A quem darei queixumes namorados
Não será muito haver tambem a gloria
E o louro da victoria,
Que Virgilio procura e haver pretende,
Pois o mesmo Virgilio a vós se rende.
Falla hum só pastor.
A quem darei queixumes namorados
Do meu pastor queixoso e namorado?
A branda voz, suspiros magoados,
A causa porque n'alma he magoado?
De quem serão seus males consolados?
Quem lhe fara devido gasalhado?
Só vós, Senhor famoso e excellente,
Especial em graças entr'a gente.
Por partes mil lançando a phantasia,
Busquei na terra estrella, que guiasse
Meu rudo verso; em cuja companhia
A santa piedade sempre andasse
Luzente e clara, como a luz do dia,
Que o rudo engenho meu m'allumiasse;
E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo
Ainda além cumprido o meu desejo.
A vós se dem, a quem junto se ha dado
Brandura, mansidão, engenho e arte,
D'hum esprito divino acompanhado,{202}
Dos sobrehumanos hum em toda parte:
Em vós as graças todas se hão juntado;
De vós em outras partes se reparte.
Sois claro raio, sois ardente chama;
Gloria e louvor do tempo, azas da fama.
Em quanto eu apparelho hum novo esprito,
E voz de cysne tal, que o mundo espante,
Com que de vós, Senhor, em alto grito
Louvores mil em toda parte cante;
Ouvi o canto agreste em tronco escrito,
Entre vaccas e gado petulante:
Que quando tempo for, em melhor modo
Ha de m'ouvir por vós o mundo todo.
As vãas querellas, brandas e amorosas,
Sejão de vós tratadas brandamente;
Verdades d'alma pouco venturosas,
Sahidas com suspiro vivo e ardente:
Em vossas mãos s'entregão valerosas,
Porqu'ao futuro vivão entr'a gente,
Chorando sempre a antigua crueldade,
Para mover as almas a piedade.
Ja declinava o sol contra o Oriente,
E o mais do dia ja era passado,
Quando o pastor co'o grave mal que sente,
Por dar allívio em parte a seu cuidado,
Se queixa da pastora docemente,
Cuidando de ninguem ser escutado.
Eu que o escutei, n'huma árvore escrevia
As mágoas que cantou; e assi dizia:
Ou tu do monte Pindaso es nascida,
Ou marmor te pario formosa e dura:{203}
Não póde ser que fosse concebida
Dureza tal de humana creatura:
Ou quiçá qu'es em pedra convertida,
Ou tens da natureza tal ventura;
Porém não fez em ti boa impressão,
Só de marmor tornar-te o coração.
Ja, ja com minha voz rouca e chorosa
A gente mais austera moveria;
E com esta corrente lagrimosa
Os tigres em Hyrcania amansaria.
Se não fosses cruel, quanto formosa,
Meu longo suspirar t'abrandaria:
Mas suspirar por ti, mas bem querer-te,
Que fazem senão mais endurecer-te?
Se deixáras vencer a crueldade
De tua tão perfeita formosura;
Hum pouco víras bem minha vontade,
E víras a fé minha, limpa e pura,
Por ventura, que houveras ja piedade,
E tivera eu quiçá melhor ventura:
Mas nunca achou igual tua belleza,
Se não se foi em ti tua dureza.
Ja hum peito abrandára, que não sente,
Este meu grave mal, segundo he forte;
Se descêra do inferno ao Polo ardente,
A piedade movêra a propria morte.
Pois se huma gotta d'agua brandamente
Torna brando hum penedo, duro e forte,
Tantas lagrimas minhas não farão
Hum pequeno sinal n'hum coração?
Na testa fonte viva tenho d'ágoa,{204}
Que por meus olhos tristes se derrama;
E no peito de fogo viva fragoa,
Que tudo em si converte, tudo inflama:
Amor em de redor, por maior mágoa,
Voando mais accende a ardente chama.
Se queres ver se ardentes são seus tiros,
Ólha se são ardentes meus suspiros.
Quando grita e rumor grande se sente,
Porque fogo se ateia em casa, ou torre,
De pura compaixão vai toda a gente,
Ágoa ao fogo gritando; e cada hum corre.
Dest'arte anda o meu peito em chamma ardente,
E com a ágoa dos olhos se soccorre;
Que quem me abraza, outra ágoa me defende,
Porque com esta o fogo mais se accende.
Quando vemos que sahe lá no Oriente
O sol, seu curso antigo começando,
Formoso, intenso, puro, refulgente,
O monte, o campo, o mar, tudo alegrando;
Quando de nós s'esconde no Ponente,
E em outras terras sahe, allumiando,
Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro,
Chórão por ti meus olhos, e eu suspiro.
Caminha o dia todo o caminhante,
E, emfim, lhe chega a noite, em que descança;
Trabalha na tormenta o navegante,
Traz-lhe a clara manhãa feliz bonança;
Recobra o fructo fertil e abundante
Da terra o lavrador, se nella cança:
Mas eu de meu cuidado e mal tão forte
Tormento espero só, só crua morte.{205}
D'ouvir
meu damno as rosas matutinas,
Condoidas se cerrão, s'emmurchecem;
Com meu suspiro ardente as côres finas
Perdem o cravo, o lyrio, e não florecem.
Co'a roxa aurora as pallidas boninas,
Em vez de se alegrarem, s'entristecem:
Deixão seu canto Progne e Philomena;
Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena.
Responde o monte concavo a meus ais,
E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido;
Os indomitos feros animais,
Sem humano sentir, mostrão sentido:
Mas em ti minhas dores desiguais
Nunca movem o peito endurecido:
Por muito que te chame, não respondes;
E quanto mais te busco, mais t'escondes.
Naquella parte donde costumavas
Apascentar meus olhos e teu gado;
Alli donde mil vezes me mostravas,
Qu'era o pastor de ti mais desejado,
Vezes mil te busquei, por ver se davas
Algum breve descanso a meu cuidado.
Busco-te em vão no valle, em vão no monte,
Qual o ferido cervo busca a fonte.
Este lugar de ti desamparado,
Com cujas sombras frias ja folgaste,
Agora triste, escuro he ja tornado;
Que todo o bem comtigo nos levaste.
Eras tu nosso sol mais desejado;
Não temos luz, despois que nos deixaste.{206}
Torna, meu claro sol; torna, meu bem:
Qual he o Josué que te detém?
Despois que deste valle t'apartaste,
Não pasce ja algum gado, com seccura;
Seccou-se o campo, des que lhe negaste
Dos teus formosos olhos a luz pura;
Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste,
Quando menos, que agora, aspera e dura;
Nega sem ti a terra, ouvindo gritos,
Ás cabras pasto e leite a os cabritos.
Sem ti, doce cruel minha inimiga,
A clara luz, escura me parece:
Este ribeiro, quando a dor m'obriga,
Com meu chorar por ti contino crece.
Não ha fera, a que a fome não persiga;
Algum prado sem ti ja não florece:
Cegos estão meus olhos; nada vem,
Porque não podem ver seu claro bem.
O campo, como d'antes, não s'esmalta
De boninas azues, brancas, vermelhas;
Falta ágoa ao pasto, e sentem d'ágoa a falta
As candidas pacíficas ovelhas:
Bem conhecem tambem que o ceo lhes falta
As doces e solícitas abelhas:
Com lagrimas, que manão dos meus olhos,
A terra nos produz duros abrolhos.
Torna pois ja, pastora, ao nosso prado,
Se restituir-lhe queres a alegria:
Alegrarás o valle, o campo, o gado,
E aquelle espelho teu da fonte fria.
Torna, torna, meu sol tão desejado,{
207}
Faras a noite escura, claro dia;
E alegra ja esta vida magoada,
Em que só tua ausencia he Parca irada.
Vem, como quando o raio transparente
Deste nosso horizonte, qu'escondido,
Deixa hum certo temor á mortal gente,
Causado de ver o Orbe escurecido;
E quando torna a vir claro e luzente,
Alegra o mundo todo entristecido:
Que assi he para mi tua luz pura
Claro sol, como a ausencia noite escura.
Mas tu 'squecida ja do bem passado,
E do primeiro amor, que me mostraste,
Teu coração de mi tẽes apartado,
Não menos que do valle t'apartaste.
Não te quero eu a ti mais qu'a meu gado?
Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste?
Onde o meu êrro viste, ou desvario,
Que pôde merecer-te hum tal desvio?
Bem vês que por Amor se move tudo,
E que delle não ha quem seja isento;
O mais simple animal, mais baixo e rudo,
O demais levantado pensamento:
Debaixo d'ágoa fria o peixe mudo
Tambem lá tẽe d'ardor seu movimento.
Pois as aves, que no ar cantando vôão,
Não menos humas d'outras s'affeiçôão.
A musica do leve passarinho
Que sem concêrto algum sólta e derrama,
De hum raminho saltando a outro raminho,
Mostra que por amor suspira e chama.{208}
Em quanto no secreto amado ninho
Não acha aquelle, que só busca e ama,
No canto, a nós alegre, triste chora,
Porque teme perder a quem namora.
A fera, que he mais fera, e o leão,
Sempre acha outro leão, sempre outra fera,
Em quem possa empregar huma affeição,
Que o conversar no peito seu lhe gera:
Tambem sabe sentir sua paixão,
Tambem suspira, morre, desespera;
Acena, salta, brada, ferve e geme;
E não temendo a nada, a Amor só teme.
O cervo, qu'escondido e emboscado,
Temendo ao cobiçoso caçador,
Está na selva, monte, bosque, ou prado,
Alli donde anda e vive, vive amor.
De temor e d'amor acompanhado,
Com justa causa amor tẽe e temor:
Temor a quem para feri-lo vinha,
Amor a quem ja, ja ferido o tinha.
Pois se a fera insensivel, que não sente,
Tambem sente d'Amor a frecha dura,
Porqu'a ti não t'abranda hum fogo ardente,
Que procede da tua formosura?
Porqu'escondes a luz do sol á gente,
Que nesses olhos trazes bella e pura?
Mais pura, mais suave, mais formosa,
Que, lyrio, que jasmim, que cravo e rosa.
Póde ser, se me visses, que sentiras
Ver liquidar hum peito em triste pranto;
E bem pouco fizeras, se me viras,{
209}
Pois eu só por te ver suspiro tanto:
As mágoas, os suspiros, que m'ouviras
Te puderão mover a grande espanto,
A dor, a piedade, a sentimento,
E a mais, que para mais he meu tormento.
Os pensamentos vãos, que o vento leve:
O suspirar em vão tambem ao vento;
Hum esperar á calma, á chuva, á neve,
E nunca poder ver-te hum só momento;
Tormento he, que somente a ti se deve.
E se póde inda haver maior tormento,
Quem te vio, e se vê de ti ausente,
Muito mais passará mais levemente.
Faz mossa a pedra dura em sua dureza
Com a ágoa que lhe toca brandamente;
Abranda o ferro forte a fortaleza,
Se lhe toca tambem o fogo ardente:
Em ti só desconheço a natureza;
Que, a ser de pedra ou ferro totalmente,
Ja teu peito cruel fôra desfeito
Das ágoas e das chammas do meu peito.
Quando a formosa Aurora mostra a fronte,
Alegra toda a terra, vendo o dia;
Quando Phebo apparece no horizonte,
Manifesta tambem grande alegria;
Contente pasce o gado ao pé do monte,
Contente a beber vai na fonte fria:
Está tudo contente, alegre tudo;
Eu só, só pensativo, triste e mudo.
Se ja d'alma e do corpo tens a palma,
E do corpo sem alma não tens dó,{210}
Ha dó do corpo só, qu'está sem alma,
Pois sem alma não vive o corpo só.
Nas chammas e no ardor, no fogo e calma,
Na affeição, no querer eu sou hum só:
Não acharás vontade tão captiva;
Nem outra como a tua tão esquiva.
Se te apartas por não ouvir meu rôgo,
Onde estiveres te hei d'importunar:
Postoque vás por ágoa, ferro, ou fogo,
Comtigo em toda parte m'has d'achar;
Que o fogo em que ardo, e a ágoa em que m'affogo,
Emquanto eu vivo for, hão de durar;
Pois o nó, que m'enlaça, he de tal sorte,
Que não se ha de soltar em vida, ou morte.
Neste meu coração sempr'estaras,
Emquanto a alma estiver com elle unida:
Tambem o meu esprito possuirás
Despois que a alma do corpo for partida.
Por mais e mais que faças, não faras
Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida:
Impossivel sera qu'eternamente
Ausente estês de mim, estando ausente.
Cá m'acompanhará vossa memoria,
Se o rio, que se diz do esquecimento,
Da minha não borrar tão longa historia,
Tão grave mal, tão duro apartamento.
Até quando vos veja entrar na gloria,
Viverei n'hum contino sentimento:
E ainda então vereis (s'isto ser possa)
Esta minh'alma lá servir a vossa.
Aqui com grave dor, com triste accento,{
211}
Deo o triste pastor fim a seu canto:
Co'o rosto baixo e alto o pensamento,
Seus olhos começárão novo pranto:
Mil vezes parar fez no ar o vento,
E apiedou no ceo o coro santo:
As circumstantes sylvas s'inclinárão,
Condoidas das mágoas qu'escutárão.
Com hũa mão na face, reclinado,
Tão enlevado em sua dor estava,
Que, como em grave somno sepultado,
Não via que ja o sol no mar entrava.
Berrando andava em roda o manso gado,
Que o seguro curral ja desejava:
Nas covas as raposas, e em seus ninhos
Se recolhem os simples passarinhos.
Ja sôbre hum sêcco ramo estava pôsto
O mocho com funesto e triste canto:
Ao som delle o pastor ergueo o rosto,
E vio a terra envolta em negro manto.
Quebrando então o fio de seu gôsto,
E o fio não quebrando de seu pranto,
Por não se descuidar de seu cuidado,
Levou para os curraes o manso gado.{212}