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A infanta D. Maria de Portugal e suas damas/Os Serões

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IV

Serões! Mas Serões da Infanta? Ou teremos de entender Serões Reaes, em que a pupila de D. João III e de D. Catharina tomou parte? Creio que sim, mas não tenho por ora quem me acompanhe neste modo de ver.

Repetindo os dizeres com que principiei o capitulo anterior, constato novamente que todos quantos hoje se occupam de litteratura patria estão persuadidos que o esplendor do reinado manoelino ficou completamente obumbrado pelas tristezas da côrte do successor; mas que esse esplendor renasceu em volta da Infanta, devendo-se exclusivamente a ella e ás suas damas a vibração d’esse accorde maravilhoso, intenso, final que fez estremecer todas as almas: o despertar do ideal de poetas immortaes como Luis de Camões [1]. Nessa firme convicção acharam irrelevante a apresentação de documentos comprovativos. Mas, ainda que os procurassem, não os encontravam.

Não ha louvores dos Serões, nem queixas parecidas ás que o philosopho da Tapada fez ecoar ao longe quando, mergulhado em saudades profundas, se lembrava dos alegres tempos manoelinos, laudator temporis acti, como todos os velhos:

Os momos, os serdes de Portugal
Tão falados no mundo, onde são idos ?
E as graças temperadas do seu sal?
Dos motes o primor e a/tos sentidos ?
Uns ditos delicados, cortesãos,
Que é d’elles? quem lhes dá sómente ouvidos? [2]

Nem uma só Ode existe em que algum dos bons engenhos glorificasse a Infanta como alma, coração e soberana de reuniões palacianas. Nenhuma composição com estrophes distribuídas exclusivamente ás suas damas, ou em que ellas collaborassem.

Entre os principaes moradores da sua casa não descubro poetas, como entre os do Infante D. Duarte, Senhor D. Duarte e Príncipe D. João. Apenas um que era filho e neto de poetas. [3] Entre as damas ha uma unica, aureolada por versos camonianos. E essa unica — nem mesmo foi reconhecida como tal pelos meus predecessores! De balde procuro nos cancioneiros impressos e manuscriptos, entre milhares de redondilhas festivas, alguma nota de franca alegria que sahisse indubitavelmente do seu cenáculo; de balde referencias em autos e comedias, comparáveis ás que Gil Vicente dirigiu com tanta graça ás filhas mais idosas de D. Manoel. Raptos de admiração respeitosa, em bocca de eruditos venerandos, isso sim; homenagens em que cedo se introduziu um tom plangente de piedosa magoa, eco tenue do pesar com que todos presenciavam o desfolhar de tanta formosura, o abandono de tanta riqueza, virtude, sciencia e nobreza. E’ pouco. Não ha negá-lo.

Em vista d’esta falta de provas, conhecendo de mais a mais a Infanta principalmente pelo lado devoto, um investigador estrangeiro, espirito critico de primeira ordem, a quem Portugal deve muito, levantou a questão dos Serões, e deu-lhe um feitio peculiar que talvez faça encolher os hombros a mais de um leitor. E é: se o sexo forte teve, ou não, ingresso no paço da Infanta; e em especial, se é verosímil qualquer contacto pessoal entre a princesa erudita que personifica o renascimento português e o principe dos poetas lusitanos — expressão perfeita do genio nacional. Ponderando os prós e os contras, pelo modo que se poderá verificar na sua Vida de Camões, Wilhelm Storck [4], responde negativamente.

E nós? o leitor e eu? Comquanto a respeito de Camões devamos estar de accordo com o sabio allemão, como logo mostrarei, não podemos nem queremos tirar illações tão categóricas. Ponhamos que o scepticismo germânico é excessivo. Deixemos em suspenso a decisão, sobre se no proprio paço da Sempre-noiva, menina em cabello, segundo a comprehensão do vulgo, houve festas para ambos os sexos, ou apenas reuniões de damas; e se todos os escritores que lhe offereceram o fructo das suas vigilias, tiveram a honra de lhe beijar a pequenina mão no seu reino litterario, ou contribuíram a abrilhantá-lo apenas de modo indirecto, fazendo ceremoniosamente, de longe, entrega das suas obras á camareira-mór [5]. Mas não admittamos que lá fóra desenhem a sua casa como um convento. Repliquemos, allegando o testemunho de Goes e Venturino sobre a sua faustosa residencia que a arte ennobrecia de tantos fulgores. Juntemos novos indicios, nova luz, para desfazer a nebulose que em volta d’ella se ia formando. Digamos bem alto que um mestre de dança fez parte de sua casa e que não faltaram pagens de serviço (meninos) [6]. Por causa de um criado seu, grande reposteiro, mantieiro maravilhoso, «mui destro nesta cousa de banquetes», brigaram na partida para a Africa o Prior do Crato e Christovâo de Tavora, um dos que então eram do bafo del-rei e tanto seu privado que: «queria, podia e mandava» [7]. Nas esplendidas festas que á custa de D. Maria se celebraram em Almada na chegada de um sobrinho do Papa Pio v, um improvisador cantou á guitarra trovas em honra d’ella e dos convidados [8]. As suas damas casaram a seu contento, e muitas vezes graças á sua intervenção [9]. Entre os seus familiares houve aventureiros galantes, como aquelle Antonio de Mendonça o qual, desprezado pela sua dama que se enclausurou, entrou tambem no convento. [10] André de Resende, Frei Simão Coelho, Frei Francisco Foreiro foram admittidos á sua presença. Quando o delegado pontifício com larga comitiva foi recebido de noite, em aposentos pomposos, reluziam em torno historias devotas e profanas, exemplos heroicos de virtudes humanas; e aos sentidos fallavam fabulas e mythos, tecidos em pannos de ras, de seda e ouro.

Mais lhe lembraremos o que de resto bem sabe: que se tudo isso não fosse, ainda assim a Infanta haveria de continuo logrado ensejo para de muitos modos conhecer e apreciar o espirito privilegiado de Camões e as suas creações não só no palacio de Dom Duarte, e no dos outros Infantes seus irmãos, dos duques de Bragança e Aveiro, mas tambem na residencia dos Condes do Vimioso, Redondo, Linhares e outros fidalgos de menor categoria que estimavam e sabiam a arte, como por exemplo aquelle Estacio da Fonseca, em cujo patio se representou o Rei Seleuco de Camões. Mas especialmente no paço regio, onde junto á Rainha floresceu até 1543 a noiva de Felipe, até fins de 1559 o principe D. João, cujo fervido amor ás artes e letras havia alvoroçado todos os seus cultores; e até 1565 a prole de D. Duarte.

Da existencia d’estes Serões Reaes é que estou convencida, apesar de Sá de Miranda, cujo suspiro retrospectivo illude. Serões certamente diversos dos manoelinos, cuja pompa e alegria exuberante e cujas graças familiares, tantas vezes indiscretas, se revelam por mil maneiras estranhas no Cancioneiro e nos Autos de Gil Vicente. Muitas modas velhas perduraram todavia. Os bobos chocarreiros, anões e corcundas graciosos, não eram banidos das salas. Os reis e fidalgos divertiam-se então como d’antes, em grande parte com as chalaças de Antonio Panasco e João de Sá e com os chistes do Chiado. [11]

As representações de autos e farças continuaram De quarenta e tres obras dramaticas de Gil Vicente, metade pertence á epoca dei Rei D. João III (até 1536), e não é a menos valiosa. Os Condes do Vimioso, da Sortelha, do Redondo eram extremados em galanteria.

Fernam Cardoso mostrava-se eminente na arte de revestir de estylo metaphorico matérias joco-serias. As notáveis differenças que se realizaram, marcam todas um progresso evidente — progresso que, de resto, não devemos abonar a D. João ni, pois é fructo de sementes lançadas pelos antecessores. As etiquetas tornaram-se mais atiladas, os costumes mais polidos; os divertimentos menos ruidosos.

As danças baixas (passeadas) substituiram as altas (puladas). A culta escola italiana ou petrarchesca prevalecia sobre as formas tradicionaes. A comedia togata e a tragédia ganhavam terreno, contra o auto e a farça popular. Tivemos os Amphitriões, Os Estrangeiros, Os Vilhalpandos, A Euphrosina e Ulyssipo, O Cioso, O Bristo e a Ignez de Castro. A poesia heróica aclimara-se e desabrochava, dando pequenos poemas narrativos em oitavas. O romance de cavalleria, a novella pastoril tinha cultores. Em toda a familia real não havia um só varão que não se esforçasse por mantêr aceso o fogo sacro das letras. A lista das obras dedicadas a D. João III, D. Luis, D. Duarte, D. Affonso, D. Henrique, ao Principe D. João e a D. Sebastião é extensissima e muito curiosa. Igualmente a das que eram destinadas á Rainha, ás Princesas, á Infanta. Quem levou a melhor parte, resta por decidir. Que D. Catharina não fosse complacente, vá. Os heroes de intrigas e dramas de amor eram perseguidos por ella sem dó. A sua austeridade e os seus escrupulos deram motivo para um Camões a amaldiçoar como «soberana infernal».[12] Mas, sem esses justos ou injustos rigores regios, quantas entre as maravilhosas creações lyricas, que são desabafos de peitos magoados e descontentes, seriam escriptas, se é verdade ser poeta sómente quem soffre e chora?

E’ facto incontestável que no paço da Rainha viviam ou se reuniam as inspiradoras de fama. Foi dama sua, tanto aquella D. Maria Manuel que havia enfeitiçado o velho Duque de Coimbra, como D. Anna d’Aragão, a briosa defensora da independencia nacional; tanto a Natercia de Camões, como aquella gentil D. Margarida da Silva por cuja causa o melhor amigo do poeta morreu nos campos africanos, senhora tão gentil que em seu louvor concorreram trinta a quarenta fidalgos da côrte, [13] incluindo o grande estoico, no seu retiro minhoto.[14] Dama da Rainha foi D. Francisca de Aragão, entre todas as formosas a que melhor sabia fazer o officio de dama, contentando a severa soberana e inspirando, apesar d’isso, não só o suave Jorge de Montemór, e o ceremonioso Caminha, mas tambem o sentimental D. Manoel de Portugal, da casa Vimioso, e o proprio Luis de Camões, sem que por causa de tantas homenagens galantes o filho de São Francisco de Borja desdenhasse consorciar-se com ella [15]. Dama da Rainha, emfim, aquella D. Guiomar Henriques cuja esquivez inflammou D. Simão da Silveira, e não desagradou ao inclyto D. Diego de Mendoza.[16]

Foi portanto nas salas da Rainha onde desabrocharam, para onde eram remittidos e onde os cortesãos saboreavam a maior parte dos intermezzos lyricos que constituem o livro de ouro da litteratura portuguesa: motes chistosos, voltas alegres, glosas requintadas, trovas satiricas, cartas mui galantes, sonetos cultos, eglogas sentimentaes, epithalamios solemnes, epistolas judiciosas, oitavas narrativas, elegias graves e afectuosas, odes sublimes.

Foi lá que se deram esses incidentes fallados, essas anecdotas picantes, esses ditos graciosos que continuaram a sustentar no seculo xvi a antiga triple fama de: namorados, de gaiantes, e de promptos e agudos, nas respostas, de que gozavam os portugueses, conforme assentei na Introducção.

A difficuldade consiste em fazer a melhor escolha entre os contos que constituem a chronica aulica.

João Lopes Leitão, pagem da lança do principe, mancebo atrevido e galanteador, muito amigo de Camões, e um dos combatentes no torneio de Xabregas, foi preso por ter entrado no recinto das damas sem licença do porteiro.[17]

D. Simão da Silveira passeia vestido de tafetá, num dia d’Abril muito chuvoso e frio, e explica aos cortesãos sorridentes: «Faço o que devo a Abril; Abril que faça o que nos deve» — caso repetido posteriormente por mais de um pisaflores.

O mesmo galan contou uma vez todo alvoroçado, no Terreiro do paço, aos que o seu bom humor surprehendia, que finalmente conseguira enternecer D. Guiomar a ponto de ella lhe dar uma... figa! —

Em outra occasiâo, vendo um pobre, satisfeito de cebolla e pão, exclama em voz alta, afim de ser ouvido da que desprezava a sua pobreza, e das mais damas que distinguia á janella: «Homem, pelo amor de Deus, vae dizer a D. Guiomar quam pouco basta para passar a vida!»

O Conde do Vimioso, depois de D. Simão o melhor dizedor da côrte, media armas constantemente com o de Redondo que costumava fallar um pouco alto, gesticulando: — «Senhor, vamos, porque dirão que estamos fazendo versos.» «E nós diremos que elles não os fazem» eis um dialogo dos dois que tambem teve nos séculos subseqüentes diversas edições, melhoradas.

D. Manoel de Portugal, censurado pelas excessivas finezas com que fazia a côrte a D. Francisca de Aragâo, ao avistá-la na azoteia de uma torre alta, citou o verso biblico: Altissimum posuisti refugium meum.

Mas basta de anecdotas.[18] Entremos nas salas e jardins do paço. Não me aventuro a phantasiar um sarau joannino — digamos antes, um serão camoniano — delineando as figuras gloriosas da idade aurea, entre damas e cavalleiros, porque o quadro é vasto demais[19] para as acanhadas dimensões d’este estudo. Eis apenas alguns apontamentos historicos que no futuro poderão servir de elementos para uma descripção eloqüente e colorida da vida aulica. Começo com uma pequena nota de um testemunho clássico:

«Ao domingo seguinte (6 de Junho de 1552) teve el rey serão real em que os cavaleyros do torneio vieram vestidos muyto galantes, e alguns dançaram com as damas, em recompensa de seus trabalhos, o que antre Portugueses he de tanta estima, que nenhum trabalho temem nem receam por conseguir este desejado premio. E no cabo do serão apresentaram os juizes suas sentenças dos preços do torneo.»[20]

Estavam em voga as graves galhardas e as pavanas.[21] Nas bodas do Duque de Aveiro com D. Juliana de Lara, a nossa Infanta dançou com o Infante D. Luis. [22] Já mencionei o mestre de bailados do seu paço, certo Antonio do Valle.[23] D. Leonor, sua mãe, tinha fama de ser uma grande dançadeira.[24].

Depois da dança, a musica. João de Barros falia da paixão de D. Maria pela divina arte, e dos seus exercicios assiduos.[25] Entre as musicas da côrte, ao serviço das filhas de D. Duarte, as mais festejadas eram Caterina da Costa, Leonor da Costa, á qual o muito fidalgo camareiro do Infante mandava trovas suas (entendo, texto e musica, tudo da sua própria lavra) para ella as cantar;[26] e certa Maria de Parma, grande mestra e figura formosa, de voz divina que foi exaltada pelo mesmo fidalgo:

Dos olhos e dos ouvidos
quando vos ouvem e vos vem
igual gosto as almas tem.

[27]

Essa ainda era lembrada em 1633 pelos cantores e correspondentes de D. João IV como milagre da natureza. [28]

Muito mais estimada do que a dança e o canto, artes eminentemente sociaes, foi comtudo a poesia. A preferencia era dada naturalmente aos generos ligeiros da escola velha. Conservam-se versos talhados então em pedra [29], cortados em arvores [30], inscriptos em folhas d’era [31], certamente na epoca estival, durante alegres merendeis em Santos-o-Velho e em Sintra. Versos gravados em pedras de beijoim. [32] Versos lançados nos aposentos das damas [33], hoje de amor, amanhan de escarneo. Versos sem conto para Livros de Memória, Cancioneiros ou Albuns. [34] Innumeros vilancetes em louvor de damas, homenagem em geral de um só galan, mas freqüentemente collaborados por uma sociedade de cortesãos. Temos p. ex., além das estancias ás damas da Rainha no Canto de Orfeo [35], uma composição ás oito predilectas da soberana [36], que estavam resolvidas a acompanhá-la a Castella; um Receo de louvor em honra de D. Margarida da Silva, composto por trinta e seis fidalgos [37]; outro a uma innominada [38]; e uma symphonia de quarenta instrumentos á Pascuala de Pedro de Andrade Caminha, [39] grande empresário d’estes divertimentos. Uma legião de motes, escolhidos pelas damas, servia para os seus servidores adivinharem e explicarem em quintilhas e decimas ora, engraçadas ora profundas, o entendimento, ou seja a tenção que ellas, as proponentes, lhes ligavam.

Um dia, alguma que a sorte havia em qualquer jogo de espirito designado para inspiradora — digamos D. Catharina de Ataide, proferiu o thema:

Olvidé y aborreci

fitando o amado.

E o Camões, fingindo de repetentista, replicava:

Ha-se de entender assi:
que desque os di mi cuidado
a quantas huve mirado
Olvidé y aborreci.

[40]

Outra vez é D. Francisca de Aragâo que escreve a lapis num bilhetinho perfumado a regra: Mas porém a que cuidados, (sem pontuação elucidativa, bem se vê) resuscitando por esse meio o magno poeta que ella, por um amuo qualquer, havia enterrado no esquecimento durante alguns dias, favorecendo ostensivamente a D. Manoel de Portugal , ou ao privado do Senhor D. Duarte. Regra tal que o Camões lhe deu tres entendimentos, accompanhados de uma cartinha primorosa. Se forem bons, é mote de V. M., se forem maos são as glosas minhas. [41]

Innumeras trovas ha relativas a successos e accidentes occorridos na sala dos Serões ou nos gyneceos da côrte.

Em geral não levam indicação do nome da dama. [42] Sirva de exemplo, por bons motivos que logo se revelarão, uma que faz excepção á regra, pois leva o subscripto A. D. Guiomar de Blasfé, queimando-se com huma vela no rosto:

Amor que todos offende
teve, senhora, por gosto
que sentisse o vosso rosto
o que nas almas acende.

A juntar-se a Terpsichore, Erato, Polyhymnia, Euterpe, ou a substituí-las, porque a variação deleita, descia ás vezes do Parnasso ás salas da Ribeira, Thalia, a gentil musa da comedia. Possuímos um epigramma a uma menina que em traje de cavalleiro, de capa e espada, matante de olhos e graça, havia feito o papel de Matante. [43] As damas haviam representado uma comedia entre si, amestradas — a hypothese é licita — por Paula Vicente, mas não em reclusão tão absoluta, que o Camareiro pelo menos não as tivesse visto e admirado, se elle tudo esquadrinhava!

Nesses ensejos, e mesmo nos verdadeiros saraus, algumas damas versejavam tambem. Lembro aquella Leonor de Mascarenhas que deu a replica a Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda, nos tempos de D. Manuel e D. Leonor. [44] Os motes, apresentados sempre como inspirações livres, tal-qual os improvisos dos cantadores e das cantadeiras, eram ás vezes momentâneas, ás vezes adaptações e variantes de outras composições conhecidas, ás vezes simples repetição de um provérbio, ou fragmento de outra canção.

Pena é que tantas coisas de folgar e gentilezas pertençam ao rol das pérolas perdidas!

E a Infanta ?

Já sabemos que era pouco expansiva. Receando indiscripções preferia ouvir e callar. Obrigada a pairar intangível nas alturas, aceitava homenagens e galardoava talentos. Comprehende-se bem que, mesmo muito nova, desdenhasse entrar em concorrência com as mais damas, a não estar certa de merecer a palma. Quando muito, faria entrever que, se quisesse, bem poderia ter levado de vencida as curiosas dilettantezinhas que se ufanavam de saber rimar e inventar motes, quadras, trovas.

Uma vez, quando as intimas a importunavam com pedidos reiterados para que tomasse parte num torneio poetico, replicou, com voz melodiosa, mas bastante decidida:

Se soubera fazer trovas
de que me satisfizera...
inda assim as não fizera. [45]

Podia ser d'ella o famoso suelto: no tan simple que no haga una, ni tan loca que haga dos [46], ou o aphorismo: hacer una es entendimiento; y muchas, parto de necedad. [47]

Verdade é que apesar d’estas recusas formaes não se livrou totalmente de ver o seu nome em cancioneiros de mão. [48] Um cantar alheio, por ella entoado em triste solidão, e colhido de ouvido por algum aulico, logo passava a ser assente como obra «da nossa Infanta», em cadernos de lembranças, sendo tresladado, repetido, glosado, cantado em todo o paiz.

Sei de um, não posterior ao anno 1549, que encontrei consignado em uma Miscellanea, como desabafo melancholico Da Infanta D. Maria que nunca teve dita para casar, sendo grande senhora. E diz:

Já não posso ser contente,
tenho a esperança perdida.
Ando perdida entre a gente,
nem mouro, nem tenho vida.

[49]

Sei tambem de diversos lyricos de boa veia que paraphrasearam esta copla, julgando-se «vencidos da vida», em momentos de tristeza. Dois são magnates coevos: o velho conde de Vimioso e Francisco de Sá de Meneses. Outro é um anonymo do Cancioneiro de Evora. Seguem poetas de profissão: Luis de Camões e seu emulo, o suave cantor do Lima, Diogo Bernardes. Além d’essas posso apontar glosas de seiscentistas como Francisco Rodrigues Lobo na sua Primavera, e Simão Machado, na interessante peça magica Alfea. Todos elles sem nomearem a Infanta, fallando apenas de um Mote alheio. Emquanto não se descobrir um nome de auctor, anterior á Infanta, não é illicito todavia propagar a quadra como da sua lavra, tendo em conta de obra de D. Maria tambem a Volta seguinte, que é anonyma e falia em nome de uma mulher:

Nem descanço, nem repouso,
Meu mal cada vez sobeja;
O que a minha alma deseja
Não posso dizer nem ouso.
Assi vivo descontente,
De assaz dôr entristecida.
Ando perdida entre a gente:
Nem mouro, nem tenho vida.

[50]

Passo a dizer duas palavras da razão, obvia, porque tantos lyricos lusitanos se abstiveram de ofifertar versos profanos á Infanta. Não significa de modo algum que era fria, soturna, sem alma e coração, bas-bleu desengraçado. A discrição dos poetas, o rigor da etiqueta que vigorava no paço, emfim a nobre altivez da filha de D. Manoel que, igual nisso á Imperatriz D. Isabel, pretendia ser senhora do mundo — Ou Cesar ou cessar — inhibiam toda a familiaridade.

Beseligend war ihre Nàhe
Und alie Herzen wurden weit ;
Doch eine Würde, eine Hõhe
Entfernte die Vertraulichkeit.

Mais do que a sua alta gerarchia, o seu estado obrigava á reserva.

Casasse! sahisse do reino ou morresse antes do tempo! e os vates todos teriam, na tuba canora ou flauta agreste, desafogado o fervoroso amor que lhe dedicavam, amor que transparece mesmo das obras serias em que os eruditos prestaram homenagem ao seu saber, apresentando-a ao publico em companhia das mestras latinas, cercada de dueñas, assistindo na Universidade a sessões solemnes. O mesmo affecto transparece dos escriptos em vernáculo em que Jorge de Montemór a desenha estrella, mas não sol no firmamento português, ou Jorge Ferreira de Vasconcellos a mostra em dependencia dos reinantes. Comparando os reis a Júpiter e Juno, este ultimo continua dizendo na já citada descripção do torneio de Xabregas: «e pera mais semelhança tinham a seu lado a Infanta D. Maria que se mostrava a formosa Minerva, com que pode contender, com devida confiança, assi em rara gentileza e subtil engenho, como em toda outra sobrehumana perfeição.»

Mas, dirão os lidos, então não é facto que Luis de Camões dedicou versos á Infanta?

Em primeiro logar, os versos que é uso interpretar nesse sentido — um Soneto fúnebre e um Poema sacro — se lhe fossem dedicados, não destruiriam, antes confirmariam o que deixo dito.

Em segundo logar, no Soneto o Poeta não chora a morte d’ella; o Poema sacro não é creação de Camões; a glosa ao Mote da Infanta a que já alludi, talvez nem seja d’elle, mas antes de Diogo Bernardes.

Historiemos os factos.

Até 1685, não houve quem conhecesse versos consagrados pelo cantor dos Lusiadas a D. Maria de Portugal. Só d’então para cá correm sob esta gloriosa bandeira.

Quanto ao Soneto, para desauctorizar a lenda, basta lermo-lo, na redacção primitiva:

Que levas, cruel Morte? — Hum claro dia.
A que horas 0 tomaste? — Amanhecendo.
Entendes o que levas? — Não entendo.
Pois quem to faz levar? — Quem o não entendia.
Seu corpo quem o goza? — A terra fria.
Como ficou sua luz? — Anoitecendo.
Lusitania que diz ? — Fica dizendo:
Emfim não mereci dona Maria!
Mataste quem a viu ? — Já morto estava.
Que diz o Amor? — Fallar não ousa.
E quem o faz callar? — Minha vontade.
Na côrte que ficou? — Saudade brava.
Que fica lá que ver? — Nenhuma cousa !
Mas fica que chorar sua beldade.

[51]

Incluida desde 1598 nas edições das Rimas camonianas, e nunca encontrada em manuscriptos ou impressos com attribuição a outro poeta, devemos aceitá-la como obra de Camões.

Mas nem por isso ficamos sabendo quem é a dona Maria da oitava regra. Evidentemente uma menina, que deixou saudades na côrte portuguesa, repentinamente privada da sua gentil presença. Flor cortada antes do tempo. Um claro dia que se apagou amanhecendo.

A Infanta pelo contrario, fechou os olhos aos cincoenta e sette, num crepusculo lugubre, quando indicios terrificantes denunciavam a catastrophe de Alcacer-Quebir.

Nas impressões antigas o soneto carece de epigraphe. Varios manuscriptos subsistentes, explorados pelo Visconde de Juromenha, teem apenas a rubrica A’ morte de D. Maria, abstrahida do texto, e que nada explica. Dois dizem porém explicitamente: A’ D. Maria de Tavora, Filha de Luiz Alvares de Tavora. E essa Maria de Tavora, Dama da Rainha D. Catharina, bella entre as mais bellas, morreu de facto de pouca idade, e inesperadamente, sendo chorada por mais de um poeta aulico — como Pedro de Andrade Caminha [52] e Felipe de Aguilar (Bocanegra), [53] tio da Natercia do Camões.

Isso basta, creio. Resta explicar quem se lembrou de affirmar que dona Maria era a Infanta dos Serbes e de retocar o soneto neste sentido, pondo a gran Maria [54]. Quem, senão o phantasioso Faria e Sousa? fecundo polygrapho, colleccionador incansavel, e um benemerito como commentador e biographo de Cambes, apesar dos gravissimos senões que deturpam a sua physionomia porque in maiorem Camonii gloriam attribuia ao seu poeta todas quantas poesias quinhentistas, editas ou ineditas, podiam fornecer mais uma nota para a Vida, mais uma pedra preciosa engastada na sua corôa de poeta? editor sem consciência que emendava os textos a sabor do seu gosto e dos seus fins ?

Avido de relacionar o Poeta com reis, principes e magnates, Faria e Sousa resolvera attribuir-lhe um poema sacro que um dos melhores quinhentistas, e por isso um dos mais saqueados e calumniados, havia offerecido á Infanta. Para authenticar a novidade precisava provar relações entre Camões e a princesa. Eis o motivo que o levou a transformar o soneto A‘ morte de D. Maria de Tavora num Soneto á morte da Infanta D. Maria, o qual soneto pela sua vez serviria para tornar aceitavel as suas affirmações sobre o Poema. Um circulo viciosissimo, como se vê. Um genio independente, fogoso, altivo como o creador da epopeia nacional, certamente levantava a voz apenas quando o furor divino o impellia, e não honrava, depois de morta, uma dama que não tivesse venerado com affecto sincero em quanto vivia. De mais a mais, em 1577, nos últimos arrancos seus e da nação, e na linguagem que vimos. [55]

O caso do Poema é mais complexo.

Diogo Bernardes havia publicado no anno 1594 — note-se bem, 14 annos depois da morte de Camões, e 17 depois do fallecimento da Infanta! — num volume inteiro de versos sacros, seus, intititulado Varias Rimas ao Bom Jeitos — uma Historia de Santa Ursula, dirigida á Infanta D. Maria, conforme manifesta na oitava quarta:

Serenissima Infante, produzida
Do grão Tronco Real, sublime planta,
No titulo, nas obras e na vida
Retrato natural de Ursula Santa, [56]
Desta virgem, tambem de reis nascida,
Ouvi com ledo rosto o que se canta.
Dae o sentido um pouco a tal sogeito;
Não tire o preço d'elle o meu defeito.

Obra bem feita é, mas de modo algum genial.

No Soneto que o acompanha, o suave Diogo allude a uma fraude ou intriga, um vil engano que prendeu e demorou o poema numa primeira redacção, ainda não bem limada, nas mãos de um tyranno, roubando-lhe a honra de ser conhecido, aceite, estimado e remunerado como auctor. Isto obrigou-o a offertar novamente á Infanta outra copia mais castigada.

O critico allemão julga que houve intercepção e desvio intencional do manuscripto. E a suspeita tem fundamento. Não só as cabeças de motes, mas até todos os versos destinados ás Damas, corriam por muitas mãos antes de chegarem ao seu destino. Confiados á camareira-mór que os passava ao mordomo eram entregues á destinataria que os levava á Rainha, a qual finalmente abria o rolo e os fazia ler! — Impertinentes cerimonias de que se queixa o auctor da Arte de Galanteria [57]. — Com relação á Infanta, creio porém que o processo era directo?

Seguindo á risca o teor das expressões empregadas por Bernardes, adopto parecer diverso. De duas uma. Maliciosamente supprimido foi apenas o nome do auctor (que imagino inscripto numa folha especial em carta-dedicatoria) e não a poesia inteira. Esta chegou anonyma ao seu destino, foi aceite, agradou, e suscitaria por ventura apostas entre as damas, sobre o artifice de tão bellas oitavas. Ou então, o poema, ainda não levado ao ultimo apuro, foi prematuramente apresentado á Infanta por um desconhecido, zeloso em demasia, a quem Bernardes o havia confiado. [58]

Inconfidencias e curiosidades d'amigos eram freqüentes. Muitos auctores de raça latina queixaram-se, porque escritos seus sahiram a lume sem a sua licença, clandestinamente. Penso no Cortigiano de Baltasar Castiglione [59]; e penso na Hispaniola de Maldonado [60].

Deixando de parte estas minhas ideias sobre os «errores» do Poema de Santa Ursula, direi que Faria e Sousa, o qual farejava furtos e plagiatos em toda a parte, mal ouviu a palavra roubada, quando transformou o acontecimento á sua maneira. Bernardes, de roubado passou a ser roubador. Opinando que versos tão limpos, altos e affectuosos não podiam ser senão do Principe dos Poetas, reivindicou para este o direito de propriedade. E para que ninguem se maravilhasse de que durante meio seculo não houve quem desse pela falsidade de Bernardes, principiou afoitamente o seu libello com uma summaria declaração, absolutamente gratuita «bebida no ar», segundo o dicto allemão, affirmando que «sempre foi opinião constante dos que sabiam julgar de estylos que as Oitavas á Santa Ursula foram escriptas por Luis de Camões», mas que elle Faria, profundo conhecedor de mais de quatrocentos poetas, não precisava attender aos dizeres de ninguem para reconhecer a garra do leão no dito Poema. Está claro que o transformou e «melhorou» a seu bel-prazer. [61]

Fechando o parenthese, em que tentei desarreigar falsas convicções, vou finalmente nomear a dama que, pertencendo ao paço da Infanta, constituiu um elo pessoal e directo entre a Academia das eruditas e o Poeta, durante o curto periodo da sua aceitação na aula regia, isto é entre 1543 e 1549, antes do desterro a Ceuta, motivado pelos seus desmandos.

Fallo de D. Guiomar de Blasfé (Blasfeldt), a gentil donzella que ao ligeiro accidente de ter queimado as pestanas e a face com uma vela de cera, deve a gloria de ter sido cantada pelo grande artista lyrico, em duas composições diversas. E' a primeira um Soneto galante e culto:

O fogo que na branda cera ardia,
vendo o rosto gentil que na alma vejo,
se acendeu d'outro fogo do desejo
por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dous ardores se encendia,
da grande impaciencia fez despejo
e remetendo com furor sobejo
vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquella flamma que se atreve
apagar seus ardores e tormentos
na vista de que o mundo tremer deve!
Namoram-se, Senhora, os elementos
de vos, e queima o fogo aquella neve
que queima corações e pensamentos.[62]

A segunda é o Mote anteriormente citado, cuja volta diz:

Aquelle rosto que traz
o mundo todo abrasado,
se foi da flamma tocado,
foi porque sinta o que faz!
Bem sei que Amor se lhe rende;
porém o seu presupposto
foi, sentir o vosso rosto
o que nas almas acende.

Ambas, puramente afectuosas, sem ironias nem allusões ao sentido metaphorico da phrase que tão bem quadrava a uma discipula de Luisa Sigea e Joanna Vaz, mostram que as graças reinavam conjuntamente com as musas no palacio de D. Maria.

Neta de Francisco de Guzman e de D. Joanna de Blasfé, que serviu de amiga maternal á Infanta desde os seus mais tenros annos, D. Guiomar foi creada no paço da Infanta, [63] como o fôra sua mãe, D. Maria Guzman. Com D. Francisco Coutinho, o pae, aquelle illustre Conde do Redondo, que governou a India de 1561 a 1564 (um dos homens de sala mais gabados e de que correm uma infinidade de dictos alegres, um dos quaes contei ao leitor), sustentou o Camões expatriado relações intimas. A elle dedicou por tres vezes trovas de folgar [64]; uma vez a glosa de um Mote significativo que o proprio Conde havia apontado ao Poeta [65]; e além d'isso uma bellissima Ode. [66]

Em vista d'esta pequena descoberta [67], alguns tenues indicios, que sem ella de nada valiam, ganham superior importancia. Considero como taes a paraphrase anonyma do Mote que attribuo á Infanta: Já não posso ser contente. Duas composições sobre o thema popular:

Perdigão perdeu a penna,
não ha mal que lhe não venha,

applicado, se a tradição não mentir, a D. Jorge da Silva e á sua lendaria paixão pela Infanta. Em terceiro logar, certas voltas de Camões a dois themas diversos, colhidos, sem duvida alguma, durante o periodo aulico, num livro português, dedicado a D. Maria por um seu devoto fervoroso, e muito lido, não só no circulo das suas damas, mas especialmente na casa em que o Vergilio lusitano vivia em Lisboa.

Fallo do Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Moraes, familiar no paço dos primeiros e segundos Condes de Linhares, avós e paes de Antonio de Noronha.

Importante como a melhor novella de cavallaria que a peninsula produziu no seculo XVI, a ponto tal que o auctor do D. Quixote a quis salvaguardar num escrinho de ouro contra o auto de fé geral, o Palmeirim de Inglaterra tem valia e significação para nós por ser a unica obra decididamente romantica, de phantasia, em prosa vernacula, entremeada de versos de amor, que um cortesão de D. João III consagrou á Infanta, ainda na primeira metade da sua vida.

O auctor, Francisco de Moraes, na sua juventude moço fidalgo em casa de D. Duarte, [68] entrou, provavelmente no anno da morte do Infante, como secretario no palacio de D. Francisco de Noronha e D. Violante de Andrade (desde 1556 Condes de Linhares). Mais tarde fraternizou provavelmente com Luis de Camões, amigo e mentor dedicado do primogenito, Antonio de Noronha, que já conhecemos como um dos mantenedores do Principe no Torneio de Xabregas, e como namorado de D. Margarida da Silva. Na opinião solidamente fundamentada de W. Storck, a qual faço minha, até foi seu preceptor e aio.

Em 1541, D. Francisco de Noronha, enviado a França como embaixador de D. João III, levou comsigo a Francisco de Moraes. [69] Na côrte galante de Francisco I estacionou tres a quatro annos [70], em intimo convivio com as mimosas del rey e as damas da Rainha Christianissima, de quem recebeu favores. Em Paris, Fontainebleau, Melun, Dijon teve ensejo de estudar habitos e costumes exoticos que, parecendo-lhe completamente novos e muito divertidos, transformaram o seu credo ethico, «que cá parece muy bem o que na nossa terra não parece assi. [71]» Tanto assim que, embora estivesse em idade já desviada de pensamentos ociosos, ardeu em violenta paixão por uma das formosuras parisienses, figura historica á qual Clément Marot dedicou uma das suas Etrennes [72]. Mas a paixão foi infeliz. A dama preferiu o Duque de Châtillon ao inflammavel fidalgo português. A historia d'estes seus amores com Madame Torsi [73] forma um delicado episodio no Palmeirim, que então estava elaborando, e deu assumpto ainda para uma ingenua confissão publica: Desculpa de uns amores que tinha em Paris com huã dama francesa da Rainha D. Leonor por nome Torsi, sendo portuguez, pela qual se fez a historia das damas francezas no seu Palmeirim. [74]

De volta a Portugal, Moraes consagrou a sua novellesca creação (em manuscripto, ou mais provavelmente numa primeira impressão promovida em França [75]) á Infanta, então noiva do Duque d'Orleans. Na carta-dedicatoria recorda as mercês que ali recebeu de D. Leonor, a obrigação em que lhe ficou, e relata á filha como até nos reinos estranhos e mais remotos ella havia logrado nome e fama de casta e culta. [76]

Sem duvida a Novella foi avidamente acolhida pela Infanta e suas donzellas, quer conhecessem, ou não, os textos castelhanos do Amadis, do Palmerin de Oliva e do Primaleon. O Clarimundo português, por João de Barros dedicado a D. João III, e fragmentos da Segunda Tavola Redonda que outro servidor do Infante D. Duarte, o tantas vezes citado Jorge Ferreira de Vasconcellos, destinava ao pequeno Principe, deviam ter aguçado o apetite.

Como todos os viajantes que voltavam de França, onde se haviam aproximado da Rainha D. Leonor, Moraes soubera insinuar-se no espírito da Infanta pelas novas que trazia, descripção artistica da côrte, caracterização viva e colorida dos principaes personagens, e uma infinidade de contos, discreta e agudamente narrados.

Durante semanas as aventuras tanto do fidalgo e poeta namorado, que havia sustentado lá fóra a fama do typo nacional, como os feitos de D. Duardos e D. Florendos, e a esquivez de Miraguarda, no castello de Almourol, alimentavam de certo a imaginação do cenaculo. Reunidas na bibliotheca, ou na sala de lavor, emquanto a Infanta e as suas damas bordavam custosos paramentos, dando côr e vida ás linhas traçadas por Francisco de Hollanda, as latinas Luisa e Joanna, e as musicas Angela e Paula revesavam-se na leitura do Palmeirim. Acabado um capitulo, começava a discussão das bellezas litterarias. Os merecimentos dos heroes como amadores e cavalheiros leaes eram ponderados. Paula lembrava as formosas tragedias de D. Duardos e do Amadis de Gaula, em que o pae havia dramatizado a quintessencia dos apreciados livros de cavallaria, e entoava no fim o romance de Flerida:

En el mes era de Abril,
de Mayo antes un dia,
cuando lirios y rosas
muestran mas su alegria,

romance que tanto havia agradado á Infanta quando, menina e moça, o ouvira pela primeira vez em 1533, e que já então passara á rua, e de Portugal a Hespanha.

D. Guiomar de Blasfé, ou uma de suas irmans (quer fosse D. Isabel Henriques, quer D. Juana de Guzman) desafia a Infanta e as companheiras e amigas, como a gentil filha do marqués de Villareal, a do senhor de Villaverde, ou a neta do coudel-mór, a colher na prosa de Francisco de Moraes motes novos para á noite intrigarem os vates e provocarem o seu estro no paço da Rainha.

D. Maria, sem nada manifestar, fixa a attenção em phrases singelas, tão rhytmicas que por si só são versos de redondilhas e se agrupam em trechos cantaveis, recolhendo dois:

tenho a esperança perdida,
não morro nem tenho vida [77].

Das damas, uma escolhe a elegiaca quadra Triste vida se m'ordena. [78] Outra dá a preferencia ao expressivo nome de Miraguarda, o qual inscripto no escudo de marmore junto à imagem da princesa, tanto dera que scismar aos cavalleiros errantes. [79]

Ambas apresentam jubilosas, no dia seguinte, o fructo da sua empresa: ligeiras voltas de Luis de Camões

Vêr e mais guardar
de vêr outro dia...
quem o acabaria?

sobrescriptadas: «Eis a tenção de Miraguarda (isto é o entendimento, a interpretação que eu, vosso humilde servidor, dou ao Mote que vós, Senhora me enviastes ». [80] E uma glosa apaixonada de Triste vida se m'ordena. [81]

Outras lá resolvem propôr aos ourives do paço scenas patheticas do livro de cavallaria para assumpto decorativo de salvas ou taças destinadas a serem entregues como lembrança á dama da Infanta que primeiro casasse. [82]

Ainda outras preferem bordá-las em ricas colchas e pannos de mesa. Sem genio inventivo, recorrem aos pintores da côrte, reclamando esbocetos, [83] e proporcionam assim a Francisco de Hollanda o ensejo sempre almejado de mais uma vez, em linguagem pitoresca, lhes expôr as suas theorias: a do decoro, a do grotesco ou humorismo na arte, exemplificando, com figuras caprichosamente compostas de elementos humanos, animaes e vegetativos; e depois ideias e experiencias pessoaes sobre a arte de Tirar pelo natural um retrato colhido de relance n'um esboceto a sanguina; um panegyrico do Renascimento italiano; anecdotas de Miguel-Angelo; amargas lamentações sobre o pouco apreço dado em Portugal á arte do Desenho.

Mas estas scenas intimas affastam-nos dos Serões, levando-nos ás salas annexas de estudo e lavores e á bibliotheca da Infanta.

Entreabrindo a porta, o nosso olhar abrange de relance a sua installação: pelas paredes quadros de familia e elegantes instrumentos de musica; nos vãos das janellas, cavalletes com pinturas principiadas e bastidores com trabalhos de agulha; arcas e estantes cheias de livros; e artisticamente espalhados pelas mesas, entre flores em jarras da India, manuscriptos com preciosas illuminuras, e volumes com sumptuosas encadernações. Adivinhamos ahi as obras-primas da literatura portuguesa, e em especial as que haviam sido dedicadas, por servidores dilectos, á Infanta, a suas damas e a diversos representantes da casa real [84].

Quanto à primeira categoria, quem duvida que a erudita filha de D. Manoel possuisse tudo quanto sahiu, digno de nota, dos prelos patrios no primeiro seculo da arte de Guttenberg que em Portugal finda com a funebre data de Alcacer Quebir? obras eruditas e amenas, sacras e profanas, em linguagem e em latim, tanto em verso como em prosa: biblias, vidas dos santos e de Christo, cancioneiros, dramas, poemas narrativos, livros de historia, novellas, orações festivas e funebres, traducções e edições commentadas de classicos latinos, grammaticas, diccionarios. Os Autos de Gil Vicente, as Decadas de João de Barros, os Lusiadas, para mencionar apenas tres titulos, de refulgente brilho [85].

Quanto à segunda categoria, já conhecemos tantas que seria superfluo insistir. [86] Para marcar mais uma vez o contraste entre o caracter mundano das eglogas e novellas, dos poemas e discursos com que na sua edade juvenil a mimosearam os poetas e mestres aulicos, e o peso dos tratados graves e devotos que lhe foram offertados depois de 1555 (anno da sahida de Sigea) por sacerdotes eruditos, vou chamar a attenção do leitor para mais quatro volumes que ainda não tive occasião de mencionar.

Um é o Memorial da Vida Christan de Frei Luiz de Granada, o insigne prégador mystico, tão bem acolhido em Portugal, quando a Inquisição o perseguia em sua patria. [87]

O segundo intitula-se Chronica da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, de Frei Simão Coelho. [88]

Compõem o terceiro as obras latinas, completas, do humanista italiano Cataldo Siculo, predecessor de Diogo Sigeo não só na secretaria dos reis mas tambem como preceptor da juventude cortesan em artes liberaes. Impressas graças aos cuidados de Antonio de Castro, um dos seus melhores discipulos, da amisade de Corte-Real e André Falcão de Resende, foram por elle dedicadas á Infanta, com uma extensa introducção laudatoria [89].

Finalmente temos um tratado douto e devoto sobre a Trindade e a Fé. Consagrado no seculo v da era christa por um bispo andaluz a uma princesa virtuosa e de intelligencia mascula, a famigerada imperatriz Placidia, foi arrancado ás trevas cem annos depois por Achilles Estaço, celebre humanista, das relações de João de Barros, André de Resende e Damião de Goes — varão de qualidades taes que a elle e aos Gouveias devemos o adagio que «os Portugueses fóra da patria se esmeram no procedimento até não mais» — e remettido de Roma á Placidia moderna, cujos meritos eram respeitados e applaudidos mesmo nas margens do Tibre [90].


  1. 216 Entre muitos nomeio Th. Braga, Gil Vicente, 2.a ed., p. 273, e Ramalho Ortigão, Vida de Camões, 1880 p. 59.
  2. 217 Sá de Miranda, Poesias N.° 251, 127.
  3. 218 Francisco da Silveira, filho de Fernão da Silveira, e neto do famoso Coudel-mór do Cancioneiro de Resende.
  4. 219 Wilhelm Storck: Vida e Obras de Luis de Camões, Primeira Parte; Versão do Original Allemão, Annotada por Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Lisboa, Typ. Acad. Real das Sciencias 1898. Copio o principio do § 139: «Será verdade que a Infanta D. Maria foi protectora e fautora de Camões, quer fosse cerca de 1540, ou mais tarde, depois de 1570? Respondo que não. Não hesito um instante em assentar que o Poeta nunca entrou na Academia litteraria da Princesa. Porque? Simplesmente porque era um homem; e aquelle conventiculo era exclusivamente de damas. O caracter um pouco austero e devoto da Infanta não admitte a hypothese contraria. A virtude era para ella a verdadeira e unica sabedoria, e a suprema virtude resumia-se a seus olhos na santa castidade. As sensações e paixões mundanas eram-lhe estranhas e indifferentes. As bellas e hobres feições do seu rosto revelam grande placidez e uma seriedade um tanto fria.»
  5. 220 Na Arte de Galanteria — livro que na opinião de Francisco Manoel de Mello merecia que por elle estudassem todos os galantes — ha, como sabem, uma pragmatica inteira a respeito de poesias dirigidas ás damas da corte. Tão impertinente era essa pragmatica que um discreto chegou a maldizer das Cabeças de Motes por causa das muitas mãos que corriam, e o desasseio com que che gavam ás vezes, «con aquella obligacion de que no se quede ninguna sin la dispensacion de la Camarera mayor, aquella dallos a un Mayordomo, que los dé a la dama a que van encaminados, y ella llevarlos a la Reina que los abra y luego mandar que respondan... Mas ceremonias solian tener, que el tiempo lo fue quitando como impertinencias.»
  6. 221 Juromenha, Camões I p. 30.
  7. 222 Herculano, Opusculos VI 113.
  8. 223. Ib. p. 74 e 76.
  9. 224 Pacheco f. 92.
  10. 225 Ib. f. 180 (225). No Codicillo do Testamento recommenda aos reinantes, as suas damas, especializando duas, que não teve tempo de casar.
  11. 225b (P. 52 l. 3). O bobo mais festejado de D. João III era um preto crioulo, chamado João de Sá, por alcunha Panasco, engraçado a ponto de o monarca lhe outorgar entre frouxos de riso, o habito de Santiago. Outro, Joanne de Braga, velho parvo que sabia alegrar a pessoa mais «malenconizada», a quem seu empresario, o christão-novo Duarte da Paz levava ora a el Rey, ora á Rainha, ora aos Infantes, recebeu o distinctivo Dom. Nomearei ainda João Nunes, tambem do mesmo reinado, e certo Felippe de Brito, como chocarreiros do Infante D. Duarte; o Coyto, como gracioso de D. Sebastião, que provava a sua fidalguia, mentindo, não pagando a ninguem e em ser amigo de doce; Manoel Cosme, da casa Cadaval; Don Francês, bobo de Carlos v; o Morata, de Felipe II.
  12. 226 Na admiravel Ode III, em lyras, escripta no desterro de Ceuta, o poeta, lembrado dos felizes tempos, passados no paço, exclama, fallando ás Tagides:

    A ser como sola
    Pudera levantar vossos louvores;
    Vós, minha hierarchia,
    Ouvireis meus amores
    Qu'exemplo são ao mundo já de dôres.

    Em seguida bemdiz a sorte de Orpheo, que commoveu a Rainha infernal, e nessa occasião apostropha D. Catharina com vehemencia:

    Oh crua, esquiva e fera,
    duro peito, cruel e empedernido,
    d'alguma tigre fera
    lá na Hircania nascido,
    ou d'entre as duras rochas produzido.

  13. 227 Receo de Louvor N.o 301 das Poesias Ineditas de Caminha. Cf. N.o 338.
  14. 228 Sá de Miranda N. 135 e p. 446. Nas obras d'este quinhentista, o nome da dama está errado (Silveira, por Silve), erro que me fez desacertar no meu commentario.
  15. 229 Um Livro inteiro do Cancioneiro de Caminha é dedicado a essa dama, honra e gloria do real sangue e nome d'Aragão. A ella devemos uma das mais bellas Odes de Camões. Na sua vista soberana Que nadie quien la vee dexa con vida penso cada vez que me acho em frente dum magnifico retrato anonymo (n. 192 do cat. de 1868 do Museu das Janellas Verdes, reproduzido por Laurent, N. 728). A respeito d'ella consulte-se Priebsch p. XXXIII e Sanchez Moguel, Reparaciones Historicas p. 226. Em uma carta de 1875, D. Juan de Borja delineou o seguinte retrato de sua desposada «D. Francisca de Aragon es hija de Nuno Rodrigues Barreto y de D. Leonor de Milan. Hase criado desde muy pequeña en casa de la Reyna de Portugal. Es la mas valida dama que S. A. ha tenido y mas estimada assi por su entendimiento y valor como por su bien parecer. Es la persona de que mas gusto muestra tener la Reyna. Sirve le la copa y viste y toca S. A. y en todo el tiempo en que la camarera mayor y las damas van a comer y cenar, queda ella sola con la Reyna, assi por ser su officio como por lo mucho que S. A. gusta de su entretenimiento y conversacion por tenerla muy buena y facil. Es tenida por la muger que mejor ha sabido hacer el officio de dama que ha havido en nuestros tiempos en Portugal y cierto entiendo que podria poner escuela desta facultad, segun lo bien que sabe servir a su Reyna y ha sabido ser servida como dama.»
  16. 230 Uma Epistola de Mendoza a D. Simão (VI) principia: Doña Guiomar Enriques sea loada e conclue:

    Doña Guiomar, debria tu deidad
    Hacer algun regalo a don Simon
    Pues lo merece bien su voluntad.

    Em 1566 uma D. Guiomar Henriques entrou como dama no paço da Infanta, conforme noticia Francisco de Andrade na epigraphe de um Soneto que lhe dedicou nessa occasião. Ignoro, se realmente se trata da Dama da Rainha, celebrada por D. Simão e D. Diego (filha de Simão Freire) ou de outra diversa, cujo pae era o 2.° Conde da Feira. — O Soneto (Fermosura do ceo a nos descida) foi por Faria e Sousa recolhido entre as Rimas de Camões. Vid. Storck, Vida § 156 Nota 4.
  17. 231 Storck, Vida § 165.
  18. 232 Quasi todas estas anecdotas acham-se aproveitadas na Arte de Galanteria, de onde passaram para a collecção de Apophtegmas de Suppico.
  19. 233 J. de Sousa Monteiro, trasmudando-se em espirito ao tempo de D. Manoel, ideou com muita habilidade Um Serão Real, no jornal O Reporter (8 de outubro de 1888). — Mais acima mencionei os Saraos celebrados em 1536 por occasião do casamento de D. Isabel de Bragança, filha de D. Jaime, com o Infante D. Duarte.
  20. 234 Jorge Ferreira de Vasconcellos, Memorial dos Cavalleiros da Tavola Redonda p. 350.
  21. 235 Caminha, Ed. Priebsch N.° 406 e 407; Cancioneiro Juromenha; Prosas Ineditas de Soropita.
  22. 236 Hist. Gen., Provas VI p. 64.
  23. 237 Juromenha I p. 30.
  24. 238 Conde de Villa Franca, Alliança Ingleza p. 276.
  25. 239 Panegyrico § 39 e 45.
  26. 240 Caminha, N.o 318; Hist. Gen., Provas VI 626. No anno 1578, Leonor da Costa era moça da camara da Rainha.
  27. 241 Ib. 376 e 377. Confiram os Epigrammas 220 e 221 da Ed. Acad.: Ouvindo cantar uma rara fermosura e N.° 222 e 223 Pretendendo ouvir cantar.
  28. 242 Vid. Priebsch p. 550 e Hist. Gen., Provas IV 401. Na Introducção de Joaquim de Vasconcellos ao Catalogo de Musica de D. João IV, ha uma Carta (IX) escrita por Manoel Corrêa del Campo, onde fallando das melhores vozes do tempo diz: «he oydo las mejores musicas que huvo en la Anunciada, Sta. Clara y Odivelas, conventos ilustres y reales de Lisboa, y otras excelentes vozes, particularmente en la corte del serenissimo duque de Bragança y en singular alli a Cosma Orfea, portento del arte, y a Maria de Parma, milagro de la naturaleza.»
  29. 243 Caminha N. 486, 488, 508, 509, 519.
  30. 244 Ib. 484, 485, 491, 498, 507.
  31. 245 Ib. 499, 501 e 510.
  32. 246 Ib. 503.
  33. 247 Ib. 483.
  34. 248 Ib. 481, 482, 514, 517, 520, 521 e 522. Além do Cancioneiro de Caminha, destinado a D. Francisca de Aragão, resta um Cancioneiro mixto que foi de D. Cecilia de Portugal.
  35. 249 Montemór dedicou homenagens não só ás Princesas mas tambem a duas damas da familia dos Manueis (D. Leonor e D. Maria); e a algumas da familia de Aragão (D. Francisca, D. Anna, D. Maria, D. Magdalena).
  36. 250 Caminha N.° 360: Quando a Rainha se queria ir para Castela, com trovas á Senhora D. Ana de Aragão, D. Catherina d'Eça, D. Leonor Anriquez, D. Violante de Noronha, D. Madalena d'Alcaçova, D. Joana de Castro, D. Ana d'Athaide, D. Maria de Noronha, D. Francisca de Aragão.
  37. 250b Caminha N.° 301.
  38. 251 Ib. N.° 338, conforme já deixei exarado na Nota 227.
  39. 252 Ib. N.° 339.
  40. 253 Digo: fingiu de repentista porque, se a pequena scena não fôr de pura phantasia, como suspeito, a dama-inspiradora e o cavalleiro-trovador reproduziram livremente versos alheios, pre-existentes. Já dei a prova d'isso em outra parte (Revista Española de Litteratura, Historia y Arte, vol. I p. 227), artigo de que não me foram enviadas provas e que por isso sahiu um horror e uma vergonha, obrigando-me a publicá-lo novamente no Annuario da Sociedade Nacional Camoniana. Aqui bastará o treslado do original, i. é da 4.a estrophe de uma composição afamada, escripta cerca de 1460 pelo fidalgo castelhano Juan Alvarez Gato d un romero tollido que iba a pedir limosna en cas de una señora a quien el servia, e principia:

    Tu, pobrecico romero,
    que vas a ver á mi Dios
    (ou tambem:
    á quien tu pides por Dios).

    Eis a estrophe, talqual se acha impressa no Cancioneiro General (N.o 246 da ed. dos Bibliofilos Españoles):

    Tiene altas condiciones
    de divina gracia llenas;
    son tan bellas sus facciones
    que sanaron mis pasiones
    y me dieron nueva[s] pena[s].
    y aslo d'entender así:
    yo vivia enamorado
    y en el punto en que la vi
    tanto suyo me senti
    que olvidé y desconosci
    todas cuantas he mirado.

    Exemplo typico e muito curioso da arte de improvisar, não é verdade?
  41. 254 Para não injuriar o leitor, dando ao mesmo tempo prova de pedantismo, supprimo as referencias ao logar onde é que se acham impressos os versos de Camões.
  42. 255 Abrindo à toa o volume das Redondilhas de Camões, «maravilhosas» no dizer do grande Lope de Vega, encontramos a cada passo versos dirigidos a damas sem nome: Carta a uma dama — A uma dama doente — A uma dama vestida de dó — A uma senhora que estava resando — A uma senhora que lhe mandou pedir obras suns — A uma dama que lhe virou o rosto — A uma que lhe deu uma penna, etc., etc. Quasi todas são decididamente palacianas e pertencem ao curto periodo aulico do poeta. Outras, bem diversas, levianas e estouvadas, de linguagem menos culta, foram, parece, escriptas quando, depois da grande crise da sua vida, banido do paço, procurava aturdir as magoas do coração, embriagando-se sensualmente em amores faceis.
  43. 256 Caminha, N.° 513.
  44. 257 Sá de Miranda, N.° 51 e 52: Ás Damas, estando ahi dona Lianor Mascarenhas. Cf. Nota 31.
  45. «La señora D. Maria de Portugal que igualó en lo mas la virtud y el entendimiento — que solo es discreta quien es santa — excelentissimamente dixo : Se soubera etc.» — Arte de Galanteria p. 30. — Como se vê, é numa mesma oração que D. Francisco de Portugal nos transmittiu a sentendosa formula do ideal feminino dos Portugueses e a anecdota relativa á Infanta erudita.
  46. 'Memórias Inéditas dc Frei João de S. Joseph p. 55.
  47. Arte de Galanteria p. 71.
  48. Tambem lá está em muito boa companhia, e fidalga, ao lado de seus meios-irmãos, os Infantes D. Luis, D. Affonso e D. Duarte, e do Duque de Aveiro, Conde do Vimioso, Conde do Redondo, etc.
  49. Refiro-me novamente á preciosa Miscellanea da Bibliotheca Municipal do Porto (do espolio do Conde de Azevedo) em que correm as Trovas do Infante D. Luis, mencionadas mais acima.
  50. 263 O auctor anonymo d'essa Volta e o Conde do Vimioso podiam ser a mesma pessoa. Mas neste caso, D. Francisco de Portugal (1549), que figura com varias poesias no Cancioneiro d'Evora (onde a colhi) a escreveu em nome de uma dama, malfadada como a Infanta. E' o que as rimas entristecida vida revelam de modo irrefutavel. Nunca encontrei, porém, volta alguma ao mote Já não posso ser contente, com attribuição áquelle discreto fidalgo. Barbosa Machado affirma, todavia, que as compôs (II 227 e 249), não sem commetter um erro singular. Trocando os papeis apresenta como primeiro inventor do Mote ao Conde de Mattosinhos, Francisco de Sá e Meneses (1585), e como glosador ao Conde do Vimioso, erro de que já tratei num artigo critico sobre a publicação defeituosissima de Hardung (na Zeitschrift VII 97). Faço seguir em edição critica as restantes paraphrases que conheço, sem repetir sempre de novo o Mote alheio, o qual diverge apenas no vocabulo perdida da linha 3.a, mudado de proposito para perdido, e na forma verbal morro (pelo archaico mouro).
    I
    De um Anonymo que talvez seja o Conde do Vimioso
    (Canc. d'Evora N.° 2, f. 5 a 16)
    E' a que vae no texto.
    II
    (Domus Sadica, p. 78)

    A tudo quanto desejo
    acho atalhadas as vias;
    em tentos e fantasias
    mui mao caminho me vejo.
    Se do passado e presente
    o por-vir se pode crer,
    já não ha que pretender:
    já não posso ser contente.

    Que de tudo quanto quero
    chego a tão triste estremo,
    que vejo tudo o que temo
    e nem sombra do que espero.
    Desengano-me da vida
    e fiz nella tal mudança
    que até de ter esperança
    tenho a esperança perdida.

    Cuidei um tempo que havia
    na fortuna o que buscava,
    e postoque o não dava,
    o mesmo tempo o daria.
    Achei tudo differente,
    fiquei desencaminhado;
    e como em despovoado
    ando perdido entre a gente.

    De que farei fundamento
    pois em nada acho firmeza
    e pago sempre em tristeza
    os sonhos do pensamento?
    Abrande esta dor crescida,
    vivendo em pena da morte,
    e eu por não mudar a sorte
    não mouro nem tenho vido.

    III
    (Rimas ed. 1595 e Diogo Bernardes, Flores do Lima 1597 p. 170.)

    Depois que meu cruel fado
    destruiu uma esperança
    em que me vi levantado,
    no mal fiquei sem mudança
    e do bem desesperado.
    O coração que isto sente
    à sua dor não resiste
    porque vê mui claramente
    que pois nasci para triste
    já não posso ser contente.

    Por isso, contentamentos,
    fugi de quem vos despreza!
    já fiz outros fundamentos,
    já fiz senhora a tristeza
    de todos os meus pensamentos.
    O menos que lh'entreguei
    foi esta cansada vida.
    Cuido que nisso acertei
    porque de quanto esperei
    tenho a esperança perdida.

    Gostos de mudanças cheios,
    não me busqueis, não vos quero;
    tenho-vos por tão alheios
    que do bem que não espero
    inda me ficam receios.
    De vós desejo esconder-me
    e de mim principalmente
    onde ninguem possa ver-me;
    que pois me ganho em perder-me
    ando perdido entre a gente.

    Acabar de me perder
    fora já muito melhor:
    tivera fim esta dor
    que não podendo mór ser
    cada vez a sinto mór.
    Em tormento tão esquivo,
    em pena tão sem medida
    que moura ninguem duvida,
    mas eu, se mouro, ou se vivo,
    nem mouro nem tenho vida.

    Inverti as quintilhas 5 e 7, assim como os versos 35 e 36 por o conteúdo e a rima o exigir assim. Nas Flores do Lima, a ordem não está perturbada. As variantes que notei sSo: derrubou (2); desconfiado (5); pera (9); cansam (25); acabar-me (41); por acabar uma dôr (43). Os últimos dois versos do Mote occorrem na Carta escripta d’Africa a um amigo (estr. 17), a qual, a meu vêr, é apocrypha.
    IV
    (Flores do Lima p. 177) A' mesma cantiga

    Prazeres que tenho visto,
    onde se foram? qu’é d’elles?
    Fôra-se a vida co’elles!
    Não me vira agora nisto!
    Vejo-me andar entr’a gente
    Como cousa esquecida:
    Eu triste, outrem contente,
    Eu sem vida, outrem com vida.

    Vieram os desenganos,
    acabaram os receios:
    Agora choro meus danos
    e mais choro bens alheios:
    passou o tempo contente,
    e passou tão de corrida
    que me deixou entr′ a gente
    sem esperança de vida.

    V
    (Primavera p. 218)

    Depois que ando transformado
    num cuidado que me obriga
    a viver sempre enleado,
    náo posso achar quem me diga
    se sou perdido ou ganhado.
    Nem por fé se me consente
    que saiba parte de mim;
    quem me tem, nega, e não mente,
    que depois que me perdi
    ando perdido entre a gente.

    A alma que buscou lugar
    que amor por seu fim lhe ordena,
    bem se queria empregar,
    mas ficou presa no ar
    aonde anima e onde pena.
    Nem ganhada nem perdida
    posso d’ella saber nada,
    nem de mi se alguem duvida
    quem me dá vida emprestada,
    nem morro nem tenho vida.

    VI
    (Alfea f. 162)

    Não vês que estou desterrado
    da vista de Alfea ausente?
    e que vejo claramente
    que estando d'ella apartado
    já não posso ser contente?

    Ques que arrecee morrer
    como se sei que na vida
    contente não posso ser,
    e de Alfea me querer
    tenho a esperança perdida!

    Coração, põe cobro em ti,
    e minha morte consente!
    pois ves que depois que a vi
    sem saber parte de mi
    ando perdido entre a gente.

    E pois vês meu mal esquivo
    ter só na morte guarida,
    venha com mortal ferida!
    que vivendo como vivo
    nem morro nem tenho vida.

  51. 264 Sonetos e Oitavas epigrammaticas em dialogo estavam muito em voga, principalmente em assumptos funebres. — Nas Obras de Camões ha varios:

    Que esperaes, esperança? — Desespero.
    Qu'estilla a arvore sacra? — Um licor santo.
    Quem jaz no gram sepulcro que descreve.

    Confiram os Sonetos:

    Chorae, Nymphas, os fados poderosos (161)
    Ah minha Dynamene (172)
    Debaixo d'esta pedra sepulcral (265)

    e principalmente o inedito que publico na Nota 271.
  52. 265 Epigramma XXI da Ed. Academica, tambem em dialogo.
  53. 266 Impresso nas Poesias de Sá de Miranda N.° 122. Confira-se p. 420 e 841, Nota 9.
  54. 267 Talvez se lembrasse da Oitava de Montemór: Mirad, ninfas, la gran doña Maria.
  55. 268 As variantes do texto de Faria e Sousa, comparado com os impressos antigos e manuscriptos existentes, teem todo o caracter de emendas arbitrarias. Na 2.a quarteta relevou, como era de esperar, a pergunta: Como ficou sua luz? referindo-a ao convento e hospital da Luz!
  56. 269 No seu Panegyrico §75. João de Barros havia utilizado a mesma lembrança.
  57. 270 Arte de Galanteria p. 83. — Cf. Nota 220.
  58. 270b Para não sonegar argumento algum favoravel á interpretação de Faria e Sousa, registo aqui o facto que ha um Soneto inedito, attribuido a Camões, A' Morte da Princesa de Portugal, em dialogo como o que nos occupa.

    Que gritos são os que ouço? — De tristeza.
    Quem é a causa d'ella? — A morte só.
    Tam grande mal nos fez? — Quebrou um nó.
    Que nó? a quem atava? — A gentileza.
    Era mais que fermosa? — Era Alteza.
    Desfez-se em ouro? — Não! em terra, em pó!
    Tambem é como nós? — Tambem! mas oh...!
    Que gemes? — De perder a tal princesa.
    Não ves que tudo é mundo? — Bem-no entendo.
    Pois não te agastes! — Não m'o sofre a alma.
    Que te consola aqui? — Na Vida vê-la!
    Tam boa foi? — O reino o está dizendo.
    Pois sabe que se cá levou a palma
    Que lá terá tambem a palma d'ella.

    (No verso 7, oh por é emenda minha). Mas o caso é diverso. A epigraphe falla claro. O texto tambem encerra indicações positivas (allesa, princesa). D. Juana, viuva do Principe de Portugal, morreu pouco depois da publicação dos Lusiadas (1573), quando o Poeta estava relativamente bem, graças à tença que D. Sebastião, filho da finada, lhe havia concedido. Tambem mal se pode duvidar conhecesse pessoalmente a mãe do seu bemfeitor, pois que a ella e ao Principe D. João, idolo de 1550 a 1553 dos poetas aulicos, havia dedicado a afectuosissima Egloga I.
  59. 272 O Cortigiano, emprestado em manuscripto a Vittoria Colonna, sahiu das mãos da illustre dama e foi espalhado em numerosas copias, contra a vontade do auctor que ainda não o dera por acabado. Sem insidia, bem se vê; unicamente em tributo de admiração e em virtude do incoercivel desejo de provocar os applausos dos amigos.
  60. 273 Confira se a Nota 115.
  61. 274 Com relação ao Poema de Santa Ursula consultem Storck, Vida § 139 e Sämtliche Gedichte vol. III, 362 ss.
  62. 275 Ed. 1595 N. 34. No Cancioneiro Juromenha ha uma epigraphe certamente secundaria, pois não indica o nome da destinataria: Soneto de Luis de Camões a uma senhora que por desastre se ateou o foguo de uma vella a sua face ou testa.
  63. 276 Vid. Pacheco f. 92 v. — Com respeito à filiação de D. Guiomar consulte-se a Hist. Gen. X 68 e Couto, Decada VII, 10, 17. D. Guiomar casou com D. Simão de Meneses, senhor de Louriçal. Sua irman D. Juana de Gusman, consorciou-se com Ruy Gonçalves da Camara, 1. Conde de Villafranca; a terceira, D. Isabel Henriques, com D. Affonso de Lencastre. — A respeito dos paes, D. Maria de Blaesvelt e D. Francisco Coutinho, 3.o Conde do Redondo, vid. Braamcamp, Brasões II 461. D. Luisa de Guzman, irman de D. Maria, casara com D. Affonso de Portugal, 2.° Conde do Vimioso (ib. 462).
  64. 277 Conde cujo illustre peito — Que diabo é tão danado — Vossa Senhoria creia.
  65. 278 Muito sou meu inimigo.
  66. 279 Ode VIII: Aquelle unico exemplo.
  67. 280 As indicações de Faria e Sousa nas Rimas 187 são inexactas e teem até hoje enganado todos os commentadores e biographos.
  68. 281 Hist. Gen, Provas II 615 e Resende, Vida do Infante D. Duarte Cap. 13.
  69. 282 A 10 de dezembro de 1541 Moraes mandava de Melun ao Conde de Linhares uma interessante carta, que o curioso encontra impressa nas Questões de Litteratura e Arte de Th. Braga, p. 254.
  70. 283 Visconde de Santarem, Quadro El-mentar III 283 e 304. Provavelmente regressou entre Dezembro de 1543 e Junho de 1544, voltando todavia a França no anno 1546, e em terceira viagem em 1549.
  71. 284 Em cartas intimas aos Condes de Linhares — ou antes ao primogenito dos Condes (D. Ignacio de Noronha) — o auctor do Palmeirim descrevia desassombradamente o que presenciava na Côrte francesa. E embora essas cartas não fossem lidas pelos reinantes, mais de um pormenor transpirou de certo e era commentado desvantajosamente, fazendo recrescer cada vez mais a antipathia de D. João II contra o que chamava «as facilidades da Côrte francesa». — Já mencionei a missiva de 10 de Dezembro de 1541, impressa por Th. Braga. Estão ineditas: a Relação das festas celebradas por occasião do desposorio de Jeanne d'Albret com Guilherme de Cleve (1541) e a das Exequias e Enterro de Francisco I (1546), e mais outra sobre assumpto português, o Torneio de Xabregas (1553) em que havia tomado parte o neto do 1.o Conde de Linhares, o joven D. Antonio de Noronha, discipulo e amigo de Camões, e outros mancebos nobres dos circulos freqüentados por Moraes, Caminha e Camões. Basta nomearmos João Lopes Leitão, Fernão da Silva, Gomes Freire e Francisco de Moura.
  72. 285 Romania XI 619.
  73. 286 Cap. 137 a 148: Da aventura que nestes dias houve no reino de França.
  74. 287 Impressa pela primeira vez em 1634.
  75. 288 Hoje não se conhece exemplar algum d'essa supposta edição, anterior a 1547, anno em que appareceu a versão castelhana.
  76. 289 A epistola-dedicatoria encontra-se na edição de 1592: « Prologo de Francisco de Moraes, auctor do livro, dirigido à Ill.ma e muito esclarecida Princeza D. Maria Infanta de Portugal, filha del Rey dom Manoel que santa gloria aja, e irmãs del Rey Nosso Senhor.» — Eis os louvores que tributa á joven filha de D. Manoel: « V. A., muy esclarecida Princesa, assi entre os grandes como na gente do geral estado nã será posta em esquecimento, que de tal calidade sam vossas virtudes que com igual afeição se pregoã. Isto nã sómente acontece aos naturaes de este reyno de que vós sois filha (a que por ventura o amor da natureza e del Rey Nosso Senhor e vosso irmão porá esta obrigação) mas ainda nos reynos estranhos e mais remotos de nossa conversação e uso tendes o mesmo nome e a mesma fama. Porém como louvar vossos costumes seja cousa tamanha que enfraquece o ingenho a quem nisso mete mão, desculpa seria se quisesse proseguir materia tam alta e perderme no começo, mas a obrigação em que estou a V. A. por filha da Raynha Christianissima de França, vossa may, de que já recebi merces, me faz algum tanto passar os limites de que a minha auctoridade em tal caso pode ter, e desejar fazer algum serviço a V. A., tal que quando no corresponder a vossa grandeza, seja igual ao que eu posso. » — Conta como se lembrou de compor o Palmeirim e de o dedicar à Infanta » « cousa que alguns ouverão por erro, affirmando que historias vias não hão de ter seu assento tam alto. » — « traduzi-a em português assi por me parecer que sastifaria vossa inclinação. »
  77. 290 Estas expressões encontram-se de facto no Palmeirim. Mas tambem em outros textos, como p. ex. na Menina e Moça de Bernardim Ribeiro.
  78. 291 Palmeirim, Cap. 109.
  79. 292 Ib., Cap. 53.
  80. 293 Nos textos camonianos, esses versos vão encabeçados apenas das palavras Tenção de Miraguarda, que poucos leitores modernos interpretarão desde logo de maneira plausivel. Afim de as esclarecer, extracto do romance de Francisco de Moraes as passagens seguintes: «e indo contra a porta do castello a achou cerrada de todo, e no alto della, qu'era de pedraria, viu hum escudo de marmore encaixado na mesma pedra, e posta nelle em campo huma imagem de molher, tirada pelo natural da que vira no campo, tanto ao proprio que nam soube fazer nenhuma deferença d'huma a outra. Tinha no regaço humas letras brancas que deziam: Miraguarda. E bem lhe pareceo que aquelle seria seu proprio nome, e bem conheceo que o nome dezia verdade, que a senhora era muito pera ver e muito mais pera se guardarem della. Mas a tençam porque as letras alli se poseram nam era esta, se nam porque se guardassem do gigante Almourol, senhor d'aquelle castello, de quem depois tomou o nome; que ele as pos ali para mostrar que a ymagem do escudo era pera a verem, e elle pera se guardarem delle» (I c. 53). «Senhora, disse Daliarte, o nome he Miraguarda, e o seu parecer tal que quem bem o sentir olha-lo ha para ver o que nunca vio e goardar se-ha por nam cahir nos perigos que dahi lhe podem nacer» (c. 50) «Miraguarda, he senhora, vosso nome: quem vollo assipos, ou naceo coa vontade livre, ou teve o juyzo fraco pera sentir o que disse, que nam sei quem vos veja que depois se queira guardar de vos ver (ou se quizer nam sey se poderá) (c. 51). Vid. C. M. de Vasconcellos, Versuch über den Ritter-romon Palmeirim de Inglaterra, Halle 1883 (p. 29).
  81. 294 Se Natercia não era a destinataria, devemos suppor que a artificiosa glosa foi composta antes da fatidica sexta-feira santa de 1544. No fervor da sua paixão ideal por D. Catharina de Ataide, o Poeta mal podia ter fallado a outra Tagide do modo seguinte, jurando

    Que mór bem me possa vir
    Que servir-vos, não o sei.
    Pois que mais quero eu pedir,
    Se quanto mais vos servir
    tanto mais vos deverei?

  82. 295 Não sei de Salva alguma com representações do Palmeirim, mas de varias com scenas do Cavalleiro do Cirne, da Celestina e outras figuras evidentemente de cavallaria, mas que não é facil interpretar.
  83. 296 Tambem ha colchas figuradas com reminiscencias da Idade-media e antiguidade. Uma conheço eu que creio bordada nas salas de lavor da Infanta, sobre esboços ou indicações de Francisco de Hollanda. Vi-a em tempos no paço das Necessidades, entre as preciosidades de D. Fernando.
  84. 297 Entre essas obras citarei, por ser pouco conhecido, o Poema del Alma, i. é o lindo conto de Apuleio, nacionalizado por Juan de Mal Lara, e dirigido al alma de España, i. è á la muy alta y muy poderosa Señora D. Junna, Infanta de las Españas y Princesa de Portugal, com elogios á eximia belleza e pudicicia da sua psyche. — Só as obras offertadas a D. João III, D. Catharina, os Infantes D. Luis, D. Affonso, D. Duarte, D, Henrique, o Senhor D. Duarte, o Principe D. João, D. Juana e D. Sebastião constituem uma valiosa collecção.
  85. 298 Não percamos a esperança de um dia apparecerem os roes das despesas da Infanta com noticias sobre a sua livraria, tão valiosas como as que Sousa Viterbo publicou com relação à Rainha.
  86. 299 Obras de João de Barros, Resende, Montemór, Jorge Ferreira de Vasconcellos, Francisco de Moraes, Bernardes, Gaspar Barreiros (?), Azpilcueta Navarro, Manoel da Costa, Ignacio de Moraes, Luisa Sigea.
  87. 300 E o auctor do Jardim de Portugal quem assim o affirma (p. 476), e na sua pista varios escriptores modernos, como p. ex. o Conde de Villa-Franca. Não consegui vêr exemplar algum da 1.a, nem tão pouco da de 1566. Por isso nada posso accrescentar.
  88. 301 A data 1572 (que não é apenas a da impressão, mas tambem da Carta-Prologo), mostra claramente que a destinataria era filha de D. Manoel.
  89. 302 Hist. Gen., Provas VI, 391 e II 197. Entre os magnates que Antonio de Castro ensinou, avultam o Duque de Coimbra, D. Pedro de Meneses e D. João Manuel.
  90. 303 Gregorii Baetici Illiberitani Episcopi De Trinitate et Fide. — Cf. Pacheco f. 135 e Nic. Ant. 1 3. — Quanto ao Poema latino, que o biographo da Infanta lhe attribue erroneamente, veja-se Barbosa Machado 1, 9 e 11 414. Para caracterisar a extrema liberdade com que o traductor castelhano tratou o original latino, direi que num dos troços introduziu o nome do pseudo-auctor. Caliope, vendo que o poeta não reconhece a Infanta, dirige-lhe a allocução seguinte:

    Tan rustico poeta, disse, oh Estacio
    Tu entre poetas celebrado Aquiles,
    En la flor de tus años jubeniles
    Eres que de tu patria peregrino,
    El astro mas luziente de palacio
    No conoces con rostro tan divino?

    O original dizia apenas: satis tu rusticus inquit Es vates, patria ignarus, patrique decoris.