A infanta D. Maria de Portugal e suas damas/Traços biographicos: Orfan e Semprenoiva
RA fructo ultimo do terceiro matrimonio do rei Venturoso com a joven D. Leonor d’Austria, irman mais velha do Imperador Carlos V.[1] Meio anno depois do nascimento da Infanta D. Maria (a 8 de Junno de 1521) o monarca fallecia, [2] deixando ambas, mãe e filha, numa situação melindrosa e anormal, embora legalmente constituida.
D. Leonor fôra promettida primeiramente ao principe D. João (III), quando ninguém podia prever o fim da boa e prolífica rainha D. Maria, e menos ainda a pressa com que o desolado viuvo quasi quinquagenario, convolaria a terceiras núpcias, por conselho de poucos, quasi a furto, e exactamente com a noiva do seu primogénito e herdeiro. Es este el bovo? havia perguntado, [3] ao entrar em Portugal, fitando surprehendida e com curiosidade o enteado, rapaz viçoso de dezasete annos, dando assim a conhecer os meios illicitos e manhosos que os enviados de D. Manoel haviam empregado, para a fazer mudar de proposito, a ella e seu irmão. [4] Era todavia voz publica que d'esses planos contrariados havia surgido uma verdadeira e violenta afeição que não se extinguira, mas antes medrára no curto prazo de tres annos de consorcio com D. Manoel. Depois do advento ao throno do successor, um partido numeroso de cortesãos e populares, julgando comprazer-lhe, advogava o consorcio dos dois namorados, emquanto outros o impugnavam, acreditando na opposição da curia contra o casamento do enteado com a madrasta. Boatos calumniosos corriam. O Imperador para evitar escandalos, cortou o nó, decidindo que D. Leonor regressasse sem delongas. [5]
A Infantinha havia de acompanhá-la, pois no contracto, como em previsão do caso, fora estipulado que D. Leonor podesse, enviuvando, sahir do reino, com seus filhos e creados, sem precisar de licença especial do soberano português. Si Dios ordenase que el dicho señor Rei de Portugal fallezca d'esta vida presente primero que la dicha Señora Infanta, que ella, sus hijos y creados se puedan partir de los dichos reinos y señorios de Portugal, queriendo-lo fazer, y se puedan venir a Castella o a otra parte, para donde les pluguiere, sin le ser puesto embargo en ella ni a los que con ella vinieren... sin ser obligado de aver licencia del Rey de Portugal, que en aquel tiempo fuere. [6]
A despeito d'esta clausula D. João III oppos-se, não á partida de D. Leonor, mas á da filha, a qual o clamor da capital, excitada por tres annos de intrigas e calumnias, reclamava, perguntando com vivo rigor: onde mandaes a nossa infanta, nascida como em nossos braços, filha legitima do nosso natural rey, successora e herdeira em seu grau, nossa paz presente, alliança futura, riqueza certa? [7] Riqueza certa. E o soberano não achava prudente, nem sabia como restituir no curto prazo legal de quatro annos as avultadissimas quantias a que a Infanta tinha direito.
Se D. Leonor podesse então prever o destino ulterior da filha, a sua vida entrecortada de desgostos, as tristes especulações, de que foi alvo por causa dos calculos e manejos profundamente egoistas do rei, seu irmão; se podesse prevêr com que facilidade Carlos V havia de sacrificar affeições pessoaes aos seu planos politicos; se adivinhasse, insistia com certeza com mais energia no cumprimento do contracto, reclamando os seus direitos! Partiu, porém (Maio de 1523), sem a filha, que não tornou mais a ver, senão trinta e cinco annos depois, poucos dias antes de morrer (1558)!
Não vou devanear sobre o que aconteceria e qual teria sido a sorte da Infanta, uma vez passadas as fronteiras de Portugal. Assim, permaneceu orfan, com dois annos apenas, em poder del-Rei seu irmão entre tres malicias coronadas e desencontradas, que cubiçavam os seus bens. Sob a direcção immediata da Rainha D. Catharina, foi creada por D. Joanna de Blasfeldt, sua aia e depois camareira-mór, que viera de Castella com a rainha D. Leonor, com os desvelos que competiam á sua elevada gerarchia, cercada de fausto e com o apparato de uma grande côrte. Mas é impossivel affirmar que os tutores a trataram com carinho e amizade fraternal. Antes, ha razões de sobejo para crer que D. João III, embora simulasse attender sempre com muito respeito as opiniões da rainha de França,[8] sympathisava pouco com a meia-irman, fructo de um matrimonio de que sempre se dera por offendido.
Tendo-a detido arbitrariamente e adoptado como filha, não mais a podia deixar sahir de Portugal, salvo se a casasse antes. Nunca tratou comtudo seriamente de tal solução. Desprezou todas as combinações que a Rainha D. Leonor fazia de longe, para dar estado á filha. Póde-se provar, em face de documentos officiaes (correspondencia particular entre D. João III, D. Catharina e a Infanta de um lado, o imperador e D. Leonor do outro), que El-Rei procurou sempre adiar e estorvar os projectos de casamento offerecidos, e que o imperador seguiu o mesmo systema, embora com menos responsabilidade. Ambos haviam ao pé de si outras duas Marias, seu proprio sangue e seu amor. A essas é que consorciaram primeiro. É o que podemos e devemos allegar a favor. [9]
No tratado de Madrid, depois da batalha de Pavia (14 de Janeiro de 1526), ficou ajustado o casamento da viuva de D. Manoel com o rei galanteador Francisco I «para que a paz entre a Hespanha e França fosse duravel». A rainha D. Leonor, que venerava com amor profundo e respeitoso a Carlos V, cedeu ás suas instancias, cheia de esperanças illusorias, pondo uma unica condição: que ao mesmo tempo se concertasse o casamento do Dauphin com a Infanta D. Maria, o qual se effectuaria logo que os dois principes tivessem doze annos completos, isto é em 1533.
Nenhum historiador indica os motivos que impediram o cumprimento d'esta clausula; póde-se presumir, porém, que foram as novas guerras entre os dois monarchas rivaes que obstaram ao enlace contractado. O que é certo é que o Dauphin viveu até 1536, morrendo na edade de 19 annos, quando a Infanta completára os 15.
Desde então, os embaixadores das potencias estrangeiras começaram a encarecer em cartas e relatorios as virtudes e prendas da Infanta, não esquecendo, bem se vê, o lado positivo. O de Veneza informava do modo seguinte:
Que havia em Portugal uma Princeza, por extremo rica, porque com o dote que tinha de 400:000 escudos havia ganhado nas Indias 300:000, não fallando nos 200.000 do dote de sua mãe, hypothecado nos Condados de Lorena, afóra joias e custosissimas roupas! [10]
E assim por deante.
Ainda em 1571 o secretario do cardeal Alexandrino chamava-a a princesa mais rica da christandade, referindo-se a suas innumeraveis joias, e milhão de bens patrimoniaes, que ia gastando com os pobres.
Para prevenir as sollicitações dos pretendentes, os tres paes, que não se cansavam de, á porfia, attestar palavrosamente o seu profundo e desinteressado amor pela Infanta, dispunham de um unico meio. E era: desposal-a novamente por palavras de futuro, com qualquer principe muito criança. Escolheram dois. O primeiro era o Duque de Orléans, filho mais novo de Francisco 1, proposto e protegido pelos Reis Christianissimos, igualmente interessados na realização do plano, — a Rainha com saudades da filha, o rei para se apoderar dos seus avultados bens de fortuna. O segundo pretendente, apresentado pelo Cesar, era o Archiduque Maximiliano, filho e herdeiro del-Rei dos Romanos Fernando de Hungria, e futuro Imperador d'Allemanha (1558). Restava ouvir a decisão de D. João III. Este depois de longas hesitações desculpou-se com a pouca idade da princesa e com outras razões mais politicas de que verdadeiras. Em vista d'isso, o Cesar decretou que o Duque d'Orléans se fiançasse com a filha do Rei dos Romanos e que o Archiduque fosse reservado para a sua propria filha: «Pelo que diz respeito á Princeza de Portugal, porque a sua idade admitte alguma dilação, julga, confiando nas virtudes da Infanta e nas de sua mãe, fazel-a consentir n'estes casamentos. (1540) [11]
N'este momento D. Leonor perde a paciencia. Magoada pela indifferença e pelas infidelidades do voluvel marido, indisposta seriamente contra as intrigas politicas do Imperador, e as hesitações do enteado, decide mandar vir a filha, tomando então o negocio do casamento entre mãos, já que nenhum dos tres paes o tratava com verdadeiro empenho. Era o unico meio de tornar a ver sua filha. Francisco I concordou facilmente com esses desejos e despachou para Lisboa o Bispo de Ade (1542) como enviado extraordinario, reclamando a entrega da Infanta com todos os seus bens, numa forma cortês, mas com muita insistencia. A entrega, porém, não convinha a Carlos V, o qual, embora lhe agradasse annuir aos pedidos de sua irman predilecta, não podia ver passar, sem receio, os grandes cabedaes da sobrinha para as mãos de um rival poderoso e perfido.
Traça por isso um novo plano. Dirigindo-se à Rainha de França, sua irman, expõe-lhe os perigos que podiam advir da entrega do thesouro, que forçosamente alimentaria novas guerras entre a França e Hespanha. D. Leonor hesita de novo, desconfiada e perplexa, diante da alternativa de prejudicar o Imperador afim de ver sua filha, ou de sacrificar a sorte de D. Maria para favorecer a politica hespanhola. Atras do bispo-embaixador manda um mensageiro com instrucções secretas á Infanta, tendentes a neutralizar as instancias do diplomata, instrucções que se resumiam numa exigencia unica, impossivel de cumprir-se, como bem sabia. Reclama, ou melhor, manda reclamar pela bocca da filha, a entrega immediata do dote, em cumprimento do que se havia tratado com D. Manoel. [12] Mas onde havia D. João III de ir buscar a somma enorme de um milhão de cruzados, em face de um thesouro vasio, de um paiz exhausto pelas empresas maritimas, e que tinha dado as reservas para tres casamentos successivos de familia, o d’El-Rei com a Rainha D. Catharina em 1524, o de sua irman, a formosíssima Infanta D. Isabel, com o Cesar (a qual levara em 1526 um dote opulentissimo), e finalmente em 1543 o de sua filha, a Infanta D. Maria, com o Principe D. Felipe de Castella que custou a Portugal 400:000 cruzados? [13]
Em publico finge não poder separar-se de sua irman, a quem criara desde a idade de seis meses como sua própria filha, com desvelo encarinhado amor, nos tratos e costumes da sua côrte. Lembra que seria contra o decoro deixá-la sahir de sua casa e do reino, sem primeiro estar honradamente arrumada. Particularmente, em conversa com a pudibunda joven, pondera hypocritamente os perigos da côrte francêsa, e quão mal lhe estaria ir-se para Paris, vistas as deshonestidades que ali se praticavam! Promette quatro contos annuaes para seu gasto, e pede que não mais lhe falle em similhante projecto.
Oh! espectáculo odioso! Que rede de intrigas em torno da Infanta! Carlos V intercepta os correios portugueses, expedidos a França. Francisco I manda a Portugal um indivíduo como espia das cousas de Castella. D. João III colloca ao pé da irman uma mulher, que lhe dá, de continuo, aviso de quanto em sua casa se passa. D. Leonor contraria clandestinamente as instrucções officiaes que dera ao seu proprio embaixador.
E a Infanta? Quaes foram os seus pensamentos? Estaria do partido da mãe, que mal conhecera, pois a separaram d’ella aos dois annos? Inclinar-se-hia a favor dos reis, em cuja côrte fôra criada? Traçara, por ventura, um plano seu, proprio? Pensaria em casar em Portugal, impellida por desejos de uma vida desafogada e independente? Não faltaria quem lhe revelasse as verdadeiras intenções de D. João III, descobrindo enredos aviltantes, que deviam ferir profundamente a sua dignidade?
E’ impossível responder a taes perguntas. Fallecem-nos os documentos. Se a Infanta tivesse tido um confidente ou trocado cartas com uma amiga, um irmão, ou com a mãe; se houvesse confiado suas impressões corajosamente a um diario, livro de memórias e confissões, quão cheias de interesse não seriam essas paginas, desabafo de um espirito torturado, mas superior!
A embaixada do Bispo de Ade foi inutil! Vencidas mais uma vez, a mãe e a filha procuram remedio nas suas virtudes, segundo a receita do Imperador!
Os projectos de casamento nem por isso acabam. Tendo morrido a primeira mulher de D. Felipe em Julho de 1545, ao dar a vida ao desgraçado principe D. Carlos, e não encontrando outra alliança mais vantajosa, o Imperador cada vez mais apertado pela mãe da Infanta, viuva de Francisco I desde 1547, lembra-se de casar o filho com a Infanta. [14] Encontra porém como sempre a surda resistencia de D. João III, o qual, depois de novas delongas, declara redondamente, não poder dar o seu consentimento, porque assim cumpria a bem de seus reinos e de sua real fazenda. Repugnava-lhe talvez vêr occupado o logar da filha idolatrada, que sempre fora fraca e doentia, pela bella e robusta pupilla? O Imperador, obrigado a desistir, forja novos projectos, escolhendo para noivo da princesa o Archiduque Fernando, filho segundogenito do Rei dos Romanos. D. Maria regeita-o todavia, na supposição que as negociações com o Principe de Castella continuavam em bom caminho, e que breve as suas intimas esperanças se realizariam.
E realmente, as combinações de Carlos v falham. Mas o consorcio da Infanta com Felipe reapparece, d'esta vez sob bons auspicios. D. João ш já não acha subterfugios; o contracto é rubricado depois da troca dos retratos; a Infanta assigna, officialmente, como Princesa de Castella; e como Princesa de Castella e futura rainha do immenso imperio em cujas fronteiras o Sol nunca desapparecia, a celebravam poetas e panegyristas.[15] Emfim, o embaixador do Cesar, Ruy Gomes da Silva, Principe de Eboli, aguarda em Lisboa, com luzidissimo cortejo, as ultimas ordens para a « receber ». Eis senão quando, vinte e quatro horas antes do desposorio, chega um correio de Castella, com o seguinte despacho laconico:
« En este ponto tengo aviso que es muerto Eduardo (VI), Rey de Inglatierra, a quien sucede Maria, su hermana. Si no está celebrado el desposorio con la Infanta D. Maria de Portugal, suspenda-se por aora. » [16] (6 de Julho de 1553). [17]
E ficou suspenso! D. Felipe de Hespanha pediu e obteve a mão da dura, fria e feia Maria Tudor (1554), já quasi fiançada ao Infante D. Luis. Antonio Moro correu para pintar essa noiva nordica. Ella lá está no Prado, perto das Marias meridionaes; sentada, brincando com uma rosa, mas com que expressão seca e concentrada na cara angulosa. [18] D. Leonor e D. Maria, joguetes nas mãos do imperador, que se consolem com a antiga receita!
A Infanta consola-se, ou antes resigna-se. Dotada de animo grande e espirito levantado, de accordo com a sua alta posição, revelando a generosidade propria de nobres caracteres, perdoa tantos e tão repetidos aggravos, o desvanecimento das suas mais risonhas esperanças. Sem uma queixa, sem um reparo, com discreta reserva, põe termo a tudo. Renuncia a qualquer enlace; resolve ficar solteira e no reino, no meio das suas amigas, dos seus livros e dos seus pobres, entregue d'ora avante ás sciencias e artes, a obras de caridade e cuidados religiosos. Despede-se do mundo e de seus enganos, preferindo a placidez da vida contemplativa, o ideal de Rachel-Maria, aos cuidados e conflictos da vida activa de Lea e Marta.
Uma testemunha de vista que observou a Infanta depois de 1557 dizia della: «Es persona de grande entendimiento y cordura, muy reposada y de pocas palabras e bien dichas; es de las valerosas personas que he visto y temen-se sus determinaciones como de tal; que no son de mujer moza... Tiene otros fines muy santos y honrados, y sin hazer estremos en ello, ha mas de dos años que se ensaya en un vestido e recojimiento muy bueno, y mucha oracion, y esto no como hypocrita, sino como conviene a su edad y persona.» [19]
Mas D. Leonor, a mãe, nunca se conforma. Sentidissima do passado, offendida com o ultimo escandalo, corre de Flandres a Castella, acompanhada de sua energica irmã, a Rainha de Hungria. Chegada a Madrid, despacha para a corte de Portugal uma serie de cartas, cheias de queixas amargas, mal dissimuladas no meio de formulas diplomaticas, sollicitando, ou melhor, exigindo terminantemente a partida da Infanta.[20] Um embaixador especial, D. Juan de Mendoza, vem entregar estes papeis, sendo apoiado nas suas exigencias pelo enviado extraordinario de Carlos v, D. Sancho de Cordova, cujas palavras acabo de citar. [21]
D. João III, resolvido a não ceder, ensaia nesta occasião uma nova tactica. Depois de ter feito abortar tantos planos de casamento, finge tomar agora a iniciativa, agora quando devia ter a plena convicção de que a irman, enfadada e desilludida, regeitaria, sem a menor hesitação, toda e qualquer corôa que lhe offerecessem.
Os novos pretendentes, propostos pelo carinhoso irmão, são já nossos conhecidos: o archiduque Fernando e seu velho pae, irmão do Imperador, ou, por outra, o já caduco Fernando d'Austria que ia occupar o throno allemão.
A Infanta recusa decididamente; e, como El-Rei insiste hypocritamente, apertando sobre coisas que elle mesmo não queria, a victima perde a paciencia, e cheia de indignação, responde de viva voz, em presença da corte toda: Quando se ofrecian negocios que tratar, que parecian buenos, andava V. A. en dilaciones, y de feria en feria, sin querer-los concluir, y agora que no ay ninguno, me sale con esso? Pues aunque fuesse Monarca del mundo, no lo haré, ni se ha de pensar tal cosa de mi!
E neste proposito ficou.
O leitor hade imaginar que as peripecias da tragi-comedia acabam aqui; mas engana-se. D. João III, continuando a fingir-se em extremo desejoso de ver casada a Infanta, despacha um agente muito habil à corte de Carlos V. Este igualmente desejoso, só espera ver concluido o interminavel negocio da Infanta para se retirar a S. Juste! Lourenço Pires de Tavora vem, por combinação de ambos, com as propostas já regeitadas por D. Maria, e regeitadas tambem pelos noivos, os quaes não queriam casar! Com as mesmas propostas iam as mesmas antigas instrucções, que se podem resumir na formula: propôr e dilatar, fingir uma cousa, guardando-se da outra. Mas os artificios estavam estafados; já não illudiam ninguem. D. Leonor resiste e teima em querer levar a filha. El-Rei apparenta concordar na entrega. Antes de effectuada, morre porém (Junho de 1557).
Quem acredita que, se vivesse, teria cumprido a promessa? Eu não.
A sorte da Infanta e sua bondade impressionaram profundamente o povo, cujos clamores a haviam arrancado, em tempo, dos braços de sua mãe. Fazendo seu o querer do soberano, exactamente como na primeira conjunctura, não quis deixar partir a que era o amparo dos pobres, protectora dos poetas e dos sabios, e que havia partilhado todas as dores e alegrias da nação durante 36 annos. Concedeu-se-lhe, porém, licença para uma entrevista na raia do reino, mas só depois de a Infanta ter prestado juramento solemne de voltar em breve para Lisboa e de não transigir com os desejos da mãe.
D. Leonor, anciosa e afflicta, estava em Badajoz, á espera, havia dois meses! Finalmente, em dezembro de 1557, a Infanta chega com sequito apparatoso, brilhante não, porque ambas ainda trajavam dó, por morte de D. João III. Vinte dias passaram juntas, recordando, entre sorrisos e lagrimas, os innumeros incidentes que as tinham martyrisado durante os ultimos vinte annos. Depois, D. Maria recolheu a Lisboa, fiel á sua promessa, apesar das vivas instancias da mãe que, além dos seus carinhos, lhe offerecia todas as riquezas e estados que possuia. [22] O povo da capital recebeu-a com sinceras demonstrações de alegria. Celebrou-se mesmo um solemne Te Deum laudamus, em acção de graças pela sua lealdade.
A mãe não pôde resistir á dôr da partida. Passados dias succumbiu a uma febre maligna, a tres legoas de Badajoz (18 de Febr. de 1558).
Triste desenlace que a todos commoveu. Mesmo o austero Goes que nem uma palavra de louvor, compaixão ou sympathia concede á Infanta, apiedou-se das angustias da mãe que « sobre todalas cousas do mundo » havia desejado ter sua filha a par de si, sem nunca o conseguir. [23]
A Infanta ainda viveu mais vinte annos, não sem ter sido importunada uma ultima vez em 1558, logo apos o fallecimento da mãe. Era pretendente, pela 3.a ou 4.a vez, Felipe II, que enviuvara de novo! Mas a princesa deu a mesma resposta anterior: Nem que fosse com o Monarca de todo o mundo!
O ultimo terço da sua vida decorreu mais sereno, se bem que não lhe faltaram desgostos e episodios excitantes como a desunião entre o exaltado e caprichoso D. Sebastião e a Rainha Regente, as expedições a Africa, [24] os casamentos das filhas de D. Duarte, os consorcios planeados e abortados do monarca com Margarida de Valois e mais princesas, que renovavam a recordação humilhante da sua propria sorte e a consciencia dos direitos pessoaes á coroa, se casasse. Em todo o caso, esse periodo foi de independencia, esplendor, actividade bemfazeja. Espoliada do seu patrimonio, estava de posse, parcialmente, das enormes riquezas da mãe; senhora de terras, capitaes, esplendidas baixellas d'ouro e prata, joias, pedras preciosas, tapeçarias, e outros mimos, por meio dos quaes a sua vivenda a par de Santos-o-Novo se transformou em uma residencia sumptuosissima, de verdadeira soberana. Em 1567 uma testemunha ocular insuspeita affirmava em letra redonda ter ella casa honrada em extreme de criados, damas e familiares. « E para se dizer que é igual a todalas rainhas da Europa lhe não falta mais que o nome de uma d'ellas. » [25]
Dispondo com inteira liberdade d'essa fortuna que havia sido causa de tantos gravames e receios, tantas humilhações e cubiças, tantas duvidas e indignidades da parte dos tutores e pretendentes, achava gosto em dispender á medida dos seus desejos e das suas inclinações, [26] encommendando obras d'arte, [27] subvencionando instituições de educação e beneficencia, mandando construir collegios, hospitaes, mosteiros, capellas e egrejas. [28] Seguindo o pendor natural do seu espirito, e fiel aos principios de rigida moral em que a haviam educado, recebeu de preferencia visitas de homens doutos em theologia e philosophia, S. Francisco de Borja, o cardeal Alexandrino, Frei Luis de Granada, Frei Francisco Foreiro, Frei Simão Coelho. Os escritos que esses e outros lhe dedicaram, tendiam naturalmente a levantar o seu espirito e robustecer a sua fé.
Morreu a 10 de Outubro de 1577, meses depois de ter exposto a sua ultima vontade com admiravel lucidez, de um modo digno, em linguagem clara e firme.[29] Sem queixas nem recriminações olhava para o passado. Sem lagrima encarava o seu proximo fim-segura que, acudindo ao chamamento do Criador com alegria e confiança, seria acolhida aonde recolhe as almas dos seus servos e queridos, de cujo numero, se não foi, pelo menos sempre havia desejado ser. Palavras textuaes.
Da historia do seu testamento e enterro, apenas direi que não foi menos accidentada nem menos triste e vergonhosa que a do seu patrimonio e a dos seus oito desposorios, mallogrados, com os maiores senhores do mundo.
- ↑ 60 D. Leonor nascera em 1498.
- ↑ 61 E' erro muito repetido chamar filha posthuma á Infanta D. Maria, erro que como tantos outros provém da inaudita leviandade do aliás benemerito auctor do Epitome de Historia Portuguesa. — Vide Rimas de Camões, ed. Faria e Sousa, vol. I p. 164.
- ↑ 62 O quadro da Misericordia de Lisboa, representativo do casamento de D. Leonor com D. Manoel, a que já me referi, acha-se reproduzido na Arte Portuguesa (p. 110), acompanhado de um artigo de Gabriel Pereira
- ↑ 63 Frei Luiz de Sousa, Annaes, Parte I. cap. 4.
- ↑ 64 Nas paginas do Conde de Villa Franca a caracterisação dos monarcas é incompleta e injusta.
- ↑ 65 Pacheco, Vida, f. 17 e Cap. xx. Documento 4: Sousa, Hist. Gen., Provas II 419. O tratado de Zaragoza de 22 de Maio 1518 foi ratificado posteriormente pelo proprio D. João III.
- ↑ 66 Francisco de Andrade, Chronica de D. João III, cap. 19.
- ↑ 67 Veja-se o Panegyrico de D. João, pelo mesmo João de Barros a quem devemos o Panegyrico de D. Maria (p. 150).
- ↑ 68 Conf. Nota 32.
- ↑ 69 Visconde de Santarem, Quadro Elementar, vol. III, p. 252.
- ↑ 70 Ib. III p. 275 e 282 e ss.
- ↑ 71 As clausulas do contrato de casamento não eram bem claras. Disputou-se longamente, se lhe competiam 200 ou 400 mil dobras de ouro, e tambem sobre o prazo em que havia de ser entregue o patrimonio de D. Manoel. O nascimento e fallecimento de um filho varão de D. Manoel e D. Leonor, o Infante D. Carlos, complicara o caso. Vid. Pacheco, cap. IX e Parte II, f. 186-204.
- ↑ 72 D. João III tambem deixou de satisfazer por inteiro a sua legitima paterna ao Infante D. Luiz.
- ↑ 73 Já alludi aos boatos indecisos, relativos a projectos de casamento entre Carlos V e a Infanta.
- ↑ 74 Entre os escriptores que alludiram entre 1545 e 1555 ás sempre baldadas tentativas de dar estado à Infanta, e ao seu intimo desejo de subir ao throno de Hespanha, contam-se André de Resende, Jeronymo Osorio, João de Barros, Manoel da Costa e Luisa Sigea. Esta, ao prometter-lhe um throno (em 1546), vaticinando, não deixou de accrescentar que sem a voz divina que lhe desvendara o futuro da Infanta, não lhe teria dado fé (ego qua Infantis causa dubitare solebam.) — E' significativo, não é verdade?
- ↑ 75 Vid. Pacheco I p. 46.
- ↑ 76 Quanto à impressão produzida pelo incidente, Pacheco cinge-se ás informações do insigne Dr. Martim Azpilcueta Navarro, testemunha de vista, pois vivia em Portugal desde 1537. Este erudito, theologo entre os juristas e jurista entre os theologos, patenteia a dolorosa suspensão dos que queriam bem à Infanta, quando declara que todos se accusavam lacrymosos das suas culpas e pediam continuamente a Deus para que não se esquecesse d'ella, nem permittisse que outra princesa estranha lhe fosse preferida!
- ↑ 77 Museu do Prado, N.o 1484 (1446).
- ↑ 78 D. Sancho de Cordova. Vid. Pacheco f. 58 e 59.
- ↑ 79 «Quien ponderare las palabras de estas cartas verá que aunque se acompañan del res- peto y cortesia con que suelen tratar-se entre si los Principes, tambien llevan mezcla de otras que insinuan agravios muy sensibles y que pestanean rompimento quando se falte al desagravio.» Pacheco f. 54.
- ↑ 80 São do mesmo embaixador as seguintes palavras, relativas a D. Leonor: «porque se apasiona mucho de ver las maneras que traen aqui para que no aya efecto lo que desea.» Pacheco f. 57.
- ↑ 81 Varios escriptores estrangeiros censuram esta resolução da Infanta, acoimando-a de filha pouco affectuosa. Desculpando-a, o Conde de Villa Franca cahe no exagero opposto, affirmando que D. Maria idolatrava a mãe. Se fez bem em cumprir a palavra dada, talvez teria feito melhor em não dar nenhuma, salvaguardando o seu livre arbitrio. Mas nesse caso, a nação teria, seguramente, desvirtuado as suas intenções, chamando-a ingrata, sem patriotismo, descaridosa com os seus pobres. E caso se rebellasse, seria apodada de virago emancipada. Na situação falsa em que as circumstancias a haviam collocado, qualquer resolução estava sujeita a interpretações malevolas. Victima em tudo, não chegou a ser heroina tragica.
- ↑ 82 Chronica de D. Manoel, Parte IV, cap. 68. No mesmo sentido se pronunciou Venturino, conforme já sabemos.
- ↑ 83 Ignoramos o que pensava sobre os planos de D. Sebastião. Apenas consta que, morrendo, contribuiu com 30:000 cruzados para a guerra contra os Infieis. A tradição falla de sonhos terrificantes da Infanta, cuja presaga mente prenunciou a catastrophe de Alcacer-Quebir.
- ↑ 84 Damião de Goes, Chronica de D. Manoel, Parte IV, cap. 68.
- ↑ 85 Ha instituições pias, fundadas ou favorecidas por ella durante a sua vida, não só em Lisboa, mas tambem em Evora e Villaviçosa e nos seus dominios em Viseu e Torres Vedras.
- ↑ 86 Sei apenas de uns pannos de ras (colgaduras de Tunes) que lhe haviam custado 20:000 cruzados, e que legou a D. Sebastião (Testamento § 35). Um Livro de Horas, ricamente illuminado e encadernado, que possuia, avaliado em 10 mil reales de plata (f. 108), era dadiva da mãe que o mandara fazer em Flandres.
- ↑ 87 A maior parte das instituições, fundadas pela Infanta, foi criada tarde, por decisão testamentaria. No respectivo documento reconhece-se certa magoa por não ter distribuido, em vida, com sufficiente largueza e desprendimento os bens de que dispunha — escrupulos sem duvida de uma alma torturada. Eis o que diz: «assi para descarga de mi alma como para disponer de los bienes que el Señor me dio en cosas de su servicio, porque ya que biviendo en esta vida con ellos no le servi como deviera, por lo menos despues de mi muerte se empleen y dispendan todos en su servicio.» Testamento § 1.
- ↑ 88 São desoladoramente significativas as palavras com que a Infanta pede aos ultimos sobreviventes da dynastia que teniendo respeto al grande provecho que a la corona destos reynos recrecio de yo nunca pretender otro modo de pagamento y satisfacion del patrimonio que el Rey mi padre me dexo que la que tuve», tomassem a peito obrigar os testamenteiros a cumprir inteiramente com muita diligencia as suas disposições, perguntando-lhe muitas vezes se o faziam, e mandando saber em segredo, se com efeito o executavam. Mas D. Sebastião morreu ao cabo de dez meses. D. Catharina havia-o precedido. D. Henrique lhe seguiu de perto. E depois...