Amor de Perdição/XIII

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Amor de Perdição por Camilo Castelo Branco
Capítulo XIII
Ouça este texto (ajuda | info da mídiadownload)


— E Teresa?

Perguntam a tempo, minha senhoras, e não me hei de queixar se me argüírem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menosporte.

Esquecido, não. Muito há que me reluz e voeja, alada como o ideal querubim dos santos, nesta minha quase escuridade [1], aquela ave do céu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o restilho de sangue que ela deixou na terra. Mais lágrimas que sangue deixaste, ó filha da amargura! Flores são tuas lágrimas, e do céu me diz se os perfumes delas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita devota que morre santificada pelo mundo, e cujo cheiro de santidade não passa do olfato hipócrita ou estúpido dos mortais.

Teresa Clementina bem a viam transportada da escadaria do templo onde caíra, à liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu defronte de si uma criada, que lhe dizia banais e frias expressões de alívio. Se alguma criada de seu pai lhe era amiga, decerto não aquela, acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiança para tal expansão em gritos restava à afligida menina! Mas um raio de piedade ferira o peito da mulher até àquela hora desafeta a sua ama.

Perguntava-se a si mesma Teresa se aquela horrorosa situação seria um sonho! Sentia-se de novo falecer de forças, e voltava à vida, sacudida pela consciência da sua desgraça. Condoeu-se a criada, e incitou-a a respirar, chorando com ela, e dizendo-lhe:

— Pode falar, menina, que ninguém nos segue.

— Ninguém?!

— As suas primas ficaram: apenas vêm os dois lacaios.

— E meu pai não?

— Não, fidalga... Pode chorar e falar à sua vontade.

— E eu vou para o Porto?

— Vamos, sim minha senhora.

— E tu viste tudo como foi, Constança?

— Desgraçadamente vi...

— Como foi? Conta-me tudo.

— A menina bem sabe que seu primo morreu.

— Morreu?! Vi-o cair quase nos meus pés; mas...

— Morreu logo, e depois quiseram os criados, à voz de seu pai, prender o senhor Simão; mas ele com outra pistola...

— E fugiu? - atalhou Teresa, com veemente alegria.

— Afinal foi ele que se deu à prisão.

— Está preso?!

E, sufocada pelos soluços, com o rosto no lenço, não ouvia as palavras confortadoras de Constança.

Serenado algum tanto o violento acesso de gemidos e choro, Teresa sugeriu à criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem onde pousassem para ela ir a Viseu dar o último adeus a Simão.

A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os novos perigos que ia acumular à desgraça do seu amante, e animando-a com a esperança de livrar-se Simão do crime, com a influência do pai, apesar da perseguição do fidalgo.

Calaram lentamente estas razões no espírito de Teresa. Chorosa, ansiada e a reveses desfalecida, foi Teresa vencendo a distância que a separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de jornada.

A prelada já estava sabedora dos sucessos, por emissários que se adiantaram ao moroso caminhar da liteira.

Foi Teresa recebida com brandura por sua tia, posto que as recomendações de Tadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa e absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse.

Ouviu a prelada da boca de sua sobrinha a fiel história dos acontecimentos, e viu uma a uma as cartas de Simão Botelho. Choraram abraçadas; mas a prelada, enxugadas as lágrimas de mulher ao fogo da austeridade religiosa, falou e aconselhou como freira, e freira que ciliciava o corpo com as rosetas, e o coração com as privações tormentosas de quarenta anos.

Teresa carecia de forças para a rebelião. Deixou a sua tia a santa vaidade de exorcismar o demônio das paixões, e deu um sorriso ao anjo da morte, que, de permeio ao seu amor e à esperança, lhe interpunha a asa negra que tão de luz refulgente rebrilha às vezes em corações infelizes.

Quis Teresa escrever.

— A quem, minha filha? - perguntou a prelada.

Teresa não respondeu.

— Escrever-lhe para quê? - tornou a religiosa. - Cuidas tu, menina, que as tuas cartas lhe chegam à mão? Que vais tu fazer senão redobrar a ira de teu pai contra ti e contra o infeliz preso?! Se o amas, como creio, apesar de tudo, cuida em salvá-lo. Se não ouves a minha razão, finge-te esquecida. Se podes violentar a tua dor, dissimula, faze muito porque o teu pai chegue a noticia de que lhe serás dócil em tudo, se ele tiver piedade do teu pobre amigo.

Não recalcitrou Teresa. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe que a envolvesse a ela, e ao seu amor, e à sua esperança, de todo, na negrura de suas asas.

De mês a mês recebia a abadessa de Monchique uma carta de seu primo. Eram estas cartas um respiradouro de vingança. Em todas dizia o velho que o assassino iria ao patíbulo irremediavelmente. A sobrinha não via as cartas; mas reparava nas lágrimas da compassiva freira.

A débil compleição de Teresa deperecia aceleradamente. A ciência condenou-a a morte breve. Disto foi informado Tadeu de Albuquerque, e respondeu: - "Que a não desejava morta; mas, se Deus a levasse, morreria mais tranqüilo, e com a sua honra sem mancha", Era assim imaculada a honra do fidalgo de Viseu!... A HONRA, que dizem proceder em linha reta da virtude de Sócrates, da virtude de Jesus Cristo, da virtude de milhões de mártires, que se deram às garras das feras, quando predicavam a caridade e o perdão aos homens!

Quantas carícias inventou a simpatia e a piedade, todas, por ministério das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o ardor que consumia rapidamente a reclusa. Inútil tudo. Teresa reconhecia com lágrimas a compaixão, e, ao mesmo tempo, alegrava-se tirando das carícias a certeza de que os médicos a julgavam incurável,

Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga do convento dos Remédios de Lamengo lhe dissera que Simão tinha sido condenado à morte.

— E eu vivo ainda!

Depois orou, e chorou; mas os costumes da sua vida em paroxismos continuaram inalteráveis.

Perguntou à senhora que lhe dera a noticia se a sua amiga do convento dos Remédios lhe faria a esmola de fazer chegar às mãos de Simão uma carta. Prontificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada. Entendeu esta religiosa que O derradeiro colóquio entre dois moribundos não podia danificá-los na vida temporal, nem na vida eterna.

Esta é a carta que leu Simão, quinze dias depois do seu julgamento:

"Simão, meu esposo. Sei tudo... Está conosco a morte. Olha que te escrevo sem lágrimas. A minha agonia começou há sete meses. Deus é bom, que me poupou ao crime. Ouvi a notícia da tua próxima morte, e então compreendi porque estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim, Simão!... Olha as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos de felicidade, e eu te dizia os meus!... Que mal fariam a Deus os nossos inocentes desejos?!... Porque não merecemos nós o que tanta gente tem?... Assim acabaria tudo, Simão? Não posso crê-lo! A eternidade apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperança era a luz que me guiava de ti para a fé. Mas não pode findar assim o nosso destino. Vê se podes segurar o último fio da tua vida a uma esperança qualquer. Ver-nos-emos num outro mundo, Simão? Terei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu rezo, suplico, mas desfaleço na fé quando me lembram as últimas agonias do teu martírio. As minhas são suaves; quase que as não sinto. Não deve custar a morte a quem tiver o coração tranqüilo. O pior é a saudade, saudade daquelas esperanças que tu achavas no meu coração, adivinhando as tuas. Não importa, se nada há além desta vida. Ao menos, morrer. Se tu pudesses viver agora, de que te serviria? Eu também estou condenada, e sem remédio. Segue-me, Simão! Não tenhas saudades da vida, não tenhas, ainda que a razão te diga que podias ser feliz, se me não tivesses encontrado no caminho por onde te levei à morte... E que morte, meu Deus!... Aceita-a! Não te arrependas. Se houver crime, a justiça de Deus te perdoará pelas angústias que tens de sofrer no cárcere... e nos últimos dias, e na presença da..."

Teresa ia escrever uma palavra, quando a pena lhe caiu da mão, e uma convulsão lhe vibrou todo o corpo por largo espaço. Não escreveu a palavra! Mas a idéia da força parou-lhe a vida. A freira entrou na cela a pedir-lhe a carta, porque o correio ia a partir. Teresa, indicando-lhe, disse:

— Leia, se quiser, e feche-a, por caridade, que eu não posso.

Nos três dias seguintes Teresa não saiu do leito. A cada hora as religiosas assistentes esperavam que ela fechasse os olhos.

— Custa muito morrer! - dizia algumas vezes a enferma.

Não faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o espírito do mundo,

Teresa ouvia-os, e dizia com ânsia:

— Mas a esperança do céu, sem ele!... Que é o céu, meu Deus?

E o apostólico capelão do mosteiro não sabia dizer se os bens do céu tinham comum com os do mundo as delícias que falsamente na terra se chamam assim. Aquelas sutilezas espirituais que vêm com algumas espécies de física, assim à maneira dos últimos lampejos da vital flama, tinha-as a enferma, quando acontecia falarem-lhe as religiosas na bem-aventurança. Às vezes, se o capelão, convidado pela lucidez de Teresa, entrava os domínios da filosofia, tratando como tema a imortalidade da alma, a inculta senhora argumentava em breves termos, com razões tão claras a favor da união eterna das almas, já deste mundo esposas, que o padre ficava em dúvidas se seria herético contestar uma cláusula não inscrita em algum dos quatro evangelhos.

Maravilhava-se já a medicina da pertinácia daquela vida. Tinha a abadessa escrito a seu primo Tadeu, apressando-o a ir ver o anjo ao despedir-se da terra. O velho, tocado de piedade e por ventura de amor paternal, deliberou tirar do convento a filha, na esperança de salvá-la ainda, Uma forte razão acrescia àquela: era a mudança do condenado para os cárceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregava à doente esta carta de Simão:

"Não me fujas ainda, Teresa. Já não vejo a forca, nem a morte. Meu pai protege-me, e a salvação é possível. Prende ao coração os últimos fios da tua vida. Prolonga a tua agonia, enquanto te eu disser que espero. Amanhã vou para as cadeias do Porto, e hei de ali esperar a absolvição ou comutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda a parte há céu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre; a pedra do sepulcro é que nunca se levanta, Vive, Teresa, vive! Há dias, lembrava-me que as tuas lágrimas lavariam da minha face as nódoas do sangue do enforcado. Esse pesadelo atroz passou. Agora neste inferno respira-se; o esparto do carrasco já me não aperta em sonhos a garganta. Já fito os olhos no céu, e reconheço a providência dos infelizes. Ontem, vi as nossas estrelas, aquelas dos nossos segredos nas noites da ausência. Volvi à vida, e tenho o coração cheio de esperanças. Não morras, filha da minha alma!"

Ia alta a noite, quando Teresa, sentada no seu leito, leu esta carta. Chamou a criada, para ajudá-la a vestir, Mandou abrir a janela do seu quarto, e encostou as faces às reixas de ferro. Esta janela olhava para o mar, e o mar era nessa noite uma imensa flama de prata; e a Lua, esplendidíssima, eclipsava o fulgor dumas estrelas que Teresa procurava no céu.

— São aquelas! - exclamou ela.

— Aquelas que, minha senhora? - disse Constança.

— As minhas estrelas!... pálidas como eu... A vida! ai! a vida! - clamou ela, erguendo-se, e passando pela fronte as mãos cadavéricas - Quero viver! Deixai-me viver, ó Senhor!

— Há de viver, menina! Há de viver, que Deus é piedoso! - disse a criada - mas não tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande mal.

— Deixa-me, deixa-me, que tudo isto é viver... Não vejo o céu há tanto tempo! Sinto-me ressuscitar aqui, Constança! Por que não tenho eu respirado todas as noites este ar? Eu poderia viver alguns anos? Poderei, minha Constança? Pede tu, pede muito à minha Virgem Santíssima! Vamos orar ambas! Vamos, que o Simão não morre... O meu Simão vive, e quer que eu viva. Está no Porto amanhã, e talvez já esteja...

— Quem, minha senhora?!

— Simão; o Simão vem para o Porto.

A criada julgou que a sua ama delirava, mas não a contrariou.

— Teve carta dele a fidalga? - tornou ela, cuidando que assim lhe alimentava aquele instante de febril contentamento.

— Tive... Queres ouvir?... Eu leio...

E leu a carta, com grande pasmo de Constança, que se convenceu.

— Agora vamos rezar, sim?... Tu não és inimiga dele, não? Olha, Constança, se eu casar com ele, tu vais para a nossa companhia. Verás como és feliz, Queres ir, não queres?

— Sim, minha senhora, vou. Mas ele conseguirá livrar-se da morte?

— Livra; tu verás que livra; o pai dele há de livrá-lo... e a Virgem Santíssima é que nos há de unir. Mas, se eu morro... se eu morro, meu Deus!

E, com as mãos convulsivamente enlaçadas sobre o seio, Teresa arquejava em pranto.

— Se eu não tenho já forças!... Todos dizem que eu morro, e o médico já nem me receita!... Então melhor me fora ter acabado antes desta hora! Morrer com esperanças, ó Mãe de Deus!

E ajoelhou ante o retábulo devoto que trouxera do seu quarto de Viseu, ao qual sua mãe e avó já tinham orado, e em cujo rosto compassivo os olhos das duas senhoras moribundas tinham apagado os seus últimos raios de luz.

Notas[editar]

  1. Este romance foi escrito num dos cubículos-cárceres da Relação do Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pela sombra das abóbadas. Ano da Graça de 1861.