem el-Rey tinha desnaturalizado.»
  24. 327 Hist. Gen. x 132. — Zeitschrift VIII, 14. — Com respeito a esta juvenil D. Maria, torno a recordar que o Infante D. Luis, encantado da sua graça e com os olhos na successão do throno, acariciava a ideia de, com dispensa do pontifice, casar com essa sua sobrinha.
  25. 328 Entre as creações uteis que lhe devemos, abstrahindo do Hospital da Luz que é a mais importante, acho dignas de nota a instituição de bolsas para doze fidalgos pobres no Collegio de Evora (§ 25 e 42); a de alojamentos commodos para os Collegiaes de S. Francisco de Coimbra (§ 17); a de aulas para que na Ordem houvesse mais letras e bons pregadores; e o cuidado com que dispôs que no Mosteiro de S. Bento os dormitorios fossem bem desafogados e alegres, e claras as officinas (§ 39).
  26. 329 Flaubert à Mlle de Chantepie.