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Apontamentos de Psychologia/Psychologia Sensitiva/2ª parte/Capitulo III

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CAPITULO III

Dos sentidos em geral

 

1. Distincção entre os sentidos. Parece que as differentes actividades dos sentidos, tanto perceptivos como reproductivos, se reduzem a funcções da imaginativa. Conforme o que fica dito no Cap. I. § 3.º, e no Cap. II.º, I B, é a mesma faculdade interna que pelos sentidos externos percebe e pela imaginação reproduz. (NB. Nada importa na presente questão se a imagem é provocada por estimulo externo ou interno). O sentido commum é a imaginação emquanto reune as impressões dos sentidos; o sentido intimo é a mesma emquanto as percebe como suas proprias. Do mesmo modo a memoria não passa de uma funcção da imaginação. Alem disso, a memoria deve tambem perceber objectos presentes, do contrario não os podia relembrar. Emquanto transmitte ao appetite sensitivo impressões correspondentes ás percepções externas, a imaginação identifica-se com a estimativa. O facto de ella perceber notas que o sentido externo não percebeu não prova, que ella seja uma faculdade essencialmente differente.

2. Localisação. A. Na discussão sobre a origem da localisação distinguem-se duas theorias principaes: o nativismo que affirma que o ser sensitivo nasce com a faculdade de distinguir as tres dimensões, e de localisar, de algum modo, os objectos no espaço. O empirismo, pelo contrario, quer explicar toda a localisação, só pela experiencia. Nas suas formas extremas estas duas opiniões já não tem muitos defensores, hoje em dia. Tirando dellas o que cada uma tem de mais acceitavel, a localisação pode ser explicada como segue.

B. E՚ innata a faculdade de distinguir duas dimensões, tanto pela vista como pelo tacto. A razão disto é, porque o objecto é sempre percebido como extenso.

C. A percepção da terceira dimensão pela vista parece ser o resultado da experiencia. Apoia-se esta opinião no facto que os cegos-natos, recebendo mais tarde repentinamente a vista, nunca são capazes de dizer alguma coisa sobre as distancias e erram muito quando querem aprecial-as por criterios secundarios. A propria circumstancia de vermos distancias onde não existem (na pintura) revela seu caracter subjectivo.

D. A percepção da terceira dimensão desenvolve-se (1) pela comparação do tamanho apparente de um objecto com o tamanho verdadeiro conhecido; (2) pelas relações geometricas (perspectiva); (3) pelas matizes das côres; (4) pela accommodação dos olhos ás distancias; (5) pela divergencia das imagens nas duas retinas.

E. Olfacto, gosto, ouvido não localisam, porque lhes faltam meios para representar distancias e extensão. Ajudados, porem, pela intensidade da percepção e pela experiencia adquirida com o auxilio dos outros sentidos, chegam a localisar seus objectos, mas de um modo bastante vago.

F. Lei da localisação (subjectiva e objectiva). Localisamos o objecto das percepções, por associação, naquelle ponto do espaço (visual ou tactil), cuja imagem é despertada por esta percepção e unida com ella. Esta localisação pode ser o effeito da experiencia, e tambem o de uma expectativa muito intensa de perceber o objecto naquelle lugar. Esta lei comprehende a localisação de todos os sentidos, das projecções excentricas etc. Em desenvolver este habito de localisar somos muito ajudados pelos movimentos reflexos, pelos quaes ganhamos um conhecimento bastante completo de nosso corpo. (Mappa do corpo).

G. Não existe distincção essencial entre a localisação subjectiva e objectiva. Ambas são adquiridas pela mesma experiencia, e representam distancias entre dois pontos.

As theorias precedentes representam, em geral, apenas opiniões muito provaveis.

2. Visão recta pelas imagens inversas na retina. Já que o acto visual tem sua séde no cerebro a posição das imagens na retina é de pouca importancia; a imagem é transmittida ao cerebro onde apparece sem "em cima" nem "em baixo". A localisação do objecto é feita pela imaginação, que, nesta tarefa, é ajudada pelos outros sentidos, principalmente pelo tacto, e pela experiencia. O experimento de Stratton confirma esta hypothese em todos os pontos. Nos recem-nascidos desenvolve-se a distincção entre a parte inferior e superior do campo visual com o tempo.

3. Percepção do proprio corpo. O modo de perceber o corpo proprio não é essencialmente differente do de conhecer a materia que existe fóra de nós. (Cf. o que foi dito sobre a localisação.) Conhecemos o nosso corpo principalmente pelas relações em que está com a nossa vida psychica, manifesta-se, porem, muito mais depressa do que a materia ambiente porque toma parte em todas nossas sensações. Distinguimol-o dos outros seres materiaes: porque percebemos os movimentos do nosso corpo como nossos; porque só elle obedece a nossa vontade, só elle é instrumento do nosso "eu"; porque sentimos o nosso corpo quando está em contacto com outra materia.

4. Percepção da identidade do proprio "eu". A percepção da identidade do sujeito dos actos presentes com o sujeito de certos actos passados baseia-se (1) na circumstancia que aquellas acções passadas se apresentam como acções ou factos daquella série de acontecimentos que conheço como minha vida, i. é uma série de actos vitaes que se tem prolongado até ao momento presente, que sempre se apresenta do mesmo modo e com a mesma clareza como tendo sido objecto da consciencia propria (sentido intimo). (2.°) No facto de ser o "eu" presente o resultado do "eu" passado (educação, exames...) (3.°) Na identidade do corpo que costuma guardar suas particularidades, ainda que mude a materia que o compõe.

 

Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.