Anexo:Imprimir/Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis
NEOLOGISMOS INDISPENSAVEIS
E
BARBARISMOS DISPENSAVEIS
COM UM
VOCABULARIO NEOLOGICO PORTUGUEZ
....Ego, cur, acquirere pauca
Si possum, invideor, quam lingua Catonis et Enni
Sermonem patrium ditaverit?
Horat. Ant. Poet.
Si Ennio, e Catão formando novas vozes,
Enriqueceram muito o patrio idioma,
Eu tomara saber com que justiça,
Si accrescento uma, ou outra me censuram?
Trad. de Candido Lusitano.
Typ. de G. Leuzinger & Filhos, Rua d’Ouvidor 31
1889
DUAS PALAVRAS
SOBRE A
ORTHOGRAPHIA POR MIN SEGUIDA
Tanto, quanto é possivel, sigo a orthographia etymologica.
No prologo d’este opusculo, e no presente artigo dou o spécimen da que en minha opinião deveria ser adoptada na lingua portugueza; mas para não escandalizar os leitores com a estranheza do modo de orthographar as palavras vernaculas, empreguei no corpo da obra a orthographia en geral usada; mas que não é rigorosamente etymologica.
Discute-se desde remotas eras a preferencia entre os modos de orthographar, etymologico, e phonetico; e na lingua portugueza adhuc sub judice lis est.
O que porèn não soffre contestação é que a multidão dos sectarios da primeira representa ũa, maioria esmagadôra do limitadissimo numero dos apologistas da segunda.
Posto que sigo, conforme declarei, a orthographia etymologica, não cançarei a quen me ler, desenvolvendo argumentos tendentes a mostrar a excellencia d’aquella; por que para conseguir o mesmo fin bastaráõ as ponderosas razões, que apresentarei contra a orthographia phonetica.
Çhamão tamben (para disfarçar a contradicção) orthographia mixta aquella, en que o escriptor, sendo etymologico en ũas, deixa de ser en outras palavras; por exemplo, para não citar mil outras, xarope, que todos os diccionaristas escreven com — x —, devendo escrever com — çh —; pois que ven do arabe chorbet, cuja raiz é o verbo charab, beber.
Eu não uso de euphemismos en materias didacticas; tal orthographia, çhamada mixta, é contradictoria e incoherente; é a de todos os diccionarios portuguezes.
O poncto vulneravel dos sectarios da orthographia sonica é a impossibilidade de se açhar a verdadeira e melhor pronuncia para por ella se regular o modo de escrever.
Com effeito, qual o padráõ, a que se deva reportar quen quizer escrever as palavras, conforme a pronuncia?
Não varía esta, segundo os tempos, os logares de ũa mesma nação, as pessoas, os sexos, e até as phases da vida de câda homen?...
A este irrespondivel argumento não podendo mais resistir, eis que cântaõ ja a palinódia os orthographistas phoneticos, dizendo que «Uã orthographia phonetica é practicamente impossivel, como o declara Mr. Arsene Darmesteter (Question de la réforme orthographique, Paris, 1888); accrescentando que «orthographia phonetica só deve ser a orthographia que se contente com UN POUCO MAIS OU MENOS PHONETICO (orthographia de pouco mais ou menos, digo eu): en summa, «que a orthographia sonica não deve ser mais do que a simplificação da orthographia usual (!!!)
Isto não merece refutação séria. E é tal litterato que pretende acabar com a orthographia etymologica na França, na Belgica, na Allemanha, na Inglaterra, e nos Estados-Unidos!!...
Bástaõ alguns exemplos de phrases com palavras parônymas, para que fique evidente a ambiguidade, que da orthographia phonetica pode muĩtas vezes resultar.
«Esta velha arvore não tên era».
Será este vocabulo — «era» — synônymo de duração, epocha; ou o nome de ũa planta (hera)?
Com a orthographia etymologica tal duvida desapparece.
«Elle estava coberto de luto». Será o vestido que indica dó, ou a palavra lôdo, lama?
A observancia da orthographia etymologica, collocando-se — c — antes do — t —, tira toda a ambiguidade.
E como estas, muĩtas outras proposições equivocas, onde entrassen as palavras parônymas cerrar (com — c —), e serrar (com — s—), servo (com — s—), e cervo (com — c —), etc.
Mas ha no mundo ũa nação néo-latina, que segue a orthographia sonica; e nisto fundando os Ibérophilos o seo argumento — Hercules, suppõe esmagar a hydra etymologica.
Vejamos.
Não é tão absolutamente exacto, como proclamão os defensores da orthographia sonica, que os escriptores hespanhoes empreguen exclusivamente a orthographia phonetica.
Un livro importante, e da maior auctoridade neste assumpto vae confirmar o que acabo de dizer.
Lê-se na Orthographia (com th e ph) española compuesta y ordenada por la Real Academia Española (1741) o seguinte.
«Nos primeiros livros do nosso idioma (hespanhol), como a lingua era filha da latina, na maior parte de seos termos, e os que a falavão e escrevião, estavão mais proximos dos latinos, observava-se a orthographia quasi inteiramente latina, como se vê dos livros dos Fóros, das Leis, e de outros documentos antigos; e assin se açhavão nelles vozes escriptas com a mesma duplicação de consoantes, de que usavão os latinos; e durou tanto esta opinião, que escrevendo Antonio de Nebrixa o seo tractado de orthographia hespanhola regulou-o quasi inteiramente á latina».
Continúa depois o auctor declarando que com o correr do tempo se fôrão os escriptores afastando da etymologia grega e latina; mas não tanto, que de todo a orthographia etymologica desprezassen.
E mais o confirma, quando na pagina 93 da obra citadada dá como regras principaes da orthographia hespanhola a observancia dos tres seguintes ponctos: pronunciação, (que confessa não ser base solida), origens, (note-se ben — origens, isto é, etymologia) e uso.
Alén d’isto nesse volumoso tractado de Orthographia composto e ordenado pela Real Academia Hespanhola vê-se que o auctor faz reflexões tendentes a mostrar que não só nos nomes proprios de homens, de logares, de sciencias, e de artes; mas até en muĩtas palavras, foi seguida a orthographia etymologica.
Com effeito, os Hespanhóes escrêverão theatro (com — th —) rhitmo, (com rh) hablassen com dous ss, e do mesmo modo os preteritos imperfeitos do conjunctivo en todos os verbos.
Tudo porèn alterárão depois, escrevendo phoneticamente, para não seren incoherentes; peçha, de que ainda hoje não se poden dizer abstergidos.
Para justificar as minhas ultimas palavras, lembrarei que todas as terceiras pessoas verbaes no plural escréven elles com — n —, assim como a preposição en (in latino, ou en grego), sen falar de muĩtos outros vocabulos, cuja orthographia é mais etymologica do que a seguida, e aconselhada pelos nossos lexicographos, que se dizen etymologistas.
Foi portanto un capriçho esse afastamento do primitivo modo de orthographar; capriçho originado pelo antagonismo internacional; buscando os hespanhóes en tudo se segregar, e distinguir dos portuguezes, que tamben por seo turno deixárão de orthographar muĩtas palavras pelo modo, por que primitivamente o fazião, só para se não pareceren com os seos visinhos.
O adjectivo bello, de origen latina, que se escreve com dous ll, é do mesmo modo escripto en hespanhol, com preferencia á orthographia phonetica, como se vê nos diccionarios da mesma língua.
Com estes e outros argumentos poderia eu provar, que a orthographia hespanhola (ainda hoje incoherente) é, cæteris paribus, mais etymologica do que a portugueza; mas tal não é o escôpo, a que me dirijo; porquanto o que só desejo é explicar os motivos, en que me fundei, visto que sigo a orthographia etymologica, para escrever de modo diverso algũas palavras.
Escrevo — muĩto — com til; por que sen aquelle signal de aspiração as lettras ui sôarião como nas vozes cuido, descuido, fluido, fortuito, gratuito, intuito.
Camões escreveu muito sen til, e rimou-o com fruito, por que naquelle tempo dizia-se á latina fruito (do verbo fruor, eris, fruitus, &), e pronunciava-se o vocabulo — muĩto — sen aspiração.
As palavras — un — (e seos compostos) son, ton, bon, origen, e todas aquellas, cuja syllaba final é aspirada, ou nasalada escrevo-as, como se deve, com til, ou com — n —; porque en latin são escriptas com — n —; e ainda mais, porque quando as pronunciamos en portuguez, produzimos son nasal.
De todas estas palavras se fórma o plural accrescentando — s —, sen haver necessidade de inventar-se a transformação do supposto e absurdo — m — no singular en — n — no plural.
A preposição en não póde, não deve ser escripta com — m —. Nas outras linguas néo-latinas essa preposição é escripta com — n —; o francez escreve — en —; o hespanhol — en —; o italiano — in —: alén d’isto en grego, d’onde passou para o latin, mudando apenas o — e — en — i — (in) essa preposição é en —. Até en inglez, e allemão, que não são linguas néolatinas, esta preposição se escreve com — n — (in), e quando en allemão se encontra — im — com — m —, é por ser a contracção de — in — e do artigo — dem. —
Por que ha de então en portuguez escrever-se com — m —?
Não é ella pronunciada com son nasal? Onde teve jamais a lettra — m — son nasal? Quando se pronuncia — m —, apertão-se os labios. (Vede Moraes, lettra M.)
Pouco ou quasi nada se attende hoje a euphonia na linguagen: aquelles rigorosos preceitos de phonação, de que a lingua grega nos dá provas, accentuando as vogaes, e empregando os espiritos rudes, e brandos, parece que de todo estão en portuguez desprezados; quando, por exemplo, se escreven com — m — final palavras, que nasalmente se pronuncião.
O sanskrito, que sobre todas as linguas leva essa severidade harmonica ao mais subido grão, não emprega nas palavras lettras, que não sejão da mesma classe.
E d’esta lingua sen duvida algũa a parte mais difficil para os que hoje não conhecen essas leis musicaes da linguagen.
O — m — final nesta lingua soffre córte, e suppressão antes de certos suffixos; outras vezes se muda en — n —.
E por que incidentemente falei do — m —, julgo conveniente explicar un poncto, com certeza até hoje ignorado.
Mandão todos os ortographistas que antes de — b — p — e — m — sempre se escreva— m —; a razão porèn, que ainda ninguen a deu, é a seguinte, a qual para melhor explicar repetirei o que diz a grammatica sanskrita.
O conhecimento da euphonia sanskrita derrama muĩta luz sobre grande numero de mutações, que nas linguas occidentaes são consideradas irregulariddes; entretanto que fundamentalmente são consequencias naturaes de antigas leis, simples e geraes, en parte cahidas en desuso; mas a que o instincto popular ainda obedece.
Quando, por exemplo, da preposição en (portugueza) e do verbo beber se forma a palavra — Imbeber —, esta troca do — n — en — m — não é simples capriçho; não é uma excepção; não, absoeutamente não. É que seguimos a regra sanskrita, substituindo á nasal da orden das dentaes (n) a nasal que pertence á orden das labiaes (m); é uma lei physiologica.
A respeito da preposição – sen — escripta com — n — milítão as mesmas razõess que dei, quando justifiquei o emprego do — n — substituindo o — m — da preposição em.
En todas as linguas derivadas do latin esta preposição é escripta com — n — medio, ou final; no latin — sine —; no hespanhol — sin —; no francez — sans —; no italiano — senza.
Todos os substantivos, que erradamente se escreven en portuguez com — m —, (taes como ordem, origem, homem, e seos compostos pronominaes alguem, ninguem, quem, não vêen do accusativo ordinem, originem, hominem, aliquem, neminem, quem. A apparencia illudiu os grammaticos: nascen todos esses vocabulos do ablativo do singular — ordine, origine, homine, aliquo homine (alguem) nec homine (ninguem) quem (que homem). Cahe en todos elles a syllaba media e breve — i —; e por adoçamento da pronuncia diz-se ord-en en vez de ord-ne, orig-en en logar de orig-ne, hom-en en vez de hom-ne, effectuando-se a mesma alteração, com as devidas transformações, nas palavras alguen, ninguen, quen.
Por motivos oppostos, mas fundados nos mesmos principios escrevo com empregando a consoante final — m —; obedeço á etymologia, (cum latino, que se escreve com — m —) e á phonação; porque proferindo o vocabulo — com —, não produzo son nasal.
Os hespanhóes violárão aqui a etymologia, escrevendo con (preposição) com — n.
Ũa das razões, que mais reforça a opinião de que a preposição portugueza en deve ser escripta com — n —, e não com — m —, é que, quando se lhe seguen os artigos o, a, e os adjectivos este, esta, isto, esse, essa, isso, aquelle, aquella, aquillo, o — n —, que a todas estas palavras precede, é a consoante final da preposição — en —, que apenas por apherese perde a primeira lettra; ao passo que admittindo-se a absurda orthographia do — m —, dizen os grammaticos que nas palavras no, na, neste, nesta, nisto, nesse, nessa, nisso, naquelle, naquella, naquillo, a preposição — em — (orthographia errada) perde o — e —, e muda o — m — en — n!!
Permitta-se ũa comparação: as palavras compõe-se de ũa parte fixa, invariavel, (radical) e de outra variavel, sujeita a mudanças (suffixo).
Tèen, pode-se dizer, alma e corpo. Nesta hypothese, perdidas na preposição em (orthographia errada) alma e corpo da palavra, isto é, o radical e o suffixo, esse — n — é ũa entidade nova!!...
Abyssus abyssum vocat.
Min com — n —, e não — mim — com— m —; é como se deve escrever: prova-o a orthographia, e a pronuncia da variação feminina do adjectivo pronominal feminino — min — h — a —; onde está intercalado o signal de aspiração — h —.
En alguas provincias do norte do Brazil (Pernambuco, principalmente) a pronuncia da palavra — compan — h — ia —, e semelhantes se faz com aspiração do — h —, e não por nasalação.
Tendo dicto que escrevo com bon fundamento un e todos os seos compostos com — n — final, parecerá que a variação feminina deveria conservar o — n —; e então ter-se-hia de pronunciar — u — n — a, — algu — n — a —, nenhu — n — a, etc.
Aqui não ha nasalação, mas aspiração na pronuncia; e por isso deve empregar-se o — til —; que é signal de aspiração, correspondente, segundo penso, ao espirito brando en grego.
É por isto que se deve pronunciar ũ-a, e seos compostos; e não — u-m-a, (por que tal — m — não existe no ablativo latino — una, d’onde u’a se deriva) algũa, nenhũa.
Cumpre advertir que en latin, nos adjectivos bon-us, un-us, e semelhantes por conteren — n — no radical, esse — n — não faz syllaba com a vogal seguinte do suffixo — us —, — a —; e portanto a pronuncia devêra ser aspirando a primeira syllaba, bon...us, bon...a, un...a; e tanto isto é verdade, que en Portugal, en alguns logares, se pronuncia bôn-a sen junctar o — n — do radical ao — a — do suffixo.
Já que falei do til, o qual apenas dizen os diccionarios ser signal orthographico, não será fóra de proposito dar-lhe a etymologia, que não açhei en parte algua.
Supponho que procede de tignulum (varinha), perdida a syllaba média breve, e a final — um — tamben breve.
O til não suppre jámais as lettras — m — е — n; — é signal de aspiração (espirito brando en grego); ou talvez exerce a mesma funcção que o Anuswara en Sanskrito, que se colloca debaixo do — m —, ou sobre o — n.
Pescoço, e almoço, que todos os diccionarios escréven d’este modo, (com — ç — cedilhado) não os escrevo eu, attendendo á etymologia. Pescôsso ven de pectus (peito), e do ablativo latino osse (ôsso), perdida a sylaba — tu —, e passando o — s — por adoçamento da pronuncia para juncto da syllaba — pe — (pesc): o — e — final do ablativo latino osse mudou-se en — o —, terminação quasi universal do genero masculino en portuguez.
Tão verdadeira é esta etymologia, que en hespanhol se diz pescueso (pectus e hueso, ôsso).
A etymologia dada por Constancio á palavra pescosso é de fazer rir; diz que vên de collum, i, e bos, ovis!
Almôsso, opina este mesmo auctor, que se deriva de Al, artigo arabe (o), morgen (manhã, en allemão), e essen (comer, en allemão): não obstante, escreve a palavra con — ç — cedilhado; o que é contradicção com a propria etymologia por elle apresentada.
Eu entendo que no vocabulo almôsso entra o artigo arabe al (o); o adverbio latino mane (de manha), e o verbo latino esse (comer).
Açho porén singular que vindo, como vên o substantivo allemão morgen do adverbio latino mane (de manhã), e o verbo allemão essen do verbo latino esse, preferisse aquelle philologo a etymologia allemã ao latin, d’onde aquellas palavras evidentemente se derivão.
Escrever portanto almôsso com — ç — cedilhado é violar a etymologia.
Çh com cedilha! Proh pudor! exclamaráõ talvez os que se sobresaltão com as novidades orthographicas.
O ch tên en portuguez ũas vezes son duro, outras çhiante. O leitor illitterato, e o estrangeiro não saberáõ de certo, quando devão pronuncial-o d’este ou d’aquelle modo. — Nao vale o argumento dos que dizen que o sentido da phrase guiará o leitor; porque a seguinte proposição, por exemplo, é tão ambigua, como as respostas dos antigos oraculos: «Un grande chôro de crianças echoava por toda a sala».
Esse — chôro — assin escripto, e desprovido de distincção graphica, póde, sen offensa da logica, ser ou o derramamento de lagrymas, ou a reunião de vozes cantantes.
A cedilha porén no çh tira toda a duvida; lê-se çhôro com son chiante.
China, e China, escriptos sen cedilha, não indicão qual das palavras é o nome da casca Peruviana, e qual o do celeste imperio.
Examinemos agora o valor de — ch —.
Que o nosso — c — vên do χ grego, (ki) parece-me indubitavel. O χ (ki) grego tên son duro antes de qualquer vogal; o — c —, que é en portuguez a representação graphica d’aquella consoante, tinha tamben nos primitivos tempos son duro, mesmo antes do — e — e — do — i —; tanto que en livros e manuscriptos antiquissimos ce, e ci se encontrão cedilhados, para exprimir o son brando.
Cahiu depois en desuso a cedilha no ce e ci, porque en nenhũa palavra portugueza aquellas syllabas se pronuncião duras; sendo por isso superflua a sotoposição da cedilha ao ce, e ao ci.
O — h —, simples signal de aspiração (espirito orthographico no grego) vindo logo após o — c —, quando se seguen as vogaes — a —, — o —, — u — não faz sentir en portuguez aspiração forte; porque en nossa lingua pouquissimas são as vozes aspiradas, e nessas mesmas é brandissima a aspiração, como — ba-hi-a, sa-hi-a, que por isso se distinguen de báia, e sáia.
Expostas estas considerações preliminares, vejamos como e porque o çh cedilhado produz son çhiante.
É necessario ainda notar que a çhamada cedilha outra cousa não é mais, do que o sigma (lettra — s — en grego, ς), de sorte que o — ç — cedilhado adverte o leitor, dizendo: «Este — c — não tên son duro, mas sibilante, por causa do — S — (sigma), que lhe está sotoposto.
Pronuncie-se agora un son sibilante, aspirando-o ao mesmo tempo: qual será o resultado?
Sen duvida algũa un son çhiante?
O — ç — cedilhado vale portanto o mesmo que — s —; e todos os que conhecen a lingua allemã saben que sch reunidos fórmão son çhiante.
Creio haver justificado o meo modo de orthographar o ch, quando deva ter son çhiante.
Sôbre todas estas considerações está a de evitar a ambiguidade na pronuncia.
Meo, teo, seo, céo, Deos escrevo etymologicamente com — o —, e não com — u —; posto que a ultima reforma no modo de graphar estas palavras julgou ter-se fundado na etymologia, aconselhando escrever com — u —.
Escrevia-se outr’ora Deos, meo, teo, seo, céo, véo, & com — o —; mais tarde allegou-se que escrevendo-se en latin Deus, meus, tuus, suus, cælum, velum com — u —, deverião tamben todas estas palavras ser escriptas com — u —, e não com — o —.
O argumento era especioso, e embaíu até hoje os que se presumen de mais etymologicos na orthographia.
Do ablativo latino, caso que exprime o maior numero de relações, e por isso o que deveria ser com maior frequencia repetido, descendêrão quasi todos os substantivos e adjectivos portuguezes: isto é incontestavel.
Depois do ablativo é o accusativo o caso, que dá mais abundante numero de substantivos, e adjectivos portuguezes.
Por consequencia, escrevendo eu a palavra Deos com — o —, tiro-a do ablativo; quando não queiramos ir buscal-a ao grego Theos, que me parece a verdadeira origen; pois que do grego se derivou o substantivo latino — Deus —.
Quanto a meo, teo, seo, céo, veo, & tamben do ablativo as faço derivar.
A prova da minha asserção está en que não se escreve — reino — com — u —, sendo en latin regnum, Pedro com —u —, sendo en latin Petrus; gelo com — u —, sendo en latin gelu; tecto com — u —, sendo en latin tectum; e mil outros vocabulos, que todos se escreven en portuguez com — o —; posto que en latin sejão escriptos com u no nominativo, com excepção de tribu, que en portuguez conserva o — u — do ablativo latino, por ser este vocabulo derivado do ablativo tribus, (en tres) que erão as tres divisões, en que Romulo classificou o povo romano.
E perguntarei: Quen escreverá mais etymologicamente esta phrase: = Perdi meos livros = o que escrever meos com — o —; ou o que empregar o — u —?
Certamente, quen a escrever com — o —; por que en latin se diria — Perdidi libros meos —.
Aos que se escandalizarem por ver pais escripto com — s —, e não com — z —, direi que, seguindo eu, como sigo, tanto quanto é possivel, a orthographia etymologica, deveria empregar — s —, e não — z — na syllaba final d’aquella palavra.
Todas as linguas derivadas do latin escreven — pais — com — s — o hespanhol diz país, o francez pays, o italiano paese: por que hade o portuguez usar do — z —, e hão de aconselhar tal orthographia os lexicographos, que se dizen etymologicos?
Ou são, ou não são etymologicos no modo de orthographar; não comprehendo essas excepções arbitrarias com violação da etymologia.
A regra orthographica, que manda escrever com — z — a syllaba final de um vocabulo, quando aquella é longa, deve ter excepção, si na raiz etymologica da palavra ha — s —; por que en tal caso conserva-se o — s — etymologico, collocando-se accento agudo na vogal, como en naris, (do latin naris), Luis (do latin Ludovicus).
É anti-etymologica essa regra de escrever com — z — toda e qualquer palavra, cuja syllaba final é longa; e por isso até hoje se tên erradamente orthographado pais escrevendo com — z —.
Si é verdadeira tal regra, por que com — z — não escreven tamben os sectarios de tal orthographia — produzis, traduzis, abris, cobris, vestis, e todas as segundas pessoas do plural do presente do indicativo?
Naturalmente; por que sería contra a etymologia latina: sejão portanto coherentes; pois que a etymologia de pais é patriis, onde ha o — s — final depois dos dous ii contrahidos, que fazem a syllaba longa.
O — z — medio ou final é quasi sempre a transformação do x, ou do — c — en latin; voz, (vox) luz, (lux) noz, (nux) arrôz; (oryza) outras vezes ven do arabe, por exemplo, azeite (da palavra arabe seyt) azul (tamben da arabe azrag, ézrag, zuruq).
Pais vên do ablativo do plural patriis; effectuada a quéda do tr, a contracção dos dous i i torna longa a syllaba; e a quantidade longa é indicada pelo accento agudo, que faz parte, com os accentos grave e circumflexo, da orthographia portugueza, que do grego os herdou.
É raro açhar-se hoje quen na escripta use de accentos orthographicos; omissão, que deve ser castigada.
Os accentos fazen parte integrante e essencial da orthographia portugueza: en grego, en hespanhol, en francez, en italiano não se desprezão, não se dispensão.
Mas a ignorancia, e muitas vezes a astucia são causa do desprezo dos accentos; por que accentuando o que escrevêssen, revelarião muĩtos escriptores a sua errada pronuncia: deixão portanto na duvida os leitores, como o fazen tamben alguns lexicographos.
A terceira pessoa do singular do preterito perfeito do indicativo escrevi sempre com — u —; por que en latin nos verbos da segunda conjugação ha — u — nesse tempo, modo, numero, e pessoa; e nas outras conjugações, embora não esteja claramente escripta a lettra — u —, ainda assin ahi existe transformada en — v — , como vestigio do preterito fuit.
A anarchia, a contradicção no modo de orthographar, en uma palavra, a incoherencia não reinão sómente entre o povo; os proprios lexicographos, ainda os mais afamados, commétten a câda passo erros palmares de orthographia, violando a etymologia d’aquellas mesmas palavras, cujas origens aponctão.
Undique turbatur...
Era forçoso entrar en todas estas minudencias, que com o sêren, nen por isso são menos importantes.
Os acanhados limites da presente obrinha apenas me permitten esflorar as questões ortographicas, aqui suscitadas, que en obra especial serião cabalmente discutidas.
Ja prevejo o espanto, a grita, e até talvez a zombaria que hão de causar todas estas novidades: não importa; os proprios que se arripiaren, reflectindo, passada a primeira impressão, veráõ que sou coherente; e que não assentei en alicerces arbitrarios a construcção orthographica.
Quaes serão as objecções sérias contra esta orthographia etymologica, e não contradictoria?
Os mais cordatos diráõ talvez: São verdadeiras, são logicas, são convincentes as razões; mas o uso faz lei; agora é melhor deixar tudo no statu quo ante reformationem. —
O uso faz lei! D’aquella proposição horaciana, en que diz o grande Mestre ser o uso o que tên o arbitrio, o direito, e a norma do falar.
...Si volet usus, Quem penes arbitrium est, et jus, et norma loquendi. tên-se por modo tal abusado, que interpretando-a en toda a latitude, poder-se-hão desculpar todos os erros do falar, e do escrever, ũa vez que o uso popular os vá impunemente repetindo durante seculos.
Todo o tempo é tempo de emendar, de corrigir faltas e erros de qualquer orden: aquella sentença não póde ter a amplitude, a extensão, que se lhe quer dar; sería absurda tal interpretação.
Porque houve homen, que até aos oitenta ou noventa annos peccou, não se ha de corrigir e emendar, podendo fazel-o, só pela consideração de que tendo peccado tanto, não importa peccar un pouco mais?...
Na Republica das lettras ha tamben Auctoridades; que são os Philologos, os Grammaticos, os Mestres da linguagen.
Essas Auctoridades, pelas leis que decretão, dêven ser respeitadas da plebe insurgente, e ignorante; aliás nessa Republica prevalecerá a anarchia.
Si tudo póde o uso popular no modo de escrever, e de falar, não se escrevão mais Grammaticas, não se componhão mais codigos orthographicos: fale, e escreva câda un como lhe aprouver.
Até agora ten-se orthographado a lingua portunueza erronea e contradictoriamente: podendo, como poden, taes erros ser emendados; nada deve impedir essa emenda e correcção.
Por que en direito se admitte (iniquidade injustificavel!) que aquelle que estiver de posse de ũa propriedade alheia durante 30 annos, é legitimo possuidor pelo facto de a ter gosado todo esse tempo, não se imite na orden litteraria tão absurdo principio, que equivale á affirmação de que a falsidade por ser de longa data se póde transformar en verdade; que os erros orthographicos, e grammaticaes por seculares poden ser considerados acêrtos.
Mas quen ha de tornar effectiva, e fazer respeitada a auctoridade litteraria dos Philologos, dos Grammaticos, dos Mestres da linguagen?
Nos países, en que as lettras e sciencias fórmão un ramo sério da administração publica, é o Governo, a quen tal tarefa incumbe.
No Brazil porèn que Ministro, ainda o que se presuma homen de lettras, ũa vez envolvido na intriga politica, que lhe occupa todo o tempo, cogita de taes bagatelas? De minimis non curat Minister...
Tenho razão de escrever sen observar conveniencias sociaes. Propuz-me compôr un Codigo orthographico da lingua portugueza para o Imperio do Brazil; un amigo, distincto homen de lettras, sen que eu pedisse, apresentou ao Governo essa proposta, en cuja execução não despendia o Estado dinheiro excedente dos orçamentos.
Mais de un anno se passou, sen que cousa algũa se resolvesse, pedindo eu apenas por tres ou quatro vezes a restituição de tal proposta, que até hoje não me voltou ás mãos.
Si isto succede, sendo Ministros muĩtos d’aquelles, de quen tive a honra de ser Mestre, e que se dizen amigos, o que mais se deve esperar?
Declaro que este desabafo não é filho de despeito, mas de tedio, e mais ũa prova do estado, en que se açha este país, onde tudo é apparencia, e tramoias theatraes.
Nada quero de governos, nen presentes, nen futuros; quer monarchicos, quer republicanos; si o quizesse, ben saberia o caminho para chegar a esse fin; que entre outros, quasi sempre ignobeis, seria apresentar-me folliculario politico, isto é, pôr escriptos para vender-me.
Nada peço, nada quero, nada acceitarei; por que a minha opulencia está solidamente firmada na completa ausencia de ambições mundanas; finalmente por que possuindo como unica nobreza a dos meos sentimentos, tenho por motte do meo heraldico brasão — Solus Deus.
RECLAME
A todos os homens de lettras, que falam a lingua portugueza, foi sempre manifesta a difficuldade de dar n’aquella lingua o termo equivalente á palavra franceza — Reclame.
Tinha quasi passado em julgado havermos nós, que falamos a lingua de Camões, necessidade de enxertar no idioma vernaculo aquelle vocabulo exotico.
Mas si o portuguez não possue palavra que traduza exactamente o termo francez reclame, porque não formaremos um neologismo, uma vez que venha este de fonte latina, conforme o preceito do grande Horacio, que os permittia no latim, derivados græco de fonte?...
Reclame tem, em francez, além de outras, a significação especial, particularissima, de — annuncio em que se elogia, se engrandece alguma cousa: une reclame é portanto um annuncio preconisador.
Sabemos todos que — preconisar é apregoar exaltando, engrandecendo as qualidades de alguma cousa; como o faz o pregoeiro judicial, ou o leiloeiro.
Forme-se, pois, com estes elementos uma palavra nova: tome-se o radical — Precon, de præconium (em latim voz do pregoeiro); e se lhe agglutine o suffixo — nicio — (do ablativo latino — nuncio, noticia, annuncio) mudando o — u — em — i —, e fazendo cahir o — n — que precede o — c — para adoçamento da pronuncia; e ter-se ha a euphonica palavra Preconnicio —, de formação erudita e ascendencia legitima.
Encerrando, como encerra, o novo vocabulo preconnicio as mesmas idéas que o termo francez reclame, isto é, exprimindo preconnicio pelos seos elementos constituintes, um annuncio preconisador, um annuncio em que se exalta e engrandece alguma cousa, tem este termo novo portuguez a mesma significação que reclame, pelo que perfeita e completamente o traduz.
Os francêlhos e tarecos hão de talvez torcer o nariz; os que o não forem, estranharão ao principio, como succede com a roupa nova, por melhor talhada que seja; reflictam porém os espiritos desprevenidos; que á força de empregarem o termo novo, acabarão por lhe tirar a estranheza, dando-lhe fôro de cidade, si o julgarem d’isso merecedor.
Moraes (7ª edição) traz infelizmente a palavra franceza, ou antes, o vocabulo reclamo com o sentido de reclame francez.
Não deve ser usado; mas preconnicio.
PINCE-NEZ
Velhos e velhas, moços e moças, e até crianças, usam de uns oculos, que se fixam sómente no nariz; e não obstante dizer-se que em Portugal e no Brazil se fala a lingua portugueza, no Brazil e em Portugal toda a gente çhama essa especie de oculos — Pince-nez; isto é, emprega um termo francez, que nem em francez, nem em portuguez da idéa alguma do fim, a que é destinado tal objecto.
Com effeito — Pince-nez, — é vocabulo composto de duas palavras francezas, que unica e exclusivamente significam — aperta-nariz, belisca-nariz. Formada com taes elementos, ninguem póde comprehender que tal palavra designa um instrumento proprio para melhorar os defeitos da vista.
Que os francezes conservem lá o seo pessimo neologismo (podendo ter creado o termo — Nez-lunettes), não nos deve importar; mas, que adoptemos nós outros essa palavra, a qual, além de exotica, não exprime absolutamente a serventia do objecto, isso é que não.
Crèe-se, pois, um neologismo, porque assim é indispensavel; e em vez de Pince nez, que nem em francez, nem em portuguez dá idéa alguma de oculos, mas apenas e sómente significa cousa que aperta o nariz, belisca o nariz, diga-se Nasoculos (do ablativo latino naso, nariz, precedendo ao vocabulo portuguez oculos).
Ninguem, ao ouvir a nova palavra, deixará de perceber que se fala de oculos fixados no nariz; mas vingará o termo expressivo Nasoculos?... A palavra é euphonica, curta, de ascendencia legitima e nobre; em summa, indica exacta e perfeitamente o fim e emprego do objecto.
Nada portanto de hesitações; quebre cada qual o seo pince-nez, por ser de pechisbeque; que eu de graça offereço Nasoculos de ouro de lei, productos da industria nacional philologica.
Nasoculos só se emprega no plural; não se deve dizer: nasoculo.
CACHE-NEZ
Atravessamos rigoroso estio; calamitosa secca ameaça produzir funestissimos resultados; não cahem chuvas abundantes; o frigido sudoeste não açouta montes, nem valles; capas, mantas e capotes estão por consequencia actualmente sem prestimo; jaz no fundo da gaveta o cache-nez.
O cache-nez?... Mas por que hei de eu usar de uma palavra franceza, si estou falando portuguez?... Responder-me-hão que é por não haver outra, que lhe corresponda na lingua de Camões.
Nada; quando uma filha não tem, por exemplo, çhale para se resguardar do frio, pede-o á sua mãe, e não a estranhos.
Não tem a lingua portugueza palavra equivalente em tudo a cache-nez? Pois peça á sua mãe, que é opulentissima, e na lingua latina açhará logo promptinho o focále, manta de lã usada pelos antigos romanos, com a qual cingiam o pescosso, e se resguardavam do frio, como se lê em Horacio e Marcial.
Troque portanto cada um o seo cache-nez por um focále, que é palavra euphonica e exprime exactissimamente os usos do cache-nez.
Não passou todo inteiro da lingua persa para o portuguez o vocabulo çhale?...
Porque não poderá passar tambem, e com maioria de razão, da lingua latina para a sua primogenita o termo focále?...
Reine, pois, o focále romano, e acabe- se a moda franceza do cache-nez.
Quando entrar o hynverno, hei de dar o exemplo; sahirei com o meo focále, collocarei os meos nasoculos, e não se julgue que é isto um preconnicio d'estes neologismos; hão de ver.
NUANCE-NUANCES
Era de verão: o thermometro marcava 35°; o calor abafava; o céo estava quasi negro; nuvens espessas e carregadas de electricidade despediam scentelhas deslumbrantes, seguidas de estrondosos trovões; a çhuva em torrentes alagava praças e ruas!...
Durou, porèm, só tres quartos de hora a tormenta, que foi pouco a pouco amainando, quando de repente mostrou-se esplendido aquelle meteóro, que o legislador hebreo indicou ao seo povo como signal de alliança entre o céo e a terra, e promessa inquebrantavel de não haver segundo diluvio.
Sem periphrase, os raios do sol poente esbatiam nas nuvens ralas, e desenhava-se um immenso e lindo arco-iris.
Mas ao que vem esta descripção de uma tempestade, terminando com a apparição do arco-iris?...
Para fazer comprehender o que os francezes çhamam — Nuance — no singular, e — Nuances — no plural, pareceu-me melhor exemplificar, do que definir o termo, que encerra idéas complexas.
No arco-iris aquella fusão quasi insensivel, e habilmente manejada pelo divino Artista, dos differentes tons da luz; aquella gradação de côres; aquellas differenças delicadas e subtis; emfim, aquella transição imperceptivel de uma para outra côr, eis ao que muĩto acertadamente çhamam os francezes — Nuance, Nuances.
Ha n’essa artistica combinação de côres como que uma duvida, que consiste em não se poder definir com exactidão onde morre uma, e onde nasce outra côr: a nuvem, ou nuvens reflectoras dos raios do sol apresentam n’esse phenomeno meteorologico um colorido dubio, ambiguo, que deleita a vista, deixando duvidosa a discriminação dos limites de cada côr.
Entremos agora na anatomia philologica. Foi para exprimir essa discriminação duvidosa das côres, que formaram os francezes a sua bella palavra — Nuance, Nuances, tirando a das duas latinas — Nubes, (nuvem) e — anceps — (duvidoso).
Ao vocabulo Nubes cortaram a ultima syllaba (bes), reduzindo-o ao prefixo — Nu —; e do adjectivo latino — anceps — supprimiram no singular o — ps —, e no plural somente o — p —; de modo que ficou em francez — Nuance — no singular, e Nuances no plural.
Não ha impugnação possivel contra esta etymologia, muĩto diversa da que dá Bescherelle, fazendo provir do verbo latino, — mutare — (mudar) a palavra Nuance, por que antigamente se dizia Muance; mas não explica d’onde vem o suffixo ance.
Não tinhamos em portuguez vocabulo, que exactamente exprimisse as idéas complexas de Nuance e Nuances; que deveriamos então fazer?... Nada mais simples: formarmos tambem nós, que falamos a lingua, que com pouca corrupção se crê latina, uma palavra que significasse exactamente todo esse conjuncto de idéas contido no termo francez — Nuance. E para que não haja duvida alguma de que o neologismo portuguez traduz as mesmissimas ideas que — Nuance em francez, engendremol-o com os mesmos elementos latinos, que serviram no francez á formação de Nuance, isto é, com as palavras latinas — Anceps (duvidoso) e nubes (nuvem).
Corte-se o — ps — de Anceps (Ance), dando a nubes o suffixo — io — ; e teremos Ancenubio; palavra doce, suave, euphonica, que de mais a mais tem já em portuguez por parente consanguineo — Connubio (formado de cum e nubes).
Fabricado com os mesmissimos elementos que Nuance, o vocabulo Ancenubio diz sem a menor discrepancia tudo quanto os francezes exprimem com o termo Nuance.
Está, portanto, não cortado, mas perfeitamente desatado o nó gordio: não mais arrancarão os cabellos os traductores, quando se lhes deparar a palavra Nuance ou Nuances; por isso que fielmente a podem traduzir por Ancenubio ou Ancenubios.
ABÂT-JOUR
V
Assim como no homem o organismo indica, por certos signaes, as perturbações do rythmo normal das funcções physiologicas, do mesmo modo o corpo social por certos symptomas revela tambem as alterações mais ou menos graves que o affectam.
O desapêgo, a indifferença e até a aversão aos vocabulos e construcções da lingua vernacula, com manifesta predilecção dos barbarismos, é um triste symptoma que traduz funesto desamor ás cousas da terra natal.
O povo, que começa por preferir o barbarismo, acaba por dar prova de falta de patriotismo. A linguagem é a imagem viva da patria.
Portugal e Brazil, paises, cuja lingua é filha primogenita da latina, são d’isto vergonhoso exemplo.
Desprezam-se as palavras portuguezas, empregadas pelos mestres da lingua, e vão pseudo-litteteratos de companhia com o povo, cujo gosto
corrompem, affagando e namorando termos barbaros, com criminoso desdem dos vocabulos nacionaes, suaves e euphonicos
...não sabidos
Das orgulhosas boccas dos sycambros.
Conhecem todos certo apparelho de papel, ou de vidro opaco, com que se cobrem os lampeões para diminuir a intensidade da luz: os francezes çhaman-n’o, e bem, Abât-jour.
Este neologismo francez, creado pela necessidade de dar nome ao dicto apparelho, repete-o tanto o portuguez como o brazileiro, e com muĩto gosto só pelo simples facto de ser palavra franceza.
Por que não traduziremos nós o tal — Abât-jour — por Lucivéo, ou Lucivélo? Não é esse apparelho exactamente um vèo da luz?
Cahirá no ridiculo, só porque é formado das palavras latinas — luci, de lux, ucis, luz, e de — velo — ablativo de velum, i, véo?...
MEETING
VI
Depois de haver declarado guerra á França, declaro-a agora á Inglaterra; mas não dou os passaportes ao representante da velha Albion.
Passada a épocha infantil da humanidade, quando ao tutelar governo dos Patriarchas succedeu o dos Juizes e dos Reis, quando, finalmente, a collectividade humana çhegou á idade em que se julgou emancipada, e, no pleno gozo sui juris, começou o povo a tomar a iniciativa na direcção dos publicos negocios, impoz-se á autocracia.
Esta tendencia data dos mais remotos tempos da Grecia e Roma. Por varias vezes e em diversos paises, uma das forças era n’essa lucta constante vencida pela outra; e, ora o rei, ora o povo governava.
Em vão engenhosas ficções, no intuito de conciliar ambos esses elementos de dominação, têm tentado estabelecer um equilibrio permanente: o povo, como as ondas do vastissimo oceano recuando diante das moles, que se lhes oppôem, para em outro poncto se elevarem na razão directa da pressão, o povo busca sempre erguer-se, como a labareda, que abafada por um momento, irrompe logo depois mais colossal e magestosa.
Mas que máo costume tenho eu! Ia já deslizando para o terreno da historia politica e social das nações...
O que tem tal historia com o neologismo, de que se vae tractar, perguntará talvez o leitor?...
Eu respondo: Meeting, palavra ingleza, adoptada pelos francezes, posto que significa — reunião — ajuntamento, — tem quando empregada em inglez, em francez e até na propria lingua portugueza (!), a especial accepção de uma reunião do povo, quasi sempre, ou antes, sempre convocada por orador, que se dirige ás massas populares para tractar de assumptos politicos ou sociaes.
Por muĩto natural associação de idéas correram dos biccos da penna para o papel aquellas considerações geraes sobre essa lite mais ou menos pacifica, entre o povo e os autócratas.
Ouve-se por toda a parte repetir o britannico vocabulo — meeting —; e eu que açho não termos necessidade de pedir emprestadas palavras ao inglez, (quando penso até que bem lhe poderiamos pagar os capitaes que nos têm adiantado) vou tambem convocar um meeting para a abolição do meeting.
Supponhamo-nos por um momento na praça publica; milhares de cidadãos, como uma basta floresta, agitando a cópa (a cópa dos çhapéos), esperam anciosos a çhegada do orador; eil-o que se ergue d’entre a multidão, como um poeta grego imaginaria Neptuno emergindo das ondas, mas sem tridente.
Ouçamol-o. — «Meos senhores, agradeço-vos primeiro que tudo vossa animadora presença. Serei breve; esto brevis, et placebis — preceito do grande mestre do bom gosto poetico. — A materia, com que vou occupar vossa attenção, não póde de modo algum sobresaltar a policia: não tenho necessidade de invocar em meo favor o direito, que as leis me outorgam de expor o meo pensamento; porque o assumpto é altamente patriotico, e mais que tudo, porque não attaca, não fere interesses de ordem alguma, quer social, quer politica.
Eu pretendo, meos senhores, que me ajudeis no empenho de banir um estrangeiro, um inglez, um intruso, que se quer nacionalizar, conservando, porém, o capriçho de falar só inglez.
Esse inglez çhama-se Meeting; metteu-se em França, e quer agora do mesmo modo asylar-se em nosso país.
Entretanto, senhores, um individuo desconhecido ainda de vós, mas de legitima e nobilissima ascendencia, deve em minha opinião occupar o logar que indevidamente é por esse inglez occupado. Esse desconhecido, que apezar de sel-o, é illustre, çhama-se Concião. — Sua mãe, rica e sabia matrona, tinha o nome de Concio (Concio, concionis); porque por seo intermedio era que se convocava a assembléa popular, a reunião do povo para a discussão de assumptos politicos e sociaes.
Prometti ser breve devo: cumprir a promessa. Vós, intelligentes e illustrados, assás comprehendereis, pelo que vos acabo de dizer, que de hoje em diante não mais se falará no tal inglez Meeting: Concião, só Concião, e, quando fôr preciso, Conciões tem de substituil-o. (Appoiados prolongados de toda a Concião; todos agitam os lenços e çhapéos, gritando: Abaixo o Meeting! Abaixo o Meeting! Viva a Concião! Vivam as Conciões!)
O orador desce, e abraçado pelo povo, vem em conversa fazendo ver que, por exemplo, quando se diz ou escreve — Direito de reunião — a palavra reunião não dá idéa perfeita e completa da especie d’essa reunião; cousa que a propria palavra meeting mesmo em inglez não exprime, sinão por tacita convenção; entretanto que concio, onis, significa exactamente reunião do povo convocada por orador para fim politico ou social.
E a um que lhe observou ser mais um nome em — ão, desinencia que o mimoso purista açhava dura, respondeu, e muĩto bem:
— Essa desinencia já foi mais dura; no antigo portuguez era, como no hespanhol, e francez ainda hoje é — on; dizia-se coraçon, abrandado para coração.
Não ha dureza na desinencia ão; esta desinencia é um justo meio termo entre o on hespanhol e francez (linguas, de que muĩto gostam os francelhos) e o one latino e italiano. Não é o portuguez a unica lingua, em que ha esse suffixo; os Suabios (Allemanha) têm exactissimamente a mesma terminação ão para muĩtas palavras.
É dura a palavra Concião?... E não temos em portuguez o vocabulo Ancião, tão semelhante a este neologismo? — Os bons diccionarios portuguezes trazem, todos elles, o verbo concionar, (fazer discursos em publico) concional (pertencente á assembléa popular) concionatorio (relativo á assembléa popular).
Meeting deve ser d’ora em diante substituido pelo substantivo feminino Concião, Conciões.
APLOMB
VII
— Vae de vez acabar de aplomb a moda;
Si é portugueza a lingua, em que escrevemos,
Si patriotas somos e puristas,
D’inuteis francezismos nos deixemos.
Quem a lingua não préza, em que primeiro
De Mãe balbuciou o nome sancto,
E’ ser excepcional, é filho ingrato,
Não conhece da patria o doce encanto.
— Com que aplomb corrigir nossa linguagem
Quer, meo doutor, por mestre s’inculcando!...
Porventura já tem nome de classico,
Para dizer: «Eu quero, eu posso, eu mando» ?!...
Aplomb não se traduz; esta palavra
D’idéas mil um mundo representa;
Outra mais expressiva, mais suave
Na lingua de Camões não me apresenta.
Não sei por que fugir todos procuram
D’imitar o francez!... Não sei que mal
Provenha de empregar gallicos termos,
Si é de Racine a lingua universal...
Aplomb!... que lindo termo!... Apósto e juro
Que por melhor que seja o neologismo,
Não ha de a força ter que aplomb encerra,
Aplomb que o doutor diz ser gallicismo.
— Meo illustre francelho, eu não discuto
Com quem só das palavras se namora,
Porque uma ou outra a seos ouvidos duros
Pareceu deleitar por ser sonora.
Aplomb é um cordel, que tem na poncta
De chumbo uma pyramide pequena;
Que nos mostra si a tábua, si a parede
Estão na vertical, si têm empena:
D’ahi foi que o francez por translação
Ao termo deu sentido figurado,
Dizendo ter aplomb o que se mostra
Direito e firme, emfim, desempenado.
— Sabe muĩto o doutor; eu reconheço;
A sua explicação me satisfaz;
Porém de dar a aplomb equivalente,
’Stou bem certo, doutor, não é capaz.
— Quer então que eu lhe diga com que termo
Hei de aplomb traduzir?... E’ bem pequeno
O trabalho que dá-me de vertêl-o;
Aplomb em portuguez é desempeno.
Aplomb prumo se diz, quando instrumento;
Por nome tal conhece-o toda a gente;
— Mas aplomb, meo doutor... — Senhor francelho,
Eu termino a questão incontinente.
Aplomb é prumo; mas si por figura
O emprega falando o que é francez,
Traduzindo em tal caso essa palavra,
Desempeno será em portuguez.
O natural sentido e o figurado
Exprime-os o francez c’uma palavra;
Nós, porém, para ambos possuimos
Dous vocabulos, dous; e de aurea lavra.
AVALANCHE
VIII
A preguiça, ou antes o depravado gosto de enxertar na lingua portugueza palavras de idioma estrangeiro, tem levado certos lexicographos menos escrupulosos a inserir nos diccionarios — Nuança, Reclamo, Avalançha, Lançhe, Comité, e quejandas, que infelizmente se encontram na 7.ª edição de Moraes e no diccionario contemporaneo de Aulette.
Não quizeram, ou não puderam crear um neologismo, que as traduzisse, e foram por sua conta e risco introduzindo vocabulos barbaros, dos quaes alguns até na propria lingua, d’onde os transplantaram, são de pessima formação.
Çhamam os francezes — Avalanche — a móle ou massa enorme de neve que das montanhas se despega, e corre, precipitando-se para a valle. São estas todas as idéas contidas no termo francez Avalanche.
Façamos agora a dissecção da palavra, e açharemos os elementos latinos Ad (para) vallem (valle) e lance (do verbo francez lancer, lançar); os quaes, perdidas as lettras — d — de Ad — llem — de vallem, e accrescentado por corruptela popular um — h — depois do — c — de lance, produziram — Avalanche.
Taes elementos significam portanto — lança para o valle; mas a idea principal, que é a de neve, não apparece nem transparece na palavra formada, que exprime, por consequencia, incompletamente esse phenomeno physico.
Não obstante tão deficiente formação, querem nacionalizal-a.
Eu proponho para traduzir Avalanche o neologismo Runimól.
Aqui encontrar-se-hão os elementos principaes do termo, que perfeitamente indicam o phenomeno. Ru, (do verbo ruere, ruir, correr precipitadamente) ni (de nix, nivis, neve) mól (de moles, is, móle, massa). Runimól exprime portanto completamente a idéa complexa de uma móle ou massa de neve que rue, que se precipita; é até uma palavra onomatopica.
A circumstancia de não ser indicado o valle, para onde corre e se precipita a massa de neve, é secundaria; não ha necessidade de consignal-a, por ser evidente que uma massa de neve, que se despenha das montanhas, não póde correr, sinão para baixo, para o valle.
Será tambem ridiculo Runimól, só porque vem do latim?...
Este latim, este grego são dous espectros, que amendrontam os tarelos ou tarecos; (de ambos os modos escreveu Filinto Elysio) e com razão, porque com os primeiros nunca tiveram os segundos relações de amizade, nem mesmo conhecimento de vista.
Vá mais este termo novo, para servir de mófa; mas fiquem sabendo os francelhos que um moço, (que parece antes pertencer à geração passada do que á presente) tanto gostou do neologismo, que de proposito sobre este assumpto escreveu uma poesia, onde intercalou a seguinte redondilha:
Çhega ao zenith elevado,
Ardente, brilhante sol;
Sobre o valle se despenha
Gigantesco runimol
MENU
IX
Nobres e plebêos, ricos e pobres, sabem que nos sumptuosos banquetes, ou nas casas de pasto de alta ou de mediocre categoria, çhama-se afrancezadamente Menu a lista das viandas, das iguarias, emfim, o rol dos manjares.
Desculpam-se do barbarismo todos os que o empregam, por não existir em portuguez palavra que exprima o que Menu francez significa.
Mas a verdadeira e genuina significação de Menu é miudo, e essa palavra foi por convenção admittida para substituir esta ou outra phrase semelhante: almôsso, jantar ou ceia, descriptos pelo miudo, minuciosamente.
Já no artigo Focale (antigo cache-nez) eu o disse, e ficará para sempre entendido que todas as vezes que em portuguez não tivermos termo para exprimir alguma cousa, que em lingua estranha seja expressa por palavra especial, recorramos ao grego, ou ao latim, formando um neologismo; ou com os elementos do nosso proprio idioma creêmos um novo vocabulo em condições convinhaveis.
O vocabulo latino charta (papel), reunido ao substantivo daps, dapis (comida, iguaria, manjar), póde produzir e produz, com as modificações que a euphonia requer, um termo muĩto mais expressivo do que o Menu francez.
Diga-se portanto Chardapio (cardapio), isto é, papel, lista das comidas, das viandas. N’esta palavra, formada pela intima soldadura das duas latinas (Charta, e daps, dapis), estão perfeitissimamente contidas todas as idéas, que de um modo elliptico buscaram os francezes exprimir com o seo vocabulo Menu.
No intuito de mais depressa attrahir a sympathia para este neologismo, lembrarei que os francezes chamam tambem a essa lista Carte, cuja origem latina é charta.
«Garçon, donnez-moi la carte», ouve-se a cada passo dizer tanto o francez, como o brazileiro, o portuguez, ou qualquer outro estrangeiro.
Em conclusão; não se peça mais ao moço o Menu, nem a Carte; mas o Chardapio (cardapio), que é por todos os motivos preferivel ao Menu.
LUNCH OU LUNCHEON
X
Vivemos nós brazileiros em grande illusão; julgamos ter feito nossa independencia politica e social, ser um povo autonomico; e tal não ha...
Que importa termos leis, auctoridades, parlamento, relações com os povos cultos por intermedio de nossos representantes, e de toda essa hierarchia que constitue o corpo diplomatico e consular do imperio brazileiro?...
Que importa possuirmos um exercito denodado, uma marinha briosa e valente, columnas em que repousa a segurança da patria contra aggressões exteriores?...
Poderemos, porventura, affirmar que o estrangeiro não nos tem invadido, que não nos vae despercebidamente avassallando, embora não estejamos desapercebidos?...
Nossos usos, nossos costumes locaes, nossas patrias recordações, nossas festas populares, onde, onde as encontramos hoje?...
Tudo está mudado! As crianças de hoje não sabem o que era o presepe, mas só conhecem a ARVORE DO NATAL, que as crianças d’outr’ora, velhos de agora, nunca viram no Brazil.
O Brazil, esta criança de 389 annos de idade, esqueceu, desprezou, trocou todos os seos brinquedos pelos brinquedos das crianças européas, que dando prova de mais juizo os foram sempre conservando até á provecta idade, em que se açham.
Não é isto uma sorrateira invasão?...
Nossos velhos acordavam antes do romper d’alva; tomavam a costumada çhicara de café; ás 7 ½ e, quando muĩto, ás 8 horas almossavam frugalmente; ao meio dia ou pouco depois jantavam; ás 8 horas da noite ceiavam. Entre o jantar e a ceia tomavam uma leve refeição çhamada merenda (de meri meio-dia e inde depois).
Hoje o almôsso é ás 10 ou 11 horas, e ás vezes mais tarde, quasi ao meio-dia; o jantar ás 6 ou 7 horas da tarde, de sorte que o almôsso hodierno é, por assim dizer, o antigo jantar, e o jantar moderno — a ceia dos nossos velhos.
Entre o almôsso de hoje (antigo jantar) e o jantar d’agora (ceia dos antigos) faz-se o lunch ou o luncheon; isto é, toma-se uma refeição mais ou menos leve á 1 ½ ou 2 horas da tarde.
Dos costumes, habitos e usanças para a linguagem a distancia é só de um passo.
O que é este lunch britannico, sinão a merenda portugueza?...
Que necessidade ha de tal palavra exotica?
Por desgraça ha diccionarios (o do Sr. Aulette, por exemplo!) que já trazem lanche significando leve refeição, lanchar, e até a propria palavra ingleza Lunch! Que parvoice! Que bobagen! Que philadvenismo!
O que admira é que gente que nunca aprendeu inglez, saiba esta e outras que taes palavras, e ignore os termos mais communs da lingua nacional correspondentes aos britannismos.
Colloco impropriamente este artigo sob o titulo Neologismos, porque a palavra merenda nada tem de nova; mas tal é a perversão de nossa linguagem actual, que para muĩtos ha de o velho vocabulo merenda parecer novidade.
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