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Annaes da Academia Brasileira de Ciências/Volume 1/Número 1/A Theoria da Relatividade e as Raias Espectraes do Hydrogenio

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A THEORIA DA RELATIVIDADE E AS RAIAS
ESPECTRAES DO HYDROGENIO
Theodoro Ramos




Sommerfeld conseguiu explicar o desdobramento das raias da série clássica de Balmer relativa ao hydrogenio [1], estudando o movimento dos electrons em torno do nucleo positivo sob o ponto de vista da teoria da relatividade restricta [2]. Sommerfeld suppoz um campo de Minkowski e desprezou o movimento do nucleo. G. Darwin [3], estudou a influencia deste deslocamento e achou um termo correctivo desprezivel para o afastamento das raias do “doublet”.

Neste pequeno trabalho vamos abordar o problema sob o ponto de vista da teoria da relatividade generalizada.

O nucleo positivo será assimilado a uma esphera de raio α e de massa M e cuja carga electrostática é E. Teremos um campo com symetria espherica em que são nullas as componentes do potencial vector.

O espaço-tempo no exterior da esphera será definido por [4] ds2=dr21γr+ε2r2r2[dθ2+sen2θdφ2]+c2(1γr+ε2r2)dt2

em que γ=2fMc2+ε2aeε2=fE2c4,

f designando a constante de Gauss e c a velocidade da luz.

O movimento do electron de massa m e de carga e póde ser estudado no espaço e no tempo com o auxílio do princípio generalizado da conservação da quantidade de movimento e da energia.

Ponhamos L=mc2[1V]+eEr

em que V=1cdsdt, e consideremos o tensor ωδ=prδr+pφδφ+pθδθWδt, cujas componentes de espaço são as quantidades de movimento generalizadas [5]

pr=δLδr,pφ=δLδφ,pθ=δLδθ

(os accentos designando as derivadas em relação a t), e cuja componente de tempo é a energia total generalizada

W=rδLδr+φδLδφ+θδLδθL.

As equações differenciaes do movimento serão obtidas exprimindo que ellas admittem como invariante integral Cωδ extendida a um contorno fechado qualquer no espaço a 7 dimensões (r,φ,θ,pr,pφ,pθ,t). Obtem-se assim, mediante um calculo classico, as condições

dpr+δWδr=0 dr+δWδprdt=0

e mais 4 equações analogas para φ e θ, e tambem

dW+δWδtdt=0

Como W não depende explicitamente de φ e de t, tira-se immediatamente dpφdt=0,dW=0

pφ=const.=peW=const.;

vem tambem dpθds=δWδθdtds que desenvolvida dá

dds(r2dθds)=r2senθcosθ(dφds)2.

Estas equações permittem concluir que a energia total generalizada é constante e que a trajectoria póde ser considerada como pertencente ao plano θ=π2.

As equações pφ=peW=const. dão, então, mcr2dφds=p

c[1γr+ε2r2]dtds=Wmc2+eEmc2r+1. Tem-se, tambem,

pr=mcdrds[1γr+ε2r2]1 c2[1γr+ε2r2](dtds)2[1γr+ε2r2]1(drds)2r2(dφds)2=1.

Eliminando dtds,drdsedφds entre estas 4 equações, vem

pr2=[Wc+eEr+mc]2[1γr+ε2r2]2mc2[1γr+ε2r2]1p2r2[1γr+ε2r2]1.

Desenvolvendo em série [1γr+ε2r2]1e[1γr+ε2r2]2 conservando sómente os primeiros termos do desenvolvimento (o que é permitido pois γreε2r2 são muito pequenos) vem para pr2 a expressão approximada

pr2=(2mW+W2c2)+2[meE+eEWc2mc2γ2]1r+[e2E2c2p2]1r2.

As condições de estabilidade da trajectória são

(φ)pφdφ=nh,(r)prdr=n1h

em que n e n1 designam 2 numeros inteiros e h é a constante universal de Planck. As integrações devem ser extendidas a todo o dominio de variação de φr e de respectivamente. A primeira condição dá p=nh2π .

Quanto á segunda, tem-se

J=(r)A+2Br+Cr2dr=n1h

em que

A=2mW+W2c2,B=meE+eEWc2mc2γ2,C=n3h24π2+e2E2c2

As integraes do typo de J já foram calculadas por Sommerfeld. Encontra-se J=2πi(CBA)=n1h

2πiC=hn2u2,a=2πe2hc

BA=eE(1+Wmc2)c2γ2c[(1+Wmc2)21]1/2,u=aEe

Obtem-se a relação approximada

[4π2e2E2+c2h2(n1+n2u2)2](1+Wmc2)24π2c2γeE(1+Wmc2)c2h2(n1+n2u2)2=0

Com grande aproximação póde-se escrever

1+Wmc2=[1+u2(n1+n2u2)2]1/2×[1+π2γ2c22h2u2(n1+n2u2)4u2(n1+n2u2)2+1]+πγchu(n1+n2u2)2u2(n1+n2u2)2+1

Desenvolvendo em série os radicaes, vem

[1+u2(n1+n2u2)2]1=112u2(n+n1)2

12u4(n+n1)4(14+n1n)+

π2γ2c22h2u2(n1+n2u2)4u2(n1+n2u2)2+1=

=π2γ2c22h2[u2(n+n1)4+2n1+nn(n+n1)6u4+]

πγchu(n1+n2u2)2u2(n1+n2u2)2+1=

=πγch[u(n+n1)2+u3(n+n1)4n1n+]

A frequencia ν da radiação emittida (ou absorvida) quando o electron passa de uma orbita á qual corresponde a energia Wk para outra á qual se refere a energia Wn é dada pela equação de Planck-Einstein

hν=WkWn

Vem

ν=[n,n1][k,k1] em que

[n,n1]=REe{(Ee2πγchα)1(n+n1)22πγchEeα(n+n1)4n1n+α2(n+n1)4(Ee)3(14+n1n)+}

R=2π2me4h3

Vê-se que o termo achado por Sommerfeld

R(Ee)21(n+n1)2+14α2R(n+n1)4(Ee)4

soffre uma diminuição cuja parte principal é dada pela quantidade

2πγchαREe1(n+n1)2

Quanto ao termo que rege a estructura do “doublet”, sofre também uma diminuição correspondente a

2πγchαR(Ee)3n1n1(n+n1)4.

A correcção do termo principal representa, para o hydrogenio, uma fracção do termo de Sommerfeld 14α2R(n1+n)4 da ordem de grandeza de γchα3 ou 107 [6], e não póde, portanto, ser, actualmente, submetida ao “contrôle” experimental.

Quanto á correcção relativa á estructura do “doublet”, ella é uma fracção da ordem de 1013 do termo correspondente achado por Sommerfeld; trata-se, pois, de uma modificação desprezivel. E’, entretanto, interessante constatar que Paschen em suas experiencias achou para o afastamento do “doublet” do hydrogenio um valor ligeiramente inferior ao que foi calculado por Sommerfeld. A experiencia confirma, pois, uma correcção tendo o mesmo sentido da que achamos; a ordem de grandeza é, porém, differente.

Terminando esta nota assignalaremos que o estudo da orbita do electron póde ser effectuado com o auxilio das funcções ellipticas. A variavel φ é dada em funcção de r por uma integral que contém um radical do 4.° gráo em 1r [7].

Sessão de Novembro de 1923.



  1. Sommerfeld “La constitution de l’atome et les raies spectrales” t. 2, 1923.
  2. Mostramos em um trabalho anterior que o mesmo resultado póde ser obtido modificando ligeiramente o potencial electrostatico.
  3. C. G. Darwin, Phil. Mag. (1920), de acordo com uma citação de Sommerfeld, op. cit., pg. 568, t. 2.
  4. Deve-se este ds2 a H. Vanderlinden. Consulte-se a pg. 95 do excellente tratado de Th. De Donder “La Gravifique Einsteinienne”. Este autor emprega um outro sistema de constantes.
  5. Alguns autores dão a estas expressões a denominação de “momentos”.
  6. Adoptando para as constantes os valores que se acham na obra de Sommerfeld, e admitindo com Rutherford que é de 1016 a ordem de grandeza do raio do nucleo positivo.
  7. Em um campo de Schwarzschild encontra-se um radical do 3.° gráo.

Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.