A tacha maldita/I

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A tacha maldita por Manuel de Oliveira Paiva
Primo


                  À memória de Luiz Gama


I


Imerso na espessura da floresta
Eu andava nas trevas tateando...
O céu sorria além, de quando em quando;
Parecia haver lá medonha festa!

Nos úmidos pauis da selva infesta
O fogo fátuo andava serpeando...
Ramos d'árvores no ar cambaleando,
Rolando pelo chão, quebrando a testa...

Tremia o corpo meu de medo e frio,
Como treme do órgão o som tristonho,
Como treme a cascata, ao sol, no rio.

Rasgou-se, enfim, dos céus o véu medonho...
O Infinito afinal se descobriu,
Mostrou-me as negras faces, tão risonho!...


II


E a estrada real me conduzira
— Depois que à luz do céu fugi da selva —
Para um vale sorrindo sob a relva,
Linda concha forrada com safira.

Chorava o espírito meu na solidão!
Nem a voz do oceano compassada,
Nem a reza da brisa cochichada,
Me faziam sorrir o coração.

— Quero luz, quero luz, Senhor das matas
Oh Médico Divino, as cataratas
Espedaçai dos olhos de minha alma!

.......................................................................

E o pano do nascente levantou-se...
Tão linda no cenário apresentou-se
A eterna atriz, a Lua! Eu bati palma!


III


E o eco respondeu no outeiro oposto.
Assustado tremi, voltei o rosto:
Uma casa, uma casa ali se ergue,
Hei de ir lá, seja paço, ou seja albergue!

A minha amiga, a Lua carinhosa
Apontava com a destra luminosa
A pirâmide além da cor de arminho
E derramava luz sobre o caminho.

Cheguei ao pé da casa era choupana,
Que envolta num rebuço de umidade
Parecia de longe de alvaiade.

— Entrai, senhor, não há pessoa humana
A quem não escravize a sorte insana
E libertar não possa a caridade.


IV


Acorda, oh Izabel, acende a luz,
Faze o fogo e prepara o bom café;
Tu bem sabes que ordena o pai da fé
Tratemos quem chegar como a Jesus.

Agasalhei-me assim no bom casebre.
Conversei com a velha até o dia
Mostrar no alto cume a penedia,

Distinguindo o que é lobo do que é lebre.
Izabel, num cantinho da palhoça,
Junto à luz do fogão, era tão linda!

Oh como é doce este viver da roça!
Na vasta solidão risonha, infinda,
Que de igual ao sorriso de u'a moça
Que as torpezas do amor nem sonha ainda?


V


Alto dia que andando na cidade
O sofrer dessa noite veio à mente,
Da dor envolta em mel, do frio quente,
Eu confesso, meu Deus, tive saudade.

Saudades dos espinhos, da umidade,
Do temporal medonho, bruto, ingente,
Com tanto que viessem juntamente
O luar, a choupana, a felicidade!

A tela de minha alma tal sofreu
As impressões das tintas naturais,
Que em versos trasladar ela entendeu,

Inda que coxinguentos e banais,
O que de então por diante aconteceu
Com respeito a Izabel e nada mais.