A minha flor!

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A minha flor!
por José da Silva Maia Ferreira
Poema publicado em Espontaneidades da minha alma.


Ah! tu ne saurais, m’oublier!
M.me Emile Girardin.

Trago no peito uma flôr
Nesta amena soledade —
É a flôr que nasce d’alma
É a candida saudade.

Tirei-a de sobre um tumllo
Onde tão bella brilhava —
E de côr tão rôxa — rôxa
Que o meu peito roxeava.

Tinha o mago sentimento
Qu’em minha alma exp’rimentava —
Ao colhê-la a sós com ella
O meu fado consultava.

Era triste e merencoria
Nestes desertos lugares —
Qual peito que geme afflicto
Na soidão os seus pezares!

Chorou lagrimas comigo
Tão d’alma e tão pungentes
Que, qual Fada, me dizia
Minhas desgraças pendentes.

E era tão meigo esse som
Que no peito m’echoava —
Que julgava anjo do céu
Quem nesfhora me fallava:

«Porque triste, triste sentes
«Da existencia o dissabor?
«Porque choras gemebundo
«Teus tormentos, tua dôr?

«Queres que eu Fada soletre
«Tuas magoas — tua dór? —
«São apanagios da terra —
«É saudade — é desamor!

«Descrido assim no mundo
«Não sejas — crê e espera;
«Pois que o tempo nas saudades
«Muitas vezes as tempera!

«Eu sou planta e tambem sinto
«Da saudade o crú rigor —
«Quanta vez de balde espero
«P’ra regar-me o horticultor?

«Quanta vez era dias turvos —
«Anhélo os raios do Sol —
«E quaes nuncios desta vinda
«Os cantos do rouxinol? —

«Quanta vez d’alma suspiro
«No inverno p’la primavera,
«Que tanta vida me dá —
«Nesse tempo em qu’ella impera?

«Infeliz não és tu só
«Neste mundo d’illusão: —
«Eu tambem soffro — e não tenho,
«Como tu — um coração.

«Calla pois os teus tormentos
«Em teu peito amargurado —
«Neste teu cruel penar —
«Sê crente e resignado!»

E assim a florinha
Tão meiga fallou —
Su’alma tão minha
Na minha roçou,
Que os prantos da terra
No peito callando —
Com ella scismando,
Meu pranto findou!